Até você voltar
27 O Peso do Que Não Lembro
Naquela noite, eu fechei os olhos para fingir que estava dormindo.
O quarto estava escuro, mas não completamente. Havia sempre aquela luz fraca do corredor entrando pela fresta da porta, desenhando sombras suaves nas paredes brancas do hospital.
Eu não sabia exatamente por que fiz aquilo.
Talvez curiosidade.
Talvez medo.
Talvez uma sensação estranha de que havia algo que eu ainda não tinha entendido completamente naquele dia.
E então eu ouvi.
A porta abriu devagar.
Sem pressa.
Sem som de passos apressados.
E o ar mudou.
Era sutil, mas eu percebi.
Um perfume leve entrou no quarto antes mesmo de eu abrir os olhos.
Familiar de um jeito que meu cérebro não conseguia organizar.
Ele se aproximou.
E sentou ao meu lado.
O colchão afundou levemente.
O silêncio ficou mais pesado.
E então senti.
A mão dele encostando na minha.
Calma.
Tímida.
Como se estivesse com medo de me quebrar.
— Eu só quero que você fique bem… — ele disse baixo. — Eu me culpo tanto.
Algo dentro de mim se moveu.
Não uma lembrança.
Mas uma reação.
Um incômodo.
Um chamado sem forma.
Respirei devagar.
E abri os olhos.
Ele estava ali.
Bernardo.
Mais uma vez.
Mas agora não havia distância profissional.
Nem festa.
Nem gente ao redor.
Só ele e eu.
E algo no rosto dele que eu não sabia nomear.
Cansaço.
Alívio.
Dor.
Tudo misturado.
— Por que você se culpa? — perguntei baixinho.
A voz saiu mais fraca do que eu esperava.
Ele arregalou os olhos imediatamente.
Como se eu não devesse ter acordado.
Como se aquela pergunta não fosse para existir.
Ele soltou minha mão de leve, mas não se afastou.
— Você… estava acordada? — ele perguntou, ignorando minha pergunta.
— Agora estou.
Silêncio.
Ele passou a mão no rosto, como se estivesse tentando reorganizar o próprio pensamento.
Ele estava abatido. Os olhos cansados. Olheiras. A barba estava grande.
— Eu achei que você estava dormindo. — disse ele.
— Eu estava fingindo.
Isso o fez parar.
Os olhos dele voltaram para mim.
Dessa vez, mais atentos.
Mais expostos.
— Por quê? — ele perguntou.
Dei de ombros levemente.
— Não sei… você entrou.
Ele desviou o olhar por um segundo.
Como se isso já fosse resposta suficiente para alguma coisa.
Mas não era para mim.
— Você não respondeu minha pergunta. — falei.
Ele respirou fundo.
Longo.
Pesado.
E sentou um pouco mais direito na cadeira.
— Não é importante agora.
Franzi a testa.
— Se você está se culpando, parece importante.
Ele ficou em silêncio.
O tipo de silêncio que não era vazio.
Era cheio demais.
Como se ele estivesse segurando palavras que não podiam sair.
— Beca… — ele começou.
Parou.
Engoliu em seco.
E tentou de novo:
— Você não lembra de muita coisa, certo?
Assenti.
— Só do acidente… da festa… e do Derick.
A expressão dele mudou imediatamente ao ouvir esse nome.
Mas ele tentou esconder.
Tentou.
— Certo. — ele disse baixo.
— Isso te incomoda?
Ele ficou me olhando.
Longo tempo.
E então respondeu:
— Sim.
A resposta foi honesta demais.
E isso me deixou desconfortável.
— Por quê?
Ele abriu a boca.
Fechou.
Passou a mão na nuca.
Respirou fundo de novo.
E finalmente disse:
— Porque eu estava lá quando tudo aconteceu.
Assenti devagar.
— Eu sei.
— Não… — ele corrigiu, a voz mais baixa agora. — Você não sabe tudo.
Aquilo me incomodou.
— Então me conta.
Ele ficou imóvel.
Como se aquela frase tivesse aberto algo que ele vinha tentando manter fechado.
— Você saiu da festa. — ele começou. — Estava alterada… emocionalmente. E sofreu o acidente logo depois.
— Eu já sei disso.
Ele assentiu.
— Mas não sabe o que aconteceu antes disso.
Fiquei em silêncio.
Esperando.
Mas ele não continuou.
— O que aconteceu antes? — perguntei, mais firme.
Bernardo me olhou como se estivesse lutando consigo mesmo.
E então disse:
— Você me viu com outra pessoa.
O ar do quarto pareceu ficar mais frio.
Franzi a testa.
— Outra pessoa?
Ele assentiu lentamente.
— E isso te desestabilizou.
Minha mente tentou encontrar algum encaixe.
Mas não havia nada.
Só um vazio.
— Eu não lembro disso. — falei.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Eu sei.
Silêncio.
Eu olhei para ele tentando entender.
Mas tudo o que eu via era um homem cansado demais para estar ali.
— Eu te machuquei? — perguntei, sem saber de onde a pergunta veio.
Ele abriu os olhos imediatamente.
— Não.
A resposta foi rápida demais.
Quase desesperada.
— Então por que você está se culpando? — insisti.
Ele ficou em silêncio.
Longo.
E dessa vez, quando falou, a voz dele saiu mais baixa.
Mais quebrada.
— Porque você saiu dirigindo naquele estado… e eu deixei.
A frase ficou suspensa no ar.
Pesada.
— Você não me deixou… — comecei.
Mas ele me interrompeu.
— Eu devia ter impedido.
Meu coração apertou sem entender por quê.
— Eu sou adulta, Bernardo.
Ele assentiu.
— Eu sei.
Mas não parecia concordar com isso dentro dele.
Ficamos em silêncio.
O tipo de silêncio que não resolve nada.
Só aumenta tudo.
Olhei para a mão dele ainda perto da minha.
E algo estranho aconteceu.
Não era lembrança.
Era sensação.
Segurança.
Mas ao mesmo tempo… confusão.
Como se meu corpo reconhecesse algo que minha mente não conseguia acessar.
— A gente era o quê? — perguntei de novo, mais baixo.
Ele demorou.
Mais do que antes.
E quando respondeu, não foi completo.
— A gente estava tentando.
— Tentando o quê?
Ele me olhou com uma tristeza silenciosa.
— Viver alguma coisa que não cabia em lugar nenhum.
Aquilo não me trouxe resposta.
Só mais perguntas.
E mais vazio.
A porta do quarto abriu de leve.
Uma enfermeira entrou, interrompendo o momento.
— Precisamos encerrar o horário de visitas.
Bernardo levantou imediatamente.
Mas antes de sair, ele ficou parado ao lado da cama.
Me olhando.
Mais uma vez.
Como se quisesse dizer algo.
Mas não disse.
Só segurou o encosto da cadeira por um segundo.
E falou, baixo:
— Descansa, Beca.
Assenti.
Ele saiu.
E o quarto voltou ao silêncio.
Mas agora… era um silêncio diferente.
Porque pela primeira vez, não era só sobre o que eu não lembrava.
Era sobre o que alguém claramente lembrava por mim.
E estava tentando decidir o que eu deveria ou não saber.
Eu fechei os olhos.
Não por sono.
Mas porque tudo dentro de mim estava ficando pesado demais para sustentar acordada.
O quarto do hospital tinha um silêncio constante, daqueles que não são vazios — são cheios de ruídos pequenos demais para serem ignorados: o bip dos aparelhos, passos distantes no corredor, uma porta abrindo e fechando em algum lugar que eu não via.
Eu me deixei ficar ali, imóvel, tentando organizar o pouco que eu lembrava.
Derick.
Sempre Derick.
O término.
A sensação de fim.
E aquele buraco estranho entre a festa e o acidente.
Era como se alguém tivesse arrancado algumas páginas inteiras da minha vida.
E, por mais que eu tentasse não pensar nisso, a ausência começava a incomodar mais do que qualquer lembrança.
Foi quando eu ouvi.
Do lado de fora do quarto.
Vozes.
Ane.
E ele.
Bernardo.
Fiquei parada.
Os olhos ainda fechados por instinto, mas agora completamente atenta.
— Ane, ela não lembra de mim… — a voz dele veio baixa.
Quebrou o silêncio do corredor como algo que já estava preso há muito tempo.
Eu senti meu corpo reagir antes da minha mente entender.
Ane respondeu em seguida, num tom mais firme:
— Eu sei.
Pausa.
Um suspiro.
— Bernardo… isso não é simples.
Ele riu de leve. Mas não tinha humor nenhum ali.
— Nada disso é simples.
Silêncio curto.
Eu abri os olhos devagar, olhando para o teto, sem coragem de me mexer.
Ane continuou:
— Ela sofreu um trauma. O cérebro bloqueia coisas. Você sabe disso.
— Eu sei. — ele respondeu rápido demais. — Mas não assim.
Ane ficou em silêncio por alguns segundos.
E então, mais baixa:
— O que você quer fazer?
Essa pergunta pareceu mudar o ar do corredor.
Porque a resposta demorou.
Demorou demais.
Quando veio, a voz dele estava diferente.
Mais cansada.
Mais real.
— Eu não sei como ficar perto dela sem piorar tudo.
Meu peito apertou sem explicação.
Como se aquela frase tivesse impacto direto em mim.
Ane respirou fundo.
— Você já está perto.
— Não do jeito certo.
Silêncio.
E então ela:
— Você não pode se culpar pelo que aconteceu.
Ele respondeu quase imediato:
— Eu devia ter impedido ela de sair.
Minha garganta travou.
Ela.
Ela quem?
Eu não lembrava de “ela”.
E isso me irritou de um jeito estranho.
Como se eu estivesse ouvindo uma parte da minha própria vida da qual fui excluída.
Ane respondeu, mais firme agora:
— Você não pode controlar as escolhas dela.
Ele soltou o ar, pesado.
— Eu devia ter tentado mais.
Silêncio longo.
Eu me sentei devagar na cama, sem fazer barulho.
O corpo ainda fraco, mas a mente completamente desperta.
— Bernardo… — Ane falou de novo, mais baixa agora. — Ela já te viu?
Ele demorou.
— Viu.
— E?
Mais silêncio.
Eu prendi a respiração sem perceber.
E então ele respondeu:
— Ela não lembra de nada.
A frase caiu pesada.
Definitiva.
Como se fosse uma sentença.
Ane suspirou.
— Isso pode ser uma chance pra ela se recuperar sem dor.
Minha mão apertou o lençol.
Chance?
Aquilo não parecia uma chance.
Parecia um vazio.
Um apagamento de algo que, pelo jeito deles, tinha sido grande demais para simplesmente desaparecer.
Bernardo falou de novo, mais baixo:
— Ou uma forma de ela achar que nunca viveu isso.
Ane não respondeu imediatamente.
E nesse silêncio, eu senti algo estranho crescer dentro de mim.
Não era lembrança.
Era desconforto.
Como se meu corpo reconhecesse uma verdade que minha mente não alcançava.
Eu me levantei devagar.
E olhei pelo vão.
Ane estava de frente para ele.
E Bernardo estava com a cabeça levemente baixa, como se estivesse segurando algo dentro do próprio peito há muito tempo.
— Você gosta dela? — Ane perguntou de repente, direta.
A pergunta ficou no ar.
Pesada.
Perigosa.
Bernardo não respondeu de imediato.
E esse foi o primeiro sinal de que a resposta não era simples.
Quando ele falou, foi quase um sussurro:
— Eu gosto muito. Mais como responder isso sem machucar alguém?
Meu estômago afundou.
Ane não desviou.
— Isso já machucou alguém.
Silêncio.
Bernardo passou a mão no rosto.
Devagar.
Como se estivesse cansado demais até para respirar direito.
— Ela perdeu a memória… — ele disse.
Ane corrigiu imediatamente:
— Ela perdeu parte da memória.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Parte suficiente pra me esquecer.
Ane não respondeu.
E nesse silêncio, algo dentro de mim ficou estranho.
Não dor.
Não tristeza.
Confusão.
Porque, mesmo sem lembrar dele… ouvir aquilo doeu de um jeito que não fazia sentido.
Como se meu corpo estivesse reagindo a uma história que minha mente não tinha acesso.
Bernardo falou de novo, mais baixo:
— Eu não sei como consertar isso.
Ane respondeu, depois de um tempo:
— Talvez não seja sobre você consertar isso..
Silêncio.
— Talvez seja sobre deixá-la recuperar ela mesma.
Eu recuei.
O coração batendo mais forte agora.
Recuperar ela mesma.
Mas quem era “ela mesma”?
Porque tudo o que eu tinha dentro de mim era Derick.
Era o término.
Era o fim.
E agora… havia mais alguma coisa ali fora.
Alguma coisa que eu não conseguia alcançar.
E alguém que parecia estar sofrendo por algo que eu nem lembrava de ter vivido.
Voltei lentamente para a cama.
Sentei.
E fiquei olhando para as minhas mãos.
Como se elas fossem me dar alguma resposta.
Mas não deram.
Só ficaram ali.
Quietas.
Como se também não soubessem mais quem eu era antes daquele vazio.
Fale com o autor