Até Que A Morte Nos Separe
3 Capítulo 3: As Vezes Eles Voltam
Depois daquela festa típica com Laura e de beber algumas voltamos cambaleantes pelas ruas da cidade, Laura parou em frente a uma porta com uma imunda cortina de ossos olhei para ela com ar de quem não acredita, mas ela lançou seu sorriso fatal. Acabamos dentro de uma casinha cheirando a incenso, uma nevoa densa estava por todo o lugar, uma senhora esguia estava sentada em um sofá vermelho. Laura se sentou em uma das poltronas de frente para o sofá, me sentei na outra e fiquei apenas observando o que poderia vir daquilo, a mulher se levantou com uma agilidade inesperada e voltou com duas xicaras de chá. Peguei a xícara que estava a minha frente e beberiquei um pouco do líquido que estava fumegando, a mulher tomou vários goles antes de colocar delicadamente a xícara sobre a mesa e me encarar.
- Que belo jovem apaixonado nós temos – ela disse sem tirar os olhos de mim. Eu sem nada entender me virei para Laura desviando do olhar fixo da mulher, Laura absorta observava cada detalhe daquela pequena casa. Não querendo passar por mal educado bebi mais alguns goles do chá fervente e sorri sem graça para a mulher me levantando enquanto apoiava Laura para sair. A senhora rápida como uma raposa atravessou a distância até a porta e quando estávamos fora colocou a mão em meu ombro e quando a olhei ela me encarou por um tempo antes de murmurar algumas palavras e sorrir gentilmente. A mulher fechou a porta atrás de nós e voltamos a seguir nosso caminho para o hotel, o chá havia diminuído o efeito do álcool e apenas andávamos com cuidado.
A noite já estava avançada, Laura e eu chegamos no quarto e depois de arrancarmos a roupa fora nos deitamos seminus abraçados ouvindo um a respiração do outro. A noite estava fresca, mas não era necessário lençol pois o calor de nossos corpos aquecia-nos mutuamente impedindo o frio. Ficamos ali em silêncio aproveitando a companhia um do outro, desde que nos conhecemos passávamos muitos momentos em silêncio felizes com o simples fato do outro estar ali. Não eram necessárias palavras ou toques, a presença do outro já bastava, podíamos passar a vida toda em silêncio apenas no mesmo cômodo e morreríamos felizes e completos. Laura foi a primeira a dormir, seu corpo estremecia de tempos em tempos e sua respiração agora estava mais pesada, abracei-a mais forte mesmo que isso não fosse fazer diferença em seu sonho.
Perdi a noção de quanto tempo fiquei ali deitado entorpecido observando o teto, minha cabeça zumbia como se fosse explodir por estar sobre muita pressão, com cuidado tirei Laura de cima de mim e sai da cama. O chão estava úmido e quando meus pés tocaram-no um frio desceu minha espinha como algum tipo de premonição, balancei a cabeça espanando aquele pensamento para longe. Vesti roupas limpas e sai do quarto, a lua cheia brilhava com uma luz sinistra meio esverdeada – linda noite – pensei lembrando a cena de meu filme favorito. Entrei no carro e fiquei observando a lua um tempo deixando minha mente se tornar líquida e viajar a todos os lugares e lugar algum, aquele tom esverdeado e a luz esmaecida ao redor da lua me deixava hipnotizado. Liguei o rádio e como de costume coloquei a fita de Laura para tocar e sai com o carro sem nenhuma ideia de para onde eu ia, apenas me deixando guiar pela lua no céu. Me deixar levar daquela maneira a cada minuto parecia a única coisa certa a se fazer, minha mente estava leve como se um grande peso tivesse sido tirado dela. A lua passeava pelo céu guiando meu caminho até um pequeno beco estreito em uma cidade que eu não fazia ideia de qual era. Parei o carro em frente o beco e fiquei ali ouvindo a música e deixando minha mente vagar quando uma mulher bateu na janela do carro, abaixei o vidro parar ver o que ela queria.
A mulher com um sorriso debochado puxou uma menininha de oito anos para frente dela e disse que era apenas cem reais sorrindo mais uma vez debochada, concordei com a cabeça e sai do carro. A mulher me guiou para dentro do beco enquanto puxava a garotinha atrás dela que tremia como vara verde. A mulher parou em frente a uma caçamba de lixo e mandou a garotinha tirar a roupa, fiquei observando tudo absorto sem entender porque a lua havia me levado até ali. A mulher parou a minha frente estendendo a mão para mim, demorei um tempo para perceber tanto a mulher quanto o que ela queria, tirei uma nota de cem da carteira e entreguei a ela. Ela estendeu a nota contra a luz e depois de checar se era verdadeira guardou com um sorriso triunfante no avantajado decote de sua blusa vermelho sangue.
- Aqueles que só tem escuridão em seu coração podem trazer luz ao mundo – me lembrei do que a velha havia murmurado para mim enquanto saia de sua casa em Monte Luz. Como que um relâmpago tudo ficou claro para mim naquele momento, o porquê da lua ter me guiado até aquele beco, exatamente onde estava a garotinha. A menina terminou de tirar a roupa e encostou na caçamba apavorada enquanto observava a mim e a mulher. A mulher se virou de costas para nós observando a rua checando que ninguém apareceria para nos atrapalhar, aproveitei isso para pegar uma barra de ferro que estava no chão e acertei a cabeça da mulher em cheio. Ela caiu no chão desmaiada e a garotinha apenas emitiu um gemido ficando paralisada me observando, mandei-a colocar a roupa e entrar no carro prometendo que agora ela estava segura.
Enquanto a garotinha se vestia fui até a entrada do beco ver se havia algum movimento, a rua estava completamente deserta, voltei para dentro do beco e arrastei o corpo da mulher até o carro. Coloquei o corpo inerte que ainda respirava dentro do porta malas com cuidado para não machuca-la. Entrei no carro e arranquei sabendo exatamente para onde deveria, agora tudo estava claro como água cristalina em minha mente, voltei para o hotel em Monte Luz e mandei a garotinha esperar no carro que estacionei em frente ao apartamento em que estava hospedado. Subi as escadas e abri o congelador, tirei o corpo sem vida de Laura com cuidado e o carreguei até o carro colocando sobre o corpo da mulher nocauteada com todo o cuidado do mundo. Subi mais uma vez para o quarto e peguei uma bolsa que estava embaixo da cama, desci com a bolsa e a joguei no banco traseiro do carro e a garotinha apenas observava a tudo sem dizer uma palavra se quer. Entreguei a chave do quarto para ela e mandei ela me esperar lá dentro e se quisesse comer era só pedir qualquer coisa pelo telefone que depois eu pagaria, ela acenou afirmativamente com a cabeça aceitando.
- Obrigada por ter me salvado – ela gaguejou.
- Não foi nada – eu respondi doce para ela.
- Onde você vai – ela perguntou antes de sair do carro.
- Vou buscar minha esposa – respondi extremamente feliz – você vai gostar dela.
- Qual o nome dela – ela perguntou.
- Laura – respondi com um sorriso abundante.
A menina saiu do carro e fui dirigindo calmamente até o lago, estacionei o carro com cuidado e tirei as duas mulheres do porta malas e as deitei no chão de terra. Depois de tirar toda a roupa do corpo das duas peguei uma faca e desenhei um símbolo no peito de Laura e da mulher minunciosamente. Quando terminei o símbolo cortei as palmas das mãos e derramei sangue sobre o peito as duas. A mulher que eu nocauteara começava a acordar e ao perceber que estava amarrada começou a se debater e gritar, soquei seu rosto violentamente para que ela parasse de se mexer para e continuasse caindo a mesma quantidade de sangue sobre ela e Laura. A mulher olhou para Laura apavorada e voltou a gritar dessa vez mais histérica – que tola – pensei.
Montei sobre a mulher que se debatia e retirei o cinto que segurava minha calça, a mulher arregalou os olhos e se debatia mais fortemente, revirei os olhos irritadiço com aquele comportamento. Respirei fundo tentando tomar coragem – Deus eu amo tanto Laura – pensei, e aquele pensamento me deu coragem novamente, abri os olhos e enrolei o cinto no pescoço da mulher. Comecei a puxar as extremidades do cinto para lados opostos fazendo-o apertar o pescoço da mulher vagarosamente enquanto eu repetia frenético o mesmo conjunto de palavras com todas as minhas forças na minha melhor entonação possível.
- Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’naglfhtagn – eu gritava na melhor pronuncia possível.
A mulher lutava veementemente contra mim, suas mãos me arranhavam e me sangravam com força, mas eu não me importava apenas continuava a repetir e repetir aquelas palavras inteligíveis. A mulher chutava e se debatia como louca chegando a quase me jogar de cima de seu corpo, como um touro em um rodeio que tenta a todo custo tirar o cowboy de suas costas e eu como um bom cowboy me prendia com todas as forças sobre ela. Em um momento a mulher conseguiu achar uma pedra e a chocou contra minha cabeça fazendo meu mundo girar e tudo ficar negro por alguns segundos, tempo suficiente para ela me empurrar e começar a correr. Desesperado me recompus rapidamente e corri atrás dela enlouquecido, a mulher me xingava e pedia socorro enquanto corria – graças a Deus ninguém vem desse lado do lago – pensei agradecido.
Agarrei a mulher pelos cabelos e a joguei contra o chão, nos engalfinhamos em uma luta feita de mordidas e unhadas da parte dela e socos do meu lado, ela me chutou no meio das pernas e quase conseguiu fugir, mas minha mão continuou segurando seus cabelos enquanto me recompunha. Mesmo com a dor insuportável me forcei a engatinhar puxando a mulher pelos cabelos que se debatia e tentava segurar qualquer coisa pelo caminho, puxei-a até o corpo de Laura pondo as duas lado a lado novamente. Com muita dificuldade montei mais uma vez sobre a mulher e a cada movimento dela eu podia jurar que morreria tamanha a dor, mas eu não desistiria, não agora que estava tão perto. Peguei o cinto que ficou caído no chão e voltei a apertar o pescoço da mulher repetindo freneticamente as palavras dessa vez com mais paixão na voz. Quando os olhos da mulher começaram a revirar e suas mãos começaram a perder a força coloquei uma das pontas do cinto sob meu joelho e diminui a força com que puaxava o cinto. A mulher começou a respirar com menos dificuldade, fiz um talho em sua mão e segurei a mão sobre o rosto de Laura fazendo o sangue pingar em sua boca. Enquanto o sangue pingava voltei a puxar o cinto com força, a respiração da mulher voltou a diminuir cada vez mais até que ela parou. Me Levantei rapidamente e fiz outro talho em meu braço e coloquei o braço sobre a água deixando o sangue pingar nela manchando e se dissolvendo logo em seguida.
- Não está morto o que pode eternamente jazer, e com estranhas eras pode até a morte morrer – murmurei com um olhar perdido.
Assim que terminei a frase uma explosão ocorreu no lago, fraco e assustado cai no chão, a água começou a formar uma figura inominável a minha frente e chocado não conseguia me levantar e correr – e nem poderia pois Laura ainda estava ali. A forma de tamanho colossal deslizou em nossa direção enquanto emitia um som gutural de dentro de seu ser disforme e fantasmagórico. A figura parou ali na beirada do lago e ficou nos encarando – mesmo que ela não possuísse olhos eu podia sentir que ela me observava de alguma maneira – água começou a se desprender da figura formando algo similar a uma mão que pegou o corpo inerte da mulher e o puxou para dentro de si. Permaneci ali parado esperando, se aquela era minha morte, eu a aceitaria pois já havia cumprido com todos os meus deveres, e morreria feliz se fosse ao lado de Laura. A figura olhou demoradamente para Laura e voltou para o centro do lago, seu tamanho começou a diminuir como se ela voltasse a afundar nas profundezas, depois de alguns minutos o lago estava novamente calmo como se nada daquilo um dia tivesse ocorrido. Quando a última onda no lago se dissipou Laura saltou como uma pessoa que recebe uma injeção de adrenalina, ela olhou assustada em volta e depois para mim, me arrastei para ela e a abracei chorando como jamais havia chorado.
- Eu te amo tanto Laura – eu disse aos prantos – estou tão feliz que tenha voltado.
Laura apenas sorriu gentilmente para mim como sempre fazia e retribuiu o abraço com toda a sua força, ficamos ali abraçados como nunca havíamos ficado antes, os dois chorando e sorrindo ao mesmo tempo em um mix de emoções.
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