Até As Últimas Consequências
36 Hora Da Verdade
Notas iniciais

Rihanna — Rehab ft. Justin Timberlake
[RECAPITULANDO]
— Não se preocupe, querida. Nós não estamos nem perto de terminar o que começamos. — Em um rápido movimento, ele desligou os jatos e abriu o ralo. Uma vez fora da banheira, ele curvou abaixo e a ajudou a sair. — Está na hora de tomarmos o nosso café da manhã — disse ele, indo em direção ao closet, pegou uma camisa branca e um bermudão, estendeu para que ela vestisse. — A coloque, depois você vai até o seu quarto pegar outra roupa se quiser.
...
A camiseta dele era tão grande que batia no meio das coxas dela, mas mesmo assim ela gostou da sensação de não usar nada por baixo além daquela camiseta e o bermudão.
Darcy, vestiu uma calça de moletom e uma camiseta, apanhando a mão dela a levou em direção da cozinha.
— Desculpe se eu fui muito bruto com você.
— Não tem problema.
— Sente-se ali enquanto eu preparo o nosso café da manhã. Assim que ficar pronto, vou chamar Georgiana.
Pegou a chaleira, colocou embaixo da torneira, e a encheu de água. Mas quando virou, ele estava lá, olhando-a com olhos especulativos e curiosos.
— Posso te fazer uma pergunta? — Disse Elizabeth ao observá-lo vagando pela cozinha.
— Sim.
— Se um dia ela simplesmente aparecer, o que você vai fazer?
— Não sei. — Ele continuou o que estava fazendo, colocou a chaleira no fogo, depois abriu a armário à procura dos sabores de chá que iria fazer aquela manhã.
— Por que um dia talvez ela possa vir a se arrepender e simplesmente aparecer.
Ele nunca havia pensado naquela possibilidade. Esperava que não tivesse esse dissabor na sua vida.
— Você está certa. Sei que um belo dia Catherine pode aparecer do nada na minha frente. Espero estar preparado. — Não conseguia escolher um separar um sabor, embora continuasse tentando. — Mas quando penso o quanto ela foi burra em ter preferido nos abandonar. Georgiana é um milagre. Catherine não percebeu que estava dando as costas ao maior presente que já ganhara.
Ele sorriu para ela, mas era um sorriso triste. Ambos sabiam o que estavam fazendo. Conversando amenidades. Evitando o assunto. Mesmo os momentos que passaram na banheira, não foram suficientes para amenizar o clima. Com o cabelo desgrenhado, e usando somente a camiseta e a bermuda grande demais para ela, parecia uma menina. Bem, talvez nem tanto. Mas ainda assim parecia vulnerável, tanto que ele ainda não conseguira contar para ela o restante.
Ela se aproximou dele e pegou de suas mãos os sabores de chá. Habilmente, fez a infusão na água, entregou a ele a caixa e depois colocou os outros de volta no armário.
— Pelo menos ela me ensinou uma lição valiosa — disse ele, colocando alguns pãezinhos no forno.
— Nunca mais confiar nas mulheres? — De alguma forma, aquela pergunto a feriu por dentro, pois por mais remota a chance que eles tivessem de ficar juntos, essa recusa dele em entregar o coração ao amor, tornava impossível um relacionamento a longo prazo. — Nem mesmo se uma aparecer na sua frente e dizer que o ama? Você iria correr o risco de perde-la mesmo assim?
O aroma do chá se espalhou por toda a cozinha. Darcy balançou a cabeça suspirando.
— É uma situação difícil, pois tenho que considerar os sentimentos de minha filha. — Ele soltou um suspiro. — Por mais que a tal mulher me dissesse que me amava, eu preferiria não me deixar mais me apaixonar por saber que ela vai me abandonar no final. Ou achava que não.
Elizabeth se aproximou dele e se inclinou, apoiou no balcão, com as mãos separadas pelo corpo dele. Seus lábios encostaram-se no queixo dele, e depois os braços o envolveram.
— Também achei que aprendera muitas coisas. Mas você está pondo em xeque cada uma delas.
Surpreso, ele olhou rapidamente para ela.
Os rostos estavam muito próximos e os corpos quase se tocando. Cada célula de seu corpo implorava para que ele se aproximasse mais. Só o suficiente para que pudesse senti-lo.
Darcy tencionou o maxilar e fechou os olhos.
— Não posso me permitir isso, Lizzie. Isso me mataria quando você fosse embora. — Então ele piscou, e o desejo foi substituído por uma tristeza pelo que teria de falar para ela. — Se você for. Depois que eu explicar…
Ele a sentiu se afastar antes que abrisse os olhos. Estava a dois passos de distância agora e o fitava.
— Se eu for? Eu tenho de ir. Droga, Fitz. Estou tentando salvar a vida da minha filha.
— E eu estou tentando salvar a minha.
Ela franziu a testa.
— Não estou entendendo.
— Pensei nisso a noite toda, Lizzie. E mesmo se você voltar, mesmo se der o remédio para sua filha, não sei se vai funcionar. Se Jane for salva, seus tios não serão levados a trabalhar juntos para descobrir a cura da febre. Talvez mais ninguém seja bem-sucedido. Talvez não vá haver cura, e se não houver, não poderia haver remédio no consultório do médico para você roubar. Você não poderia estar aqui para voltar para Jane. Vai perdê-la de qualquer forma. Não percebe? Tudo que fizer, invalidará o que já tiver feito. Não pode dar certo.
Lizzie deu meia volta, balançando a cabeça.
— Não. Você entendeu errado. Meus tios devem desenvolver o remédio, e ainda vão fazê-lo.
— Mas e se não fizerem?
— Outra pessoa fará.
— Talvez. Talvez não. E então…
— Não vai importar. Uma vez que eu der o remédio para Jane, ela ficará bem. Não vai se reverter, tenho certeza. Posso salvá-la.
— E o que eu lhe disse ontem à noite, Lizzie? E todas as pessoas que tiveram essa febre desde então? O que será delas se a cura não for descoberta?
— Que se danem! — gritou ela, puxando o cabelo para trás com as mãos. O olhar de tormento em seu rosto era quase maior do que ele podia suportar.
Darcy deu um passo para frente e colocou a mão no ombro dela. Não queria fazer isso. Desejava com todas as forças ter conseguido evitar. Mas não podia.
— Você não quer dizer isso.
— Quero. Eu não posso…
— Lizzie, quando Georgiana tinha um ano, eu quase a perdi. Ficou tão doente que achei que não sobreviveria. E…
— Não… — Ela deu um passo para trás, encarando-o com horror.
Ele mordeu o lábio para fazê-lo parar de tremer, mas não tinha nada que pudesse fazer para evitar as lágrimas que enchiam seus olhos.
— Sim, foi meningite. E se não fosse o remédio, Georgiana teria morrido. — Ela abaixou a cabeça, tentando segurar um soluço, e de repente os braços dele a envolveram, trazendo-a para mais perto, e quando ela se encostou em seu peito, sentiu que ele tremia. — Sei que parece egoísta, Lizzie, mas tenho tanto medo. Se você voltar, se salvar sua filha, posso perder a minha.
[1795]
Por conhecer a casa tão bem, ou assim pensara, Georgiana conseguira fugir de seus perseguidores, saindo correndo da casa pela porta da cozinha. A última coisa que viu antes de se embrenhar no mato, foi outra mulher que estava na cozinha, lançar a ela um olhar assustado.
Sem parar para ver se ainda a perseguiam, ela deu tudo de si, prestando pouca atenção a paisagem ao seu redor. Correu um bom tempo, até que começou a sentir uma dor nas costelas que a fez parar.
Encostando as mãos nos joelhos, parou um momento para respirar. Enquanto fazia isso, prestou atenção ao seu redor pela primeira vez. A paisagem não era a mesma do seu tempo, ela estava literalmente no meio do mato. Ela não soube dizer, por quantos quilômetros tinha corrido, mas o que pode perceber era que o pasto ao seu redor era imenso e mais adiante, tinha um imenso estábulo caindo aos pedaços que seria um esconderijo ideal a alguns quilômetros de sua casa… ou melhor, da casa de Lizzie. Tanto faz.
Não tinha certeza do que tinha acontecido no estábulo, só sabia que não existia mais em 2017. O que não a surpreendia. A maneira como o estábulo estava inclinado para um lado e o vento que tentava encontrar caminho através das rachaduras eram suficientes para mostrar que não era uma construção nova, mesmo agora. Ainda não estava pronta para cair em cima dela, pelo menos era o que esperava, mas o estábulo era antigo. E se era antigo agora em 1795, então deve ser realmente antigo. Talvez até tão antigo quanto a Guerra Civil Inglesa. Imagine só!
Não tinha tanto tempo quanto gostaria para pensar sobre isso. Mais tarde, disse para si mesma. Agora, tinha algo muito mais importante para pensar.
O pote de comprimidos no bolso balançava cada vez que se mexia, e Georgiana mordia o lábio ao ser lembrada da responsabilidade que assumira. Era uma tarefa árdua. Mas que não se recusaria a fazer. Viera aqui para salvar Jane. Só dependia dela salvar a vida daquela menina. E agora não podia fazer isso por causa daqueles cientistas ranzinzas que estavam na casa. Deixaria isso impedi-la? Bem, se deixasse, então a menina, que já começara a considerar como a coisa mais próxima de uma irmã caçula que teria em sua vida, morreria. Talvez morresse em breve. Talvez estivesse morrendo agora.
Georgiana sabia que estava colocando sua própria vida em risco tentando salvar Jane. Mas, de alguma forma, não tinha dúvidas de que ficaria bem. Papai sempre diz que as crianças acreditam ser imortais. Talvez estivesse certo. Tudo que Georgiana sabia é que ajudar Jane era a coisa certa a fazer. Jane até tinha o nome da tataravô de Georgiana. Se isso não fosse um sinal de que deveria fazer parte da família, então não sabia o que seria. Jane seria a irmã de Georgiana. Sabia disso além da razão, embora não fizesse sentido sentir-se tão segura assim. Não era lógico nem científico. Estava apenas ali, uma certeza tão profunda que não conseguia duvidar. Tinha de ajudar Jane.
Mas como?
Georgiana fechou os olhos e mordeu o lábio de novo.
— Pai, o que devo fazer? O que devo fazer? — murmurou na escuridão.
Seja esperta, Georgiana. Use a cabeça.
Os olhos de Georgiana se abriram, e ela olhou em volta de si, meio que esperando ver seu lindo pai ali perto. É claro que não estava. Estava completamente sozinha nesse enorme estábulo escuro, sem nada a sua volta a não ser o murmúrio do vento, o carinho gelado que a atingia lhe provocando um arrepio, e o cheiro azedo do velho estábulo. Só que não se sentia mais tão sozinha quanto antes.
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