Até você voltar

24 Ciúmes Discretos


A noite foi marcada por olhares, brindes, risadas, música e conversas espalhadas por todos os cantos do salão. Pela primeira vez em muito tempo, eu não estava preocupada com o que as pessoas pensavam de mim. Apenas aproveitava o momento.

Também aproveitei para tirar algumas fotos. Fazia tempo que eu não me sentia bonita o suficiente para querer registrar uma noite.

Enquanto escolhia um lugar mais iluminado para outra foto, ouvi alguém me chamar.

— Nossa, Beca. Como você está linda. — disse um colega de outro setor, aproximando-se com um sorriso.

— Obrigada. — respondi.

Ele me olhou por alguns segundos.

— Adorei seu vestido. Combinou muito com você.

Sorri, um pouco sem jeito.

— Obrigada. Fiquei meio insegura na hora de escolher.

— Insegura? Não tinha motivo nenhum. Você está maravilhosa.

Enquanto falava, colocou a mão de leve no meu braço.

Foi um gesto simples.

Mas senti um arrepio.

Não pelo toque dele.

E sim porque, quase automaticamente, meus olhos procuraram Bernardo.

Ele estava do outro lado do salão, conversando com alguns diretores.

Ou pelo menos era isso que parecia.

Porque seus olhos estavam em mim.

E, especificamente, na mão do rapaz sobre o meu braço.

Desviei o olhar rapidamente.

— Você quer uma bebida? — perguntou o colega.

Balancei a cabeça.

— Estou dirigindo.

— Então um refrigerante?

— Pode ser.

Ele sorriu e fez um sinal para um garçom.

Continuei conversando com ele sobre assuntos aleatórios da empresa, sobre as metas do próximo ano e sobre como aquela festa estava muito melhor do que a do ano anterior.

Mas, por mais que tentasse prestar atenção na conversa, eu sentia o olhar de Bernardo.

Era impossível ignorá-lo.

Por alguns segundos, perdi-o de vista.

Imaginei que tivesse voltado para o grupo dos diretores.

Até que ouvi sua voz bem perto.

— Então vocês resolveram falar de trabalho até na confraternização?

Levantei os olhos.

Bernardo estava ao nosso lado.

Sorrindo.

Educado.

Natural.

O colega imediatamente se virou para cumprimentá-lo.

— Bernardo! Estava elogiando a organização da festa.

— Ficou muito boa mesmo. — respondeu ele.

Os dois começaram a conversar.

Assuntos completamente comuns.

Resultados da empresa.

Projetos do próximo semestre.

Metas.

Eu observava a cena tentando não rir.

Porque conhecia Bernardo o suficiente para perceber o que ninguém mais percebia.

Ele não tinha vindo conversar.

Ele tinha vindo interromper.

E aquilo era absurdamente engraçado.

Esperei alguns minutos antes de interromper.

— Peço licença, meninos.

Os dois olharam para mim.

— Vou procurar a Ane.

Bernardo apenas assentiu, mantendo a postura impecável de gestor.

Mas, antes que eu me afastasse completamente, nossos olhares se encontraram.

Havia um pedido silencioso ali.

"Não demora."

Sorri discretamente antes de seguir meu caminho.

— Beca!

Virei a cabeça.

Ane fazia sinal perto das mesas do jardim.

— Vem cá!

Sentei ao lado dela.

A música estava um pouco mais alta naquela parte da festa, mas ainda era possível conversar.

— Você está aproveitando? — ela perguntou.

— Muito.

Ela deu uma olhada ao redor.

— Essa festa superou minhas expectativas.

— Também achei.

Ficamos observando as pessoas dançando.

Alguns já estavam claramente mais animados por causa da bebida.

Outros apenas aproveitavam a música.

— Você reparou como os homens resolveram aparecer elegantes hoje? — comentou Ane.

Ri.

— Parece que todos descobriram a alfaiataria ao mesmo tempo.

Ela concordou.

— Tem uns que eu nem reconheci.

Começamos a comentar, em tom de brincadeira, sobre os ternos, as gravatas e os estilos de alguns colegas.

Até que, inevitavelmente, o assunto chegou nele.

— Mas preciso admitir... — Ane disse, inclinando a cabeça. — O Bernardo sempre ganha.

Tentei disfarçar.

— Ganha o quê?

— Elegância.

Olhei discretamente para ele, do outro lado do salão.

O terno azul-marinho parecia ter sido feito sob medida. As mangas deixavam aparecer parte do relógio, a barba estava aparada e o cabelo cuidadosamente arrumado.

Era impossível negar.

Ele realmente se vestia muito bem.

— Ele sempre foi muito alinhado. — comentei, tentando parecer indiferente.

Ane me lançou um olhar divertido.

— "Alinhado" é um jeito muito profissional de dizer que ele é bonito.

Ri.

— Você não perde uma oportunidade, né?

— Eu só falo a verdade.

Fiquei em silêncio por alguns instantes.

Então, sem perceber, voltei a olhar para Bernardo.

No mesmo instante, ele também olhou para mim.

Dessa vez, não desviou imediatamente.

Sustentou meu olhar por alguns segundos.

E então, bem discretamente, ergueu uma sobrancelha, como se perguntasse à distância:

"Está tudo bem?"

Sorri de leve e fiz um movimento quase imperceptível com a cabeça, confirmando que sim.

— Meu Deus... — Ane murmurou ao meu lado.

Olhei para ela.

— O quê?

Ela cruzou os braços e deu uma risada baixa.

— Vocês dois acham mesmo que ninguém percebe essas conversinhas silenciosas?

Senti meu rosto esquentar.

— Que conversinhas?

— Beca...

Ela balançou a cabeça, divertida.

— Vocês não falam uma palavra. Mas vivem se procurando no meio do salão. Quando um olha, o outro já está olhando também.

Fiquei sem resposta.

Talvez porque ela estivesse certa.

Antes mesmo que eu pudesse mudar de assunto, a banda anunciou a próxima música. O ritmo era mais lento, e alguns casais começaram a caminhar em direção à pista de dança.

Olhei para Bernardo quase por instinto.

Ele conversava com um dos diretores, mas, ao ouvir a música, seus olhos voltaram para mim.

E, mesmo sem dizer uma única palavra, tive a estranha sensação de que ele queria fazer exatamente a mesma pergunta que eu estava pensando.

"Será que, por alguns minutos, poderíamos deixar de ser chefe e funcionária e sermos apenas nós dois?"

Em alguns momentos, me sinto de volta ao ensino médio, vivendo um romance escondido.

É uma sensação estranha.

Como se qualquer olhar pudesse nos denunciar. Como se um simples sorriso na hora errada fosse suficiente para que alguém descobrisse tudo.

Às vezes acho engraçado. Outras vezes, cansativo.

Nunca imaginei que, aos vinte e tantos anos, estaria escondendo mensagens no celular, esperando alguns minutos para sair da empresa depois dele ou fingindo que nossos olhares eram apenas coincidência.

Mas, ao mesmo tempo, havia algo bonito nisso.

Não pelo fato de precisarmos esconder.

E sim porque, mesmo em silêncio, a gente encontrava um jeito de se escolher.

Um olhar atravessando o salão.

Um sorriso discreto.

Um toque rápido nas mãos durante um cumprimento.

Pequenos gestos que, para qualquer outra pessoa, não significavam nada.

Para mim, significavam tudo.

Talvez fosse justamente isso que tornasse nossa história tão diferente da que vivi com Derick.

Antes, eu precisava implorar por atenção.

Agora, bastava um olhar de Bernardo para eu me sentir vista.

E era curioso perceber que, mesmo sem poder demonstrar nosso carinho diante de todos, eu nunca havia me sentido tão segura dentro de uma relação.

Havia paz.

E, depois de tantos anos confundindo intensidade com amor, eu começava a descobrir que o amor também podia ser silencioso. E que, às vezes, era justamente no silêncio que ele se revelava com mais força.