Até As Últimas Consequências
30 Hora Da Verdade
Notas iniciais

Anthony Hamilton — Pray For Me
[RECAPITULANDO]
Agarrando a mão de Lizzie, Georgiana correu até o carro que se aproximava e para longe do outro com luzes vermelhas. Estava escuro e os faróis do carro da polícia ainda não as tinha alcançado. Lizzie achava que a polícia não as tinha visto. Ainda.
— Ele vai ficar furioso por termos saído — disse Georgiana ofegante, ainda correndo e puxando a mão de Lizzie. — Mas pelo menos vai nos livrar da cadeia!
* * * *
Ele não podia acreditar nisso. Não podia acreditar no que estava vendo! Sua filha. Sua gênia, de oito anos de idade, fugindo do carro da polícia na calada da noite, como um vagabundo qualquer. Pisou no acelerador, correndo até lá e derrapando para parar.
Georgiana abriu a porta do carro, e as duas mergulharam no banco de trás quando o oficial se aproximava do carro de Darcy.
— Sentem-se e façam cara de inocente — ele mandou. Abriu o vidro ao ver Samuel atravessando a rua, parecendo sério.
— Olá, policial — disse ele, tentando soar alegre, o que era difícil, dado o fato de que estava morrendo de raiva por trás daquele sorriso.
— Bem, Fitzwilliam Darcy, aqui! O que está fazendo dirigindo pela cidade há esta hora? — Colocou a mão na porta do carro e se aproximou.
— Não conseguia dormir — falou abruptamente. Samuel franziu o cenho.
— Ah, é? E elas também não? — Apontou com a cabeça para as duas no banco de trás.
— Ah, bem… Não. Nenhum de nós. E que minha… cachorra desapareceu hoje e ficamos preocupados. Então decidimos dar uma volta e ver se conseguíamos encontrá-la. — Achava que era a resposta perfeita. Todos sabiam que Samuel Younge era apaixonado por animais. Viu o sorrisinho de Georgiana pelo espelho retrovisor e se deu conta de que ela o pegara mentindo de novo. Belo exemplo de pai ele estava se transformando.
— Isso é muito ruim — disse o policial, cocando o queixo. — E eu nem sabia que você tinha um cachorro. Algum sinal dela?
— Não, ainda não.
— Bem, não se preocupem. Só me deem a descrição e ficarei de olho.
— Claro. Ela é, hum…
— Preta — ajudou Georgiana. Infelizmente, ela soltou isso no mesmo momento em que o pai falava:
— Branca.
E Lizzie:
— Parda.
Darcy lançou um olhar para as duas linguarudas e se virou para o policial de novo, sorrindo:
— Malhada.
— Sei. De que raça ela é? Ela está usando coleira?
— Isso não pode esperar até outra hora, policial? Não quero lhe atrapalhar. É claro que está ocupado. — Ele apontou as luzes vermelhas ainda acesas.
— É, mas nada muito urgente. O alarme do consultório do doutor Magregor disparou de novo. Terceira vez neste mês. Tenho de ir até lá para verificar, mas acho que tem algum bicho morando lá. Desarma o detector de presença quando cruza o facho de luz. Um rato, um esquilo ou algo parecido. Por que veio para esse lado? Viu alguma coisa?
— Hum… Não. Quero dizer só as luzes vermelhas. Achei que fosse lei, sabe, parar quando…
— Bem, não quando está indo na direção contrária.
— Ah.
Enfiou a cabeça pela janela:
— Você deve ser a Miss. Bennet. Ouvi dizer que estava… ficando na casa do Mr. Darcy.
— Na verdade, alugando um quarto. Prazer em conhecê-lo, policial. — Lizzie estendeu a mão para apertar a de Samuel.
— Alugando um quarto, é? — Era óbvio que o homem duvidava daquela conversa. — Bem, foi um prazer, Miss. Bennet. É melhor eu continuar meu trabalho e dar uma olhada no consultório. — Tocou a aba do chapéu. — Vou ficar de olho na sua cachorra, Mr. Darcy.
— Boa noite — disse ele, passando a marcha.
À volta para casa nunca pareceu tão longa quanto naquela noite. Havia um clima tenso no ar.
Assim que chegaram, eles foram direto para a sala de estar e imediatamente Darcy mandou que a filha fosse para direto a cama, na manhã seguinte iria conversar com ela, mas desde já que era para ficar ciente que estava de castigo.
Sabiamente, Georgiana decidira obedecer sem questionar quando ela subiu para o seu quarto.
Aquela pequena danadinha a colocou no fogo e escapou na primeira oportunidade, deixando-a sozinha para enfrentar a fera.
Garota esperta.
Ele andava de um lado para o outro na sala, passando entre o confortável sofá em que Lizzie estava sentada. E ela apenas o observava, quieta, se sentindo como daquela vez em que seu tio o pegara levando um hamster escondido para casa, muitos anos atrás. Embora Mr. Gardner não fosse tão atraente quanto Darcy, que ficava ainda mais bonito quando estava bravo, algo que lhe parecia pouco comum em homens. Os olhos dele brilhavam de raiva. Seu rosto marcante tinha um brilho avermelhado, e os lábios estavam ligeiramente abertos.
Ah, pelo menos isso lhe dera a chance de ver Darcy assim. Não era uma imagem da qual se esqueceria facilmente.
Ele parou de andar e olhou para ela, que decidiu enfrentar a fera.
— Desde quando você estava planejando fugir para ir ao consultório?
— Desde ontem à noite, quando eu o ouvi combinando com Charles. Nunca foi a minha pretensão envolver Georgiana em um roubo. Acredite em mim. Não sabia que Georgiana estava me seguindo.
Os olhos dele se estreitaram.
— Então você deixou a minha filha aqui sozinha?
— Sim.
Ele virou os olhos e balançou a cabeça.
— Eu tenho uma filha, Fitzwilliam. Também sou mãe.
O queixo dele abaixou, a tensão no maxilar aliviou e o ar saiu de sua boca num suspiro.
— Eu sei. Tudo bem, Lizzie. Acredito em você. Mas eu disse para você não…
— Tente se colocar no meu lugar, só por um minuto.
Os olhos de Darcy se fecharam com força, como se não quisesse se imaginar nessa situação. Mas, talvez, estivesse.
— Sua filha, Georgiana, deitada na cama, morrendo com a febre. A um quilômetro de você, trancado a chave, está o remédio que pode salvá-la. Não iria pegá-lo? — Já estava de pé e foi até ele, pegou seu queixo e o abaixou gentilmente para que pudesse fitar aqueles olhos formidáveis. — Você me aconselharia a não fazer isso, Fitzwilliam, mesmo sendo essa pessoa lindo e sábio?
Ele manteve o olhar fixo no dela.
— Você sabe que não.
Ela sorriu, deixando a mão cair.
— Eu sabia que responderia honestamente. Agora tenho isso, Darcy. — Tirou do bolso um pequeno pote de plástico marrom com comprimidos, colocou em cima da mesa e o contemplou, quase sem conseguir conter a alegria. — Posso salvar minha Jane. Se puder voltar para ela, posso…
— Não, Lizzie — sussurrou ele. — Você não pode.
Ela franziu a testa e o sorriso se apagou.
— É claro que posso.
— Elizabeth… Olhe, tem algo que não lhe contei. Achei que pudesse esperar até que estivesse se sentindo melhor, mais forte… Não, isso é mentira. Estava esperando porque não queria contar. Não conseguia encontrar as palavras e não queria ver ódio em seus olhos quando eu…
— Fitz.
Ele parou com a perambulação, olhou para ela e, para surpresa de Lizzie, havia lágrimas em seus olhos. Seu próprio reflexo brilhava nelas. A imagem daquelas lágrimas a deixaram em alerta. Pois não esperava vê-lo tão frágil. Tanto que se viu segurando nos ombros dele, pesquisando seu rosto.
— Senhor, Fitz, o que é?
Ele fungou uma vez, e então pareceu se recompor.
— A cura para a meningite foi encontrada por causa da morte de Jane. Quando você desapareceu, Lizzie, seus tios, se juntaram. Em vez de competirem um contra o outro, trabalharam juntos para descobrir a cura e conseguiram. Eles fizeram isso em homenagem a você, Lizzie, e a sua perda. A perda de outras vidas nunca os inspirou como a perda da sobrinha, uma mulher que eles consideravam a melhor mente científica apesar da época. Eles acharam que você tinha enlouquecido quando Jane morreu e por isso desapareceu. Culparam a febre.
Lizzie olhava para ele, balançando a cabeça, sem acreditar.
— Está tudo aqui — disse ele, virando-se para pegar um livro grande que estava na mesa. — Lizzie, se você salvar sua filha, seus tios não descobrirão a cura. Talvez ninguém descubra. Se você mudar o passado dessa maneira… então, o que será do presente? Quantas centenas de pessoas morrerão? E quantos milhares de descendentes nunca nascerão? E…
— Pare! — Lizzie deu-lhe as costas e tampou os ouvidos com a mão. Não conseguia suportar escutá-lo e saber que estava certo. Tão certo e nem tocara ainda na magnitude das implicações. O modo como a vida, ou a morte, de uma pequena menina podia mudar o mundo que ela conhecia. A sucessão de pesquisas que provavelmente se desencadeou a partir do que a ciência aprendeu com a cura de uma doença com certeza levou à cura de várias outras. Tudo isso poderia ser perdido. E as vítimas que essas doenças fizessem… algumas delas podem se tornar uma das pessoas mais influentes da atualidade. Como seria o mundo de Darcy se eles nunca tivessem nascido porque seus ancestrais morreram de alguma doença cuja cura já deveria ter sido descoberta?
Mãos macias chegaram por trás. E então a cabeça de Darcy recostou suavemente em sua cabeça.
— Sinto muito.
— Não posso… — disse ela. — Não posso simplesmente desistir, Fitz. Tem de haver um jeito.
— Você não pode mudar a história sem causar impacto no presente e no futuro. Qualquer coisa que fizer no passado terá repercussões. É como jogar uma pedra na água parada. As ondas vão se espalhando.
Ela virou-se para encará-lo.
— Não vou permitir que minha filha morra tendo os meios de salvá-la.
— Sei que é…
— Não posso, Fitzwilliam. E não vou.
— Você é uma cientista. Pense no que pode acontecer, pense na humanidade.
— Não ligo a mínima para a humanidade! — gritou ela. — Quero minha filha! — E então seus joelhos pareceram dobrar e ela se viu no chão, a mão segurando no banco para se manter ereta. Fechou os olhos e deixou o queixo cair porque não conseguia suportar que esse homem forte que tanto amava a visse chorar. — Só quero minha filha.
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