Notas iniciais
Olá novamente, tinha me programado para postar o prólogo e o capitulo um juntos, mas tive um imprevisto em casa e só consegui agora. Bjs e espero que gostem

O sol brilhava através do rendado da cortina, refletindo pequenas partículas de luz que iluminavam o chão em que eu corria descontroladamente. Eu amava explorar aqueles grandes cômodos de madeira em que vivi os mais humildes e felizes dias da minha infância. Antes de papai conquistar uma grande fortuna e ascender na alta sociedade bruxa. Nessa época morávamos em uma vizinhança mestiça, com bruxos e trouxas, apesar de eu não entender muito bem o que isso queria dizer. As crianças não nascem sabendo fazer esse tipo de distinção, e naquele tempo, eu ainda não sabia que era diferente das outras meninas da minha idade, não só por ser bruxa, mas por ser uma bruxa privada da magia natural que envolve os mais puros pensamentos infantis.

Mais tarde consegui entender que até o mais trouxas dos trouxas em algum momento da vida acredita em magia, fadas, bruxas e em finais felizes. Geralmente quando são crianças e ainda podem imaginar. Só não na minha casa, Odile jamais permitiu que nós nos envolvêssemos com esses pensamentos, ela odiava imaginação. Eu não conhecia nenhuma história sobre romances, ou mocinhas apaixonadas e me contentava em correr pelos cômodos perseguindo o brilho do sol e luz da lua, até o dia em que conheci Lucy, e aprendi que a magia não se limitava apenas aos feitiços e às poções.

Lucy era uma menina trouxa que vivia na casa mais próxima à minha, o que não era realmente perto, pois havia um grande espaçamento entre elas. Morávamos em um pequeno vale rodeado de árvores grandes e suntuosas, próximo a um pequeno córrego que circundava o terreno.

Eu nunca tinha permissão para sair da propriedade, ou falar com desconhecidos, isso incluía crianças, contudo não era como se meus pais realmente se preocupassem com o que nós, Daphne e eu, fizéssemos da nossa vida. Meu pai passava longas temporadas em viagens a trabalho e, — eu não tinha ideia do que ele fazia, mas sabia que era algo que nos tornaria ricos, seja lá o que isso significasse. Havia o conhecimento apenas que um dia a riqueza chegaria, pois ele se empenhava muito em ascender para a alta sociedade bruxa e nos tirar "-desse lugar horrível"- como dizia Odile.


Ela também fazia sua parte e passava seus dias em todos os eventos sociais em que uma quase rica poderia participar. É claro que com essa vida de esforço e glamour não sobrava tempo para cuidar de duas filhas pequenas e nem um pouco desejadas. Na época, tínhamos somente uma criada para cuidar da casa insuficientemente grande e de nós. O sonho de Odile era ter um elfo doméstico. Para ela, uma família bruxa puro-sangue como a nossa precisava ter, no mínimo, dois elfos domésticos. Odile era originária de uma família rica do Sul da França e estava acostumada com uma vida de luxo, à vista disso, possuía muita dificuldade em aceitar sua condição atual. Condição que o casamento arranjado com um primo distante e desconhecido lhe infligiu. Era óbvio para qualquer um que a visse em toda sua beleza e modos aristocráticos que seu local não era lá, perdida numa casa de madeira no meio do mato, com apenas uma única criada. Ela voltaria a ser rica, foi à única coisa que meu pai prometeu quando casaram, e ele sempre foi um homem de palavra.

Assim, enquanto os adultos se preocupavam com as futilidades do dinheiro, Daphne, minha irmã dois anos mais velha e eu, vivíamos como bem queríamos. E, contanto que não cruzássemos ou atrapalhássemos o caminho de nossos pais, éramos livres para fazermos o que bem quiséssemos.

Diferente de mim que fazia tudo para passar despercebida e não chamar atenção, Daphne tinha uma grande necessidade de aparecer, ser aceita, se sentir amada. Ela passava seus dias buscando formas de agradar nossos pais estudando piano ou bordando. Coisas entediantes que supostamente eles apreciavam e Daphne se esforçava para aprender. Naquele tempo, eu estava apenas com cinco anos, e tudo que eu queria era continuar invisível. Eu era uma criança terrivelmente tímida, não gostava de incomodar ninguém com as minhas pequenas inquietações e não possuía nenhum amigo, nem ao menos sabia o que era isso, até Lucy aparecer no meu caminho.

Foi em uma dessas tardes em que chovia forte, mesmo estando calor e com o sol brilhando que eu a conheci. Eu gostava de subir até a pequena colina que havia atrás do terreno e me esconder em uma choupana abandona. Amava olhar como a chuva caíia sobre o vale em que vivíamos e fazia o pequeno córrego transbordar, criando pequenas poças que depois eu brincaria de pular. Aquele era o meu lugar secreto, quase sagrado, ninguém sabia que eu ia lá, nem mesmo Daphne, a única que prestava atenção na minha existência. Era um lugar que me pertencia até aquele dia em que vi um pontinho marrom correndo desesperadamente em minha direção.

– Olá. Posso esperar a chuva passar aqui com você?

Não respondi nada, apenas encarei surpresa uma menina com a pele escura e olhar amendoado expressivo, a qual sorria para mim. Ela carregava um livro nas mãos e parecia tentar o proteger da água.

– Eu estava brincando de bela adormecida embaixo daquela árvore e só acordei quando a chuva começou a cair.

Ela apontou para uma imponente macieira que ficava no meio do vale.

— Você não acha uma coisa encantadora quando estamos brincando de esperar o beijo do amor verdadeiro e somos despertas com o beijo da chuva ?

Eu estava confusa, nada do que ela falava parecia ter sentido. Eu sabia o que era magia, meus pais eram bruxos, mas o que era bela adormecida ou beijo de amor verdadeiro?

— Eu sou Astória Greengrass – disse tentando reproduzir a única coisa que eu sabia.

— Ah me desculpe, eu me chamo Lucy. –Falou apertando minha mão. – Foi uma terrível grosseria não ter me apresentado. Você é a menina da casa marrom no fim da estrada, não é? – Questionou interessada.

Eu apenas fiz que sim com a cabeça.

— Sua casa parece que saiu exatamente de um conto de fadas.

— O que é um conto de fadas?

Lucy me olhou confusa.

— Você nunca ouviu falar sobre Cinderela, Bela Adormecida ou Branca de Neve?


Fiz que não com a cabeça, a única pessoa que me falava alguma coisa era Daphne, porém dois anos a mais não lhe qualificava como uma grande professora. Então, Lucy me contou as mais lindas histórias que ouvi em toda minha vida. Fique encantada por príncipes que salvavam as princesas do mal e depois viviam felizes para sempre, não que eu entendesse o significado disso, mas parecia encantador, e foi o que eu passei a desejar para mim com toda força do meu coração. Todas aquelas histórias estavam no livro que ela carregava. E Lucy pareceu muito surpresa por saber que minha mãe não me contava histórias antes de dormir, ou que ninguém havia lido para mim antes.

— Nós só descobrimos o mundo de verdade quando aprendemos a ler, é o que meu pai sempre diz –falou Lucy convencida de que essa era a maior verdade da vida.

Conhecer Lucy ocasionou uma grande mudança em mim. Primeiro, despertou uma curiosidade sobre os livros: se eles poderiam me levar para conhecer o mundo, eu precisava deles. Entretanto, tinha um problema, eu não sabia ler e Daphne também não, o que era estranho, pois ela parecia ter a mesma idade de Lucy. Segundo, foi que percebi que nem todos os pais eram como os meus, havia mães que liam livros para as suas filhas antes de dormir, e pais que conversavam com elas. Pela primeira vez eu consegui nomear e entender a tristeza e o vazio que sentia dentro de mim. Mas logo esse sentimento de solidão e abandono foi substituído pela alegria de ter uma amiga.

Lucy era doce e bondosa, e mesmo sendo mais velha não se comportava com se fosse superior. Era acessível, e isso a diferenciava de Daphne, que se esforçava em se manter ocupada demais, como uma pequena adulta. Lucy era criança, e de uma forma surpreendente adorava isso. Passamos a nos encontrar todos os dias, ela pedia para que eu fechasse os olhos e imaginasse enquanto ela contava histórias e eu a recompensava compartilhando tudo que sabia sobre magia. O que não era muita coisa, porém saber que meus pais tinham uma varinha já a deixava encantada o suficiente.

Não passou muito tempo sem que Daphne percebesse minha falta, ela não era muito atenta à minha presença, mas eu era sua única irmã e também a única que se interessa realmente por ela, já que seus esforços de chamar atenção dos adultos eram sempre mal sucedidos.

Contei a ela sobre Lucy e o balcão abandonado, sobre as histórias de princesas que despertavam com um beijo de amor verdadeiro e como viviam felizes para sempre. Só que para nossa surpresa Odile estava em casa nesse momento e ouviu toda a conversa. Ela não era tão alheia à nossa existência assim como eu pensava. Ouvir tudo aquilo a enfureceu como nada antes.

— De onde você tirou essas coisas? Quem contou essas histórias para você? – Quis saber, furiosa.

— Minha amiga Lu..Lucy – respondi tremendo.

Então ela me arrastou pelo braço até o quarto e me contou em meio aos berros e tapas que eu não tinha permissão para sair de casa sozinha, nem para falar com trouxas impuros, e o pior, que o amor não existia. Pelo menos para nós. Garantiu, ainda, que seria muito melhor que se eu esquecesse toda essa bobeira de contos de fadas e finais felizes.

Naquele dia o vermelho da fivela não foi a única marca que havia ficado em mim. Daphne que presenciou toda aquela cena me acolheu com um carinho que jamais havia demonstrado e me explicou sobre uma terrível maldição. A velha criada havia contado, e agora ela contaria para mim. Babbette veio da França com Odile e a conhecia desde menina. Ela sabia tudo sobre ela e o passado dos Brouillard. Contou para Daphne sobre nossa avó Desireè Brouillard. Ela foi uma mulher deslumbrante, que uma dia foi amada por um bruxo muito poderoso. Entretanto, ela o recusou, pois ele era um bruxo velho e pobre. Então ele lhe jogou uma maldição que a mataria assim que ela encontrasse outro homem para amar. Após encontrar seu verdadeiro amor e ter se casado com ele, ela começou a adoecer, eles tentaram de tudo para reverter a maldição, mas o que conseguiram foi adiar a morte por mais alguns anos. Ela teve nossa mãe e morreu logo em seguida, tendo seu corpo transformado em um animal. Mamãe acabou sendo criada por parentes, e depois enviada para Inglaterra para um casamento sem amor. Era isso ou a morte, considerando que ela também carregava a maldição no seu sangue, assim como nós.

Tudo aquilo pareceu confuso demais para minha mente infantil. Ou melhor, parecia como uma dos contos que Lucy me contava, só que com o final triste. Em qual animal eu me transformaria? Foi o que passou pela minha cabeça. A ideia de ser um pássaro-azul ou uma linda borboleta me parecia tão mágica e poética.

— Não seja idiota, – ralhou Daphne quando compartilhei meus pensamentos – para se transformar em um animal você precisa morrer, mas isso só vai acontecer se encontrar seu amor verdadeiro. Se não amar ninguém poderá continuar viva, igual a nossa mãe. Não conte a ela que eu lhe disse isso, e nunca, nunca mais fale sobre essas bobeiras de conto de fadas. Você entendeu? — Ela parecia irritada, mas preocupada. Nunca a vi falar daquela maneira.

— Hunhm – foi tudo que consegui dizer em meio às lágrimas que ainda escorriam pelo meu rosto.

Viva, eu era tão nova e tudo que ansiava era viver, conhecer o mundo e aprender todas as coisas que ignorava. Eu não me importava se não tivesse nenhum príncipe ou amor verdadeiro. Na época eu era tão ingênua e infantil que não tinha ideia do impacto que aquela maldição teria na minha vida, tudo era muito simples como as histórias que ouvia.

Depois daquele evento nossa mãe achou que precisava se atentar um pouco mais à nossa educação e contratou professores particulares para nos ensinar tudo que uma bruxa da alta sociedade deveria aprender antes de ir para escola. Música, idiomas, etiqueta.... Nunca mais pude ver Lucy, e mesmo que quisesse fugir para encontrá-la, não poderia, já que em pouco tempo a tão sonhada prosperidade chegou para nós e nos mudamos para uma mansão em uma propriedade grande e sumptuosa. Como uma tradicional família de puro-sangue como a nossa era digna de ter.
Eu precisei crescer e deixar o passado para trás, mas nunca esqueci da minha primeira e única amiga.

Notas finais
No próximo o Draco aparece gente, eu prometo :) Ol