Até você voltar

19 Coisas Que Quebram em Silêncio


O dia passou arrastado.

Ou talvez rápido demais.

Eu já nem sabia distinguir.

Tudo naquele escritório parecia mais intenso naquela segunda-feira. O barulho dos telefones, as teclas dos computadores, as pessoas andando de um lado para o outro, as reuniões acontecendo sem parar.

E eu fiz questão de me manter ocupada o tempo inteiro.

Quanto mais ocupada, menos eu pensava.

Ou pelo menos tentava.

Mesmo assim, a sensação de estar sendo observada me acompanhava o dia inteiro. Toda vez que eu levantava os olhos da tela, encontrava Bernardo olhando discretamente na minha direção através do vidro da sala dele.

E eu fingia não perceber.

O melhor momento do dia acabou sendo o almoço.

Porque pela primeira vez desde cedo, fiquei sozinha.

Só eu.

E meus pensamentos.

O silêncio da sala parecia confortável até a recepcionista aparecer na porta.

— O senhor Bernardo saiu para almoçar? — ela perguntou.

— Sim. Saiu faz alguns minutos. — respondi naturalmente.

Ela pareceu hesitar.

— Você sabe se ele vai demorar?

— Não sei… mas posso ajudar em alguma coisa?

Ela segurava o telefone da recepção nas mãos de um jeito nervoso.

— É que tem uma ligação pra ele. A pessoa deixou um recado.

Meu estômago apertou sem motivo aparente.

Ou talvez com motivo demais.

— Quer que eu passe o recado? — perguntei.

Ela assentiu rapidamente, aliviada.

— Uma menina chamada Julia está ligando pra ele… — falou cuidadosamente. — Disse que precisa falar com urgência e pediu que ele retorne.

Senti o corpo inteiro gelar por um segundo.

Mas mantive a expressão neutra.

Ou tentei.

— Ah… claro. Eu aviso.

Ela agradeceu e saiu.

Assim que fiquei sozinha outra vez, respirei fundo.

Julia.

De novo.

Fechei os olhos por um instante, sentindo aquela mesma sensação amarga voltando devagar.

Talvez eu estivesse exagerando.

Talvez não.

Peguei meu celular e desci para a cafeteria do prédio antes que começasse a surtar no meio do escritório. Precisava respirar.

Precisava de açúcar.

Precisava parar de sentir aquele ciúme ridículo.

Sentei numa mesa afastada com um café e o maior pedaço de torta de chocolate que encontrei. Fiquei encarando a chuva fina lá fora enquanto tentava convencer a mim mesma de que aquilo não deveria me afetar tanto.

Mas afetava.

Porque no fundo, eu ainda sentia que existia alguma coisa mal resolvida entre eles.

E talvez o problema fosse justamente esse.

Eu não sabia se estava preparada para disputar espaço com o passado de alguém.

Depois de alguns minutos, subi novamente.

E assim que entrei no setor, percebi que Bernardo já tinha voltado.

Ele estava na sala com um dos coordenadores, sorrindo de alguma coisa.

Mas o sorriso dele desapareceu no instante em que me viu parar na porta.

Bati levemente.

— Licença.

— Beca, você não precisa pedir licença. Pode entrar. — ele respondeu naturalmente.

Entrei segurando os papéis que nem precisava levar comigo.

— A Liza tentou falar com você enquanto estava fora. — falei profissionalmente. — Ela pediu que eu passasse o recado.

Ele assentiu.

— Pode falar.

Sustentei o olhar dele por alguns segundos antes de repetir:

— “A Julia ligou e pediu que você retorne assim que possível. Disse que é um assunto urgente.”

O ambiente mudou na mesma hora.

Foi quase imperceptível.

Mas eu percebi.

O sorriso dele desapareceu.

O maxilar tensionou.

E ele desviou os olhos por um breve segundo enquanto arrumava o botão da camisa.

Aquilo foi suficiente.

Porque confirmou exatamente o que eu não queria sentir.

— Era só isso. — falei baixo.

E saí da sala antes que ele dissesse qualquer coisa.

Aquilo acabou comigo de um jeito ridículo.

Sentei na minha mesa tentando recuperar o controle enquanto fingia trabalhar.

Mas minha cabeça estava longe.

Muito longe.

Fiquei encarando o relógio sem realmente enxergar as horas passarem até que o coordenador saiu da sala dele e parou ao meu lado.

— Ei, Beca… o senhor Bernardo pediu pra você entrar lá.

Forcei um sorriso automático.

— Ah… obrigada. Já vou.

Assim que ele saiu, Ane me olhou da mesa dela.

Um olhar rápido.

Mas suficiente.

Ela me conhecia bem demais.

— Você quer que eu vá lá? — perguntou baixinho.

Soltei uma risada fraca.

— Você quer ir no meu lugar?

— Estou falando sério.

Balancei a cabeça.

— Tem alguma coisa errada. — ela falou.

Olhei para ela por alguns segundos.

E pela primeira vez naquele dia, deixei transparecer.

— Tem.

Ela não insistiu.

Nunca insistia.

Só me lançou aquele olhar silencioso de quem estaria ali se eu precisasse.

Respirei fundo antes de levantar.

Dessa vez, a porta da sala dele estava aberta.

Ele me olhou imediatamente.

— Fecha a porta.

Obedeci em silêncio.

Assim que a porta fechou, ele passou a mão no rosto, claramente irritado.

— Para com isso, Beca.

Cruzei os braços.

— Com isso o quê?

— Você sabe muito bem.

— Não sei, senhor Bernardo.

Ele fechou os olhos por um instante, respirando fundo.

— Não faz isso comigo.

— Eu fiz exatamente o meu trabalho. — respondi friamente. — A Liza pediu ajuda, eu passei o recado.

Ele se aproximou da mesa.

— Você quis me atingir.

Soltei uma risada sem humor.

— E consegui?

O silêncio respondeu por ele.

Desviei o olhar por um segundo antes de continuar:

— Vou pedir pra recepção passar seus recados diretamente pra você da próxima vez.

— Para de agir assim.

— Assim como?

Ele me encarou em silêncio.

Tenso.

Impaciente.

E estranho.

— Era só isso? — perguntei.

Virei para sair.

Mas antes que eu alcançasse a porta, ele segurou meu braço.

— Beca.

Fechei os olhos imediatamente.

Porque aquele toque desmontava minhas defesas.

Me virei devagar.

— Se coloca no seu lugar de chefe, por favor. Não confunde as coisas.

Ele soltou meu braço devagar.

Mas não desviou os olhos dos meus.

— Você já confundiu.

Meu peito apertou.

Balancei a cabeça negativamente.

— Eu não sei fazer isso.

Minha voz saiu mais fraca do que eu queria.

— Não sei viver algo pela metade. Não sei fingir que está tudo bem quando não está.

Ele me observava em silêncio absoluto.

— É complicado demais, Bernardo. — continuei. — Eu não consigo confiar em você… na verdade, acho que não consigo confiar em ninguém.

A expressão dele mudou imediatamente.

Mais séria.

Mais dolorida.

— Isso já começou errado. — falei baixinho. — E vai continuar errado.

O silêncio entre nós ficou sufocante.

Respirei fundo antes de dizer aquilo que estava preso na minha garganta desde o almoço:

— Volta pra Julia.

E pela primeira vez desde que tudo começou… eu vi Bernardo realmente perder o chão.

Eu sai e fechei a porta.


Assim que sentei na minha mesa, soltei o cabelo do coque num movimento cansado e passei as mãos pelo rosto.

Meu coração ainda estava acelerado.

E, pela primeira vez desde que saí da sala dele, comecei a sentir o peso do que tinha dito.

“Volta pra Julia.”

Fechei os olhos por um instante.

Talvez eu tivesse exagerado.

Talvez tivesse sido injusta.

Ou talvez estivesse só cansada de sentir medo o tempo inteiro.

Respirei fundo e peguei o celular dentro da bolsa.

A tela acendeu imediatamente.

Mensagens dele.

Uma atrás da outra.

“Beca.”

“Não faz isso.”

“Me escuta.”

“Por favor.”

Meu peito apertou.

Desliguei o celular sem coragem de ler o restante.

— Beca, você tem reunião agora. — Ane avisou do outro lado da sala.

Levantei rapidamente.

— Sim, estou indo.

— É comigo, inclusive. — ela falou rindo.

Forcei um sorriso.

— Oba.

Ela estreitou os olhos.

— Nossa, que animação verdadeira.

— Estou tentando ser simpática.

— Está falhando.

Acabei rindo sem querer.

E talvez eu precisasse mesmo daquela reunião. Precisasse ocupar a cabeça até o fim do expediente.

Passamos horas presas numa sala discutindo contratos, clientes, prazos, problemas internos e estratégias. Pela primeira vez no dia, consegui focar completamente em outra coisa.

Trabalho.

Só trabalho.

Sem Bernardo.

Sem Julia.

Sem sentimentos.

Eu respondia tudo rápido, resolvia problemas, encontrava soluções antes mesmo de terminarem as perguntas.

Até Ane começar a rir no meio da reunião.

— O quê? — perguntei.

— Você se transforma quando está irritada.

Revirei os olhos.

— Para.

— Estou falando sério. — ela apoiou os braços na mesa. — Bernardo devia te deixar brava mais vezes. Essa empresa renderia o dobro.

Soltei uma risada sem graça.

— Não fala isso.

— Você trabalha por cem pessoas quando está com raiva.

— Exagerada.

— Não. — ela apontou pra mim. — Você fica assustadoramente eficiente.

Balancei a cabeça tentando ignorar.

Mas ela ficou me olhando por alguns segundos antes de falar mais baixo:

— Talvez você tenha se acostumado a sobreviver assim.

Aquilo me atingiu de um jeito inesperado.

Desviei os olhos imediatamente.

— Talvez.

O silêncio ficou entre nós por alguns segundos.

Então ela fechou o notebook devagar.

— Eu queria muito te chamar pra beber hoje.

— Aceitaria fácil.

— Mas tenho um encontro.

— Ah… então vá viver seu romance. — falei levantando junto com ela.

— E você vá viver sua crise emocional.

— Ane!

Ela começou a rir enquanto saíamos da sala.

Voltamos para o setor já no final do expediente. O escritório estava quase vazio.

Peguei minha bolsa devagar e, sem perceber, olhei discretamente para a sala do Bernardo.

As luzes estavam apagadas.

Respirei fundo sentindo um alívio imediato.

Porque, no fundo, eu sabia que estava fugindo.

De uma conversa.

De uma discussão.

Ou pior: dele conseguindo me convencer.

— Vamos? — Ane perguntou.

— Sim.

Coloquei a bolsa no ombro e suspirei.

— Amanhã vou precisar trabalhar de home office.

Ela me olhou rapidamente.

Mas entendeu sem que eu precisasse explicar.

— Sem problemas. Eu aviso o pessoal.

Seguimos juntas até o elevador em silêncio.

E então, justamente quando as portas começaram a abrir…

Meu coração parou.

Bernardo saiu do elevador no mesmo instante.

Os olhos dele encontraram os meus imediatamente.

E tudo em mim travou.

Ane percebeu o clima na hora.

— Eu vou descer porque já estou atrasada. — falou rapidamente.

— Eu vou com você. — respondi no automático.

— Beca… — Bernardo chamou.

A porta do elevador começou a fechar novamente.

E Ane me olhou por um segundo antes de simplesmente entrar.

Me deixando ali.

Sozinha com ele.

Fechei os olhos rapidamente antes de respirar fundo.

— Chega, Bernardo.

Ele passou a mão pelo rosto, claramente exausto.

— Você não está me ouvindo.

— Você mesmo disse que certas coisas não se resolvem magicamente de um dia pro outro.

— Mas você entendeu errado.

Soltei uma risada fraca.

— Não. Eu entendi perfeitamente.

Ele me observava em silêncio.

E pela primeira vez naquele dia, senti vontade de chorar.

— Eu também entendi que fui idiota. — falei baixo. — Eu insisti nisso sabendo que podia dar errado.

Minha voz começou a falhar aos poucos.

— Eu tinha quase certeza de que isso acabaria mal… mas mesmo assim eu quis acreditar em você.

O olhar dele mudou imediatamente.

Mais dolorido.

Mais desesperado.

— Beca…

— Eu me abri pra você. — continuei. — Abri minha casa, minha vida… meu coração.

O silêncio entre nós parecia sufocante.

— Foi só um final de semana. — falei sorrindo sem humor. — E mesmo assim foi suficiente pra me fazer acreditar que talvez eu ainda pudesse sonhar com alguma coisa.

Ele deu um passo na minha direção.

— Não fala assim.

Balancei a cabeça.

— Não tem como isso dar certo. De verdade. Segue meu conselho… é melhor pra nós dois.

Virei para apertar o botão do elevador.

Mas antes que as portas abrissem, ele falou:

— Você não quer me ouvir?

Fechei os olhos.

— O que você vai dizer? — perguntei cansada. — Que não é isso? Que ela não aceitou o fim? Que ela ainda insiste?

Ele ficou em silêncio por um segundo.

Um segundo longo demais.

Então falou baixo:

— Ela disse que está grávida.

O mundo inteiro parou.

Senti o chão desaparecer sob meus pés.

Meu corpo gelou.

E justamente naquele instante, as portas do elevador se abriram.

Minha única salvação.