Até As Últimas Consequências
39 Perspectiva
Notas iniciais

MÚSICA DO CAPÍTULO
[RECAPITULANDO]
— Pensaremos, Fitz — disse ela, tentando inserir certeza em sua voz, pois sabia o quanto ele precisava escutar isso. — Vamos pesar cada movimento antes de agir. Prometo.
— Tudo bem. — Olhando além dela, em direção à mesa onde o aparelho estava desmontado, ele murmurou: — O que posso fazer para ajudar?
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Lizzie não estava tão envolvida com o conserto da pequena caixa desmontada a ponto de não notar Fitz. Na verdade, quase pediu para que saísse do quarto. O fato de tê-lo aqui, tão perto, dificultava parar de olhar para ele, parar de se lembrar de como se sentira ao ficar… com ele. Era a primeira vez na vida que um homem conseguia mexer com ela com tanta intensidade. Ou distraí-la do trabalho. Ah, existiu George! E depois dele, alguns outros homens, mas não chegara a se deitar com nenhum deles desde então. Nenhum chegara nem perto de tirar sua concentração.
Somente Fitzwilliam Darcy.
E seus pensamentos eram nada menos que devassos. Depois de dias vivendo na luxúria, era hora de encarar a realidade. Mas… Olhar para ele constantemente, com um tipo de preocupação que a corroía por dentro… Isso estava além de sua experiência. E de sua compreensão. Para ele, era assim. Como ele mesmo disse mais cedo, mulheres não tinham lugar em sua vida, além da cama servindo única e exclusivamente como amante e nada mais, como acontecera com ela.
Assim como ele, havia trancado o coração a novos relacionamentos, tomara essa decisão há muito tempo, quando o egoísta George, só interessado no que a sociedade pensava, atravessara com uma faca em seu coração. Mas se curara. E então trancara esse órgão tão vulnerável em sua própria armadura, e prometera que nunca o deixaria tão exposto de novo.
E era uma promessa que mantivera… Até agora. Porém teria que buscar forças para esquecer o que sentia por Fitz, ou acabaria enlouquecendo. Já que a única coisa que importava a ele, era ver a filha salva e Elizabeth longe, bem longe.
Darcy estava sentado na cama de Georgiana sobre as pernas cruzadas. Em volta dele estavam livros, um bloco de notas e dois lápis. Perguntara o que podia fazer para ajudar, e ela sugerira que ele colocasse sua queda por história em ação. Estava lendo todas as informações que conseguisse achar sobre os tios dela e o desenvolvimento da Doxiciclina. Lizzie esperava que quando voltassem para o passado, encontrariam um jeito de salvar as duas meninas e não interferir no desenvolvimento subsequente da droga.
Por enquanto, Lizzie estava consertando o aparelho. Toda informação que ele conseguisse seria completamente inútil se ela não consertasse o aparelho e o fizesse funcionar. Já tinha uma ideia de como chegar ao momento exato no tempo para onde Georgiana se deslocara. De acordo com os desenhos que fizera no computador de Georgiana, com recarga de apenas seis dias, Georgiana teria ido para um dia antes de Lizzie sair do passado. Ela e Fitz tentariam chegar nesse ponto também, embora pudesse haver complicações para isso. Mas se preocuparia com isso quando chegasse a hora. Não queria dar tempo para que algo acontecesse a Georgiana.
Deixando sua bagunça de lado, analisou as informações que ela e Georgiana passaram horas digitando no computador, mas terminou frustrada.
As molas do colchão estalaram e, em um segundo, as mãos de Darcy estavam massageando seus ombros. Surpreendeu-se por ele ser tão bom, apesar de terem pontos de vista opostos sobre essa crise. Isso também a confundia. Principalmente porque o toque dele despertava o desejo de tê-lo em seus braços e o cheiro dele era muito excitante também.
— Estamos nisso há horas — disse ele. — Tempo para um intervalo.
Sua voz estava rouca de tanto chorar, e Lizzie estava preocupada com ele. Estava meio fora de si com a preocupação com a filha. Ela sabia. Céus, como sabia! Os polegares dele pressionaram a parte de trás de seus ombros, enquanto os outros dedos apertavam e esfregavam a frente. Ela arqueou as costas, fechou os olhos. A sensação do que ele estava fazendo era maravilhosa.
— Não é o tempo sobre a mesa de trabalho que pesa sobre mim — disse ela ao deixar a cabeça pender para frente. — Estou acostumada a isso. É a frustração.
As mãos dele ficaram imóveis.
— Então não está chegando a lugar nenhum?
— Na verdade, estou. Mas sei que conseguiria muito mais rápido se utilizasse toda a capacidade desse computador. Eu me considerava uma gênia na minha época, agora me sinto como uma tola ignorante.
As mãos dele voltaram ao trabalho mágico mais uma vez.
— Você não é nenhuma tola, Lizzie.
— Não? Até uma criancinha sabe mais sobre ciência hoje do que eu. Estou desconsertada com a televisão, o micro-ondas, os aviões. Pelos padrões de hoje, não terminaria nem a escola primária.
— Você está se esquecendo de uma coisa — disse ele, massageando a nuca dela e a bloqueou a mente ao se lembrar como as mãos dele podiam fazer.
— De quê?
— Nem o melhor dos cientistas conseguiu viajar no tempo. Nem com a ajuda de computadores superpoderosos, nem com os dados obtidos do espaço. E você conseguiu, com ferramentas consideradas primitivas para os nossos padrões. Você fez o que eles ainda consideram impossível.
Ela virou-se para fitá-lo.
— Eu fiz, naquela época, não fiz?
— Fez. E é por isso que eu sei que vai encontrar uma solução para esse desastre. Você tem de encontrar, Lizzie. Estou contando com isso.
Ela abaixou os olhos. Céus, não queria decepcioná-lo. Ter um homem contando com ela, acreditando nela, por qualquer razão, era tão incomum que nem sabia o que fazer.
— Aquelas olheiras estão voltando — disse ele. — Olha, estou tão ansioso quanto você para resolver isso, mas acho que você vai trabalhar melhor se descansar por alguns minutos. Coma alguma coisa. Acho que devemos parar para um sanduíche, e tirar alguns minutos para descansar os olhos.
Ela tentou dar um sorriso gentil, e lhe acariciou o cabelo, algo que ansiava fazer, por mais ridículo que parecesse.
— Vamos trazer Georgiana de volta, Fitz. Prometo.
Ela tentou desviar o rosto antes que ele visse as lágrimas, mas não conseguiu. Ele era esperto, ou talvez apenas muito concentrado em tudo que vinha dela para deixar escapar algo tão importante.
— Você deve achar que eu sou a pessoa mais egoísta do mundo. Eu era tão contra isso quando me convinha. E agora estou…
Ela se levantou, pegando seu rosto entre as mãos, e o acariciou com os olhos.
— Agora você é pai, Fitz. E como todo pai, fará qualquer coisa para proteger sua filha. Não considero isso egoísmo… Na verdade, é…
— É o quê?
Lizzie abaixou a cabeça, incapaz de encarar seus olhos. Mas quando levantou o olhar, viu que estava se afogando no dele de novo.
— Isso o torna ainda mais bonito para mim, Fitz. E não me acuse de estar dizendo só palavras. É verdade, por mais inacreditável que pareça. Nunca na minha vida prestei muita atenção em homem algum. Mas com você… — Não terminou a frase, na verdade, nem sabia como.
Ele tocou no seu rosto.
— Eu só peço que Georgiana esteja bem.
— Georgiana é nada menos do que brilhante. Com sua perspicácia, vai conseguir conduzir tudo até chegarmos lá.
— Sei que vai.
— Então, que tal uns sanduíches?
Por alguma razão desconhecida, Darcy acreditava em cada palavra que Lizzie falava. Ela disse que tudo ficaria bem, e ele aceitara sem questionamentos.
Será que perdera a cabeça?
Não. Não era isso, pensava enquanto fazia dois sanduíches e os colocava nos pratos. Acreditava nela porque estava praticamente certo de que, quando ela colocava na cabeça que tinha de fazer algo, não sossegava até conseguir.
Enquanto estava ali a procura dos ingredientes, a lembrança de suas palavras duras no momento de desespero fez com ele se retorcesse de vergonha. Na hora não levou em consideração os sentimentos de Elizabeth, somente os seus, e quando percebera que tais palavras a magoara, não tinha como voltar atrás.
Alguma coisa acontecera, quando ele gritara dizendo que ela nunca deveria ter aparecido em sua vida. Parecia que Lizzie erguera uma barreira entre eles e que colocara na cabeça que tinha que colocar uma distancia entre ambos. E esse pensamento o incomodou um pouco.
Percebeu que aqueles dias passados em sua companhia, descobriu que Elizabeth era uma mulher exuberante… inocente, brilhante, e sensual, e ele poderia se apaixonar por ela rápido e perdidamente. Parecia que não aprendera tanto do passado quanto achava. Manter seu coração imune ao charme de Elizabeth era uma questão de autopreservação. Ela partiria logo. Ele arranjaria um jeito de trazer Georgiana de volta, e ela voltaria para o passado e tentaria curar a filha. E lá é o lugar dela. No passado. Darcy não aguentaria criar qualquer vínculo com Lizzie.
Mas tinha extrema confiança em sua habilidade para consertar isso. Viajara mais de duzentos anos para frente no tempo. Isso provava que podia fazer quase qualquer coisa. Resgatar uma menina não seria tão mais difícil.
Duas meninas, corrigiu-se com uma pontada de culpa. Georgiana e Jane. A filha dela. Ele achara que entendia o que a direcionava antes, e achara que seu próprio ponto de vista era o correto. Agora sabia que teria feito o mesmo se estivesse no lugar dela e tivesse os meios. A natureza não podia ser completamente esmagadora. Qualquer pai ou mãe não se importaria com o mundo para salvar a própria filha. Era simples assim.
Abriu o armário e viu a caneca do ursinho Pool de Georgiana. Sentiu os joelhos cambalearem. Mas se segurou pela pura força de vontade, enxugou os olhos. Teria Georgiana de volta.
Algo roçou em sua perna, e ele olhou para baixo para encontrar o cachorro se esfregando nele.
— Também acho que você deve ficar — disse ele, abaixando-se para acariciar as orelhas do animal. — Será uma bela surpresa para Georgiana quando voltar. — Ele se levantou, voltou para o armário e pegou latas de carne e duas vasilhas. Esvaziou as latas em uma delas e encheu a outra com água, colocando as duas no chão. — Só para o caso de eu ter de sair — disse ele, fazendo carinho na cabeça do cachorro, enquanto ele mergulhava na comida com satisfação.
Abriu um pouco a porta dos fundos para que o cachorro pudesse sair.
— Fitz! — gritou Lizzie lá de cima. — Consegui alguma coisa!
Segurando um prato em cada mão, Darcy correu para as escadas.
Ele meio que esperava ver um buraco, saído direto de um filme de ficção científica, pairando no ar no meio do quarto. Em vez disso, o que viu quando entrou no quarto foi Lizzie sobre o computador, olhando para a tela.
— O que é? — disse ele, cruzando o quarto e colocando um dos pratos em frente a ela.
— Tenho quase certeza de que Georgiana não sofrerá os efeitos colaterais. Olhe isso. — Apontou para a tela. — Ainda não tinha concluído meu experimento quando passei. Principalmente porque… estava correndo contra o tempo. Mas eu fiz alguma coisa, e Georgiana e eu transferimos todos os dados para essa máquina. Esse programa do qual ela fez o…
— Download — completou Darcy.
— E incrível. Ele encontra correlações que eu nem teria pensado em procurar.
— Decifre para mim, Lizzie.
— Para simplificar, quanto maior o objeto, maiores os efeitos colaterais. Eu tive sintomas de doença, mas Georgiana é muito menor do que eu. Se esses cálculos estiverem certos, levam a crer que…
— Ela não está doente.
— Acredito que não.
Darcy fechou os olhos enquanto cada músculo de seu corpo parecia relaxar de alívio.
— Se ela não está doente, então ficará bem até chegarmos lá. Sei que ficará.
Lizzie assentiu, mas ele percebeu que o sorriso dela não era sincero. Tristeza e preocupação tornavam seus olhos sombrios.
— Você está pensando que gostaria de ter tanta certeza a respeito de Jane também, não é?
— Você lê pensamentos, Fitz?
Ele empurrou o prato para mais perto dela.
— Coma, Lizzie. Descanse os olhos. E me fale sobre Jane.
Ela fechou os olhos.
— Se eu perdê-la…
A mão dele lhe acariciou o rosto.
— Não vai perdê-la — disse ele, repetindo as palavras tranquilizadoras que ela falara antes, quase literalmente. — Prometo.
Lizzie cobriu a mão dele com a sua e a levou até a boca, para que pudesse beijar a palma.
— Você é um tesouro, Fitz.
— Coma — disse ele. E ela comeu.
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