Astrologia para idiotas
1 Capítulo Único
Ia fazer um ano que Viny tinha conhecido Lucas. Ainda não era exatamente um ano de namoro, mas foi quando eles deram o primeiro beijo, ainda que meio que de brincadeira, logo, era uma data que merecia comemoração!
E eles tinham que comemorar! O ano que se passara tinha sido difícil, com perturbações estranhamente violentas, mas tudo parecia terminar bem. Não apenas os dois, mas toda a turma tinha enfrentado e vencido aquele ano.
“Celebrar é preciso. É isso que faremos!”, pensava o loiro, encaminhando-se para a biblioteca.
Sua tendência à quebrar, contrariar e questionar regras crescia forte junto com ele. Sendo Lucas outro contrariador de primeira – o que levou Aquário a aceitá-lo de uma vez por todas – ele adoraria a surpresa de Viny. Antes, porém, ele precisava dos meios para concretizar seu plano.
Plano este que consistia em um piquenique no meio do corredor do Inferno Astral, à meia-noite do dia em que se conheceram, com aqueles signos bobões no mais completo silêncio. Aquilo quebrava umas quinhentas regras da escola!
Entrou na biblioteca e deu umas voltas atrás de Nádia. Achou a mochila e não achou a dona, logo, Índio deveria ter sido caçado até um canto escuro. Danadinhos!
Andou por entre as estantes até confirmar seu palpite e encontrar os dois se beijando na sessão de livros sobre Teoria de Voo – sessão vazia porque a melhor forma de não aprender como voar direito é se basear em um livro teórico sobre voar.
Viny foi de mansinho, pé ante pé, parou atrás de Índio e, sem pensar duas vezes, apertou sua bunda. Ele sabia que iria se arrepender, mas quem liga?
O mineiro tomou um susto tão grande que quase derrubou Nádia e uma estante inteira antes de recuperar-se e poder encarar Vinícius, que teve que se agachar de tanto que ria.
-Ocê é uma peste! – ele sibilou, as mãos paradas a centímetros do colete. Teve de deter-se para não agarrar o amigo pelo pescoço – Eu divia... Divia... ARGH!
-Calma, Cacique do meu coração – Nádia falou, quase ininteligível de tanto que ela ria.
Virgílio cruzou os braços e lançou a ela um olhar consternado, que claramente dizia “Até tu, Brutus, meu filho?”.
Depois que conseguiram respirar direito, Viny e a garota trocaram um cumprimento pelo que ele havia feito, enquanto Índio ainda os fuzilava, inconformado.
-Eu sei que a coisa tá boa, ‘cês dois que o digam – começou o loiro, piscando para o casal – Mas eu preciso que ‘cê me ajude com uma coisa, Ná.
-Manda!
-Preciso de alguém que manje do Inferno Astral. E preciso que ‘cê dê uma distraída no Lu esses dias.
-Calma, loiro! Uma coisa por vez – disse ela, erguendo as mãos à altura do rosto – Primeiro, Inferno Astral, certo?
-É. Preciso de uma pessoa que possa lidar com aquilo e que tenha chances de saber como funciona aquela coisa toda...
-Capí? – Índio opinou.
-E – acrescentou – Alguém que não vá me condenar muito se eu estiver, sei lá, pensando em quebrar um punhado de regras da escola.
Nádia franziu a testa, a mão sob o queixo, pensando por alguns momentos antes de responder.
-Conheço alguém que vai te julgar muito e pra sempre, mas que pode ser que te ajude, se as suas motivações forem puras...
-Ah tá – Índio riu, irônico.
-‘Cê entendeu em que sentido eu usei a palavra “puras”, besta! Então, conheço uma pessoa que pode ter esses conhecimentos obscuros que ‘cê tá procurando e que pode te ajudar, se ‘cê for capaz de barganhar com ela.
-AH NÃO!
-Quieto, Índio, seu bocudo! – Viny lançou-lhe um olhar quase suplicante antes de se voltar para Nádia – E eu a encontro onde?
Ela trocou um olhar rápido com o mineiro, que deu uma risadinha maldosa e murmurou algo como “Tomara que ela te dê um choque”.
...
Viny encontrou na sala de Alquimia, a porta entreaberta conversando com Rudji. Ele ficou parado do lado de fora, ouvindo.
-Não, mas o que eu quero que você me responda, professor, é o que me acontece se eu levar o experimento adiante.
-Olha, moça, de duas, uma: Ou eles vão te dar uma bolsa pra uma faculdade fora do país ou a senhorita vai pro Juizado de menores – respondeu, espantado – Onde você anda lendo essas coisas?
Silêncio.
-E se a gente fizer tipo uma extensão científica? Se isso é pelo bem da ciência, afinal...
-De duas, uma. Só que, nesse caso, uma das possibilidades envolve a minha prisão. Então, não. Você não vai sair por aí criando neurotoxinas alquímicas nem que a Ciência dependesse disso!
-Mas... Ru... Professor! Eu não quero usar isso pra... Sei lá, começar uma plantação de cana com mão-de-obra desmorta! Eu só queria...
-Eu vou te dizer que isso é uma dessas coisas que foram esquecidas graças a Deus! É melhor não redescobrirmos nada disso, moça.
-Tá, tá bom... – suspirou, aparentemente vencida – Só me diz mais uma coisa.
-Hm. O quê?
-Eu posso, não posso? Posso refazê-la?
-A senhorita não deve.
-Certo. Obrigada pelas respostas e desculpe por elas – respondeu com cautela.
-Não há de que, mas eu não quero ver você metida nessas coisas.
-Até parece que eu quero abrir um laboratório de metanfetamina – riu-se – Não vou fazer nada.
-Quero só ver.
Ouviu-a caminhar para a porta e depois viu-a abrir a porta e passar por ele, sem vê-lo, resmungando qualquer coisa para si mesma. Viny apressou-se atrás dela, que tomou um susto ao senti-lo tocar seu ombro.
-‘Cê veio de onde, rapaz?! – exclamou.
-O que importa é que eu tô aqui, não é?
-Importa pra quem? – sorriu brevemente, tirando a mão de seu ombro – Ou tá achando que eu sou um dos seus rolos? ‘Cê sabe quem eu sou, né?
Ele rolou os olhos, rindo.
-Claro que eu sei. Eu tanto sei quem ‘cê é como posso te dizer quais são suas preferências: Coisas misteriosas, magia alternativa, felinos no geral, Capixaba, Japonês e... Homens mais velhos no geral? A menos que seja o capixaba, aí pode ser mais novo.
Ela abriu a boca para rebater, mas não achou palavras. Balançou a cabeça de forma nervosa.
-Psiu! – resmungou, contrariada – Eu posso te ajudar como?
-Agora sim – sorriu ele, emparelhando com ela enquanto andavam de volta para o pátio – Bom, eu e o Lu vamos...
-Ah, isso. Um ano, parabéns! – disse, não muito interessada – Como esquecer isso?
Lucas provavelmente lembrava-se bem da data e já deveria estar comemorando por antecipação.
-Isso! Eu queria fazer uma surpresa pra ele.
Ela avaliou-o demoradamente, como se estivesse lendo suas intenções e revirando as profundezas de sua alma em busca de qualquer coisa perniciosa em seu ser.
-Que consiste em?
Ele contou, fazendo o maior Marketing da ideia, sobre o piquenique no Inferno Astral à meia-noite do dia em que se conheceram.
-Isso é pegar o código de regras da escola e jogar no picador de papel – ela pontuou, com um sorriso de divertimento maligno.
-Não faça essa cara, ‘cê é a garota boazinha, eu quero crer que ‘cê não tem um lado B pavoroso.
-Todo mundo tem um lado B pavoroso – disse, continuando antes que ele falasse qualquer coisa – O.k., eu te ajudo.
-Sério? – seu semblante abriu-se, radiante.
-Sério. E é bom que saia perfeito – disse, assentindo com a cabeça.
-Pô, valeu!
-E ‘cê fica me devendo uma. Fique descansado, eu te acho quando eu tiver a solução pros seus dilemas.
...
Viny recebeu um bloco de anotações intitulado “Astrologia e seus mistérios para Idiotas”, com um comentário adorável logo abaixo: “Faça bom proveito!”.
E teve de se virar com aquilo.
...
Noite anterior ao grande dia. Viny foi cercado por Nádia e sua amiga muy eficiente no quarto que dividia com Índio.
-Ainda bem que ‘cê apareceu, porque naquele seu guia marotíssimo tinha de tudo, menos uma solução pra calar os malditos blocos de pedra!
-Me tomou um pouco de tempo, porém, eu sei como fazê-lo e eu irei fazê-lo. Todo aquele guia serve apenas pra que você distraia os signos enquanto eu e a Ná desligamos o relógio.
-Relógio? Que relógio? – Índio pulou da cama, subitamente interessado.
-É um relógio astrológico que é bem parecido com os Relógios Astronômicos em Praga e Veneza. Só que esse relógio é astrológico.
-Jura? – ironizou Índio, recebendo um olhar de censura da namorada.
-É, juro, curumim! – resmungou, voltando sua atenção para Viny – Parando o relógio, os monstrinhos são instantaneamente colocados pra dormir e, voilà! Noite perfeita!
-Isso não faz sentido – o mineiro rebateu.
-Claro que faz! – Nádia intercedeu – Ou ‘cê achava que eles iam ter a brilhante ideia de tascar um botão de desligar na coisa se ela começasse a dar xabu?
Ele matutou um segundo e aceitou o argumento com um sinal de menosprezo.
-Então é isso. ‘Cê vai lá pegar o seu amorzinho e nós vamos dar um jeito no resto. Só faça a sua parte.
Viny, que ouvia com incomum paciência, meneou a cabeça de forma a dizer “Combinado”.
...
Dez minutos para meia-noite. Viny chegou ao início do tão temido corredor, empurrando Lucas calmamente. Chegar ali não tinha sido a coisa mais fácil do mundo, mas valeria a pena completamente!
Lucas disse, rindo, que certamente ele estava aprontando alguma – e que esperava que não fosse nenhum pecado escolar mortal. O loiro riu e garantiu que não, nada que fosse expulsá-los – nada que fosse expulsá-los sozinhos, porque, uma vez pegos, provavelmente iriam eles, os Pixies todos, Nádia e sua amiga sabichona.
Por falar neles, estavam do outro lado do corredor, cinco vultos escuros – onde quatro deles aparentemente estavam ouvindo sermão do Capí, o quinto vulto do grupo – todos cuidadosamente posicionados longe do campo de visão dos signos.
Viny parou com Lucas, também sem que pudessem ser vistos – porque, uma vez avistados, teriam pouco tempo, já que não havia nada mais fofoqueiro e barulhento que uma patotinha de signos astrológicos entediados.
Apoiou as mãos nos braços da cadeira e encostou sua testa na do rapaz.
-Um ano atrás, e olha que eu não sou bom com datas, nós demos uma sacudida nesses chatos – Ele falou suavemente e os dois riram – O que foi muito bom em muitos sentidos! Mas, agora, por você, eu vou dar um sossega-leão em todos eles!
Lucas estreitou os olhos, desconfiado da segurança daquele plano, e Viny beijou-o longamente para assegurar-lhe que ia ficar tudo bem.
Do outro lado do corredor, Índio tinha se juntado com a amiga de Nádia e os dois ficaram reclamando igual duas velhas que Vinícius estava perdendo tempo deles, que todo mundo queria ir dormir. Cai se desligou da situação e cantarolava Giz, do Legião Urbana, encostada em um canto. Nádia acompanhou-a logo. Capí ficou com aquela cara de mãe, aquela que diz “Essas minhas crianças...”.
Viny assobiou, fazendo os signos e os amigos entrarem em estado de alerta. Pegou uma colinha que fizera das anotações que tinha e pisou no Inferno Astral, avançando para o meio. Aquário voou para ele e Capricórnio fez a egípcia, como sempre.
-Calma, nenéns, que hoje Tio Viny aqui tem uma previsão pra vocês! – falou, olhando para os lados para checar se quem tinha que estar lá estava.
Aquilo foi uma coisa bem chocante de se ouvir, então os signos pararam, como se avaliassem a proposta.
-É o seguinte – ele meteu a mão no bolso e puxou um papel dobrado.
Caminhou para Aquário, desdobrando o papel, e colocou-o em suas fuças de pedra. Era uma cópia autenticada de sua certidão de nascimento.
-20 de Janeiro, mané. Compreende?
Capricórnio chegou perto e já ia abrir a boca para dizer que não parecia, quando Viny cortou-o:
-Mas, por eu ser do último dia de Capricórnio, eu peguei umas características de Aquário. Então, ponto pra você, camarada! Se eu tivesse nascido no primeiro dia de Capricórnio, eu seria meio sagitariano. Mas, escuta, ‘cês não morrem de vergonha de não ter controle sobre seus primeiros e últimos dias? O que são os primeiros e últimos dias dos ciclos de vocês? Surubas astrológicas?
Touro quase se rasgou inteiro ali mesmo! Como assim que ele tinha dois filhotes de cruz credo, um com Áries e outro com Gêmeos? Touro tinha controle sobre tudo! Absolutamente tudo! E ter taurinos-arianos e taurinos-geminianos era desonra para você, desonra para sua família e desonra para seu exemplar da espécie Bos taurus indicus (Ou seja, vaca ou touro de gado zebuíno, originário da Ásia).
Touro voou para ele, disposto a fazer um barraco. Virgem ainda estava sem reação diante da alegação de que seu ciclo não era perfeitamente uniforme e controlado, e Capricórnio ainda não estava com sangue nos olhos o suficiente para explodir e parar de fingir que não ligava.
-E você nem se dê ao trabalho de rir, Gêmeos, todo mundo sabe que você é o cretino mais descontrolado do corredor.
-Você tem, ao menos, permissão para chegar aqui e falar essas coisas? – Libra resmungou, visivelmente confuso.
-Na verdade, eu tenho. Eu vim dar uma notícia pros ilustríssimos!
Viny deu uma olhada para o fim do corredor. Os amigos tinham ou desertado ou já estavam com o plano em curso.
-É uma coisa gravíssima! Uma previsão com de um pra zero de chances, com log-chances absurdamente minúsculas – naquele momento, Viny se perguntava o que aquela garota estava pensando em ao escrever aquele monte de coisa estranha – o que significa que é uma previsão muito boa!
-Previsão de que, sujeito? Fale! – Escorpião estava contrariadíssimo com aquele suspense.
-Em 2011, o eixo da Terra vai ficar meio estranho e seu movimento vai mudar os signos do zodíaco.
Choque completo e geral. Viny aproveitou a deixa e continuou falando:
-O alinhamento das estrelas será deslocado para um mês, o que significa que vocês foram um mês pra frente. Ou irão. E vocês vão ter que decorar novas datas e talvez os seus novos iluminados, ou como quer que vocês os chamem, sejam uma mistureba confusa de características zodiacais! Quem sabe? Mas, o importante nisso tudo – disparou – é que o conselho decidiu trocar esta ala por Horóscopo Chinês, manja? Porque ‘cês são tudo impreciso e tal, mudando de alinhamento toda hora, não dá pra confiar, saca?
Viny se encolheu um pouco, esperando os doze gritarem em revolta, terem um ataque de fúria coletivo e o denunciarem, mas nada aconteceu. Olhou para cima e suspirou, aliviado. Estavam congelados, completamente fora do ar.
O loiro encarou Lucas e fez sinal de positivo com as duas mãos, rindo. Aproximou-se do garoto, vitorioso.
-Eu sei lá se isso é tudo verdade, porém, a parte mais legal disso tudo é que eu e você nunca mudaríamos, porque porque 20 de Janeiro ainda será Capricórnio e 17 de Fevereiro ainda será Aquário – falou, piscando para ele.
-Não fez o menor sentido, né? – ele perguntou, aproximando-se de Lucas.
-Não, não mesmo – ele respondeu, sorrindo – Mas eu te amo mesmo assim.
-Como bom não-capricorniano, preciso te contrariar e dizer que eu amo mais!
-Isso também não faz sentido.
-Não importa. É meia-noite, isso é que importa! Feliz aniversário!
Viny beijou-o longamente, enquanto que, do outro lado do corredor, Índio precisou ser arrastado porque queria acertá-lo bem no meio do traseiro, em vingança.
Como esperado, tudo perfeito, só para contrariar todas as expectativas, coisa que aqueles dois faziam de melhor!
Notas finais
Bom, e é isso! Desculpem a pressa e a falta de graça da história (Desculpa, Lu! Mesmo, mesmo!), mas eu ando meio enferrujadona... Enfim, por favor, deixem seus comentários úteis, construtivos e não-venenosos aqui embaixo (creio eu)!
Obrigada por ler!
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