Assombrado Pelo Destino
7 Negação
Notas iniciais
Capítulo 6 — Negação.
Lembro-me nitidamente.
Quando chegava o início de agosto às professoras pediam aos alunos para que fizessem cartões para o dia dos pais. Era preenchida uma folha branca com vários desenhos coloridos e no final era escrito uma mensagem dizendo o porquê de seu pai ser tão especial.
Eu olhava para a sulfite. Não desenhava. Não escrevia. Por um simples fato: eu não conheci meu pai.
Naquela época eu conversei com minha mãe, perguntei qual era o nome do meu dele; como ele era e por que ele não vivia com a gente. Em resposta ela dizia que ele havia viajado para bem longe, claro que a desculpa não afastou minha curiosidade. Aos nove anos de idade, eu encontrei uma fotografia no porão, nela estava um homem alto com cabelos escurecidos, ele vestia uma roupa de militar como insígnias do lado esquerdo da roupa, ao lado dele estava uma mulher que eu tinha certeza ser minha mãe.
Enquanto eu observa a foto, minha mãe entrara abruptamente no porão, ela gritou arrancou a foto das minhas mãos e me colocou de castigo sem motivo algum. Acho que ela resmungou bem baixo que deveria ter jogado aquele lixo todo fora. Nunca mais vi aquela imagem. Claro que, não demorou muito para que eu descobrisse que a desculpa sobre meu pai ter viajado era uma mentira. Ma já era tarde para descobrir a verdade. Ela morreu. As palavras sutis de tia Jannete permanecem até hoje na minha cabeça: “Ela não está mais entre nós”. Foi assustador encontrar minha casa vazia e dor de perdê-la foi inevitável.
Morei com Jannete por um tempo, por fim, ela também havia morrido. E agora, estou em Londres. De frente com um homem que usa tapa-olho e a garota que me levou até aqui. Mas, o que eles iriam querer de mim? E o que eles sabem sobre meu pai?
Annie me encara e eu retribuo seu olhar vago.
Ela me disse coisas estranhas e assustadoras, que motivo ela teria para fazer algo assim? Ainda mais com um desconhecido? Eu realmente precisava de respostas.
– O que vocês sabem sobre meu pai? — Minha voz sai tão fraca que imagino se alguém da sala ouviu.
– Bem, — o Sr. Dermott começa a falar. — eu e a senhorita Collins trabalhamos para a Interpol, a Polícia Internacional...
Olho para ele, surpreso. Qual a razão de uma agente da Interpol se passar por uma estudante?
– Ela como minha subordinada foi designada a se aproximar de você, — ele continua a falar — tivemos a informação que Jacques teve um filho, no caso você, Robert. E o principal objetivo de Annie era checar se os dois possuíam alguma relação.
Permaneço calado por alguns minutos, tentando ingerir a informação.
– Mas, o que meu pai fez para ser perseguido pela policia? Ele era um militar, uma pessoa digna de respeito! — Minha voz se sobressai involuntariamente. O diretor fecha os olhos por um momento, parecia estar avaliando suas opções.
– Robert, seu pai está sendo acusado de terrorismo. Ele é suspeito de ser um assassino em série e é bem provável que... — ele abre os olhos e me encara, seu olhar era duro. — É bem provável que ele tenha matado sua mãe.
Foi como levar um soco no estômago e ter quebrado uma costela. Nunca fiquei tão horrorizado com algo que alguém me disse. Náuseas, senti muitas náuseas. Eu vi uma foto quando era criança ele era um militar ele não era um serial-killer! Minha mãe jamais se casaria com um assassino!
– Você está mentindo! Seu desgraçado! Como pode dizer algo assim? Você não sabe nada sobre minha família e também não sabe nada sobre mim! — Grito o mais alto que posso. As lágrimas se formam sobre o meu rosto e aquela dor que eu tinha conseguido apaziguar dentro de mim retornara com aquelas palavras. A dor de nunca ter conhecido meu pai e a dor de perder mim mãe. — Eu preciso sair daqui. — digo entre os soluços.
– Não terminei de te falar o que eu tinha para te dizer. — o diretor diz rapidamente.
– O que você ainda quer me dizer? Mais mentira é?
– Precisamos da sua ajuda, Annie me contou que seu irmão tentou contato com você, isso significa que ele pode ter algum tipo de relação com seu pai. Solicitamos a sua ajuda para capturá-lo. — Ele respira por um momento. — Senhorita Collins pode levá-lo para casa, você está dispensada.
– Sim — ela responde. — Vamos? — sua voz soava tão natural que por um breve momento eu me perguntei se ela tinha escutado o que o senhor Dermott tinha dito. Mas então, ela faz algo que contradiz o meu pensamento. Com a manga da blusa Annie enxuga minhas lágrimas.
– Vamos? — ela pergunta novamente, agora abrindo um leve sorriso. — Não negue esse fato de quem pode ter sido seu pai, apenas considere as possibilidades
– Vamos. — Eu afirmo logo, queria ficar sozinho e refletir. Nós descemos alguns andares no elevador até chegar a uma garagem. Ela entra em um Honda prata, e eu a sigo. O carro atravessa o pátio vazio e vai em direção a rua.
– Você perdeu a aula hoje, vou te deixar em casa. Eu não digo nada em resposta, apenas mantenho meus olhos fixos no retrovisor do carro, observando o prédio do qual acabara de sair. Afinal não havia razão para eu querer conversar. Quando chegamos na frente do imóvel de tia Kate sinto que deveria perguntar uma coisa.
– O que acontece agora? — Quase ninguém tem contato com o diretor, agora que você sabe o objetivo dele, o Sr. Dermott estará de olho em você.
– De olho em mim, quer dizer, eles estarão me observando?
– Sim — ela diz. – Te vejo em breve.
Eu aceno em resposta e fico parado na calçada até o carro desaparecer na esquina.
Não sei se devo acreditar no diretor, eu me lembro de uma fotografia que mostrava meu pai com roupa de militar, e mesmo se ele não fosse militar eu preferia não acreditar que ele era um assassino. Sou incapaz de distinguir a verdade. Eu entro no prédio subo até o apartamento de Kate e me jogo no sofá. Não sei quanto tempo se passa talvez eu tenha ficado ali por horas. Deitado. Encarando a lâmpada fluorescente que iluminava a sala.
Decidi esperar Kate voltar eu queria falar com ela e perguntar o que ela sabia sobre meu pai. Inerte nos meus pensamentos cai num sono profundo.
...
Não sei bem a que horas acordei, mas vi que caía uma chuva forte do lado de fora. A Razão, também não sei, mas senti um forte impulso de sair do apartamento de tia Kate. Do lado de fora ventava muito, mas era agradável sentir as gotas frias caírem na minha face. Recordo-me que saio andando pelo quarteirão solitário, com uma blusa encharcada. E lembro também de um pensamento que não saía da minha cabeça:
“como é ruim estar vivo.”
Fale com o autor