Até você voltar
16 O Peso de Uma Mentira
Ele me levou para casa no começo da noite. A chuva ainda caía fina, deixando o trânsito lento e as luzes da cidade borradas no vidro do carro. O rádio tocava baixo, quase como um som distante, enquanto ele dirigia com uma mão no volante e a outra repousada sobre a minha perna, fazendo carinho distraidamente.
Aquilo já estava começando a parecer natural.
Perigoso de tão natural.
Meu celular permanecia esquecido dentro da bolsa enquanto eu observava a chuva pela janela, sentindo um cansaço gostoso depois do dia inteiro. Foi então que o telefone dele tocou.
Sem querer, meu olhar desviou para a tela iluminada no painel.
“Julia.”
Senti algo apertar dentro do peito na mesma hora.
Tentei disfarçar, fingindo que não tinha visto, mas minha cabeça começou a criar perguntas que eu nem queria fazer.
Ele rejeitou a ligação rapidamente.
— Quem era? — perguntei, tentando soar casual.
Ele nem hesitou.
— Os meninos perguntando onde eu estou.
Olhei para ele de lado.
Mentira.
Eu sabia que era mentira.
E talvez o pior não fosse a ligação.
Era a facilidade com que ele mentia olhando nos meus olhos.
— Saiu sem avisar? — perguntei, mantendo a voz calma.
Ele sorriu de canto.
— Precisei vir buscar uma princesa linda.
Revirei os olhos, soltando uma risada baixa.
— Obrigada… — murmurei. — Eu não queria atrapalhar seu dia.
Ele apertou levemente minha perna.
— Você nunca atrapalha. Pelo contrário… geralmente é a solução dos meus problemas.
Sorri de volta, mas dessa vez o sorriso não alcançou completamente meus olhos.
Porque, apesar do jeito carinhoso dele, aquela sensação estranha continuava ali.
Incômoda.
Fiquei observando o perfil dele enquanto dirigia. A forma calma como segurava o volante, o maxilar tensionado de leve, os olhos atentos na estrada.
Bonito demais.
Confuso demais.
Ele percebeu meu silêncio depois de alguns segundos.
— Que foi? — perguntou, me olhando rapidamente.
Desviei os olhos para a janela.
— Nada. Só estou cansada.
Ele pareceu não acreditar muito, mas não insistiu.
— Como foi com a sua mãe?
Respirei fundo antes de responder.
— Foi bom. Ela fez comida demais, como sempre. Acho que comi além da conta.
Ele riu.
— Isso explica sua cara de sono.
— Estou exausta. Ainda preciso organizar minhas coisas e tentar dormir cedo. Amanhã começa tudo de novo.
Ele assentiu devagar.
— Sim… queria que o final de semana tivesse mais tempo.
Olhei para ele sem responder imediatamente.
Porque eu também queria.
Queria mais tempo naquele carro. Mais tempo naquela sensação boa que ele despertava em mim. Mais tempo antes que a realidade voltasse.
O carro parou em frente ao meu prédio alguns minutos depois.
Fiquei encarando a chuva batendo no para-brisa, sem muita vontade de sair.
— Chegamos. — ele falou baixinho.
— Infelizmente.
Ele sorriu com aquilo.
Virou o corpo um pouco na minha direção e segurou meu rosto com cuidado.
— Você está estranha desde aquela ligação.
Meu coração acelerou.
— Não estou.
— Está sim.
Sustentei o olhar dele por alguns segundos.
Parte de mim queria perguntar quem era Julia.
A outra parte tinha medo da resposta.
Então apenas suspirei.
— Acho que só estou cansada mesmo.
Ele passou o polegar devagar pela minha bochecha.
— Não gosto quando você fica distante.
Aquela frase mexeu comigo mais do que deveria.
Porque eu nem sabia se tinha o direito de me sentir assim.
Nem sabia exatamente o que nós éramos.
Mesmo assim… doía imaginar que talvez eu não fosse a única.
Ele se aproximou devagar e beijou meus lábios com calma, como se estivesse tentando desfazer qualquer pensamento ruim da minha cabeça.
E por alguns segundos, conseguiu.
Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha.
— Me manda mensagem quando subir.
Assenti em silêncio.
Saí do carro correndo por causa da chuva, mas antes de entrar no prédio, olhei para trás.
Ele ainda estava ali.
Me observando.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, senti medo de gostar dele mais do que deveria.
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