Até As Últimas Consequências
40 De Volta Para Casa
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
— Não vai perdê-la — disse ele, repetindo as palavras tranquilizadoras que ela falara antes, quase literalmente. — Prometo.
Lizzie cobriu a mão dele com a sua e a levou até a boca, para que pudesse beijar a palma.
— Você é um tesouro, Fitz.
— Coma — disse ele. E ela comeu.
***
Era para ser um intervalo de cinco minutos. Quando Darcy e Lizzie se recostaram na cabeceira da cama, mal conseguindo manter os olhos abertos, concordaram em fazer um intervalo rápido. E logo depois voltar ao trabalho. Ela não sabia quando os olhos dele se fecharam ou como conseguira dormir estando tão preocupado com a filha. Mas dormiu. Apagara enquanto ela divagava sobre sua teoria de como conseguira viajar no tempo. Era chato para ele, ela imaginava. Se soubesse que o poderia chatear para que descansasse um pouco, teria feito antes. O homem estava à beira de um colapso, mais exausto emocional do que fisicamente, ela sabia. E agora, embora devesse estar trabalhando, não conseguia acordá-lo. Se ela se movesse, provavelmente conseguiria. Porque Darcy estava virtualmente enrolado nela.
Deixou seus olhos vagarem pelo rosto dele. Cem vezes não seria o bastante esquecer aquele rosto tão marcante, percebeu isso com um arrepio lhe correndo pela espinha.
Mas o que ele tinha que a deixava tão atraída, que chamava tanto sua atenção?
Se pelo menos as coisas fossem diferentes. Se pelo menos tivesse tempo para descobrir.
Ele deslizou na cama, até a cabeça descansar no pescoço dela, os braços em volta da sua cintura, e uma perna dobrada enroscada em sua coxa.
Toda essa situação preocupava Lizzie. Pois não estava respondendo da maneira que costumava. Não sabia o que iria fazer quando só estivesse ela e a filha sem a presença de Fitiz na sua vida. Mas só o fato de poder simplesmente abraçá-lo, contemplá-lo, ajudaria nos momentos mais difíceis. Queria guardar na memória o seu cheiro e o seu calor.
Balançou a cabeça enquanto pensava nisso. Aqui, envolvido em seus braços, nada menos do que na cama, estava o homem que amava. Possivelmente, quase com certeza, mais do que desejara outro. E não estava fazendo nada para se aproveitar da situação.
Movendo-se devagar e com cuidado, alcançou o aparelho, a chave de fenda e as anotações, espalhando tudo sobre a cama de forma que não interferissem no sono dele. Então começou a trabalhar, remontando os pedaços quebrados no aparelho, um por um.
Fitiz escorregou e acabou com a cabeça em cima do ventre dela. Ela sentia cada fio de barba e o ressoar suave soltava um ar quente em lugares íntimos por cima do vestido. Lugares que ganharam vida ao longo daqueles dias e mostraram a ele que não usava há anos.
Automaticamente, ela se virou, tentando se livrar dessa posição constrangedora, mas só piorou. Darcy se agitou. A mudança no padrão de sua respiração mostrou que ele estava acordado. Mas demorou um pouco para se sentar. E quando finalmente o fez, assim que teve oportunidade, ela voltou a olhar para o rosto dele quase desejou que não tivesse feito, porque o brilho naqueles olhos verdes fez seu coração disparar.
— Por mais que o tempo passe, você nunca saberá o quanto eu gostaria de ter mais tempo, Fitz.
Não sabia como responder a isso. Então não disse nada. Apenas manteve o olhar fixo no dela, e desejou poder ler seus pensamentos. Desejou… Mas esperou. O que ela quis dizer? Soou como se… O olhar dele se desviou para o aparelho em cima da cama, ao lado dela.
— Lizzie?
Ela assentiu e pegou a caixa preta.
— Olhe para isso — murmurou ela. Apontou o aparelho, apertou um botão e uma pequena faísca apareceu no centro do quarto.
— Céus — sussurrou ele, o coração saltando no peito. — Está funcionando. Você consertou.
— Acho que sim.
— O quer dizer com acha que sim? — Ele ficou de pé e se aproximou da luz. — Não tem certeza?
— Não, não estou completamente certa.
— Então…
— Espere. — Ela ajustou o mostrador, e a luz tornou-se maior e mais forte. Fitz se levantou, segurou no braço dela e a puxou enquanto a esfera de luz ocupava mais e mais espaço no quarto. Quando se estendeu além do teto e através do chão, a luz começou a tomar tons distintos e formas pairavam do outro lado da névoa. A esfera se transformou em um espelho, refletindo o quarto, menos os móveis modernos, o novo papel de parede e os acessórios elétricos. Era o mesmo quarto, há duzentos e vinte anos.
— Olhe — murmurou Fitz. — O calendário na parede.
Ele apontou, e Elizabeth viu a página, com cada dia riscado metodicamente conforme passava.
— Acho que conseguimos. Encontramos o portal para o dia anterior que eu parti. E tenho certeza de que foi quando Georgiana passou.
— Mas… Se é antes de você partir, então… Você está lá? E aqui? Existem dois vocês? Lizzie, e se…
— Não sei. Não sei se meu eu passado está lá agora ou não, Fitz. Mas acho que estarei bem se não der de cara com ela… Comigo… — Ela segurou nos ombros dele e o virou para si. — Fitzwilliam, tenho de ir agora. — E para surpresa dela, os olhos dele pareciam molhados. — Dizer adeus para você… — Ela balançou a cabeça, aparentemente desistindo das palavras. Em vez de falar, ela o beijou, lenta e delicadamente, por um longo tempo. E Fitz viu que correspondia ao beijo, passando suas mãos pelos ombros dela, abrindo os lábios em convite e pressionando o seu corpo contra o dela. Antes, tiveram paixão, desespero, desejo. Agora… Era diferente. Era emoção… Tanta emoção que lhe tirava o fôlego.
Será que ela…?
Ela levantou a cabeça, se voltando em direção à luz. Fitz deu em si mesmo uma sacudida mental, tentando desesperadamente emergir do mar de sentimentos em que estava se afogando. Limpou a garganta, mas sua voz continuava rouca.
— Não sei em que você está pensando, Bennet, mas pode repensar. Minha filha está lá. Vou com você.
— Os efeitos colaterais…
— Tenho certeza que tudo vai dar certo. Ficarei bem. Além disso, como eu disse antes, isso não está em consideração.
— Não é seguro. Nem necessário Fitz. Você sabe que cuidarei de Georgiana como se fosse minha filha. Eu amo essa menina. — Franziu a testa depois de falar, como se as palavras a tivessem surpreendido. Mas logo seu cenho relaxou, e ela assentiu mais uma vez. — Amo aquela menina. Ela estará a salvo comigo, e assim que o aparelho recarregar, a mandarei de volta.
— Vou com você.
Ela tocou o rosto dele e balançou a cabeça.
— Não posso deixá-lo se arriscar.
— Não é uma decisão sua. — Darcy se soltou dela tão repentinamente que a deixou surpresa. Ele não perdeu nem um segundo, girou e correu diretamente para a luz. Teve a sensação se estar sendo espremido até que se sentiu como uma tartaruga embaixo do pneu de um caminhão, e de repente alívio ao atingir o chão, ou o chão atingi-lo.
Lizzie aterrissou ao seu lado, e permaneceu lá deitada, as mãos na cabeça, o rosto contorcido em angústia. O aparelho bateu no chão ao lado dela, e então a luz apagou.
Darcy tentou se levantar e se surpreendeu ao ser atingido por uma onda de tontura, que o mandou direto para onde estava ajoelhado. Sua cabeça latejava como se tivesse bebido muito. A visão estava turva e não conseguia se equilibrar.
Céus, que sensação assustadora!
Mas Lizzie ainda estava no chão. Rolara e agora estava com a barriga para cima, deitada, olhos apertados, as mãos pressionando as têmporas.
— Lizzie? — Darcy se ajoelhou ao lado dela, lutando contra suas próprias reações já que ela estava muito pior. — Aguente firme, Lizzie.
Os olhos dela se abriram e a focalizaram sem o reconhecer. Branco. Tudo branco. Juntou as sobrancelhas e a encarou:
— Eu conheço você — disse ela sem forças, piscando para tentar colocar a visão em foco e olhando à sua volta. O olhar caiu sobre a caixa no chão e se apertou quando tentou sentar. Mas logo em seguida estava olhando para ele de novo. Esticou o braço e tocou seus cabelos enquanto os olhos o examinavam. — Conheço você. Conheço seu rosto, e seu cheiro e o gosto de sua boca. E sei que não há nenhum homem no mundo como você. Espere…
— Sou Fitzwilliam Darcy — disse ele, mas estava sem fôlego, depois daquelas palavras. Tentou se concentrar. Ela estava confusa, desorientada. — Vamos lá, Lizzie. Preciso de você.
— Fitzwilliam — murmurou ela, deitada como se para tirar um cochilo. Ele entendia a sensação. E compartilhava. Exaustão. Fadiga elevada à décima potência. — Volte para a cama, Fitzwilliam.
Ele sacudiu a cabeça dela entre suas mãos, dando vários tapinhas no rosto.
— Vamos, Lizzie. Acorde, isso é uma emergência.
Ela abriu os olhos.
— Querido, você está insaciável…
— Jane, Lizzie. Georgiana. Lembra?
— Jane… — Ela piscou e a expressão confusa abandonou seu rosto. — Jane. Minha filha! — Sentou-se, balançou a cabeça e então segurou a mão dele para se levantar. Parou, olhou para a mão, ainda envolta na dele. — Fitzwilliam… Sim… — Levantou o olhar para fitá-lo. — Desculpe.
— É o portal. Faz alguma coisa com sua cabeça, Lizzie. Não é culpa sua.
— Estamos um dia adiantados. Não posso encontrar com… a outra Lizzie… se ela existir. Não posso. Não faço ideia do que aconteceria.
— Bem… tente lembrar, Lizzie. Onde você estava às… — procurou pelo quarto, encontrou um relógio no console da lareira e continuou — cinco e meia da tarde no dia anterior…
— De minha filha entrar em coma? — completou Lizzie. — Estava na sua cabeceira. Nada me faria sair.
E quando disse isso, os dois se viraram e seus olhares pousaram na pequena criança adormecida na cama, e na cadeira vazia ao lado.
— Bem, aparentemente alguma coisa a fez sair — murmurou ele.
Desconcertado, afastou-se dele e foi para a cabeceira da cama, inclinou-se e beijou a testa da filha. Jane dormia profundamente, sem se mexer. E o coração de Darcy se apertou ao olhar para rosto pálido, de cabelo cacheado e sardas espalhadas pelo nariz. Igual a Georgiana.
Lizzie se endireitou, os olhos úmidos e o maxilar tenso.
— Vamos. A versão do passado de mim pode aparecer a qualquer momento. Fitz, me ajude… — Colocou os braços em volta da cintura dele, se segurando para não cair. — Leve-me para meu… seu… nosso quarto. Ninguém nos incomodará lá e assim poderemos planejar nosso próximo passo.
Ele concordou e a ajudou a atravessar o corredor.
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