Até você voltar
18 O Que Ficou Mal Resolvido
O despertador tocou cedo demais.
Abri os olhos ainda sentindo o corpo pesado e o frio da manhã invadindo o quarto. Por alguns segundos, fiquei encarando o teto, tentando encontrar coragem para levantar da cama e começar a semana.
A chuva da noite anterior tinha deixado o tempo ainda mais gelado.
Suspirei fundo antes de finalmente me levantar.
O apartamento estava silencioso, e isso me deu aquela sensação estranha outra vez. Como se o final de semana tivesse acontecido rápido demais.
Como se eu tivesse voltado para a realidade antes de estar pronta.
Fui direto para o banheiro, tentando despertar de verdade enquanto a água quente caía sobre meu rosto. Minha cabeça ainda estava confusa. Parte de mim pensava nele. Na forma como tinha me olhado dentro do carro. Nas mensagens da madrugada.
A outra parte pensava em Julia.
E eu odiava isso.
Depois de me arrumar devagar, prendi o cabelo em um coque alto, deixando a franja solta emoldurando o rosto. Escolhi uma blusa social mais leve e coloquei um suéter por cima. Queria estar bonita, mas sem parecer produzida demais.
Elegante.
Discreta.
Como alguém que definitivamente não tinha passado o final de semana inteiro pensando no próprio chefe.
Peguei minha bolsa, respirei fundo e saí.
O caminho até a empresa pareceu mais longo naquela manhã. Talvez porque minha ansiedade estivesse maior do que eu queria admitir.
Assim que entrei no setor, vi Ane sentada na mesa dela mexendo no computador. Ela levantou os olhos imediatamente quando me viu.
E aquele olhar demorou um pouco mais do que o normal.
— Bom dia. — falei, tentando soar natural.
Ela abriu um sorriso pequeno.
— Bom dia…
Deixei minhas coisas na mesa enquanto sentia ela ainda me observando.
— Que foi? — perguntei, desconfiada.
Ane girou levemente a cadeira na minha direção.
— Nada.
— Ane.
Ela soltou uma risadinha.
— Você está diferente hoje.
Revirei os olhos imediatamente.
— Minha mãe falou a mesma coisa ontem.
— Então talvez tenha alguma verdade nisso.
Liguei o computador tentando ignorar.
— Você está viajando.
— Estou? — perguntou divertida. — Porque eu nunca vi você chegar sorrindo numa segunda-feira.
Sem perceber, passei a mão nos lábios tentando esconder o sorriso.
Droga.
Ela arregalou os olhos na mesma hora.
— Meu Deus.
— O quê?
— Tem alguma coisa acontecendo.
— Não começa.
— Rebecca… — ela se inclinou na mesa. — Eu te conheço.
Antes que eu pudesse responder, ouvi passos pelo corredor.
Meu coração acelerou automaticamente.
E piorou quando Bernardo apareceu entrando no setor.
Ele vinha falando alguma coisa no telefone, sério, concentrado, usando uma camisa social escura dobrada nos braços. O cabelo ainda estava levemente úmido da chuva fina lá fora.
Bonito demais para uma segunda-feira de manhã.
Ane percebeu meu silêncio instantaneamente.
E então olhou discretamente de mim para ele.
Meu Deus.
— Bom dia, meninas. — ele falou naturalmente assim que entrou.
— Bom dia. — respondemos quase juntas.
Mas quando os olhos dele encontraram os meus, alguma coisa mudou por um segundo.
Foi rápido.
Quase imperceptível.
Mas suficiente para bagunçar completamente meu coração.
Ele sustentou o olhar por tempo demais antes de voltar a atenção para o celular.
E Ane percebeu.
Claro que percebeu.
Assim que ele entrou na própria sala, ela virou lentamente na minha direção.
Com um sorriso perigosamente suspeito.
— Rebecca…
Fechei os olhos por um segundo.
Porque eu já sabia que aquela segunda-feira seria longa.— Rebecca… — Ane repetiu, quase sussurrando.
Fingi atenção total na tela do computador, abrindo qualquer e-mail aleatório só para ocupar as mãos.
— Não começa.
— Eu nem falei nada ainda.
— Mas está pensando alto.
Ela riu baixo.
— Tem alguma coisa acontecendo entre você e o Bernardo?
Meu coração acelerou imediatamente.
— Claro que não.
— Hum.
— Ane.
— O jeito que ele te olhou não foi normal.
Engoli seco.
— Você está criando coisa.
— E você está nervosa.
Antes que eu pudesse responder, o telefone dela tocou. Ela ainda me lançou um olhar desconfiado antes de atender.
Respirei fundo.
Mas não adiantou.
Porque alguns minutos depois, a porta da sala dele abriu.
— Rebecca, consegue vir aqui rapidinho? — Bernardo perguntou.
Meu estômago afundou.
— Claro.
Levantei tentando agir normalmente, embora sentisse o olhar curioso de Ane acompanhando cada passo meu até a sala dele.
Assim que entrei, ele fechou a porta atrás de mim.
O silêncio ali dentro pareceu pesado demais.
— O que foi? P que precisa? — perguntei baixo.
Ele se aproximou devagar da mesa.
— Você ficou estranha ontem.
Cruzei os braços, tentando me defender daquele olhar atento.
— Eu estava cansada.
— Não era só isso.
Desviei os olhos imediatamente.
— Bernardo… estamos no trabalho.
— Eu sei. — respondeu calmamente. — Mas eu também sei quando alguma coisa te incomoda.
Fiquei em silêncio.
Porque ele estava certo.
Ele suspirou baixo antes de perguntar:
— Foi por causa da ligação?
Meu peito apertou na mesma hora.
Passei alguns segundos olhando para o chão antes de responder:
— Não quero te perguntar nada.
A expressão dele mudou.
Mais séria.
— Beca…
— Não, tudo bem. — interrompi rápido demais. — Você é solteiro.
Ele passou a mão pela nuca, como se procurasse as palavras certas.
— Era a Julia. — ele confessou
Meu coração apertou de novo.
Porque eu sabia exatamente quem era Julia.
A garota do bar.
A menina que eu vi com ele na noite em que ele se declarou para mim.
A menina que ele disse que foi encontrar para terminar tudo.
E, de repente, aquela lembrança voltou inteira na minha cabeça.
Ela sorrindo para ele.
A proximidade dos dois.
Engoli seco.
— Eu vi.
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos.
— Ela me ligou porque os meninos estavam perguntando onde eu tinha ido depois do jogo.
Assenti devagar.
Mas o incômodo continuava ali.
— Você falou que tinha terminado com ela.
— E eu terminei.
— Então por que ela ainda te liga?
A pergunta saiu mais amarga do que eu pretendia.
Ele respirou fundo.
— Porque as coisas não se resolvem magicamente de um dia pro outro.
— Importante eu ouvir isso. — falei com raiva
Olhei para ele em silêncio.
— Você ainda fala com ela? — perguntei.
— Muito raramente.
— Mas fala.
Ele percebeu imediatamente onde aquilo estava indo.
— Beca…
— Não, tudo bem. — falei tentando parecer indiferente. — Não somos nada. Você pode falar com quem quiser.
Ele se aproximou mais devagar.
— Para de dizer isso como se não significasse nada pra mim.
Meu coração falhou uma batida.
— Eu não sei o que significa.
A sinceridade saiu antes que eu pudesse impedir.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você realmente acha que eu estaria fazendo tudo isso se fosse só qualquer coisa?
Desviei o olhar.
Porque o problema nunca foi o que ele fazia.
Era o medo de acreditar.
Era o medo de me envolver mais do que deveria.
Ele apoiou as mãos na mesa, mais perto agora.
— Quando eu fui naquele bar naquele dia foi para terminar com ela… Você sabe — começou — foi justamente o que eu conversei com você no sábado. E acabou que não conseguimos a tal conversa.
Levantei os olhos lentamente.
— Eu precisava encerrar aquilo direito.
Meu peito apertou.
Porque eu lembrava exatamente da dor que senti naquela noite.
Lembrava de ir embora achando que tinha entendido tudo errado entre nós.
— E encerrou? — perguntei baixo.
Ele não desviou o olhar.
— Sim.
O silêncio ficou pesado outra vez.
Mas dessa vez não era só desconforto.
Era medo.
Sentimento.
Vulnerabilidade demais.
— Eu não estou brincando com você, Rebecca. — ele falou mais baixo.
Meu coração acelerou.
Porque aquela era exatamente a parte mais perigosa.
A possibilidade de ele estar falando sério.
Fiquei olhando para ele sem conseguir responder imediatamente.
O problema era justamente aquele.
Eu acreditava nele.
E isso me assustava muito mais do que qualquer mentira.
— Você ficou quieta. — ele comentou, mantendo os olhos presos nos meus.
Respirei fundo, tentando organizar a confusão dentro da minha cabeça.
— Eu só… não quero me machucar, Bernardo.
A sinceridade saiu mais baixa do que eu pretendia.
A expressão dele mudou na mesma hora.
Menos provocativa.
Mais cuidadosa.
Ele se aproximou devagar, como se tivesse medo de me assustar.
— Eu também não quero machucar você.
Meu peito apertou.
— Mas já machucou um pouco ontem.
Ele fechou os olhos por um instante, claramente sentindo o peso daquilo.
— Eu sei.
— Quando eu vi o nome dela… — comecei, hesitando — parecia que eu tinha voltado naquela noite.
Ele me observava em silêncio.
— Eu fiquei pensando se talvez você ainda estivesse preso nela.
— Não estou.
A resposta veio imediata.
Firme.
Sem hesitação.
— Então por que parece tão complicado?
Bernardo passou a mão no rosto devagar.
— Porque eu não esperava sentir isso por você tão rápido.
Meu coração acelerou outra vez.
— E sinceramente? — ele continuou. — Acho que você também não.
Desviei o olhar imediatamente.
Porque ele tinha razão.
Tudo entre nós tinha acontecido rápido demais.
Intenso demais.
E talvez fosse exatamente isso que me deixava tão insegura.
Ele se aproximou mais um pouco.
— Olha pra mim.
Levantei os olhos devagar.
— Eu escolhi você.
Aquela frase me atingiu em cheio.
Porque não era só sobre Julia.
Era sobre todas as vezes em que eu senti que alguém iria embora no momento em que eu começasse a acreditar.
Era sobre medo.
Sobre insegurança.
Sobre me proteger antes que fosse tarde.
Ele percebeu meu silêncio e segurou minha mão devagar.
— Ei…
Fechei os olhos por um segundo sentindo o toque dele.
Calmo.
Seguro.
Perigoso.
— Eu estou tentando fazer isso direito. — ele falou baixo.
— E se der errado?
A pergunta saiu antes que eu pudesse impedir.
Bernardo soltou um pequeno sorriso triste.
— Aí a gente lida com isso quando acontecer.
Balancei a cabeça negativamente.
— Você fala como se fosse simples.
— Não é simples. — respondeu. — Mas também não precisa ser uma guerra o tempo inteiro.
O silêncio caiu outra vez.
Mas dessa vez menos pesado.
Mais íntimo.
Mais verdadeiro.
Ele acariciou minha mão com o polegar enquanto me observava.
— Você ficou com ciúmes.
Revirei os olhos imediatamente.
— Você estraga todos os momentos sérios.
Ele riu baixo.
— Porque você fica linda tentando esconder.
— Bernardo…
— Fica mesmo.
Acabei rindo sem querer.
E ele sorriu na mesma hora, como se aquilo fosse exatamente o que queria.
— Pronto. Melhorou.
Balancei a cabeça, ainda sorrindo de leve.
— Você é impossível.
— E mesmo assim você gosta de mim.
Meu coração tropeçou outra vez.
Antes que eu pudesse responder, alguém bateu na porta.
Nós dois nos afastamos rápido demais.
— Entra. — ele falou, voltando instantaneamente ao tom profissional.
A porta abriu e um dos coordenadores apareceu falando sobre uma reunião.
Aproveitei a distração para soltar minha mão da dele e me afastar.
— Eu vou voltar pra minha mesa. — falei rapidamente.
Bernardo assentiu, mas antes que eu saísse, falou:
— Rebecca.
Olhei para trás.
E então ele sorriu daquele jeito calmo que desmontava qualquer defesa minha.
— Não foge de mim.
Meu coração acelerou mais uma vez.
Saí da sala tentando parecer normal, mas foi inútil.
Porque assim que sentei na minha mesa, Ane girou a cadeira na minha direção.
— Meu Deus.
Fechei os olhos.
— Ane…
— O clima entre vocês está completamente estranho.
— Não está.
— Rebecca, eu quase senti tensão emocional saindo pela porta.
Soltei uma risada nervosa.
— Você assiste série demais.
Ela estreitou os olhos.
— E você está apaixonada.
Meu coração parou por um segundo.
— Não fala besteira.
Mas pela primeira vez… a palavra não pareceu tão absurda assim.
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