Até As Últimas Consequências
6 Algumas Explicações
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
“Céus, por que estava tão fraca? Tão tonta? Estivera doente recentemente?”
— Vá embora — ordenou ele. — Antes que eu cometa a sandice de te dar umas boas palmadas.
— Chega — disse ela com calma, ainda frustrada por seu estado físico. — o senhor está doido? Tenho de provar que esta casa é minha? Terei de chamar o corretor para tirá-lo daqui? É o que deseja? — Ela balançou a cabeça, levantou a mão e apontou em direção à mesa perto da janela, sua forma visível na escuridão. — Ali tem uma escrivaninha. Não a principal, claro, mas deixo uma aqui no quarto de Jane. Alguns de meus experimentos estão lá. Minhas ferramentas. Minhas anotações. É claro que elas são secretas, mas um homem como você pode olhar que não vai entender mesmo. Pode olhar. Tem a lareira e no console tem dois lampiões e fósforos. Acenda um para que possa ver onde está, homem. E depois, vá embora, sem criar problemas. Tenho de trabalhar.
O homem apenas a encarava, completamente confuso. E então, lentamente, ele foi até a parede. Tocou em algo, e o quarto de repente se encheu de luz. Elizabeth quase caiu para trás de susto.
***
Darcy procurou o taco de beisebol no chão e o agarrou enquanto observava a mulher olhar ao redor do quarto em aparente confusão, como se não acreditasse.
— O que é isso? — gritou ela. — Onde está o quadro-negro? Minhas anotações? Senhor, quem instalou esse maldito lustre estranho aqui, e o que o senhor fez com as minhas anotações?
— Olhe — disse ele, segurando o taco bem a sua frente. — Não faço ideia de quem a senhora seja, ou sobre o que está falando, mas…
— Minhas ferramentas! — gritou ela, virando-se e passando a mão pelo cabelo despenteado quase negro que caiam em seu rosto. — Que diabos o senhor fez com as minhas ferramentas? E minha escrivaninha? Onde está à mesa de tia Lydia?
A mulher estava desorientada. E não era só mentalmente. O rosto estava pálido e muito magro, e círculos escuros envolviam seus olhos,
— Graças aos céus — disse ela caindo de joelhos, segurando a pequena caixa. — O aparelho está a salvo. — Ficou com a aparência ainda mais confusa do que antes. — Mas ainda não tinha terminado.
Ele queria fugir do quarto, naquele instante, correr pelo corredor para agarrar Georgiana e tirá-la de casa. Mas como a mulher de joelhos no meio do quarto estava olhando para ele, achou que ela poderia estar se lembrando… A dor que sombreou seu rosto disse mais do que palavras. Mesmo assim, ela falou, olhando para ele.
— Seu nome é Darcy.
Ele assentiu. Dizia para si mesmo que deveria fugir chamar ajuda. E repetia em seu íntimo que não deveria ir até ela e tentar ajudá-la a resolver a confusão que estava estampada em seu rosto.
— E a menina… É sua filha… Não é Jane.
— Isso mesmo. Você se lembra, então.
— Lembro de Jane… Minha pequena Jane… — Envergou a cabeça, e os ombros tremiam. — Ela está… morrendo. Como pude me esquecer disso, mesmo por um momento?
Darcy piscou.
Morrendo? Ela tinha uma filha, que se parecia com a sua, e aquela filha estava morrendo?
— Senhor — sussurrou ele, deixando o taco cair, produzindo um barulho. — Senhora, dá para imaginar por que está tão confusa. — Cautelosamente, ele andou para frente. E quando chegou perto dela, tocou-lhe o cabelo, tirou mechas do rosto e sentiu as lágrimas.
Os braços envolviam as pernas, a cabeça descansando nas coxas.
— Queria voltar para poder salvá-la. Para antes de ela ser exposta ao maldito vírus. Mas falhei. Um erro de cálculos. Fracassei, e agora vou perdê-la para sempre.
Mais uma vez essa conversa louca. Mas será que ficaria são se perdesse Georgiana?
Um leve arrepio passou por sua espinha, mas continuou lhe afagando o cabelo. Essa situação lembrava a de Elizabeth Bennet. Essa confusão era surpreendente.
— Está tudo bem — sussurrou ele, já que um nó na garganta o impedia de falar mais alto. — Tudo vai ficar bem. Vou ajudá-la. Ok?
Ela não disse nada. Mas ele sabia que estava arrasada. Ela olhou para ele, tremendo, chorando, confusa e sentindo uma dor terrível.
— Qual é o seu nome? — perguntou ele.
— Lizzie. Elizabeth Bennet.
O corpo dele enrijeceu, e ela deve ter sentido, pois se afastou. Ela esfregou a mão na testa, como se tentando fazer passar uma dor de cabeça latejante, e então, lentamente, levantou-se.
— Eu sinto muito. Estou caindo aos pedaços. O que deve estar pensando?
— Estou pensando — disse ele, escolhendo as palavras — que a senhora passou por algo terrível e que isso a deixou confusa.
— Louca, o senhor quer dizer.
— Claro que não.
— Você me olha como se fosse louca.
— Bem… Eu… Olhe, é que Elizabeth Bennet teria mais de 220 anos hoje.
Ela parou de andar, brincando com a caixa preta.
— Elizabeth Bennet tem 22 anos. Ela nasceu em 1773.
— Isso não faz o menor… Em que a senhora está mexendo?
Ela olhou para cima e piscou.
— Então a casa pertence a você agora?
— Sim, a mim e a minha filha.
— A sua esposa… Ela está em casa? Posso falar com ela?
— Eu não tenho… — Ele mordeu o lábio, desviando o olhar. Desde quando o manual de sobrevivência do século XVIII aconselhava aos homens a darem informações a desconhecidos? — Ela não está agora.
A mulher que dizia ser Elizabeth Bennet baixou o olhar. Para a mão esquerda dele, o que ela percebeu.
— Você não é casado, é?
Ele não respondeu e ela balançou a cabeça, pensando, e olhou para a caixa mais uma vez. E então, ela oscilou, piscou como se a visão estivesse embaçada.
— A senhora não está bem.
Ela respirou fundo para fortalecer-se e sentou-se na beirada da cama.
— Não. Fisicamente não estou bem. Efeitos colaterais, suponho. Não esperava que fossem tão fortes.
— Efeitos colaterais… Por quê?
— Você vai correr para chamar o hospício se seu disser. Mas acho que não tenho muita escolha. Preciso de você, Darcy. Mas não sei como fazê-lo entender. Venha cá.
Ele piscou e deu um passo para trás, olhando enquanto ela dava tapinhas na cama ao seu lado.
Ela franziu o cenho, e depois as sobrancelhas se arquearam e ela assentiu.
— É verdade. Acho que não fui muito educada quando o encontrei aqui mais cedo, não é mesmo? — E os olhos dela, por alguma razão, fixaram-se nos lábios dele, e ficaram lá por um instante. — Não sei o que foi aquilo, Darcy. Algum tipo de lapso de memória. Efeitos colaterais, como eu disse. Fiquei lembrando de uma época em que dois tios contrataram um… Não importa. Peço desculpas. Por favor, venha até aqui. Se ficar aí, pode se machucar quando lhe mostrar o que este aparelho faz.
— O que é isso, algum tipo de arma?
— Não, não é isso. Só quero mostrar como cheguei aqui, Porque se eu contar vai achar que sou louca e me jogar para fora antes que eu possa provar.
Ele deu em um passo em direção a ela, que estendeu uma mão.
— Sou Elizabeth Bennet, Darcy, e se vier até aqui, provarei isso.
Suspirando, ele pegou o taco de beisebol. Ela olhou para o taco, levantando uma sobrancelha. Darcy foi até ela e sentou-se ao seu lado.
— Suponho que vai me dizer que viajou duzentos e vinte anos no tempo, e que este pequeno controle remoto é a máquina do tempo.
— Como você poderia saber…
— Ah, todo mundo aqui sabe sobre Elizabeth Bennet. Ela foi um gênio. Uma mulher anos-luz à frente de seu tempo. Mas ficou um tanto louca depois que… — A voz dele falhou e ele perdeu o fôlego.
— Depois que a filha dela morreu. É, acredito que fique mesmo se isso acontecer. Mas, não tenho nenhuma intenção de deixar isso acontecer. — Ele arregalou os olhos enquanto a encarava. Ela olhou para as próprias roupas. — Estou com essa roupa à noite toda, tal como me deitei com ela. Não é de se admirar que esteja com medo de mim. Pareço uma vagabunda qualquer. Não esperava encontrar ninguém aqui… Exceto Jane e talvez a Mrs. Smith.
— Pare de falar desse jeito. Parece…
— Louca? Eu sei É o que todos os colegas de meus tios ficam dizendo. Que viajar no tempo é impossível. Que eu estava desperdiçando meu talento trabalhando nisso. Eu estava perto, bem perto há meses. Quando Jane ficou doente… Mudou algo em mim, me deu uma força… Extra.
Ele balançava a cabeça, ainda afastado. Mas a mão dela se aproximou, pegou o pulso dele e a trouxe para perto de si. Com aquele controle remoto engraçado, ela apontou.
— Aquele ponto ali, aproximadamente um metro acima do chão, em volta do qual esta casa foi construída… Ali há uma dobra invisível no tecido do tempo. Um portal. E eu posso abri-lo.
O polegar dela tocou o botão no controle remoto, e ele escutou um zumbido. Uma faísca apareceu no ar, no centro do quarto.
— Minha intenção era voltar no tempo. Apenas alguns meses. Queria ir até Jane antes dela ser exposta ao vírus, e levá-la para longe antes de ser infectada. Queria salvá-la. É claro que você consegue entender isso, não consegue? Apenas algumas horas atrás, você queria me atingir com um taco para salvar sua própria filha. Faria qualquer coisa por ela. Você sabe que faria.
Ele não gostava do brilho nos olhos dela, ou a força com que apertava seu braço. Ele tentou puxar o braço, mas ela se levantou, a puxou e apertou contra si. O braço livre agarrou a cintura dele e o manteve imóvel. Os dedos da outra mão mexiam no mostrador da pequena caixa, que começou a zunir. Mas a luz permaneceu a mesma.
— Eu o estraguei — disse ela, enquanto virava o mostrador com a mão livre. — Meus cálculos deram errado e eu vim para o futuro em vez de para o passado. E não só alguns meses, mas dois séculos.
Virou o mostrador mais uma vez, aumentando a força com que segurava a cintura dele. Ele balançou a cabeça, mas desistiu de lutar.
— Não pode ser.
Lizzie virou o mostrador mais uma vez, mas a luz só acendeu mais forte por um instante e depois apagou. Por um longo momento, Darcy apenas observou o lugar em que a luz estivera.
Ela mexeu na caixa, mas nada aconteceu.
— Droga. Estava esquecendo… Não estou maluca — murmurou ela, e ele percebeu que ela ainda estava segurando-o. Suas costas aninhavam-se intimamente ao corpo dela, cuja mão permanecia em sua cintura. — O aparelho precisa de tempo para recarregar. Como pude esquecer disso? Não sei. Preciso de alguns dias e lhe mostrarei algo que nunca vai esquecer. Sou exatamente quem digo ser. Sério. E preciso de você. Preciso que deixe eu ficar aqui até que o aparelho recarregue e eu possa voltar para a minha filha.
Ele virou-se nos braços dela e a encarou bem nos olhos e soube, sem dúvida, que essa mulher acreditava completamente em cada palavra que dizia. Essa pobre louca — e linda.
— Você não vai me expulsar. Sei que não vai. Posso ver bondade em seus olhos.
— Você precisa de ajuda. Deixe-me ajudá-la.
Ela fechou os olhos, e os ombros caíram para frente como se estivesse muito exausta para continuar.
— Pelo menos — murmurou ela — deixe-me ficar até de manhã. Até lá, pensarei em um jeito de fazê-lo acreditar. Estou muito cansada agora. Não consigo pensar.
— Tudo bem. — Burro, disse para si mesmo. Burro por deixar essa louca ficar a noite toda. Mas não podia expulsá-la, não com aquele sofrimento nos olhos.
O alívio no rosto dela foi inacreditável. Ela a puxou para mais perto e o abraçou.
— Obrigado, Darcy.
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