Até você voltar
17 Silêncios da Madrugada
— Boa noite, Dona Beca. — Jeff cumprimentou assim que me viu entrando no prédio.
— Oi, Jeff. Boa noite. — respondi com um sorriso cansado.
Ele apoiou os braços na bancada da portaria e me observou por alguns segundos.
— A senhora está bem?
Ri fraco.
— Estou… só cansada.
Antes de entrar no elevador, lembrei da bolsa pendurada no meu braço.
— Ah, minha mãe mandou isso pra você.
Entreguei a ele a pequena bolsa térmica com a marmita que minha mãe tinha preparado.
O rosto dele se iluminou imediatamente.
— Sua mãe é um anjo. Sério.
— Ela gosta de cuidar das pessoas.
— E aparentemente me adotou também.
Sorri.
— Ela te adora.
— E eu adoro a comida dela.
Ri baixo antes de entrar no elevador. As portas se fecharam devagar, e junto com o silêncio daquele espaço pequeno, a sensação estranha voltou.
Quando entrei no apartamento, tudo pareceu quieto demais.
Vazio demais.
Joguei a bolsa no sofá e olhei ao redor. O silêncio ecoava de um jeito incômodo. Horas antes aquele lugar parecia acolhedor, quente, vivo.
Agora parecia só… vazio.
O cheiro do perfume dele ainda estava espalhado pelo apartamento, impregnado no travesseiro, na manta do sofá, na minha roupa.
Fechei os olhos por um instante.
E então o nome voltou.
Julia.
Aquela ligação continuava martelando na minha cabeça de um jeito irritante. Eu tentava ignorar, tentava convencer a mim mesma de que não tinha importância, mas alguma coisa dentro de mim dizia o contrário.
Talvez fosse intuição.
Ou talvez fosse medo.
Balancei a cabeça tentando afastar os pensamentos. Não queria estragar aquele dia pensando em algo que eu nem sabia o que era.
Então comecei a organizar minhas coisas para a semana. Separei roupa, arrumei a bolsa do trabalho, respondi algumas mensagens atrasadas e deixei tudo minimamente em ordem.
Mas minha cabeça continuava longe.
Em vários momentos, peguei o celular pensando em mandar mensagem para ele.
Perguntar.
Insistir.
Mas eu não queria parecer insegura.
Nem carente.
Nem a mulher que cobra explicações sem ter direito de cobrar.
No fundo, eu nem sabia o que éramos.
Quando percebi, estava deitada no sofá, coberta pela manta, com a televisão ligada baixinho.
E apaguei.
Não faço ideia de quanto tempo dormi.
Acordei assustada com o celular vibrando sem parar sobre a mesa de centro.
Tocou.
Tocou.
Tocou outra vez.
Peguei o aparelho ainda sonolenta, piscando várias vezes até conseguir focar na tela.
Havia várias chamadas perdidas dele.
E uma mensagem:
“Beca, cadê você? Estou preocupado.”
Olhei o relógio.
Onze da noite.
Passei a mão no rosto, tentando despertar.
“Desculpa. Acabei dormindo no sofá.”
Ele respondeu quase imediatamente.
“Me assustou.”
Sorri sem perceber.
“Foi mal.”
“Está tudo bem?”
Demorei alguns segundos encarando a tela antes de responder.
“Está.”
A bolinha de digitação apareceu.
Sumiu.
Voltou.
“Você ficou estranha depois da ligação.”
Meu coração apertou de novo.
Fechei os olhos por um instante.
Então digitei:
“Impressão sua. Eu realmente estava cansada.”
Dessa vez ele demorou um pouco mais para responder.
“Não sei fingir que acredito totalmente.”
Suspirei baixo.
Porque ele me conhecia rápido demais.
“Bernardo…”
“Oi.”
“Vamos dormir. Amanhã trabalhamos cedo.”
Alguns segundos de silêncio.
“Tá bom.”
Outra mensagem chegou logo depois.
“Boa noite, princesa.”
Mordi o canto do lábio olhando para a tela iluminada.
“Boa noite.”
Levantei do sofá devagar e fui para o quarto. A chuva ainda caía lá fora, fraca, constante, quase hipnotizante.
Me deitei na cama e fiquei encarando o teto no escuro.
Tentando ignorar a saudade.
Tentando ignorar o vazio.
Tentando ignorar o nome daquela mulher ecoando dentro da minha cabeça.
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