Até você voltar
20 Quando o Chão Desaparece
E eu entrei.
Sem olhar para trás.
Sem respirar direito.
Sem conseguir sentir as pernas.
O som da voz dele ainda ecoava dentro da minha cabeça.
“Ela disse que está grávida.”
As portas começaram a se fechar lentamente.
E a última coisa que vi foi Bernardo parado do lado de fora, imóvel, me olhando como se também tivesse perdido o chão.
Então o elevador desceu.
E eu desabei junto.
Apoiei as costas na parede espelhada tentando respirar, mas parecia impossível puxar ar suficiente. Meu peito doía. Minha garganta queimava. E meus olhos começaram a encher antes mesmo que eu percebesse.
Não.
Não.
Não.
Minha cabeça repetia aquilo sem parar, como se negar pudesse mudar alguma coisa.
Quando as portas abriram no térreo, eu saí rápido demais, quase tropeçando nos próprios passos. O segurança da recepção falou alguma coisa, mas eu nem ouvi.
Tudo parecia distante.
Abafado.
Como se o mundo inteiro tivesse ficado longe de repente.
A chuva caía forte lá fora.
E eu simplesmente fui.
Sem guarda-chuva.
Sem pensar.
Sem me importar.
A água gelada molhava meu cabelo, minha roupa, meu rosto — mas nada conseguia ser pior do que aquela sensação dentro de mim.
A sensação ridícula de ter acreditado.
Porque no fundo, era isso que mais machucava.
Eu tinha acreditado nele.
Acreditei quando ele me olhou daquele jeito.
Quando segurou minha mão.
Quando disse que me escolheu.
Quando fez eu me sentir especial pela primeira vez em muito tempo.
E agora?
Agora existia outra mulher.
E talvez um filho.
Meu Deus.
Parei na calçada tentando controlar o choro, mas foi inútil.
As lágrimas vieram misturadas com a chuva, pesadas, sufocadas, doloridas demais.
As pessoas passavam por mim apressadas, tentando fugir do temporal.
E eu só conseguia sentir aquele vazio enorme crescendo dentro do peito.
Como se alguma coisa tivesse quebrado de novo.
Porque não era só sobre Bernardo.
Era sobre esperança.
Sobre permitir que alguém entrasse.
Sobre acreditar que talvez, dessa vez, fosse diferente.
Ri sem humor no meio do choro.
Claro que não seria.
Nunca seria.
Mas eu não queria ouvir.
Porque não existia nada que pudesse consertar aquilo.
Nada.
Acabei entrando numa cafeteria quase vazia só para fugir da chuva. O lugar tinha cheiro de café fresco e música baixa, mas nem aquilo conseguiu me acalmar.
Sentei na mesa mais afastada que encontrei.
E chorei.
Chorei de verdade.
Daquele jeito silencioso e cansado que machuca mais.
Passei as mãos no rosto várias vezes tentando me recompor, mas parecia impossível.
Minha cabeça repetia todas as cenas do final de semana como uma tortura.
Ele cozinhando comigo.
Ele me abraçando no sofá.
Ele dizendo que sentiria minha falta.
Ele me olhando como se eu fosse importante.
Tudo parecia mentira agora.
Ou pior.
Parecia real demais.
E talvez fosse exatamente isso.
Talvez ele tivesse sido sincero.
Talvez ele realmente gostasse de mim.
Mas a vida simplesmente tinha decidido destruir tudo antes mesmo de começar.
Fechei os olhos com força tentando conter outro choro.
Porque aquilo doía de um jeito humilhante.
Eu mal tinha deixado alguém entrar.
E já estava sofrendo como se estivesse perdendo um amor de anos.
A cadeira na minha frente foi puxada devagar.
Levantei os olhos assustada.
Ane.
Ela me olhava em silêncio, completamente encharcada pela chuva.
— Eu sabia que você não estava bem. — falou baixinho.
Aquilo foi suficiente para me desmontar outra vez.
Cobri o rosto com as mãos tentando respirar.
— Ane…
Ela segurou minha mão imediatamente.
E eu chorei.
Sem vergonha.
Sem força pra fingir.
— Ei… ei… — ela apertou meus dedos. — O que aconteceu?
Demorei vários segundos para conseguir falar.
Minha voz saiu quebrada.
— Ela tá grávida.
O rosto dela perdeu completamente a cor.
— O quê?
Soltei uma risada fraca no meio do choro.
— É… parece piada, né?
Ane ficou em silêncio absoluto.
Tentando processar.
— Meu Deus…
Balancei a cabeça negativamente.
— Eu fui muito burra.
— Não fala isso.
— Eu sabia que isso ia dar errado. — minha voz tremia. — Desde o começo eu sabia.
Ane apertou minha mão mais forte.
— Você só gostou de alguém.
— E olha no que deu.
O silêncio caiu entre nós.
Pesado.
Dolorido.
A chuva batia forte no vidro da cafeteria enquanto eu tentava juntar os pedaços de mim mesma ali, no meio daquela noite horrível.
E naquele momento, uma única certeza crescia dentro do meu peito:
Eu nunca mais queria me sentir assim de novo.
A chuva ainda caía forte quando Ane me deixou na porta do meu prédio.
Ela insistiu em subir comigo.
Insistiu em ficar.
Insistiu em não me deixar sozinha.
Mas eu não queria companhia.
Porque sabia exatamente o que aconteceria no instante em que o silêncio chegasse.
Eu iria sentir tudo.
— Tem certeza? — ela perguntou antes que eu fechasse a porta do carro.
Assenti devagar.
— Eu só quero dormir.
Mas nós duas sabíamos que eu não dormiria.
Ane segurou minha mão por alguns segundos.
— Me liga se piorar.
Forcei um sorriso pequeno.
— Obrigada por ficar comigo.
Ela acariciou meus dedos antes de soltar.
— Você faria o mesmo.
Fiquei olhando o carro dela ir embora enquanto a chuva molhava minhas roupas outra vez.
E então subi.
Sozinha.
Quando entrei no apartamento, o vazio me atingiu de novo.
O cheiro dele ainda estava ali.
Na manta do sofá.
No travesseiro.
Na minha pele.
Fechei os olhos imediatamente.
Não.
Eu não podia pensar.
Não podia sentir.
Porque se sentisse… iria quebrar.
Meu celular voltou a vibrar dentro da bolsa assim que liguei o aparelho.
Bernardo.
Ligando.
De novo.
Ignorei.
Outra ligação.
Outra.
Outra.
Então mensagens começaram a chegar.
“Beca, abre a porta.”
Meu coração parou.
Corri até a janela.
E ele estava lá.
Embaixo da chuva.
Parado na frente do prédio.
Meu peito apertou de um jeito cruel.
O telefone vibrou outra vez.
“Por favor.”
Fechei os olhos.
Porque parte de mim queria descer correndo.
Queria abraçá-lo.
Queria ouvir que aquilo tinha solução.
Mas a outra parte… a parte cansada de se machucar… sabia que nada apagaria aquela frase.
“Ela disse que está grávida.”
Outra mensagem chegou.
“Eu preciso falar com você.”
Encostei a testa no vidro gelado.
E chorei em silêncio.
Porque eu sabia que se abrisse aquela porta, iria ceder.
E eu não podia.
Não daquela vez.
Desliguei o celular novamente.
E me afastei da janela.
Mesmo sabendo que ele ainda estava lá embaixo.
Esperando.
Naquela noite, nenhum de nós dormiu.
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