Até quarta-feira de cinzas...
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que curtam!
"Esse ano não vai ser igual aquele que passou..."
Marina bufou sentando num banco da praça mais próxima. Carnaval, de novo! Quem foi que inventou essa bosta de data comemorativa?
Rio de Janeiro estava um caos, a cidade paralisava, quase ninguém trabalhava, impossível andar de metrô e aquele sol de 40°C com sensação térmica de 50°C debaixo da cabeça. Como se já não fosse ruim morar numa cidade que nem inverno tivesse direito.
Ainda era cedo e a rua lotada. "Porcaria de bloco". Sério, nove horas da manhã? Quem sai de casa em pleno "feriado" para estar andando junto a um bando de gente suada atras de um carro de som?
Não, não fazia sentido para ela, mas Luísa havia dormido em sua casa no dia anterior pela "facilidade de pegar o metrô", todos os seus amigos estavam lá e claro, Luísa havia a arrastado e a obrigado a vestir uma "fantasia" de gato que havia ficado jogada num canto carnaval passado.
A menina bufou novamente, carnaval passado não trazia boas lembranças a ela. Pela primeira vez na vida, Marina estava empilhada com o carnaval. Estava namorando Lucas e ir com ele significava que pela primeira vez na vida poderia curtir a folia da maneira mais carioca possível sem ter homens bêbados ao seu redor a assediando.
"Aquela fantasia que comprei ficou guardada, a sua também, ficou pendurada..."
Luísa tinha feito mil planos, mapeado todos os blocos, visto as promoções de bebidas no mercado e todo o grupo de amigos estava animado, até mesmo Marina. Nunca tivera uma experiência dessas e pensou que com Lucas ao seu lado, tudo melhoraria.
Doce engano.
Uma semana antes daquele carnaval em que pensava, Marina comprou sua fantasia e a de Lucas. Ela iria de gata e ele de pirata. E então Lucas começou a reclamar do comprimento da saia, do decote da blusa e até mesmo do fofíssimo rabo branco que estava pendurado na saia. A discussão perdurou dias, até ela aceitar que Lucas tinha razão e mudado de fantasia para a que ele queria.
Ela já não se lembrava sobre o que era, mas sabia que a dele combinava, "assim vão saber que você está comigo" e toda a sua experiência de carnaval foi um fracasso. Ele não aceitava nenhum cara sequer tocando em seu braço, ela não podia cumprimentar nem amigo direito sem que ele reclamasse, ficava o tempo inteiro reclamando da multidão, do calor e do transporte público.
Depois de dois dias, ela havia desistido e Lucas nem sequer havia tocado na fantasia de pirata.
"Esse ano, meu bem, tá combinado. Nós vamos passar separado."
—Ora, Marina, deixa de ser chata. — falou Bruno um dos seus amigos- vem se divertir com a gente — ele abriu um sorriso e balançou a cabeça fazendo suas antenas de abelha balançarem. Marina não pode deixar de rir, Bruno tinha 1,80m de altura, sua fantasia de abelha estava hilária e ele tinha até um ferrão. -Deixa de ser uma gatinha mal-humorada, ou vai ter que ouvir reclamações de Luísa pelo resto da vida.
—Bruno- ela disse com um sorriso no rosto -Não estou no clima, sabe que eu não nasci pra ser carioca desse jeito.
—Tudo bem, tudo bem, srta. "Não nasci pra ser carioca", lembrarei disso a próxima vez que você estiver tomando mate com limão enquanto come biscoito globo na praia.
—Pare de ser chato, não precisa ser carioca para saber que essa é a melhor combinação do mundo! Volte para seu bloco e divirta-se, apenas me avisem quando estiverem voltando no metrô, ficarei aqui onde tenho um banco e sombra disponível.
—Certo, mas saiba que não se livrará de Luísa tão fácil... — Bruno falou, deu um abraço na amiga e foi embora.
É, ela teria que lidar com Luísa mais tarde, talvez até mesmo com Carol, mas será que era tão difícil delas entenderem que a experiência de carnaval dela não era nada boa? Bufou novamente, seus amigos sabiam ser chatos quando queriam.
—Vim ver como você estava — surgiu a voz de Felipe cerca de vinte minutos depois.
—Deixa eu adivinhar, Luísa está inconformada? — Marina perguntou ao amigo com a sobrancelha arqueada.
—É, ela está. Quer você de volta porque segundo ela tem "um trio de boymagia" por perto e ela precisa de você e da Carol para conseguir algo com um deles. — ele falou com uma cara de incomodado, não era segredo pra ninguém que ele era apaixonado pela Carol a uns três anos, quer dizer, era pra própria Carol. Ele se incomodava quando via ela ficando com qualquer outro garoto.
—Fale pra Luísa que eu dispenso, na verdade, eu só queria estar em casa. — menina falou abaixando a cabeça e retirando as orelhas de gato.
—Olha, eu também não sou muito fã dessa história de sair ficando com qualquer um — disse Felipe retirando as orelhas de gato da mão da amiga e colocando em sua cabeça de novo. -Mas acho que você deveria esquecer aquele imbecil do Lucas e se divertir com a gente. Eu e Bruno não vamos permitir que ninguém chegue perto de você, prometo.
—Obrigada, Lipe, mas me deixe sozinha mais um pouco, ok? Só tem uma semana que isso tudo aconteceu.
—Ó o picolé! O melhor picolé da cidade por apenas dois reais! — passou o vendedor ambulante gritando -Menina bonita não paga, mas também não leva. O melhor picolé do bloco de hoje!
Felipe se levantou sacando uma nota de cinco reais do bolso, comprou dois picolés e guardou seu troco.
—Bom, não posso convencê-la a sair daqui e posso deixar seu recado para Luísa, mas aceite um picolé, sei que manga é seu sabor favorito. — ele disse estendendo a embalagem amarela pra ela enquanto ele abria a sua verde sabor limão. -Só te peço que não deixe de fazer as coisas por um babaca daqueles.
—Obrigada- a menina murmurou e Felipe se despediu deixando-lhe um beijo da testa grudento de picolé.
Sim, havia uma semana que ela e Lucas haviam terminado depois de mais de um ano de namoro, motivo da briga? Carnaval passado.
Claro que ele havia ouvido Luísa fazendo planos pro próximo carnaval e mesmo com a experiência ruim do ano anterior, ela estava disposta a sair de novo com os amigos, mas dessa vez, ele foi pior. Reclamou que ela ligava mais para eles do que pra ele que era seu namorado, reclamou que ela estava desperdiçando a chance de passar mais tempo com ele, que ela usaria aquela fantasia ridiculamente curta que ela havia comprado ano passado. Obviamente ela se irritou. Aquela cobrança com tamanhos de roupa e dedicação exclusiva já estava cansando ela, já havia aguentado aquilo por tempo demais, por mais que doesse, ela dispensou ele.
Não sem antes ter sido chamada de todos os nomes ruins que você possa imaginar. Não sem antes ele dizer que ela apenas estava fazendo aquilo para "passar o rodo em geral durante o carnaval", que ela se arrependeria de ter dispensado um amor verdadeiro, recebendo uma ligação dele por dia dizendo que ela ainda poderia voltar se quisesse já que ele era a melhor coisa do mundo para ele.
Acabou que ele conseguiu o que queria, ela estava ali mal em pleno carnaval. Abriu um pequeno sorriso ao constatar que graças a insistência da amiga, finalmente usava sua belíssima fantasia de gato.
—Se perdeu do seu grupo ou apenas está fugindo dele? — perguntou um menino de cabelos castanhos sentando ao lado dela no banco. Vestia-se de maneira estranha para estar perto de um bloco de carnaval, não que as pessoas se vestissem normais durante o carnaval, contudo, era atípico alguém estar vestido calça jeans escuras e uma camisa do Metallica no meio do bloco.
—Fugindo enquanto aprecio esse delicioso picolé e você?
—Fugindo também. Me diz como as pessoas conseguem gostar disso?
—Talvez seja divertido quando se está com seus amigos e no clima de festejar, mas esse não é meu caso, preferia estar em casa assistindo Netflix no ar condicionado e comendo sorvete.
—Pelo menos você está comendo sorvete aqui. — o menino disse arrancando um riso fraco da menina. -A propósito, me chamo Henrique, e você?
—Marina, prazer. — ela disse estendendo a mão — Então me conte Henrique, o que te fez parar num bloco em Botafogo?
—Talvez o mesmo que você, amigos doidos. — ele disse bufando -Tem duas semanas que descobri que minha ex namorada me trai a seis meses, então meus amigos loucos acharam que seria uma ideia excelente afogar as mágoas pegando a primeira que visse pela frente durante o carnaval. — ele disse bufando e Marina riu, então os dois estavam juntos naquela tragédia. -Do que está rindo? — ele perguntou confuso
—É, estamos em situação parecida, terminei com meu namorado tem uma semana e ele mesmo disse que era porque eu queria pegar todo mundo nesse carnaval. Claro, pegar todo mundo significa pegar um picolé de manga. — dessa vez quem riu foi Henrique.
—MARINA! — a menina tomou um susto ao ouvir a voz da melhor amiga — Eu não acredito que em pleno Carnaval você ficará aí sentada num banco fazendo nada! Venha mostrar pro mundo sua fantas... — Luísa interrompeu o que estava falando ao notar a presença de Henrique, mudando sua expressão irritada para uma expressão maliciosa. -Tudo bem, conversamos mais tarde. — ela disse virando de costas e voltando para a movimentação da rua.
—Sua amiga louca? — perguntou Henrique e Marina assentiu envergonhada -Ela vai achar que estamos ficando...
—Isso é realmente chato, como se ela mesma não tivesse amigos homens. — Marina parecia falar mais para si mesma do que pro menino ao seu lado -Bem, deixe eu ir atrás dela antes que começar a espalhar besteiras pro resto do grupo. Prazer em conhecê-lo, Henrique.
—Boa sorte pra você, Marina — ele disse e ambos já esperavam nunca mais se encontrarem.
"Se acaso meu bloco encontrar o seu..."
"Pelo menos esse era a tarde", Marina pensou enquanto olhava para cima "Acho que nunca vi o Cristo tão de perto".
Eles estavam num bloco em Cosme Velho, bairro do Rio de Janeiro onde se encontra o Cristo Redentor. Raras foram as vezes em que Marina havia visitado o bairro, mas Luísa havia decidido que aquele seria o bloco do dia, e ninguém discute com Luísa.
Aquele bloco era mais familiar do que o outro, várias crianças fantasiadas e até idosos curtindo o carnaval da cidade, Marina se sentia mais leve, os assédios nesses blocos eram menores. Relaxou, acabou aceitando a bebida vermelha que Carol havia comprado e depois de duas latinhas, ela se sentia alterada, contudo estava feliz. Hoje ela estava vestida de branco como um anjinho, ideia de Luísa, e aquelas asas tinham a capacidade de bater em todo mundo.
—Preciso ir ao banheiro, me esperem aqui — disse Carol seguindo em direção aos banheiros químicos que existiam na calçada. Marina olhou para a lata vermelha em sua mão onde o conteúdo também vermelho já havia acabado.
—Enquanto vocês esperam aqui, vou jogar isso no lixo. — disse a menina e logo foi a procura dos raros lixos na rua. "Como a prefeitura não percebe a falta de lixo nessa cidade? Ainda mais no carnaval, me recuso a jogar lixo no chão.", a protagonista pensou. Então seus olhos focalizaram a indiscutível cor laranja das lixeiras da cidade, abriu um leve sorriso que logo sumiu com a vista a sua esquerda. Sua visão panorâmica percebeu que havia algo conhecido e ela dirigiu seu olhar ali.
Tinha sido como se a menina tivesse levado um tiro no peito. Ao lado da lixeira, lá estava ele com aquela blusa cinza que praticamente não sai do corpo, Marina nunca gostou daquela blusa, mas isso não importava. O que importava era a garota vestida de vermelho que estava nos braços de Lucas. Por uma coincidência infeliz, sua fantasia era exatamente o oposto de Marina e os dois estavam aos beijos.
A menina amassou a latinha que estava em suas mãos, jogou o mais rápido possível no lixo e correu. Oras, logo hoje que ela estava bem? Quão hipócrita era aquele garoto de ter gritado com ela dizendo que ela queria apenas pegar geral no carnaval enquanto ele quem estava fazendo isso?
"Não tem problema, ninguém morreu"
E como se nada não pudesse piorar, a anjinha tropeça em uma lata de cerveja e cai em cima de um estranho. Certo, aquele devia ser algum carma por ter ido procurar um lixo naquela cidade. Se separa do grupo pra jogar o lixo fora, encontra seu ex aos beijos com uma garota vestindo uma fantasia justamente o oposto da sua e então tropeça numa latinha de cerveja de alguém que não teve a menor paciência de procurar uma lixeira assim como essa.
O que Lucas estava fazendo justamente naquele bloco? Tantos blocos em tantos bairros do Rio de Janeiro!
—Desculpe- a menina murmurou para o estranho que a havia amparado.
—Ei, eu conheço você — disse a voz masculina conhecida — Você é a menina do picolé de manga que estava na praça em Botafogo ontem.
Henrique, claro. Mais de 6 milhões de carioca e ela cai justamente nele. Não era possível, o universo estava conspirando contra ela.
—Quanta coincidência! — ele falou sorrindo, e hoje até ele estava vestido de pirata. -Tudo bem com você? Por que estava correndo?
—Tive uns problemas, agora preciso achar meus amigos — falou a menina envergonhada
—Eu te levo até eles, não vou deixar uma menina andando no bloco sozinha.
—Eles não estão longe. – a menina refutou, ora, eles só conversaram por meia hora no dia anterior, ela não precisava dele.
—Coisas estranhas acontecem no meio dos blocos, anjinha, vou com você. Vini! – ele chamou o amigo moreno que estava perto. – Vou ajudar essa menina a encontrar seu grupo, já volto, ok? – Vini concordou abrindo um sorriso malicioso para os dois, riu e virou de costas indo falar com o menino loiro.
—Já falei que não precisa. – disse Marina irritada, odiava quando supunham que ela e alguém estavam juntos.
—Não ligue pra ele, Vinicius faria aquela cara mesmo que eu estivesse com meu cachorro. Acho que ele precisa de uma namorada. – disse Henrique pensativo.
—E eu não preciso de uma babá – bufou Marina irritada.
—Se não precisa, por que estava correndo daquela maneira? Além de estar tropeçando a cada cinco passos. Você tá bêbada? – perguntou o menino
—Talvez um pouco alta – admitiu a menina – Mas você não tem nada a ver com a minha vida.
—Certo, posso não ter nada haver, mas coincidentemente nos encontramos num bloco em um outro bairro de novo, além de você estar bêbada e afastada do grupo, acho que você precisa de ajuda.
—EU NÃO PRECISO DE AJUDA PRA LIDAR COM MEUS SENTIMENTOS SOBRE AQUELE GAROTO RIDICULO! – Marina gritou alterada fazendo Henrique se assustar – DISSE QUE EU ERA ERRADA POR PENSAR QUE TERMINEI COM ELE PRA PEGAR GERAL NO CARNAVAL, E AGORA TA LÁ COM AQUELA DIABINHA OXIGENADA!
—Pera, para Marina, respira. Você viu seu ex ficando com uma outra menina? – Henrique parou e segurou a menina nos ombros, contemplando seu par de olhos castanhos. Ela começou a chorar e abraçou nele. Então era sinal positivo para o que ele havia perguntado. Qual é a chance de em pleno carnaval do Rio de Janeiro encontrar seu ex namorado se agarrando com outra? Ele não sabia, mas estava com pena da menina que havia conhecido no dia anterior.
Ela precisava sentar e se acalmar, talvez comer um doce ou coisa assim. Meninas gostavam de comer chocolate nessas horas.
—Vem comigo. – o menino falou se afastando dela e segurando sua mão. – Te levarei para uma padaria aqui perto.
—Mas, mas... O pessoal está esperando por mim. – ela disse ainda desorientada.
—Você sabe o número de algum deles que está com celular? – a menina confirmou com a cabeça. –Certo, ligarei para essa pessoa quando chegarmos a padaria.
Assim que chegaram na padaria, Henrique ligou pra Luísa avisando sobre o paradeiro da amiga. Obviamente, Luísa deu um gritinho e disse que logo o grupo iria para lá. O garoto também enviou uma mensagem para os amigos dizendo onde estava.
Enquanto os amigos de Luísa não chegavam, Henrique comprou para a menina um pedaço de torta de chocolate e um café expresso, isso deveria melhorar a embriaguez dela. Marina ficou quieta por todo o tempo, apenas soltou um pequeno agradecimento ao garoto desconhecido que a ajudava. “Gentileza gera gentileza” dizia a pintura do muro perto da casa dela, ela sabia que agora estava em dívida.
Os amigos dela logo chegaram e Bruno deu uma bela encarada para cima de Henrique. Ele considerava Marina uma irmã mais nova e adorava intimidar os garotos que se aproximava dela, principalmente por ser tão alto. Algumas pessoas questionavam se ele não tinha sentimentos românticos por ela, entretanto, os dois apenas se viam como bons amigos mesmo que ninguém acreditasse que uma amizade entre um homem e uma mulher pudesse existir sem que uma atração física acontecesse.
—Obrigada – falou Luísa a Henrique quando todos já estavam saindo da padaria. – Ela não estava tão mal quando foi jogar a latinha no lixo, mas acho que encontrar Lucas fez tudo desandar. – ela respirou fundo antes de continuar. – Marina ainda não percebeu que se livrou de um relacionamento abusivo, ele falou muita merda para ela antes dela romper de vez, então a autoestima dela não está das melhores.
—Ela vai superar isso. – falou Henrique – Conheci Marina ontem no bloco, mas dá pra ver que ela é teimosa e decidida.
—Você não faz nem ideia do quanto. Nós nunca entendemos como ela foi parar naquele relacionamento, mas nem como ele durou tanto tempo. Apenas respeitamos o que ela queria, porém me arrependo de nunca ter tido coragem para interferir. – Luísa falou abaixando os olhos. – Bom, acho que isso fez você se separar do seu grupo, ou você está sozinho?
—Eu estava com meu grupo, não sei mais onde eles estão, mas creio que já foram embora. Não se preocupe. – ele disse ao ver a expressão no rosto da menina. –Só pegar o metrô que estarei em casa.
—Bom, estamos indo pegar o metrô para a Saens Pena, se quiser ir com a gente... – ela ofereceu.
—Ótimo, eu estou indo para a Uruguai de qualquer maneira.
“São três dias de folia e brincadeira...”
Depois do ocorrido, nunca mais o grupo encontrou alguém conhecido acidentalmente nos blocos. Foram em vários desde aquele que tocava apenas músicas dos Beatles até o que tocava o novo funk do momento. Marina ainda estava chateada por conta de Lucas, contudo passou a seguir os amigos nos blocos. Luísa havia salvo o número de Henrique caso a amiga quisesse falar com ele após o carnaval, mas no momento, não tocou no assunto.
Apesar do calor, suor e cansaço e do fato de não gostar de samba, Marina estava encantada por ter andado por tantos pontos novos na cidade. Era incrível o quanto o Rio de Janeiro era uma cidade plural e o quantos os próprios cariocas a desconhece.
“Você pra lá e eu pra cá, até quarta-feira”
A quarta-feira de cinzas havia chegado. Os blocos na cidade não haviam acabado, afinal, os blocos no Rio de Janeiro permanecem por bem mais tempo do que o carnaval é estipulado, mas os pais de Marina haviam voltado de viagem e ela estava almoçando com eles enquanto a televisão da sala anunciava as notas do desfile das escolas de samba.
O interfone tocou e a mãe de Marina atendeu. Com certo desgosto em sua voz, disse a filha para que ela descesse pois tinha alguém querendo falar algo importante com ela. Curiosa, ela desceu e se deparou com Lucas em sua portaria segurando um pequeno vaso com violetas roxas, aquelas flores que você encontra vendendo por dois reais em qualquer supermercado.
—Desculpe pela grosseria que fiz com você quando terminou comigo. – ele disse estendendo o vaso de plantas para Marina. –Gostaria que aceitasse minhas desculpas, essas flores e que reconsiderasse sobre nosso namoro. Eu ainda te amo, Marina. – a menina aceitou o vaso de plantas e Lucas se curvou para beijá-la.
Henrique não conteve a risada quando viu na direção em que andava um menino com um vaso de planta enterrado na cabeça, com terra escorrendo pelos ombros e algumas florezinhas roxas, era uma cena que não se via todo dia ao caminho da lanchonete que sempre vai com os amigos. Se impressionou ainda mais quando viu uma Marina parada em frente a ele batendo uma mão na outra limpando terra. Após limpas, as mãos foram para sua cintura.
—Primeiro, nunca peça uma garota de volta com uma flor de DOIS REAIS. Segundo, se eu terminei com você, é porque EU não quero mais. Terceiro, não acha muita cara de pau vir me pedir de volta depois de ficar com aquela oxigenada no bloco em Cosme Velho? Passar bem, Lucas. – ela disse batendo o portão de ferro na cara do garoto.
Lucas saiu dali confuso, “Como ela sabia do bloco em Cosme Velho?”, mas achou melhor não questionar. Queria voltar para casa logo e tirar aquela porcaria de planta de dois reais do cabelo. Avistou seu ônibus passando e correu para alcança-lo antes que passasse do ponto.
Henrique olhou para dentro do prédio e viu que Marina falava alguma coisa com um vizinho que estava saindo do portão de vidro.
—Ei, Marina! – o menino chamou.
—Eu já disse, Lucas, não quero mais nada com você, seu babaca. – então ela se virou e se deparou com o menino que havia conhecido em Botafogo. Arregalou os olhos desesperada por conta da grosseria que havia feito, porém quando abriu a boca para de desculpar, o garoto falou:
—O que você acha de irmos tomar um picolé de manga ou um café? – ele falou abrindo um sorriso que poderia iluminar toda a Cidade Maravilhosa e Marina percebeu o quanto aquele garoto relativamente desconhecido queria seu bem. Ela não pode deixar de sorrir. O carnaval em si havia acabado, mas os blocos e as emoções que eles traziam, ainda não.
Talvez sair para tomar um picolé de manga com o Henrique fosse ser um novo recomeço em sua vida.
Notas finais
Fanfics originais são dificeis de conseguir reviews, deixe o seu e deixe uma autora feliz :)
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