Até você voltar

12 Entre o Medo e o Desejo


Quando cheguei em casa, olhei para aquele sofá e taquei uma almofada nele com força.

Ela bateu no encosto e caiu no chão.

E, por algum motivo, aquilo me fez querer chorar.

Passei as mãos no rosto, respirando fundo, tentando controlar o nó na garganta que crescia cada vez mais.

Me senti culpada.

Perdida.

Desorientada.

Vazia outra vez.

Andei pela sala sem rumo enquanto minha própria voz ecoava dentro da minha cabeça.

Eu me coloco nessas situações.

Eu não escuto minha intuição.

Eu vejo o problema vindo… e ainda assim me enfio nele.

Eu estava bem sozinha.

Bem sem dar abertura pra alguém que eu sempre soube que era complicado. Sempre soube do lado mulherengo dele. Das histórias. Das pessoas.

Então por que caralhos eu sempre volto a me envolver com alguém que pode me machucar?

Por que eu nunca consigo evitar isso?

Meu peito apertava cada vez mais.

Porque a pior parte era perceber que eu já estava emocionalmente envolvida.

Mais do que deveria.

Mais rápido do que queria.

O interfone tocou.

Uma vez.

Duas.

Três.

Fechei os olhos imediatamente.

Respirei fundo antes de atender.

— Boa noite, Dona Beca.

— Oi, Jeff… boa noite.

— Aquele seu amigo tá aqui embaixo.

O silêncio ficou pesado na linha.

Meu coração acelerou na mesma hora.

— Dona Beca? Posso deixar ele subir?

Fechei os olhos por um segundo.

Eu sabia que devia dizer não.

Mas não consegui.

— Sim, Jeff.

Desliguei o interfone e sentei no sofá colocando as mãos na cabeça.

Meu cabelo caiu no rosto e eu o joguei para trás nervosamente.

Poucos segundos depois, a campainha tocou.

Levantei devagar.

Abri a porta.

Bernardo estava ali.

Respirando fundo.

Os olhos presos nos meus.

— Podemos conversar?

Desviei o olhar imediatamente.

— Eu não quero falar.

Mesmo assim, ele entrou.

Fechei a porta atrás dele e caminhei direto até a cozinha tentando colocar distância entre nós.

Peguei um copo d’água porque minhas mãos precisavam ocupar espaço antes que meu emocional transbordasse.

— Você me viu no bar com a Julia? — ele perguntou.

Confirmei com a cabeça sem olhar diretamente pra ele.

— Eu não te vi lá. Não sabia que você frequentava aquele lugar.

Continuei bebendo água.

Fria.

Tentando esfriar o caos dentro de mim.

Quando levantei os olhos, Bernardo já me observava atentamente.

— Não me olha assim.

Soltei uma risada sem humor.

— E você quer que eu te olhe como?

Ele passou a mão pela nuca.

Claramente nervoso.

— Você tá decepcionada comigo?

Meu peito apertou imediatamente.

Mas eu já estava cansada de parecer vulnerável.

— Como eu posso me decepcionar com algo que eu já sabia que daria errado?

A frase saiu fria.

Mais fria do que eu realmente queria.

Bernardo ficou em silêncio por alguns segundos.

Então deu um pequeno passo na minha direção.

— Não parece isso.

Cruzei os braços tentando me proteger dele.

— Parece o quê?

Os olhos dele me prenderam.

— Parece que você tá com raiva.

A voz dele abaixou.

— E com ciúmes.

Soltei o ar pelo nariz, incrédula.

— Bernardo… eu não quero passar por isso de novo.

Minha voz falhou levemente dessa vez.

E eu odiei isso.

— De verdade. Quando eu te vi lá… parecia que eu tava revivendo tudo que vivi com o Derick.

Os olhos dele mudaram imediatamente.

Ficaram mais suaves.

Mais atentos.

Mais preocupados.

Passei a mão no rosto tentando organizar as palavras.

— Eu prometi pra mim mesma que nunca mais deixaria alguém me fazer sentir pequena. Nunca mais deixaria alguém bagunçar minha cabeça desse jeito.

Respirei fundo.

— Eu já luto contra os meus monstros todos os dias, Bernardo. Já é difícil demais ficar bem comigo mesma. Eu não preciso de mais um problema.

Ele passou a mão no cabelo bagunçando os fios nervosamente.

E pela primeira vez naquela noite, eu vi minhas palavras atingirem ele de verdade.

— Beca…

Balancei a cabeça.

— Eu vou te pedir pra ir embora, por favor.

O silêncio caiu entre nós.

Pesado.

Difícil.

Então Bernardo se aproximou mais.

Devagar.

Como se tivesse medo de me assustar.

— Eu não quero te fazer mal.

A voz dele saiu baixa.

Sincera.

— E eu também não quero ser um problema na sua vida.

Engoli seco.

Os olhos dele continuavam presos nos meus.

— Eu quero te fazer bem. Quero te dar tudo aquilo que eu vi você implorando pro seu ex e nunca recebendo.

Meu coração apertou imediatamente.

Porque aquilo me desmontava.

Porque ele prestava atenção.

Em tudo.

— Eu vi. — falei baixo.

Bernardo franziu a testa.

— Viu o quê, Beca?

Respirei fundo.

— Você com a Julia. Ela tocando em você. Vocês juntos.

Soltei uma risada amarga.

— E você vai negar isso?

Ele aproximou mais um passo.

— Julia é uma menina que eu ficava.

Meu peito afundou.

Mas ele continuou antes que eu reagisse.

— Eu fui lá justamente pra terminar isso.

Fiquei imóvel.

Completamente imóvel.

— O quê?

Bernardo sustentou meu olhar.

— Eu fui dizer pra ela que não queria mais continuar.

Meu coração disparou tão forte que chegou a doer.

— Porque eu quero tentar com você.

Parecia que uma bomba tinha explodido dentro de mim.

Minha cabeça ficou vazia.

Sem reação.

Sem defesa.

— E precisava ser num bar? — perguntei quase sem voz. — E como você ia prometer alguma coisa sem nem saber se isso aqui existe?

Bernardo respirou fundo.

— Beca… entende uma coisa.

Ele se aproximou devagar.

— Eu gosto de você há muito tempo. Só que antes eu nunca tive espaço pra mostrar isso. Nunca tivemos isso aqui.

A voz dele ficou mais baixa.

Mais intensa.

— E no momento que eu percebi que talvez tivesse uma chance com você… eu não quis conhecer mais ninguém.

Meu coração falhava batidas.

— Eu queria tentar fazer dar certo.

Sem conseguir lidar com aquilo, caminhei até a varanda tentando respirar.

Mas ele segurou minha mão.

E quando virei, os olhos dele estavam completamente atravessados pelos meus.

— Você nem me mandou mensagem quando chegou em casa. — falei decepcionada. — Você simplesmente sumiu.

Bernardo soltou o ar devagar.

— Porque eu não quero te sufocar.

A mão dele subiu lentamente até meu rosto, afastando meu cabelo atrás da orelha.

Meu corpo inteiro arrepiou.

— Ontem você deu um passo enorme me deixando entrar aqui. Dormir aqui.

Os dedos dele tocaram minha pele cuidadosamente.

— Eu tentei te dar espaço. Sem pressão. Sem assustar você.

A outra mão dele segurou meu rosto.

Agora estávamos perto demais.

Testa com testa.

Respiração misturada.

— E a primeira coisa que eu precisava fazer era afastar a Julia.

Os olhos dele desceram pros meus lábios por um segundo.

Depois voltaram pros meus olhos.

— Porque eu não quero errar com você.

Meu coração parecia completamente fora de controle.

— Eu tenho medo. — sussurrei.

— Eu sei.

— Não vai dar certo.

Bernardo fechou os olhos rapidamente antes de encostar o nariz no meu.

— Então deixa eu te mostrar.

Respirei com dificuldade.

— E se der errado?

Ele abriu os olhos devagar.

— Eu vou fazer dar certo.

A proximidade dele me consumia inteira.

O cheiro do perfume misturado ao álcool.

O calor da respiração dele na minha boca.

As mãos firmes no meu rosto.

Como se ele tivesse esperado por aquilo há tempo demais.

A voz dele saiu rouca.

Baixa.

— Deixa eu sentir sua boca?

Meu coração simplesmente desistiu de lutar.

— Me beija… por favor.

E Bernardo não pensou duas vezes.

Ele me beijou com vontade.

Como alguém que estava se segurando há tempo demais.

As mãos dele desceram pro meu cabelo, minha cintura, me puxando contra o corpo dele enquanto eu correspondia sem conseguir pensar em mais nada.

Era intenso.

Quente.

Desesperado.

Uma mistura de álcool, desejo, saudade e realização.

Ele me prensou contra a parede e eu puxei seu rosto mais perto, mordendo de leve sua boca enquanto ele soltava uma respiração pesada contra meus lábios.

O beijo descia pelo meu pescoço e eu sentia meu corpo inteiro estremecer.

As mãos dele apertaram minha cintura com força.

Meu ar já faltava.

— Você tem certeza? — ele perguntou rouco, encostando a testa na minha.

Segurei o rosto dele entre as mãos.

Ainda ofegante.

— Só… não para agora.