Até você voltar
30 Um Novo Começo
Acordei no meio da noite com o estrondo de um trovão.
Por alguns segundos, fiquei completamente imóvel, tentando entender onde estava. Meu coração ainda batia acelerado quando percebi o calor que me envolvia. Eu continuava deitada sobre o peito de Bernardo. Sua respiração era lenta e constante, como se nada no mundo fosse capaz de perturbar seu sono.
Ergui a cabeça devagar para observá-lo.
Mesmo na penumbra, seu rosto parecia sereno. Os fios escuros caíam sobre a testa, e seus braços ainda me cercavam de maneira protetora. Aquela proximidade despertava em mim uma sensação estranha... familiar. Como se meu corpo o reconhecesse antes mesmo da minha mente.
Franzi a testa.
Era assim desde que eu acordara sem lembrar de grande parte da minha vida. Algumas pessoas pareciam desconhecidas. Outras despertavam emoções que eu não conseguia explicar.
Bernardo era a maior delas.
Meu coração insistia em confiar nele, embora minha memória ainda estivesse cheia de espaços vazios.
Estiquei a mão lentamente e, sem pensar, afastei uma mecha de cabelo de seu rosto.
Foi então que uma imagem surgiu.
Um sorriso.
Uma gargalhada.
Uma praia.
Os dois correndo na areia enquanto ele gritava meu nome.
"...Beca!"
A lembrança desapareceu tão rápido quanto veio.
Levei a mão à cabeça.
— O que foi isso...? — sussurrei para mim mesma.
Respirei fundo e alcancei o celular sobre o criado-mudo.
4h30.
Com cuidado para não acordá-lo, saí de seus braços. Bernardo apenas respirou mais profundamente e resmungou alguma coisa incompreensível antes de voltar ao silêncio.
Sorri sem perceber.
Peguei minhas roupas espalhadas pelo quarto e caminhei até a varanda.
A chuva continuava forte.
As gotas desciam pelo vidro e o vento frio invadia o ambiente, trazendo o cheiro da terra molhada. Cruzei os braços enquanto observava a cidade quase completamente apagada naquela madrugada.
Eu queria lembrar.
Queria entender por que meu peito apertava sempre que olhava para ele.
Por que parecia tão doloroso esquecer alguém que, claramente, tinha sido tão importante.
Fechei os olhos.
Outra lembrança.
Muito rápida.
Uma aliança.
As mãos de Bernardo segurando as minhas.
Uma voz rouca dizendo:
— Promete que nunca vai fugir de mim?
Meu peito apertou.
Abri os olhos imediatamente.
A imagem desapareceu outra vez.
— Quem somos nós...? — murmurei.
— Nós somos nós.
Levei um pequeno susto.
Virei-me rapidamente.
Bernardo estava parado atrás de mim ainda sonolento. O cabelo completamente bagunçado e a camiseta amassada denunciavam que ele havia acabado de acordar.
— Desculpa... não queria te assustar.
Fiquei em silêncio.
Ele caminhou devagar até mim.
— Você perdeu o sono? Lembrou de algo?
Balancei a cabeça afirmativamente.
— Não sei se era um sonho... ou uma lembrança.
Vi seus olhos mudarem por um instante. Havia esperança... mas também medo.
— O que você viu?
Respirei fundo.
— Você.
Ele sorriu de lado.
— Isso é um bom começo.
— Não para mim.
Meu olhar voltou para a chuva.
— É como assistir a um filme quebrado. Vejo cenas... escuto vozes... sinto coisas... mas nada faz sentido.
Bernardo permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então se aproximou ainda mais.
— Não precisa forçar.
— Eu quero lembrar.
— Eu sei.
— E se eu nunca lembrar?
A pergunta saiu mais baixa do que eu esperava.
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Então eu me apaixono por você de novo. E faço de tudo para te reconquistar.
Meu coração falhou uma batida.
Olhei para ele sem conseguir dizer absolutamente nada.
Bernardo deu um sorriso pequeno, daqueles que escondiam uma tristeza enorme.
— Quantas vezes forem necessárias.
As lágrimas encheram meus olhos antes que eu percebesse.
Não porque eu lembrasse.
Mas porque, pela primeira vez desde que perdi minhas memórias, aquela frase encontrou um lugar dentro de mim que ainda parecia intacto.
Talvez existam histórias que a mente esquece...
Mas que o coração jamais deixa de reconhecer.
Bernardo enxugou discretamente os olhos antes que eu pudesse perceber. Ou, pelo menos, tentou.
— Está frio. Vamos entrar? — perguntou, com a voz baixa.
Assenti.
Entramos na suíte em silêncio. A chuva continuava batendo contra os vidros da varanda, mas ali dentro havia apenas o som dos nossos passos. Sentei-me na beirada da cama, abraçando os próprios braços.
Bernardo caminhou até a pequena cafeteira que havia no quarto.
— Você ainda faz café? — perguntei, tentando quebrar o silêncio.
Ele sorriu de lado.
— Só quando você deixa.
Franzi a testa.
— Eu deixava?
— Não gostava que eu mexesse na cozinha. Dizia que eu fazia bagunça.
Não consegui evitar um sorriso.
— Eu disse isso mesmo?
— Muitas vezes.
Ele pegou duas xícaras e começou a preparar o café com uma naturalidade que me fez observá-lo em silêncio.
Havia algo de reconfortante na maneira como ele se movia. Cada gesto parecia familiar, embora minha mente insistisse em dizer que aquele homem era quase um desconhecido.
Poucos minutos depois, ele colocou uma caneca diante de mim.
— Cuidado. Está quente.
Aproximei a xícara dos lábios, mas antes que eu colocasse açúcar, Bernardo segurou delicadamente minha mão.
— Espera.
Pegou o açucareiro e colocou exatamente duas colheres.
Depois mexeu o café.
Só então me entregou novamente.
Olhei para ele, intrigada.
— Como você sabia?
Ele deu de ombros.
— Você nunca gostou de colocar açúcar. Dizia que sempre errava a quantidade.
Levei um gole à boca.
Estava perfeito.
Nem doce demais.
Nem amargo.
Exatamente do jeito que eu gostava.
Ergui os olhos devagar.
— Você lembra de tudo, não é?
Seu sorriso perdeu um pouco do brilho.
— De tudo.
A resposta ficou ecoando dentro de mim.
Era estranho pensar que existia uma versão minha vivendo inteira dentro da memória dele, enquanto eu mal conseguia reconhecer a mim mesma.
— Deve ser difícil... — falei.
— O quê?
— Olhar para mim todos os dias... e perceber que eu esqueci a nossa história.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Às vezes é.
Meu peito apertou.
— E por que você continua aqui?
Bernardo deu uma pequena risada.
— Porque, mesmo que você não lembre, eu ainda escolho você.
As palavras me atingiram de um jeito inesperado.
Nenhuma lembrança surgiu.
Nenhum flash.
Apenas uma sensação quente, confortável... como se meu coração entendesse algo que minha mente ainda não conseguia alcançar.
Desviei o olhar para a chuva.
— É estranho.
— O quê?
— Eu não consigo lembrar de você...
Respirei fundo.
— ...mas, quando você está perto, parece que o mundo faz mais sentido.
O quarto ficou completamente silencioso.
Bernardo me olhava como se tivesse medo de dizer qualquer coisa que pudesse quebrar aquele momento.
Aproximei-me devagar.
Sem pensar muito, segurei sua mão.
Era quente.
Segura.
Familiar.
— Posso te fazer um pedido?
Ele assentiu.
— Não tenta fazer eu lembrar.
Vi seus olhos demonstrarem surpresa.
— Quero conhecer você de novo.
Ele permaneceu em silêncio.
— Quero que você me conte quem você é hoje. Quero descobrir por que me apaixonei por você... sem que ninguém me diga como isso aconteceu.
Um sorriso verdadeiro surgiu em seu rosto pela primeira vez naquela madrugada.
Daqueles que iluminavam o olhar.
— Tem certeza?
Sorri de volta.
— Acho que a antiga Beca teve a história dela com você.
Apontei discretamente para meu peito.
— Mas essa Beca... quer escrever uma nova.
Bernardo respirou fundo, como se tentasse controlar a emoção.
— Então podemos começar do jeito certo.
— Como?
Ele estendeu a mão para mim.
— Oi. Eu sou o Bernardo.
Não consegui conter a risada.
Segurei sua mão.
— Prazer... eu sou a Beca.
— Muito prazer, Beca.
Naquele instante, pela primeira vez, senti que não precisava correr atrás das lembranças.
Talvez o destino estivesse me dando uma segunda oportunidade.
Não para recordar o homem que eu havia amado.
Mas para me apaixonar por ele... outra vez.
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