Até você voltar

14 Domingos Chuvoso


A sensação de acordar tendo alguém ao meu lado é uma sensação estranha. Depois de meses tendo a cama vazia, acordar passando a mão no travesseiro após um sonho… agora encontrar alguém ali. Respirando baixo. Ocupando espaço. É algo novo. Eu vou precisar me adaptar.

Acordei domingo com a luz entrando entre o voal da cortina. Esqueci de fechar o blackout. Levantei devagar, ainda sonolenta, e olhei pela janela. O dia estava chovendo. Um domingo típico de preguiça.

Olhei o relógio do lado da cama: nove da manhã.

Vesti meu cardigan solto e deixei Bernardo ali na cama. Ainda fiquei alguns segundos olhando ele dormindo, completamente largado no meu travesseiro, o cabelo bagunçado, a respiração tranquila. Pensei: “acho que vai ser fácil ter ele aqui, vou conseguir me adaptar. Até que não vai ser muito difícil.”

E soltei um sorriso bobo depois desse pensamento bobo.

Liguei a televisão da sala apenas para preencher o silêncio do apartamento, coloquei o café para fazer e desci até a loja abaixo do prédio para comprar um bolo quentinho. A chuva fina molhava a calçada e o ar frio fez meu corpo arrepiar por baixo do cardigan.

Quando voltei, entrei devagar em casa para não acordá-lo. Conferi se Bernardo ainda estava dormindo, coloquei o bolo em cima da mesa e fui pegar uma xícara de café. Abri a varanda e sentei na banqueta, sentindo o vento gelado bater no rosto enquanto observava a movimentação lenta dos carros na avenida molhada.

O cheiro de chuva misturado com café fresco me trouxe uma sensação estranhamente confortável.

Paz.

Uma paz que eu não sentia fazia tempo.

Talvez porque minha vida sempre tivesse sido barulhenta demais por dentro. Pensamentos demais. Medos demais. Expectativas demais. Eu sempre fui o tipo de pessoa que pensa em como as coisas vão terminar antes mesmo delas começarem.

Mas naquele domingo eu só queria existir ali.

Sem pressa.

Sem medo.

Sem tentar prever o futuro.

Escutei passos arrastados atrás de mim e não precisei olhar para saber que era ele.

Bernardo aproximou-se ainda sonolento, encostando as mãos quentes na minha cintura por cima do cardigan.

— Você fugiu da cama — ele murmurou com a voz rouca de sono.

Sorri automaticamente.

— Fui comprar café da manhã.

— Isso é coisa de casal.

Revirei os olhos, mas meu coração aqueceu de um jeito ridículo.

Ele apoiou o queixo no meu ombro e ficou olhando a chuva comigo em silêncio. E talvez fosse isso que mais me surpreendesse nele: Bernardo nunca parecia precisar preencher todos os espaços. O silêncio perto dele não era desconfortável.

Era leve.

— Que horas são? — perguntou baixo.

— Quase dez.

— Então oficialmente perdemos a manhã.

— Dramático.

Ele riu baixinho perto do meu ouvido, me fazendo arrepiar.

— Tem bolo?

— Tem.

— Agora eu tenho certeza que gosto de você.

Balancei a cabeça rindo e virei o rosto para encará-lo. Bernardo ainda parecia meio dormindo, os olhos pequenos, a expressão tranquila. Tão confortável dentro da minha casa como se já conhecesse aquele espaço há muito tempo.

E talvez fosse justamente isso que estivesse me assustando tanto.

A facilidade.

Porque tudo com ele parecia simples demais.

Natural demais.

Como se eu não precisasse me esforçar para ser entendida o tempo inteiro.

Bernardo percebeu meu olhar preso nele e franziu a testa de leve.

— O que foi?

Desviei os olhos rapidamente.

— Nada.

— Você fica pensando demais.

— Você percebe tudo?

— Quase tudo.

Ele me virou devagar na direção dele, ainda segurando minha cintura.

— No que você estava pensando agora?

Suspirei baixo.

— Que é estranho acordar e ter alguém aqui.

A expressão dele suavizou imediatamente.

— Estranho ruim?

Neguei com a cabeça.

— Estranho novo.

Ele ficou me olhando por alguns segundos, como se tentasse entender cada coisa que eu não dizia em voz alta.

E talvez entendesse.

— Você não precisa se acostumar rápido comigo — ele falou baixo. — Eu não tô te apressando pra nada.

Meu peito apertou de um jeito silencioso.

Porque eu estava acostumada com pessoas indo embora no momento em que eu demonstrava medo. Acostumada com relações onde eu precisava parecer forte o tempo inteiro para não assustar ninguém.

Mas Bernardo não parecia fugir quando enxergava minhas inseguranças.

Ele apenas ficava.

Passou a mão devagar pelo meu cabelo e beijou minha testa com calma.

Um gesto simples.

Mas tão cuidadoso que quase doeu.

Fechei os olhos por um segundo.

Talvez amar alguém começasse assim.

Num domingo chuvoso.

No cheiro de café fresco.

Em alguém dividindo silêncio com você na varanda.

Talvez começasse nos detalhes pequenos que a gente nem percebe quando estão acontecendo.

— O que vai fazer hoje? — ele perguntou, enquanto desenhava círculos suaves no meu braço.

— Prometi almoçar com a minha mãe. — respondi sorrindo.

Ele arqueou a sobrancelha, fingindo indignação.

— Está me expulsando da sua casa?

Soltei uma risada baixa.

— Claro que não. Você pode ficar, se quiser.

— Estou brincando. Combinei de jogar futebol com os meninos. — ele disse, rindo.

Olhei para a janela, onde a chuva caía pesada desde cedo.

— Na chuva? — perguntei, apontando para fora.

Ele deu de ombros, divertido.

— Você sabe que isso nunca foi um problema.

Balancei a cabeça, rindo da animação dele. Ficamos mais um tempo deitados, abraçados, aproveitando o silêncio confortável que existia entre nós. Ele fazia carinho no meu cabelo devagar, e sem perceber, acabei cochilando no peito dele.

Acordei assustada com o celular vibrando ao meu lado. Peguei rápido e vi o nome da minha mãe na tela.

— Perdeu a hora do almoço, mocinha? — ela perguntou, divertida.

Olhei o relógio e arregalei os olhos.

— Não… eu só cochilei de novo. Acordei cedo, mas acabei dormindo.

— Venha logo. A comida já está pronta.

— Vou me arrumar e já estou indo. Até daqui a pouco.

Desliguei a ligação e, antes mesmo que eu pudesse levantar da cama, ele me puxou pela cintura, me prendendo contra ele.

— Não vai. — falou manhoso, escondendo o rosto no meu pescoço.

Ri imediatamente.

— Preciso ir.

— Eu sei… — respondeu, ainda me segurando. — Posso te levar?

Olhei para ele com um sorriso de canto.

— Quer ficar mais um tempinho comigo, é isso?

— Claro. Todo o tempo do mundo.

— Você já me vê todos os dias.

— Mas eu não posso fazer isso todos os dias. — ele respondeu, aproximando o rosto do meu. — Não posso te beijar desse jeito, te agarrar sem pensar… Agora, mais do que nunca, vou precisar me controlar.

Meu coração acelerou com a forma como ele me olhava. Era estranho perceber como tudo entre nós tinha mudado tão rápido. Antes existia só tensão, provocações e olhares demorados. Agora havia cuidado. Intimidade. Vontade.

Passei a mão pelo rosto dele, observando aquele sorriso torto que começava a se tornar perigosamente familiar.

— Então é melhor começar a praticar esse autocontrole.

— Você não me ajuda me olhando com esses olhos.


Ele me puxou para mais um beijo demorado, daqueles que faziam o mundo parecer distante por alguns segundos. Quando nos afastamos, encostei minha testa na dele e sorri.

— Eu realmente preciso ir.

— Tá bom. — suspirou dramaticamente. — Mas vou cobrar pela minha boa ação de te levar.

— Ah, é? E qual seria o pagamento?

Ele abriu um sorriso malicioso.

— Ainda estou pensando.

Revirei os olhos, rindo, e finalmente saí da cama para me arrumar. Enquanto escolhia uma roupa, ele permaneceu sentado me observando em silêncio, como se ainda estivesse tentando acreditar que aquilo era real.

E, sinceramente, eu também estava.