Até a nossa morte!
2 Um dia na escola
Notas iniciais
As quintas-feiras sempre eram os piores dias, e o fato de minha escola entrar em reforma obrigando-nos a ficar sem o precioso vôlei me deixava puto da vida.
Já eram quase seis da manhã, e eu não estava nem um pouco a fim de levantar e ir para aquela porcaria de escola.
Aquele dia estava estranho, mesmo em Selvan não era comum ficarem muitos dias nublados, parecia que eu não via o sol fazia uns três meses.
Saí do meu confortável quarto e fui em direção à cozinha para abastecer meu estômago antes de encarar mais um tedioso dia. Vi minha mãe que estava preparando o café e também o almoço daquele jeito que só ela sabia fazer. Minha velha estava sempre de bom humor e eu não sei como de manhã ela conseguia esboçar um sorriso tão alegre.
– Bom dia, mãe. – A saldei com um abraço.
– Bom dia, Deivison. Lembrou-se de colocar seu trabalho na mochila?
– Sim, mãe. Passei a noite toda o fazendo.
– Você precisa de pontos nessa matéria não é mesmo?
– Sim, mas nem estou me importando tanto assim.
– Não é só porque você não é capaz de sentir medo que eu não posso sentir medo por você repetir ano.
– Não se preocupe mãe. Nunca repeti nenhum ano e não é no terceiro ano que isso vai acontecer. Além do mais, estou farto daquela escola.
– Sério? Você não chega todo dia falando de alguma idiotice que você e seus amigos fazem? – Minha mãe riu, eu não consigo ficar sério perante aquela risada.
– Amigos em parte mãe. Só converso mesmo com o babaca do Fernando.
– Babaca? Tem certeza que são amigos?
– Amigos de verdade xingam o outro e manda se ferrar.
– Então mande suas besteiras se ferrarem comendo esse pão e calando a boca.
Eu ri, eu ri muito.
Fui em direção ao ponto de ônibus que nem era tão distante assim da minha casa. Durante o percurso fui pensando em algumas coisas legais, como Parkour e lutas.
O ônibus demorou mais do que o normal para passar, depois eu vi no noticiário que era por causa de uma queda de um viaduto onde passava a maioria dos carros.
A escola estava com o aquele clima delicioso de tédio, passei pelo corredor principal e pude ver meu amigo Fernando dando alguns mortais junto com alguns outros colegas.
– Agora que é facha preta, acha que pode sair por aí dando mortais. – Falei eu.
– Que nada cara. Estou só me divertindo com meus colegas. – Respondeu Fernando calmo como sempre.
– Por isso que você não namora. Seu babaca.
– Não se irrite minha dama – Riu Fernando.
– Você tem que deixar de ser otário.
– E você de ter medo de relacionamentos.
– Medo? – Comecei a rir.
Eu tenho uma rara doença chamada doença de Urbach-Wiethe, essa doença destruiu a parte do cérebro que percebe e evita o perigo. Em suma, não sinto medo de nada. Absolutamente nada.
– Vai lá o deficiente. – Disse Fernando com a cara mais debochada que um ser humano já fez.
– Já fez o trabalho?
– Sim, aposto que você quase o esqueceu na mochila.
– Como você sabe?
– Não sente medo de reprovar, por qual motivo se lembraria de algo assim?
Não pude responder a pergunta, pois no mesmo instante o sinal tocara perto do meu ouvido. Eu tinha uma boa audição e aquela buzina do inferno tocou a uns três metros de mim, senti uma leve tontura.
– Tudo bem cara?
– Sim, é só esse barulho do satanás.
Subimos a escada para o outro prédio onde iríamos ter a primeira aula. No caminho fomos falando sobre movimentos de Parkour. Sim, eu pratico Parkour.
– Então eu avisei a ele que era alto demais.
– E mesmo assim você pulou. – Disse Fernando.
– Sim, mas...
– Não foi uma pergunta. Eu sei que você não hesitaria.
– Não há motivos para isso.
Entramos naquela sala grande e escura, tediosa no seu mais alto nível, aquela sala era o suprassumo da tristeza. Olhei em volta, reparei pela janela que o céu estava ficando cada vez mais escuro. A neve caia e eu já estava pensando de que jeito eu ia voltar pra casa.
A aula prosseguia tão chata quanto se é possível imaginar, não via a hora de o barulho infernal tocar e eu poder ir para o intervalo. O intervalo era sem dúvida a melhor parte do dia. Eu ria com os colegas, enquanto fazíamos Parkour na quadra.
– Como você faz esse mortal aí, Deivison? – Perguntou Fernando.
– Desiste cara, esse mortal é único.
– Quero aprender a fazer.
– Eu pratico Parkour há mais tempo que você luta Kung-Fu com seu pai, Fernando.
– Eu te acho otário desde então.
– Dois meses no Parkour e quer me afrontar? – Eu ri.
– Vamos ver que chuta melhor então? – Fernando veio correndo com a intenção de me dar uma voadora.
Eu vi que aquilo poderia me machucar, mas não me importei com isso. Simplesmente me abaixei e o vi passar reto.
– Medo de se machucar?
– Eu penso rápido.
– Pensa...
O sinal gosta, gosta muito de interromper a porcaria de todas as conversas. Algo dia eu quebro esse sinal, acha que eu não o faria?
Enquanto voltávamos para a sala vi Fernando secando de todas as formas uma garota, Liana, Liana possui os cabelos negros e longos, seu olhar tinha a habilidade de entrar no mais fundo da sua mente e fazer o coração de qualquer homem ou lésbica pulsar mais forte, seus olhos verdes só contribuíam para o êxito do pulsar. Sua pele era branca e junto com seu agasalho negro dava um destaque invejável. Nenhuma mulher pode ser tão desejada assim naquela cidade, todos os meninos de Selvan já deveriam ter tentado algo com ela. Fernando foi um deles. Babaca...
– Você sabe que ela vai continuar com o “Não”, não é?
– Acho que não vale a pena desistir. – Disse Fernando.
– Claro que não, vá lá e sofra de novo. Sabe dar tantos socos e chutes e apanha feio pra uma garota de 17 anos que pisa em você sempre que tem a oportunidade.
– Cala a boca. – Riu Fernando. Não sei o porquê. Eu acabei de insultá-lo.
Subimos e entramos na sala, a professora chegou com um estranho sorriso no rosto, um sorriso estranho. Dava pra perceber de longe a falta de cuidado com os dentes. Como fedia.
– Alunos, como vocês sabem o governo está coletando o sangue de todos da população para os testes contra a nova doença. Alguns agentes da saúde e do governo virão aqui amanhã para a coleta geral. Então, venham preparados.
Qual era a necessidade de coletar o sangue de todos os seres humanos? Qual era?
– Ouviu isso medroso? Vamos ser furados, corra para as colinas.
– Não estou gostando disso. Não vejo necessidade também.
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