Não sei muito bem o que se passou depois que eu deixei escapar que eles iam embora sem nem ter certeza se todos iam ou era apenas o Giovanni, mas no fim as coisas deram certo e as duas estavam quase em pé de namoro. Não eram raras as vezes que eu ouvia alguma piada em relação ao Gio, mas pelo teor delas, não parecia que elas soubessem do nosso beijo e eu agradecia muito por isso.

—Porque você não dá uma chance para o Gio? — Perguntou Bia enquanto fazíamos um exercício de Fonética e Fonologia juntas.

—Ele é meio... estranho. — Respondi sem bem prestar atenção na conversa, aquele assunto já estava cansativo.

—Estranho? Anna! — Ela tirou o lápis da minha mão quando viu que eu não estava dando importância ao que para ela era mais importante que a aula. -Ele está louco por você, não enxerga isso?

Respirei fundo antes de responder o que eu esperava que fosse pela última vez.

—Eu não estou afim de namorar agora e, sejamos sinceras, ele nem faz o meu tipo, vocês duas sabem disso, então parem de ficar jogando ele pra cima de mim.

—Você ainda tem esperanças de reconquistar o Alexandre, não é? — Apenas desviei o olhar sem responder, mas isso me entregou. -Você vai se arrepender.

A voz de Bia me pareceu um tanto quanto sombria ao dizer aquilo, mas ela me deixou em paz depois. Apesar disso, era eu que não me sentia mais em paz. Será que ela estava certa?

Voltei para casa pensando naquelas palavras. Alexander havia me magoado muito inventando várias mentiras, mas eu ainda esperava que ele voltasse correndo e arrependido. Não ia acontecer e no fundo eu sabia. Será que já não era a hora de seguir em frente e tentar de novo? Pedi a Deus por um sinal, estava tão machucada que só algo muito forte para me convencer de arriscar.
Estava quase chegando em casa quando meu celular vibrou. Fazia algum tempo que não trocávamos mensagens e agora Gio mandava uma.

"Chegou bem em casa?"

Era comum que ele me mandasse essa mensagem toda noite, preocupado com meu bem estar. Sorri com a lembrança antes de responder.

"Quase chegando. Estava pensando em você, quando podemos nos ver?"

Ele não respondeu imediatamente e guardei o celular para descer no ponto e ir andando até em casa. Assim que entrei corri para ver a resposta, mas depois me arrependi, era preferível não ter me precipitado tanto em olhar. Aquela sensação de ter recebido o sinal que pedi poderia ter durado mais.

"Acho melhor não, Anna. Estou com alguém."

Simples assim. Como se nem fossemos amigos. Meu coração doeu com aquilo e tive vontade de chorar, mas me agarrei ao fato de que ele realmente não fazia o meu tipo, eu poderia encontrar alguém melhor, não poderia?

"É uma pena, mas fico feliz por você."

E aquela carinha sorrindo que não condizia em nada com o que eu estava sentindo.

Só consegui dormir muito tempo depois de derramar minhas lágrimas no travesseiro por um amor que eu nunca planejei e que nunca se tornou real, mas eu estava machucada, ele não dizia gostar tanto de mim? Como conseguiu me trocar tão fácil e tão rápido? Aquelas perguntar não importavam mais.

Quando cheguei na faculdade no dia seguinte, Bia me agarrou logo pelo braço.

—Você está com cara de choro, espero que não tenha mandado mensagem para aquele babaca de novo.

Puxei meu braço e ela me olhou assustada, sem entender.

—Não, mandei mensagem para o Giovanni, graças aos seus conselhos de merda.

Bia cobriu a boca com as mãos, visivelmente surpresa é culpada, mas apenas balancei a cabeça negativamente e dei as costas para ela, indo para uma aula que eu tinha certeza que não conseguiria prestar atenção. Não era preciso dizer nada, ela entenderia o recado.

Era incrível como até quando eu não procurava, acabava sofrendo por amor, já fazia parte da minha rotina. E Carol e Bia, sabendo disso, não deveriam me incentivar tanto. O que eu achava mais estranho era elas estarem tão próximas dos amigos dele e não saberem do mais recente relacionamento dele. Mas tudo bem, às vezes não era culpa delas mesmo, eu só procurava alguém para culpar que não fosse eu.

Demorei demais. Por quanto tempo ele ficou me pedindo em namoro e eu não aceitei? Realmente era muita pretensão minha acreditar que ele continuaria insistindo até que eu me rendesse, afinal, ele era homem, tinha suas necessidades.

Dessa vez eu não tinha qualquer motivo para sofrer, era um destino que eu mesma havia escolhido. Quantas vezes dei atenção ao que ele tinha para dizer? Sem contar nos últimos tempos que me afastei sem qualquer motivo aparente e não dei qualquer satisfação. Mesmo depois de beija-lo continuei negando qualquer coisa que sentia por ele. E tudo isso com que propósito? Até minhas amigas nos apoiavam!

Aquele sentimento de frustração me acompanhou por muitas semanas, a dor eu sabia que ainda me acompanharia por um bom tempo, mas eu precisava deixar para lá, dessa vez pelo menos eu não tinha me declarado, era muito pior ter os sentimentos esmagados tão claramente. Dessa vez não parei de conversar com ele, era tão bom amigo e eu me divertia tanto que ficou difícil me afastar mais uma vez. Até que um dia fui surpreendida.

"Preciso conversar com alguém, pode me encontrar 12h em algum lugar?"

Ainda era início de uma manhã de domingo, mandei uma resposta afirmativa e comecei a me preparar psicologicamente para encontrar com ele mais uma vez. Como seria? O que diríamos? Quais sentimentos ele é capaz de despertar em mim depois de tudo? Poucas horas me afastavam das respostas para todos os meus questionamentos.

Arrumei-me o mais discretamente possível, para que ele não pensasse que eu queria me aproveitar da situação, muito pelo contrário, estava preocupada com ele, afinal, tinha sido uma mensagem séria, sem qualquer emoji ou riso. E quando alguém diz a palavra "conversar" a gente já se preocupa instantaneamente.

Assim que o vi, o sorriso dele não me pareceu tão animado, que era o que eu já imaginava devido ao tom da mensagem, mas era também meu maior receio. Ele me abraçou rapidamente e me indicou umas pedras ali perto para sentarmos um de frente para o outro.

Estávamos no meu lugar favorito do mundo, debaixo da ponte da cidade, cartão postal do estado. Ventava bastante e onde estávamos sentados podíamos sentir pequenas gostas de água salgada quando o mar batia nas pedras. Ele demorou um pouco para falar e eu estava constrangida demais para incentiva-lo.

—Posso confiar em você? — Perguntou depois de alguns instantes.

—É claro.

Sentir a mão dele no meu joelho fez meu corpo inteiro esquentar, ainda que eu usasse jeans. Comecei a criar um pouco de esperanças em relação ao que ele tinha a dizer, mas logo vi que estava equivocada.

—Eu engravidei uma mulher. — Disse de uma só vez encarando suas mãos que permaneciam pousadas nos meus joelhos.

Fiquei quase sem ar. Precisei de alguns minutos (ou horas?), apenas tentando absorver aquelas palavras, enquanto ele me olhava com medo nos olhos. Medo de ser julgado. O que ele esperava que eu fizesse com aquela informação? "Engravidei uma mulher" não parava de passar em um letreiro neon piscante na minha cabeça e, como boa estudante de Letras, "mulher" e "uma" foram palavras que me chamaram atenção.

Alguma vez ele havia me chamado de mulher? Acreditava que nunca, sempre fui a "garota linda" ou "menina maravilhosa". Nunca mulher. Ela sim era mulher, alguém que cuidava dele. Alguém que tinha seu próprio emprego, pagava suas contas e não dependia de ninguém. Eu era apenas uma garota fazendo faculdade e sendo sustentada pelos pais. Era por isso que ela que era a namorada e não eu.

Porém ainda tinha o "uma", artigo de indeterminação do sujeito. Não era A mulher, era apenas UMA mulher. Uma mulher qualquer? Ou apenas uma escolha de palavras errada para combinar com o erro dele?

—Como assim você engravidou uma mulher? — Ainda estava um pouco incrédula, sem acreditar que aquelas palavras fossem verdadeiras, não podiam ser.

—Você não quer que eu te explique isso né? — Respondeu de forma irônica e eu apenas revirei os olhos. -Você sabe, estava com ela, estávamos tendo um tipo de... relacionamento. E aí aconteceu.

Silêncio mais uma vez. Eu não sabia o que dizer. E ele também parecia não saber mais o que dizer para me fazer entender que aquele não era exatamente o X da questão. Ele estava perdido.

Era jovem, acabava de começar a vida e já se deparava com uma questão tão grande. E ele não era nenhum filho da puta para simplesmente ignorar um filho e ir correr atrás da sua carreira e seguir com a sua vida. Ele era bom demais pra isso.

—Ai, eu não sei, Gio, você gosta dela? — No fundo aquela era mais uma curiosidade minha do que uma pesquisa para dar um bom conselho. Eu tinha um pouco de medo da resposta, mas era a hora de saber.

—Não, não é ela que eu quero e você sabe disso. — Ele me olhou sério, como se em toda essa conversar, era a primeira coisa que dizia sobre a qual tinha total certeza.

Abaixei o olhar sem conseguir encará-lo. Os sentimentos egoístas que existiam em mim afloraram. Ele não podia largar tudo pra se preocupar e cuidar dessa criança. Não podia comprometer todo o seu futuro por causa de um erro. Um erro meu em não perceber certas coisas antes. Ele nem amava essa mulher, que tipo de lar essa criança teria? Que tipo de amor ele seria capaz de dar a uma criança filha de uma pessoa pela qual ele não sentia nada? Mas quem era eu pra dizer isso tudo pra ele?

—Você sabe que eu vou te apoiar no que quer que você escolha. -Foi só o que eu disse.

A escolha era dele, a vida era dele e o filho era dele. Mas o primeiro erro era meu e eu iria conviver com isso pelo resto da vida sempre que olhasse para um filho dele com outra mulher.

—Queria que fosse você. -disse ele em um tom de voz muito baixo, quase como se sentisse vergonha e também como se estivesse lendo meus pensamentos. Eu também queria, não queria?

Ri para disfarçar o meu nervosismo e a minha falta de convicção em apoiar ele em qualquer que fosse sua decisão.

—Eu não, sai pra lá. Vida financeira estável na veia, filhos na cadeia. -Ele riu da minha brincadeira, mas seu sorriso não chegou aos olhos.