Astória - A Menina Que Não Podia Amar
9 A Ruína
Notas iniciais
Segui Draco pelas ruas de Londres sem saber nosso destino. Passamos por lugares que eu conhecia vagamente, até chegar a uma parte completamente desconhecida da cidade. As ruas eram escuras e havia pessoas enroladas em cobertas pelos cantos. Comecei a ficar assustada e andar uma pouco mais perto de Draco.
— Que lugar é esse? — perguntei, quebrando o silêncio prolongado da caminhada de trinta minutos que fizemos até chegarmos em frente a uma construção abandonada. Reparei que ao lado havia uma igreja, nunca havia entrado em uma, será que era ali que ele gostava de ir? Em uma igreja? Mas percebi que ao lado da igreja havia uma pequena casa com uma placa que dizia Centro Social St Flammel. Encarei confusa, Flammel era o nome de um bruxo muito famoso e estávamos em um lugar trouxa, tinha certeza disso.
— Você vai ver — disse Draco, entrando na casa e eu o segui, curiosa. Não tinha ideia do que era um centro social e do que faríamos ali.
— David, que bom te ver — um trouxa grande e gordo, que usava um gorro nos cabelos e uma jaqueta de couro mesmo sendo verão, disse sorrindo quando viu Draco entrar.
— Rory — Draco sorriu ao apertar a sua mão. — As sopas já começaram a ser distribuídas?
— Ainda não, mas você está com essa roupa toda elegante — respondeu o homem olhando Draco dos pés à cabeça e depois se virou para mim. — Ainda está com essa mina super gata. Apresenta ela, né David — completou me lançando um sorriso. Apesar de ter ficado vermelha, Rory não me deixou desconfortável, seu olhar era acolhedor e seu sorriso era genuíno, como se seus lábios jamais falassem algo com a intenção de ofender alguém e, mesmo constrangida, sorri para ele.
— Essa é Astória ela é minha noi...amiga. Ela é uma amiga — respondeu um pouco sem graça.
Eu o encarei, sabia que ele havia se controlado para não agir como na festa, quando disse com tanta prepotência que eu era sua noiva. Mesmo que eu fosse mesmo sua noiva, fiquei feliz por não ser lembrada disso naquele momento. Eu não queria ser sua noiva, na verdade, não queria ser noiva de ninguém, mas não me importava de ser sua amiga.
— Bem moça, se eu fosse você não deixaria nosso David escapar, ele é um bom garoto.
Percebi que ele se referia a Draco como David pela segunda vez, olhei sem entender o que estava acontecendo. Porque ele chamava Draco assim? Antes que a situação pudesse ficar ainda mais confusa, Draco me puxou para outra sala.
— Para onde estamos indo? O que você está fazendo e porque aquele trouxa acha que seu nome é David? — Questionei tudo entre os dentes e sem pausa.
— Shhhh! Logo você vai entender — sussurrou nervoso enquanto atravessávamos um grande corredor. Passamos por várias salas antes de chegarmos no local que ele queria. Pude observar que uma tinha muitos brinquedos, como um quarto de brincar. Na outra, existiam vários livros, e algumas cadeiras como as de uma sala de aula. Não parava de me questionar que tipo de lugar era aquele.
Draco me levou até uma grande cozinha, o lugar era quente devido às panelas gigantes que borbulhavam o que parecia uma poção esquisita, mas o aroma era delicioso. Uma moça baixinha com cabelos vermelhos presos a um coque nos recebeu com um sorriso.
— Olá, — ela falou diretamente para mim e depois se virou para Draco com as mãos na cintura — achei que tinha nos abandonado.
— É claro que não Sylvie, você sabe que eu jamais os deixaria. Só estava cuidando de uns problemas pessoais, mas estou aqui agora.
Sylvie franziu as sobrancelhas e, depois de nos encarar por cerca de um minuto, pegou dois aventais e os jogou sobre nós.
— Sejam rápidos, não temos a noite toda.
Vesti o avental sem ter ainda nenhuma ideia do que aconteceria a seguir. Será que teríamos que cozinhar? Eu não sabia como preparar nenhum tipo de comida, ainda mais ao modo trouxa.
— Draco, quer dizer David — sussurrei apavorada.— Eu não sei cozinhar.
— Tudo bem, eu também não. Nós vamos apenas servir— respondeu aproximando-se de uma das grandes panelas. Percebi que ele sussurrava algumas palavras que faziam com que a panela flutuasse, e com uma luva colocava as mãos por baixo dela, só para parecer que carregava.
— Tem certeza que não precisa de ajuda? — perguntou um homem que não tinha percebido que estava lá também.
— Não Douglas, sabe que não preciso.
— Não custa nada perguntar.
— O David é tão forte, não é? — Disse Sylvie para mim.
Percebi que os olhos delas brilhavam quando olhava para Draco carregando a panela sem ajuda. Ele fingia uma cara de quem estava fazendo uma grande força e, deu um enorme sorriso quando viu que eu o repreendia com o olhar. Sabia que estava apenas fazendo charme, mas mesmo assim ainda era engraçado. Sylvie voltou para as outras panelas e disse para eu ajudar o outro homem, Douglas, a levar os potes e talheres para o lado de fora. Douglas era bem alto, muito mais que Draco, o que era ainda muito mais do que eu nos meus um metro e sessenta, ele não sorria muito,contudo estava tudo bem, já que eu também não.
Ao chegar do lado de fora uma grande mesa estava montada, provavelmente por Rory, que parecia a única outra pessoa do lugar. Ele estava ao lado de Draco e os dois riam descontraidamente. Foi assombroso ver Draco assim, descontraído, feliz, parecia uma pessoa completamente diferente do que eu estava habituada. Uma fila de pessoas já estava sendo formada em frente à mesa, pareciam estar esperando só que chegássemos com os potes e talheres e quando chegamos, começaram a distribuição. Draco colocava a sopa dentro dos potes enquanto eu entregava para as pessoas da fila.
Aquela era a experiência mais inusitada da minha vida, aquele grupo era o mesmo que eu havia visto pelo caminho e que me causaram medo, agora todos pareciam gratos e aliviados. Eu me senti humilde e pequena no meio de tudo aquilo, mas não de maneira negativa, era bom, era um sentimento muito bom. Olhei para Draco, que parecia muito concentrado em seu serviço. Sabia que tudo aquilo poderia ser feito muito mais rápido se usássemos magia, porém era diferente; se não usássemos parecia mais real. Passado uma hora, o último pote de sopa havia sido distribuído, levamos as panelas para a cozinha, dessa vez sem roubar com magia pois já estavam vazias e entregamos nossos aventais.
— Vejo você aqui na quinta? — Perguntou Rory para Draco.
— Sem falta.
— Você também será sempre bem vinda Astória, um par a mais de mãos nunca é demais.
— Eu adoraria voltar — respondi sincera. — Se David me trouxer novamente vou adorar ajudar — completei forçando o David, ainda ia descobrir o porquê daquilo.
Rory sorriu para mim. Ele sempre sorria, o que contrastava completamente com sua imagem de homem grande assustador.
— Sinto algo a respeito de vocês dois — disse apontando para mim e Draco. Eu não costumo sentir isso sobre todas as pessoas, mas acho que vocês têm algo especial. Estou errado?
Olhei para Draco que parecia tão mudo quanto eu, o que poderíamos dizer? Então, a verdade é que vamos nos casar, mas só porque nossos pais fizeram um acordo? Rory apenas deu mais um de seus sorrisos, como se soubesse que estava certo e abriu a porta para que nós pudéssemos sair. Voltamos a caminhar em silêncio, da mesma forma que antes, e eu pensava sobre tudo aquilo. Quando na minha vida eu poderia imaginar que serviria sopa para trouxas pobres? E mais excêntrico ainda, ao lado de Draco Malfoy, um antigo comensal da morte.
— Porque David? — Perguntei quando finalmente chegamos até o Ministério. Não entendi porque voltamos para lá sendo que poderíamos apenas apartar para qualquer lugar, mas gostava da caminhada, do ar fresco da noite e inesperadamente, da companhia.
— Hã? — Ele questionou confuso. Às vezes pensava que Draco vivia em outro mundo.
— Porque aquelas pessoas te chamam de David?
— Draco não é um nome muito trouxa, não é mesmo? — Ele respondeu como se a explicação fosse muito óbvia.
— Astória também não — disse pensando no fato de jamais ter conhecido ninguém com o meu nome.
— É incomum, mas não tanto como Draco. E às vezes é reconfortante, ser alguém diferente, não ser eu.
— Mas esse é você, David é você também.
— Talvez...
— Porque você faz isso? Dar comida para trouxas? — Atrevi-me a perguntar, sabia que talvez estivesse extrapolando os limites da curiosidade, mas estava disposta a correr o risco.
— Você não gosta de trouxas?
— Não, é claro que eu gosto — respondi na defensiva. — Quer dizer, nunca conheci nenhum, na verdade já, mas era muito pequena. É só que...
— Não imaginasse que eu gostasse?
— Não me leve a mal, mas você era um comensal da morte.
— Eu não gosto deles, dos trouxas. Preferia que eles não existissem, minha vida teria sido muito melhor se eles não existissem.
Pensei sobre o que ele dizia. Não fazia nenhum sentido, a princípio, ao menos que você se esforçasse um pouco para pensar e conhecesse o mínimo do que é fazer parte de uma família puro-sangue. Crescemos aprendendo a odiar os trouxas, que são seres inferiores, que são o mal do mundo, e que graças a eles nós somos obrigados a nos esconder. É cansativo, nos consome, nos limita, uma guerra foi travada por isso. Realmente seria muito mais fácil se os trouxas não existissem, se todos fossem bruxos, contudo as diferenças existem e precisamos lidar com isso.
— Mas eles existem — admiti para mim mesma, após um minuto de reflexão.
— Sim, e sentem fome — Draco concluiu o óbvio.
— Então já que você não pode mais matá-los, vai matar a fome deles?
— É um jeito interessante de ver as coisas — ele respondeu com um meio sorriso arqueando as sobrancelhas. Sabia que não conseguiria tirar muito sobre ele em relação a isso. — Eu nunca matei um trouxa, se é o que você quer saber — concluiu retomando o olhar sério.
— Porque não?
— Porque sempre fui covarde.
— Eu fico feliz por isso. Prefiro me casar com uma covarde do que com um assassino — declarei com firmeza.
A verdade é que estava aliviada, passei noites torturantes pensando em que tipo de pessoa Draco seria, sobre as mortes que deveria ter causado, mas nada disso combinava com o rapaz com quem eu passei algumas horas até agora.
— Pensei que não preferisse nenhum dos dois — provocou ele.
— E de alguma forma isso importa? — Respondi um pouco mais ríspida do que gostaria. Estava aliviada em saber que ele não era o mostro que eu imaginava, mas ainda sim, não estava realmente feliz com a situação.
— Acredito que não. Eu sinto muito por você ter que fazer isso — expressou com sinceridade.
Voltamos a caminhar silenciosamente, mas dessa vez não era um silêncio agradável, era de culpa, angústia e constrangimento. Sabia que Draco não precisava ter me levado com ele essa noite, que poderia muito bem ter me levado até em casa, ou me deixado ir sozinha. Draco não precisava ser legal, mas tentava e isso era algo que elevava minha estima por ele, mesmo contrariada.
— Tudo bem, — falei após alguns minutos de ponderação. — Pelo menos é você e não o Potter — conclui tentando aliviar o fim do passeio.
Ele me olhou confuso esperando uma resposta que fizesse mais sentido.
— Se fosse ele, eu teria que ir em festas como as de hoje todos os dias da minha vida, isso sim seria insuportável.
— Você odeia festas tanto assim?
— Sim.
— Você é muito esquisita, Astória Greengrass.
— Não vejo como isso possa ser uma surpresa.
— É, realmente não é.
— Isso é injusto.
— O quê?
— Você cheio de segredinhos enquanto eu sou a pessoa mais previsível da terra.
— Está errada quanto a isso — ele disse me olhando de cima a baixo e abrindo um pequeno sorriso. – Você não é nem um pouco previsível.
Por alguma razão que eu desconhecia totalmente, senti um arrepio atravessando todo meu corpo. Passei uma das mãos pelo meu cabelo apenas por não saber o que fazer com elas, o jeito que Draco me olhava me deixava nervosa, não desconfortável ou assustada, mas sem saber o que fazer. Gostaria de poder dizer alguma coisa que me fizesse parecer esperta ou inteligente, mas tudo que consegui foi gaguejar algo sobre voltar para casa, o que ele fez prontamente.
Passado alguns dias a família Malfoy veio finalmente a nossa casa, lembrei-me daquele primeiro jantar, quando ainda era uma menina e de como a presença deles havia me intimidado, porém, após tantos anos, eu havia mudado muito, assim como eles. Todos ainda eram brancos como bonecos de cera, loiros e aristocratas, mas Narcisa já não me parecia tão magnífica e inalcançável quanto antes, agora ela era nada menos que minha futura sogra, o que a deixa mais humana. O senhor Malfoy, ainda não conseguia o chamar de Lucius, aparentava um cansaço de quem já perdeu muito, acredito ser a dignidade, entretanto jamais me atreveria a perguntar e, por fim, havia Draco. Ele ainda parecia o mesmo menino arrogante e exibido de antes. Andava como tal, falava como tal, mas seu olhar não, seu olhar era diferente. Qualquer um que observassem bem dentro de seus olhos cinzas poderia ver marcas que o transformaram. Ele havia mudado.
— Eu gostaria que Astória usasse meu vestido de noiva — Odile comentou enquanto almoçávamos. — Mas infelizmente acabei deixando na França.
— Ah é mesmo uma pena Odile, mas ela pode usar o meu, ficaria encantada – sorriu Narcisa com a possibilidade.
Mais uma vez eu comia silenciosamente, ignorando tudo a minha volta. Agora conseguia entender como Draco era tão bom nisso, depois de um tempo ignorar as pessoas ao redor ia ficando mais fácil. Olhava para meu prato de maneira fixa, era engraçado a quantidade de ideias sobre ervilhas que alguém poder ter apenas se concentrando o suficiente.
— Não, isso não vai acontecer — levantei o rosto bruscamente ao ouvir a voz de Draco . Depois dos cumprimentos iniciais era a primeira vez que ele falava. Eu não sabia do que se tratava, algo relacionado ao casamento, claro, mas não exatamente de qual parte dele.
— Mas querido, como assim, não vai acontecer? — Questionou Narcisa entre os dentes.
— O casamento vai acontecer, mas não a festa, não vamos ter nenhuma festa — Anunciou com firmeza.
— Como não vai ter festa? — Perguntou Odile exaltada, lançando um olhar de desespero para Narcisa. Odile passou a vida dando festas, era famosa na alta sociedade por isso. Sua diversão acabou quando ficamos pobres e papai adoeceu, agora ela tinha uma oportunidade de dar uma incrível festa sem se sentir culpada e sem gastar dinheiro algum. Contudo, Draco dizia que não teria festa e senti que ela voaria em seu pescoço se fosse possível. E eu estava achando tudo aquilo muito divertido.
Narcisa encarou Draco com seus grandes olhos azuis, como se esperasse uma explicação para aquilo. Suas feições eram intimidadoras, era fácil entender porque Draco não gostava de contrariá-la, ela era uma Black de nascimento, lembrei-me rapidamente, isso tinha um certo peso em sua personalidade.
— Mãe, concordei com essa casamento, nós concordamos — completou olhando para mim, fazendo com que finalmente recordassem que eu estava ali. — Concordamos em nos casar, mas eu não quero uma festa. Não quero dividir esse momento com pessoas que sei que me desprezam, não quero transformar tudo isso em mais um evento para tirar nosso nome da lama. Por favor, quero uma cerimônia simples só para a família e tenho certeza de que Astória concorda com isso — concluiu olhando para mim.
— Ah, é claro. Estou totalmente de acordo.
Sem dúvidas eu estava de acordo, e aliviada. Nada seria pior que desfilar vestida de noiva para setecentas pessoas, como provavelmente seria se ele não intervisse. Eu era uma péssima atriz e com certeza todos perceberiam a encenação, não que alguém realmente se importasse, mas não queria dividir esse momento com metade dos bruxos do país. Odile bufava desgostosa, sabia que tinha odiado a ideia e que provavelmente me lançaria um crucius se tivesse partido de mim. Mas foi Draco que pediu e ela jamais faria nada que desagradasse seu futuro genro rico e sua família.
Senti que Narcisa pensava em algo para argumentar, porém, antes que pudesse se expressar, Lucius Malfoy a antecedeu dizendo que, se não queríamos festa, não era necessário uma.
Juro que naquele momento senti uma vontade estranha de abraçá-lo. Ele quase não falava, ou opinava nos detalhes do casamento. Provavelmente acreditava ser um assunto de mulheres e não lhe cabia o envolvimento. Costumava atuar como um mero expectador, assim como Draco e eu, mas havia escolhido o momento certo de se envolver, e eu sentia uma imensa gratidão por isso.
Com a palavra final do patriarca da família, o assunto da festa foi encerrado. Com o silêncio que dominou a mesa voltei a encarar as ervilhas, mas dessa vez pensando sobre o pedido de Draco e o que lhe havia levado a fazê-lo.
Quinze de julho foi o dia escolhido, faltavam apenas duas semanas, mas como não teríamos mais nenhuma festa, apenas uma pequena cerimônia para a família, não havia motivos para estender a data. Ficou combinado que encontraria Narcisa para experimentar o vestido e que acompanharia Draco em algum outro jantar do Ministério naquela semana. Eu apenas consentia em tudo que era dito, resignada, não havia por que contestar ou contrariar nada. Tinha perdido esse poder quando disse sim para tudo aquilo.
A presença dos Malfoy na minha casa despertou em mim o desejo de ver meu pai, fazia alguns dias que eu não aparecia em seu quarto. Ele precisava ficar isolado devido à doença que era altamente contagiosa, mas, mesmo assim, eu costumava ficar na porta, por trás da barreira de proteção que havia sido colocada e observa-lo dormir. Aproveitei o momento que todos tomavam uma dose de whisky de fogo para me retirar, minha presença já não era assim tão necessária, poderia me dar ao luxo de me ausentar alguns minutos. Precisava vê-lo e lembrar a mim mesma o porquê de ter aceitado me casar. Eu ainda poderia desistir não? Fugir como Daphne havia feito e me esconder em algum lugar. Eu viveria minha vida longe de tudo aquilo, arrumaria um emprego qualquer, tentaria virar uma medibruxa, seria difícil com certeza, mas não tão difícil quanto aquilo tudo. Contudo, ao observar meu pai dormindo, tranquilo, sem gritos de dores e agonia, sabia que não conseguiria prosseguir com meus planos de fuga. Seu tratamento caro era a única coisa que lhe dava um pouco de conforto, ele tomava uma poção feita com ingredientes raríssimos, que não lhe garantia a cura, mas uma morte menos sofrida, e talvez ele não tivesse sido o melhor pai do mundo, porém também não foi o pior. Não poderia lhe virar as costas.
Quando sai do quarto percebi que Draco estava no corredor, questionei quanto tempo ele passou ali me observando, não sabia se ficava irritada ou não pela invasão de privacidade.
— Me desculpa só pensei em dar uma volta e vi a porta aberta. Eu não queria espionar.
— Tudo bem – respondi indiferente.
— Eu não tinha ideia de que era assim tão grave.
Sua voz era preocupada.
— Ele não tem muito tempo, na verdade.
— Vocês eram próximos?
— Não, você é do seu?
Ele riu ao perceber que havia feito uma pergunta estúpida.
— Obrigada por hoje — ele franziu o cenho confuso. — Por dizer que não queria festa — completei com uma voz tão baixa que imaginei que Draco não ouviria.
— Vai ser o seu casamento Astória, espero que não seja tão traumatizante.
Abaixei os olhos, pensativa. Mais uma vez ele me surpreendia, quantas atitudes inesperadas ainda poderiam vir de Draco Malfoy?
— Vai ser o seu também — respondi.
— Pois é....
— O que eu posso fazer para que não seja tão traumatizante?
Nada mais justo que eu pudesse fazer algo por ele também, alguma coisa para que o dia não fosse tão ruim.
— Não fuja, acho que seria humilhação demais até para mim.
Eu ri porque era exatamente sobre o que eu pensava há poucos minutos.
— Só se você me prometer o mesmo — adverti em tom zombeteiro.
— Eu jamais fugiria — ele respondeu sério.
— Porque aceitou isso? E não me diga que foi porque seus pais o obrigaram! Eu não acredito nisso, não de verdade.
— Eu não iria, não queria me casar, nunca quis. Eu não queria — justificou-se nervoso.
— Sim, você já disse isso, mas...?
— Mas eu não esperava que fosse alguém como você.
— Alguém como eu?
Por Merlin, do que aquele homem estava falando?
— É Astória, alguém como você. Uma pessoa boa. Você ajuda as pessoas, todas elas. Você me ajudou quando eu não merecia — Draco disse levantando o braço e apontando para a minúscula cicatriz no braço. Nós nunca tínhamos tocado no assunto da batalha, até porque não era um dia agradável a lembrança de ninguém. Contudo, o momento que o vi desesperado por ajuda ainda era vivo em minha mente, e acredito que na dele também. — Você é uma das poucas pessoas que não me olha com ódio, e não porque eu pense que você concorde com que eu fiz, mas porque parece incapaz de desejar mal a alguém, mesmo alguém como eu. Sei que é errado e que sou um egoísta por permitir que esse casamento aconteça, mas eu não posso deixar essa oportunidade passar porque eu sei que nunca mais terei outra igual.
Ele falou aquilo tudo rápido demais, próximo demais e eu não sabia o que dizer. Ninguém nunca tinha dito nada do tipo para mim, Draco realmente queria casar comigo e isso era assustador. Seus olhos cinzentos me encaravam e eu podia sentir sua respiração, que parecia leve como uma brisa após ter tirado todo aquele peso de si. Sua pele branca reluzia a luz do sol que entrava pela grande janela do final do corredor e senti o desejo de tocá-lo, ter certeza de que era real. Seus lábios eram finos e bem desenhados, eu nunca havia reparado em sua boca, na verdade, eu nunca havia reparado em nenhuma boca. Sentia seu hálito quente a cada centímetro que nos aproximávamos e estava prestes a fechar os olhos quando ouvi passos se aproximando.
Era Narcisa o chamando para ir embora, já estava na hora. Separamo-nos no mesmo instante, senti como se um encanto fosse quebrado; o que estávamos prestes a fazer? O que era aquilo que estava sentindo? Era diferente de tudo que eu já havia experimentado, como se flores nascessem dentro do meu peito. Era lindo e apavorante, e de alguma forma sabia que não deveria. Será que eu estava me apaixonando por Draco Malfoy? Eu não poderia, tinha prometido que isso não aconteceria, mas como impedir um sentimento tão bom e forte assim?
Draco se afastou em direção a Narcisa, mas, após alguns passos, retornou em minha direção tirando um embrulho do bolso e me entregando.
— Isso é para você — sussurrou na minha orelha.— Eu mesmo escolhi — completou indo embora antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
Quando abri a caixinha cuidadosamente embrulhada com papel de seda, encontrei o anel mais bonito que já tinha visto na minha vida. Era fino, todo em ouro branco e com uma linda pedra de jade no meio. Cabia perfeitamente no meu dedo e minha vontade era nunca mais o tirar. Porém, guardei cuidadosamente de volta na caixinha, não queria que Odile visse, não queria dividir nada daquilo com ela que provavelmente iria querer levar a algum especialista só para saber o valor. Não, ela não o profanaria, seria uma coisa minha. Minha e dele.
Naquela noite, antes de dormir, pensei sobre o que tinha acontecido e torci para que não estivesse apaixonada, mas sonhei com Draco durante toda a madrugada. Talvez já fosse tarde demais. Eu já estava arruinada.
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