Até Parece Conto De Fadas
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Ally e Austin estavam sentados um de frente para o outro no sofá. Estavam somente os dois. O pai de Ally tinha saído para resolver algo e só iria voltar à noite. Ainda era de tarde. Austin estava olhando a menina, que por sua vez olhava o chão tentando encontrar as palavras certas para falar sobre o que ele queria que ela falasse. Mas não estava fácil achar tais palavras.
Ela respirava profundamente, pensando no jeito de começar a falar. E ele somente a olhava com um braço no encosto do sofá e o outro em uma de suas pernas que estava dobrada sob o assento do sofá. Ela estava olhando para frente, as duas pernas balançando no ar. Suas mãos estavam juntas, apertando uma a outra, pousada no colo.
Mesmo que a noite passado tenha sido um borrão quando ela acordara, ela lembrava que tinha que falar toda a verdade para Austin, pois prometera. E já estava na hora de ele saber de tudo. Eles se conheciam a sete meses. E ela nunca mencionara isso na época em que passavam o dia inteiro juntos. Era por culpa da Kira ter trazido isso à tona. Ela iria contar para Austin do seu passado algum dia. Mas somente algum dia. Não estava preparada para isso. Respirou fundo novamente.
Austin não conseguira dormir àquela noite. Só cochilava, mas logo acordava. Pensava sobre o que seria o passado de Ally. Pensou que ela se vendia por bebidas e festas para outros caras. Pensou que ela fazia tudo o que queriam. E imagens dela fazendo coisas repudiáveis vinham em sua cabeça, fazendo-o ficar nervoso por pensar nisso e jogar sua cabeça na pia cheia de água fria para esquecer. Olhava para ela esperando que ela começasse a falar. Mesmo querendo saber de tudo, não queria forçá-la a contar. Queria que ela dissesse tudo, a seu tempo. Mas desde o momento em que tinham sentado no sofá, ela não abrira a boca, somente apertava uma mão na outra, e respirava fundo.
– Tudo bem. – ela começou a dizer, se virando para olhá-lo. – Antes de começar, eu quero que você prometa que não irá me interferir e me deixará contar tudo o que quero falar. Somente depois que terminar, você pode falar alguma coisa.
– Prometo – ele disse.
– Você pode me odiar por isso, pode me achar suja pelas minhas ações. Mas eu quero que você saiba que eu mudei, que eu prometi a mim mesma não fazer isso novamente.
– Pelo que sei, você fez isso ontem. – disse frio.
– É, eu sei – ela abaixou a cabeça olhando pra frente novamente. – E eu me repudio por isso.
– Pode começar então.
– Ok. Bom, antes dos meus pais se separarem eu os ouvia diariamente brigando um com o outro. Eu odiava isso. Ficava trancada no quarto chorando. Lembro que eu tinha doze anos quando isso começou. Eu era uma aluna aplicada, porque eu pensava que se eu tivesse notas sempre boas, eles podiam ter orgulho de mim, e em vez de discutirem, podiam conversar, sobre meu futuro e tudo. Foi um pensamento egoísta, mas eu queria que eles parassem com isso. – parou para tomar um ar. Ainda olhava pra frente.
“Quando tinha quinze anos eles se separaram, e foi um choque pra mim, mesmo eles brigando diariamente. Eu não queria ouvir o que eles falavam pra mim sobre o porquê de se divorciarem, e pra chamar atenção deles, porque pensei que eles não se importavam comigo, comecei a ter amizades com pessoas erradas. Eu já era amiga da Trish e do Dez, mas queria pessoas que fizessem coisas erradas, para realmente chamar atenção.
“Nessa época tinha uma garota, Charlotte, ela era popular, fazia coisas sem pensar, como beber demais, até cair no chão, fumar cigarro e maconha, beijar dez garotos numa noite, e não se importava com a sua reputação. Eu não sabia o que estava fazendo, só queria que meus pais me notassem, então comecei a sair com ela.
“Nós saíamos praticamente todos os dias, onde tinha festas, em salões ou em casas de pessoas, ou em boates, não importava. Foi daí que comecei a beber demais, e não sabia o que fazia. Só sabia no outro dia quando me falavam. Eu bebia até cair no chão e dormir lá mesmo. Beijava muitos meninos na mesma noite. Dançava nas mesas de forma vulgar. Muitos me levaram pra cama – nesta hora ela não teve coragem de olhar para ele, mas percebeu que ele ficara inquieto. – Não desse jeito que você pensa. Chegava só a ficar de roupas íntimas, não fazia mais que isso.
“Eles me tratavam como lixo, mas não me importava. Meu pai ficava preocupado, por onde eu andava, mas não falava pra minha mãe. Não queria mostrar para ela que não conseguia cuidar de mim. Trish e Dez tentavam me fazer mudar de ideia, mas eu estava determinada a chamar a atenção dos meus pais que nem ouvia.
“Mas ai chegou um dia que eu acordei na cama de uma pessoa que eu não sabia quem era, só com minhas roupas de baixo. Tinha um cara do meu lado, Charlotte e um cara no chão. Tinha muitos copos de bebidas e até cigarros de maconha. Eu surtei, pensei que eu tinha fumado ou algo do tipo, porque eu não me lembrava de nada.
“Foi então que eu parei com isso. Parei de falar com a Charlotte. Ela foi expulsa uma semana depois disso por fumar na escola. Eu voltei a ser como era antes. Mas fiquei com uma péssima reputação. Diziam que eu queria disfarçar tudo o que eu fiz porque a Charlotte tinha sido expulsa, e eu não tinha mais ninguém, mas eu tinha decidido antes de acontecer isso.
“Me arrependi muito depois disso, e tentei reparar meu erro. Pedi desculpas para meu pai, pra Trish e pro Dez. Comecei a fazer caridade em muitas coisas, voltei a tirar notas boas, não saía mais, sempre ficava em casa, e com o tempo todos esqueceram.
“Mesmo tendo passado dois anos, tem alguns que ainda lembram, como a Kira, que me odiava desde essa época, porque ela odiava a Charlotte, ela queria ser sempre a popular, mas era sempre a Charlotte, e eu comecei a andar com ela, então Kira ficou mais brava ainda, por ter outra pessoa mais popular que ela. Bom, isso é tudo.”
Austin escutara tudo, sem dizer nenhuma palavra, mas naquele momento que Ally terminara, ele não sabia o que falar. Era muito difícil de acreditar que aquela menina meiga que ele conhecera há sete meses tinha feito tudo isso antes. Não sabia se ficava contente por ela tem falado pra ele, ou se com raiva por ter escondido tudo aquilo dele. Mas ele ficara melhor agora por saber que ela nunca tinha ficado nua com nenhum cara, mesmo que ele tenha pensado nisso.
Ela olhara pra ele quando terminara, mas ele a olhava de um jeito tão estranho que ela voltou a olhar para frente. Parecia que ele estava com raiva, mas ao mesmo tempo com medo do que ela tinha acabado de falar pra ele. Mas como ela tinha dito, tinha acabado com isso, não iria nunca mais fazer isso.
– Então quando fez tudo aquilo ontem – ele disse, finalmente – era pra chamar minha atenção?
– Um pouco, sim.
– Era como uma tortura por eu não estar falando com você? Você também não falava uma palavra comigo. – ele disse, meio bravo. Ela continuava a olhar para frente – Pelo que eu sei, foi você quem disse que não tínhamos nada, e fez com que eu me magoasse.
– Eu me magoei também – ela olhara pra ele. – Muito.
– Não tanto quanto eu. Desde o começo eu tenho mostrado que gosto de você, mais que amigo. Mas você não se importou de falar todas aquelas coisas aquele dia, depois que você brigou com a Kira. – ele começara a se exaltar.
– Você tinha beijado ela. Eu fiquei péssima por ver aquilo. – ela disse brava.
– Pela última vez: Eu não beijei a Kira. Ela que me agarrou.
– Eu não consigo entender como uma garota consegue agarrar um garoto, sendo que garotos são mais fortes – ela disse um pouco alto.
– Ela me pegou de surpresa – ele também disse alto.
– Isso não é desculpa Austin – ela gritou, e se levantou.
– Você nunca vai entender isso não é Ally? Você sempre vai jogar na minha cara – ele levantara também. Estava um pouco vermelho. – E tudo o que você fez ontem? Não é pior que a Kira ter me beijado, sendo que eu e você não tínhamos nada?
– Agora é você que tá jogando as coisas na minha cara – ela também ficara vermelha, mais vermelha que ele – Como você disse, não tínhamos nada enquanto eu fiz aquilo ontem.
– Você sempre vai dar essa desculpa?
– Mas essa não é a verdade? – ela gritou.
– Não dá pra conversar com você Ally.
– É com você que não dá pra conversar Austin. Depois do que eu falei pra você, depois de tudo o que falei pra você, eu pensei que você iria entender.
– Ah, eu entendo sim, só não consigo perdoar você pelo que fez.
– Você não consegue perdoar Austin, PORQUE SEU CORAÇÃO É TÃO PEQUENO QUE NÃO CABE MAIS QUE UMA EMOÇÃO NELE, MAS QUE UM SENTIMENTO. É UM POR VEZ – ela gritou, e gesticulou os braços, pra cima.
– NA VERDADE É VOCÊ QUE NÃO CONSEGUE SENTIR NADA. VOCÊ FOI INSENSÍVEL ESSE TEMPO TODO – ele também gritou.
– VOCÊ ESTÁ MUDANDO TUDO. O INSENSÍVEL AQUI É VOCÊ, QUE NÃO SE IMPORTA COM NADA QUE EU DIGO.
– É MUITA COISA PRA MIM.
– ENTÃO NÃO SEI PORQUE SOMOS AMIGOS. PORQUE QUANDO UM AMIGO SABE DAS COISAS DE OUTRO AMIGO, MESMO DISCORDANDO, TEM QUE COMPREENDÊ-LO, E NÃO JULGÁ-LO.
– NÃO ESTOU TE JULGANDO.
– ENTÃO O QUE ESTÁ FAZENDO NESSE EXATO MOMENTO? – Austin não disse nada. Parou de falar, ficou somente olhando a garota. Seu peito subia e descia num ritmo acelerado. O da garota também estava assim. Ela estava prestes a chorar, mas segurou o choro para não demonstrar que estava fraca naquele momento.
– Eu vou pro meu quarto, porque eu não aguento mais brigar com você – ele disse. Então subiu as escadas.
Quando Ally ouviu a porta de seu quarto bater começou a chorar. Não conseguiu mais controlar. Ela contara o que Austin queria saber, e agora ele agia desse jeito. Não era isso que ela queria. Ela queria que ele entendesse o que ela fazia, e que soubesse do seu passado. Mas parece que ele não era capaz disso.
Ela queria ter Austin de volta. Queria que tudo voltasse ao normal. Queria passar o dia inteiro com ele. Queria conversar com ele sobre tudo, mesmo que fossem estranhas essas coisas. Queria que ele a abraçasse e desse um beijo em sua testa como ele fazia sempre quando acordavam. Queria ficar até de madrugada vendo filmes, comendo besteiras, conversando sobre coisas idiotas. Queria aqueles olhares que eles sempre trocavam quando estavam muito próximos um do outro. Queria se sentir segura novamente.
Naquele momento ela se sentia frágil, pequenina numa imensidão. Estava com medo, e não gostava de sentir medo. Queria ter alguém do seu lado para protegê-la, para acalmá-la, para abraçá-la, para cuidar dela. E esse alguém era Austin. Somente ele. Sempre foi ele, e ela nunca percebeu isso.
Respirou fundo, tentando cessar as lágrimas. Passou os dedos abaixo dos olhos para secá-las, e decidiu ir para a salinha onde tinha o piano. Fazia muito tempo que não tocava. Não sabia o porquê disso. Antes de Austin entrar na sua vida ela tocava todos os dias, mas depois ele apareceu, sua vida virou de ponta cabeça.
Sentou-se na cadeirinha, passou os dedos sobre as teclas, sem pressioná-las, sorriu, desanimada, sentindo falta de seu mais antigo amigo.
I stare at my reflection in the mirror
(Eu fico olhando para meu reflexo no espelho)
Why am I doing this to myself
(Porque estou fazendo isso comigo mesma?)
Losing my mind on a tiny error
(Perdendo minha cabeça em um pequeno erro)
I nearly left the real me on the shelf
(Eu estava perto de deixar meu verdadeiro eu na prateleira)
No, no, no, no
(Não, não, não, não)
Começou a cantar, bem baixinho, e tocar suavemente, fazendo as notas saírem delicadas. Fechou os olhos.
Don't lose who you are, in the blur of the stars
(Não perca quem você é no borrão das estrelas)
Seeing is deceiving, dreaming is believing
(Ver é enganar, sonhar é acreditar)
It's okay not to be okay
(Tudo bem não estar tudo bem)
Sometimes it's hard
(Às vezes é difícil)
To follow your heart
(Seguir seu coração)
But tears don't mean you're losing
(Mas as lágrimas não significam que você está se perdendo)
Everybody's bruising
(Todo mundo se machuca)
Just be true to who you are
(Basta ser verdadeiro com quem você é)
O rosto de Austin apareceu em sua mente. Ela abriu os olhos, mas duas grossas lágrimas saíram de seus olhos, encharcando seu rosto. Logo várias outras seguiram a primeira.
Who you are, who you are, who you are
(Quem você é, quem você é, quem você é)
Who you are, who you are, who you are
(Quem você é, quem você é, quem você é)
No no no no no no no
(Não, não, não, não, não não)
Sua voz falhou nesse momento. Estava na metade da música, mas ela não conseguia terminar. Sua voz estava embargada. Seus olhos estavam tão cheios de água que mal conseguia enxergar as teclas. Mesmo que ela não precisava olhar as teclas, não conseguia mais tocar. Seu peito ardia. O buraco não tinha fechado. Aquele imenso buraco nem sequer se cicatrizara. Acabara de lembrar que essa foi a música que Austin a ouvir cantar, pela primeira vez, descobrindo que ela cantava.
Debruçou-se no piano, e começou a se chacoalhar, não se aguentando. Tudo que acontecia em sua vida era ruim, nunca acontecera nada bom. Mesmo que Austin tenha entrado na sua vida era bom, ele saíra, e foi a pior coisa que podia ter acontecido. Contando até com o divórcio de seus pais.
Ouviu uma porta se fechar e se levantou correndo, para ver quem fizera isso. Mas não vira nem seu pai, nem Austin. Presumiu ter sido sua imaginação. Foi para seu quarto.
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Austin ficara tão nervoso com Ally que fora para seu quarto, sem se importar se terminou ou não com a discussão entre os dois. Não conseguia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Pensou que quando ela dissesse tudo o que tinha que falar aquilo iria acabar, e iam seguir em frente, voltando a ser amigos, mas parece que não é tão simples assim.
Tá certo que ele tinha uma parcela de culpa nisso tudo, mas ela também tinha. Ela ficara brava por ele não entender o porquê de ela ter feito o que fez, e começou a gritar com ele. Não aguentava mais brigar com a pessoa que amava tanto. Não aguentava ouvi-la dizer que ele era insensível, que não se importava com isso.
Meteu a cabeça novamente na pia com água gelada, tentando, em vão, esquecer. Sua cabeça latejava. Seu coração estava esmagado. Parecia que puxar o ar estava difícil naquele momento. Sentado na cabeça respirava ruidosamente, tentando se acalmar, até ouvir uma voz conhecida.
(…)Everybody's bruising
(Todo mundo se machuca)
Just be true to who you are
(Basta ser verdadeiro com quem você é)(...)
Saiu de seu quarto para ouvir melhor, e soube na hora que era Ally quem estava cantando. Lembrou dessa música. Ela cantara quando ele descobriu que ela cantava. Ela estava com a voz embargada, mal conseguindo cantar. Parou, se debruçando no piano, e ele a viu se chacoalhar. Seu coração ficou ainda mais apertada. Queria ir lá, abraçá-la e dizer que estava tudo bem, mas ele não podia fazer isso.
A muito custo foi para seu quarto, fechando a porta muito ruidosamente. Ouviu Ally correr até seu quarto, torcendo para que ela abrisse a porta do mesmo, mas ela não fez nada. Ela somente voltou para seu próprio quarto, e naquele momento parecia mesmo que ele não tinha mais coração. Estava tão massacrado, que estava do tamanho de um feijão.

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