Foi muito estranho, o lugar, as pessoas, as construções, tudo me era familiar. Estava me sentindo muito perdida. Tudo o que eu sabia era que em algum momento da minha vida estive lá. Estava tendo sensações diferentes, não parecia que estava no meu corpo. Parando pra analisar, eu estava mais alta que o normal e, também, senti uma sensação diferente no meio de minhas pernas. Na mesma hora percebi que era um sonho, muito vivo, mas somente um sonho.

— Muito bem, e tu quer me contar sobre esse sonho? — Perguntou uma mulher, sentada em uma poltrona na minha frente. Ela era minha psicóloga, tinha um cabelo grande, preso num rabo de cavalo, usava óculos, roupa social e atendia pelo nome de Ester.

— Isso — Respondi enquanto olhava a sala. Eu já havia tido sessões com ela, mas em outra sala mais perto da recepção. A que eu estava agora era mais confortável, estava sentada em um sofá grande, tinha paredes amarelas com uma janela na esquerda com vista para a cidade e uma mesa logo abaixo dela com um vaso de plantas em cima. Na direita tinha um relógio simples que marcava nove horas e ganchos para pendurar roupas e mochilas. A sala, no geral, era bem simples, mas bem aconchegante.

No começo do sonho, eu estava em um jantar com muitas pessoas ao redor de uma mesa comprida e eu sabia quem era cada uma delas, já tinha visto eles em alguns registros. Eram minha família, o que me deixou muito confusa, porque eles morreram quando eu era uma criança, então não tinha como eu ter essa memória. Geralmente eu tenho sonhos esquisitos, mas esse ficou particularmente estranho quando olhei uma criança sentada numa cadeirinha bem na minha frente. Consegui reconhecer que a criança era eu, por causa dos registros. Na época eu tinha recém feito 3 anos, por isso fiquei pasma na hora, pois ali estava eu, toda suja de comida. Então me toquei que estava na perspectiva de outra pessoa, só não sabia quem.

Eu decidi ignorar e aproveitar o momento, nunca tive a chance de conviver com nenhum deles. E no começo, estava tudo muito bom, eu estava amando aquilo, me sentia extremamente confortável na companhia deles. Quando eles morreram, obviamente, eu não tive tempo de conhecê-los, eu era uma criança ainda, então essa foi uma conveniência muito emocionante pra mim.

Horas foram passando e eu estava me divertindo muito, mas algo me incomodava. Eles estavam mortos, morreram em junho de 2008. Procurei rapidamente um celular em algum bolso e encontrei. Quando desbloqueei o celular, vi três figuras: um garoto negro com olhos castanhos que usava óculos, uma garota de branca com cabelo preto no ombro e olhos azuis e um garoto branco com cabelo curto, barba e olhos castanhos. O último era meu primo mais velho Adam, e eu provavelmente estava na perspectiva dele, era o único que eu não via na mesa, os outros dois pareciam ser amigos dele. Na foto do plano de fundo do celular, ele estava no meio dos três, com os braços em volta do pescoço dos dois com um sorriso enorme. Foquei minha atenção na data e vi que era sete de junho de 2007 o que me assustou, pois foi o dia que minha família morreu.

— Eu nunca soube como eles morreram, a polícia divulgou pouco sobre o caso. Nunca pegaram o suspeito e por isso a morte deles é um mistério até hoje — Comentei, fazendo um adendo — Depois que vi a data, a cena mudou num piscar de olhos.

Eu estava sentada na frente de uma casa branca, consideravelmente grande, de dois pisos. O andar de baixo era um porão, onde estávamos jantando antes. Nos fundos dessa casa, havia um casebre de madeira, portanto, não era tão grande quanto a outra.

Ainda era noite do dia 7 de junho, o relógio marcava 22:50, estava bem frio. Junto de mim, estavam o irmão mais novo de Adam: Edward, um menino loiro que usava óculos e tinha olhos verdes, e nossa prima Pietra, uma menina com longos cabelos caramelos e olhos azuis.

Nesse momento da noite a maior parte do pessoal já tinha ido dormir, então ficamos conversando ali por um tempo até que uma mulher segurando uma menininha no colo saiu pela porta da casa. Ela era linda, tinha um cabelo escuro com corte Chanel, olhos castanhos e era consideravelmente alta. Supus que era a mãe da criança, pois não tem como ninguém olhar para alguém com tanto afeto e carinho quanto uma mãe. Ela veio nos desejar boa noite e a filha saiu do colo dela para abraçar nós três.

Quando chegou a minha vez notei que era eu criança, então aquela era supostamente minha mãe, o que me deixou muito emocionada, mas por algum motivo, não chorei. Percebi que tinha um peso ainda no meu pescoço, fui olhar e vi a mini eu ainda pendurada em mim, naquela época eu devia ser bem apegada ao meu Primo. O abraço terminou.

— Seu primo Adam, já que tu tá na perspectiva dele no sonho, consegue me falar um pouco mais sobre ele? — Perguntou Ester, me cortando.

— Ahm, eu não sei direito, só vi ele em algumas fotos, no sonho não cheguei a ver nenhum reflexo — Respondi, pensativa.

— E como ele era exatamente nas fotos que você viu? — Achei estranho perguntar sobre o visual dele, não tinha feito perguntas assim nas outras sessões que tive com ela.

— Bom, ele tinha um cabelo curto e bem escuro, com os lados menores e com a parte grande em cima jogada para trás. Tinha uma barba grande e olhos castanhos. Mas o que isso tem a ver?

— Entendi, entendi. Obrigada, pode continuar — Disse ela, ignorando completamente minha pergunta e focando na prancheta.

— Enfim — Prossegui, um pouco incomodada.

Depois daquilo, a mulher que aparentava ser minha mãe, nos deu boa noite novamente e as duas seguiram para dentro da casa. Pouco tempo depois, os dois que estavam comigo saíram, mas por algum motivo, continuei ali. Olhei novamente para o celular e era quase meia noite, o relógio marcava onze e cinquenta.

Eu estava me sentindo tensa mas não sabia o porquê, então resolvi dar uma volta ao redor de uma praça enorme que tinha na frente da casa. A noite estava ficando mais gelada e por algum motivo eu sentia uma vontade muito grande de ficar checando o horário. Tinha dado alguns minutos caminhando, já estava bem afastada de onde eu estava antes, perto de uma das extremidades da praça, então senti que algo começou a me observar. Eu não sabia de onde e nem para qual lado olhar, mas minha atenção estava sendo atraída para o interior da praça, principalmente nas partes mais escuras. Escutei alguém me chamar de longe, virei para trás e vi Edward acenando. Parei para que ele pudesse me alcançar com mais facilidade

Na hora em que me alcançou, começou a falar que estava preocupado, pois eu estava agindo meio estranho naquela noite. A expressão dele tava um pouco diferente, ele estava sem os óculos. Quando perguntei o porquê de estar sem, fui completamente ignorado. Ele não parava de falar que estava preocupado, parecia um robô.

Por algum motivo, eu estava sentindo uma vontade muito grande de olhar pro rosto dele, então olhei mais atentamente e percebi que além de estar sem óculos, os olhos eram azuis e não verdes. Me senti confusa e com uma vontade urgente de olhar o celular. Já era meia noite passada. Quando olhei de volta para ele, vi a mão dele fechada vindo na direção do meu rosto. Não deu tempo de reagir, foi muito rápido. O soco foi forte a ponto de me deixar desnorteada, perdi meu equilíbrio e caí no chão.

Tentei me levantar e fui chutada entre as pernas, senti uma dor inexplicável. Óbvio, eu estava em um corpo masculino, mas lembrei tarde demais que tinha bolas. E depois dessa, acho que nem tinha mais. Não tinha dado tempo de me recuperar do primeiro, o segundo chute veio com tanta força que me fez perder brevemente a consciência.

Quando recobrei ela, eu ainda estava no chão, mas em um lugar diferente, tinha mais grama e árvores, e também era mais escuro. Fiquei assustada só de pensar, não tinha como ninguém ter uma força tão grande, só podia ser um sonho porque eu havia sido arremessada a mais de 50 metros em um chute. Estava completamente perdida e fiquei mais confusa quando olhei de onde fui chutada, pois não havia mais ninguém lá. Quando tentei levantar, alguma coisa atrás de mim segurou meus braços e minhas pernas com tanta força que, independente do que eu tentasse fazer, não conseguia mexer nada além da cabeça, tentei olhar de soslaio, mas tudo que vi foram luzes da casa ligadas. Me perguntei se aquilo que me chutou tinha ido em direção à minha família. Senti a raiva gritando dentro de mim, nunca havia sentido algo tão forte. Entretanto, foi um sentimento muito breve, pois seguido disso, a cena mudou de novo.

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Eu estava dentro de casa em um quarto com um casal. Tinha um homem deitado num sofá na minha frente e uma mulher deitada no chão comigo. Tentei avisar eles que algo estava acontecendo, mas as palavras que saíam da minha boca não faziam sentido nem mesmo pra mim. Tentei me levantar e caí sentada logo em seguida, eu estava definitivamente menor, minhas pernas não tinham equilíbrio direito e eu estava do tamanho de uma criança. Então entendi, estava no corpo de eu criança, naquela mesma noite.

— O sonho naquele momento começou a passar pela minha perspectiva daquela noite, de quando eu tinha 3 anos — Comentei.

— E o que aconteceu com o teu primo? Perguntou Ester, de novo focada em Adam.

— Eu não sei — Respondi — Mas, — Prossegui contando.

Um homem de cabelo escuro e curto, com uma barba ruiva, levantou. Ele colocou os óculos e perguntou o que estava acontecendo. Ele havia chamado a mulher de Lilly, que quando levantou, vi que era a mulher que deduzi ser minha mãe, então o homem na minha frente só podia ser meu pai, que ao ser respondido, foi chamado de James. Me vi reunida com meus pais e fiquei extremamente comovida, por isso comecei a chorar.

Enquanto eu chorava, meus pais começaram a conversar, não conseguia acompanhar a conversa deles, falavam muito rápido, só escutei minha mãe falar que achava que eu tinha feito cocô nas calças. E pra piorar, eu realmente estava toda cagada. Comecei a chorar ainda mais, frustrada. Não muito tempo depois, meu choro e a conversa deles foram interrompidas quando escutei uma porta sendo destruída. Todos no quarto se assustaram, e meu pai foi ver o que tinha acontecido e minha mãe ficou parada na frente da porta, observando. A porta estava aberta, que dava na direção do sofá que ele dormia. Eu não conseguia ver o que estava acontecendo pelo ângulo que eu estava. Tudo que escutei foram os gritos dele, e o barulho de alguém caindo no chão. Minha mãe ficou em choque, ela havia visto a cena. Estávamos em um quarto no primeiro andar, perto das escadas. Desesperada, ela me pegou no colo e correu o mais rápido possível para o porão. Eu havia acertado, após aquele chute monstruoso ele foi em direção à minha família, mas por algum motivo, quando passamos, ele estava parado de costas para nós, olhando para a porta. Eu só conseguia chorar, vendo meu pai morto no chão com o peito perfurado e uma poça enorme de sangue embaixo dele.

Chegando no porão, meus dindos, meu tio, minha prima Pietra e minha avó, estavam conversando, mas todos levantaram num susto ao verem minha mãe descendo as escadas com uma expressão de desespero no rosto e comigo no colo.

Após isso, as imagens ficaram bagunçadas. Eu não conseguia mais dizer o que realmente estava acontecendo, só escutava sons de coisas caindo no chão e gritos de desespero. Entre tudo isso, consegui escutar uma voz familiar, era Adam. Mas mesmo ele estava gritando desesperadamente. Tudo aconteceu numa velocidade que minha cabeça de três anos de idade não conseguia acompanhar. A cena mudou novamente, continuava sendo carregada, sentia o vento batendo contra mim e ouvia uma respiração muito ofegante. Então, do nada, paramos e comecei a escutar uma conversa distinta, mas não entendia direito o que estavam falando, mesmo tentando prestar atenção. Parecia outra língua. Então, começamos a nos mover de novo, mas não por muito tempo. Adam foi a última visão que tive no sonho, ele estava com um sorriso enorme que nem na foto no celular, uma expressão despreocupada e gentil num rosto todo sujo. Ele ficou me olhando, dava pra ver que estava segurando o choro, mas não conseguia me sentir preocupada e sim confortável, parecia que o mundo tinha congelado naquele momento. Se aquilo fosse uma memória minha, eu nunca mais iria querer esquecer desse momento tão caloroso. Então ele disse com um riso bobo: que fedor de cocô. Seguido com o som de uma explosão, eu acordei na minha cama.

Notas finais
Críticas construtivas são sempre bem vindas :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.