Assombrado Pelo Destino
5 Diálogo
Notas iniciais
Capítulo 4 — Diálogo.
As palavras não saíam da minha mente, elas vinham acompanhadas de imagens de uma sala escura de hospital.
Tudo estava negro e a minha volta as trevas se aproximavam. Eis que surge uma forte luz cegante, ali bem a minha frente ela sorria, seus cabelos loiros cacheados e olhos azuis lhe davam um ar angelical a sua face.
— Mãe. — sussurei.
Estendi minha mão na falha tentativa de alcança-la.
Subitamente a luz começou a desaparecer e junto com ela se foi embora minha mãe.
Em um sobressalto eu caí da cama. Amaldiçoei mentalmente o chão por ser tão duro e gelado.
— Droga — murmurei — foi apenas outro sonho sem sentido. Pelo menos eu vi ela novamente.
Ao que parece este pesadelo havia retornado para me incomodar. Eu sempre via mamãe em meus sonhos, mas nunca era capaz de salva-la. Isso era frustrante.
Demorou alguns longos para que eu percebesse o estranho local a minha volta. Era um consultório. . . Hospitalar.
A sensação de estar e um local como aquele era nauseante. Sim, eu odiava hospitais.
Encarei a janela do lado esquerdo da sala, já dava para notar que estava de dia mesmo com o tempo nublado e chuvoso.
— Quanto tempo se passou? Por quê eu estou aqui? — murmurei.
De súbito surgiu algumas pequenas memórias da noite e que encontrei meu suposto irmão. Será que tudo foi apenas minha imaginação? Afinal, é muito suspeito ter acordado em um hospital após tê-lo conhecido.
Minhas pernas fraquejaram por um instante, sentei novamente na cama do consultório. A repentina lembrança fazia minha cabeça doer. Pensei nas últimas palavras de Isaac mencionando "mamãe" e depois aquele sangue latejando no pulso.
Arregalei os olhos.
Então era isso! Antes de desmaiar ele fez uma agulha atravessar o meu. . . braço!
Automaticamente fitei o local e que o alfinete deveria estar. Era verdade.
Um frio percorreu minha espinha, havia um pequeno objeto prateado sob a pele do meu braço, quase imperceptível. Agora fazia mais sentido ele ter falado " Isto é a prova" . Retirei-a dali e pequenas gotas de sangue escorreram.
Peguei um algodão que se encontrava em cima da mesa ao lado da cama e limpei o sangue.
— Aquilo foi real! — pensei.
Refleti por mais alguns minutos a questão principal era: O que causou o desmaio naquela noite. A conclusão foi: Nenhuma das hipóteses me parecia lógico.
— Desisto. — sussurei.
Logo a porta do consultório foi aberta. Um homem albino que trajava uma espécie de jaléco branco. Presumi ser o médico.
— Rapazes da sua idade são um tanto rebeldes — falou o doutor. — decidiu descer uma escada de skate e o resultado foi três pontos na cabeça.
É provável que minha expressão passou de surpresa para espanto. Aquele médico só poderia estar brincando, eu não havia cortado a cabeça coisa nenhuma!
Mesmo desconfiado levei minha mão até meu cabelo e procurei por todos os lugares. Por azar, encontrei o que não queria encontrar. Bem atrás da minha cabeça, um pouco acima da nuca dava para sentir o corte.
— Por sorte, — prosseguiu o médico — sua amiga o trouxe para cá.
— Uma amiga?
— Sim.
Quem poderia ser? Será que foi a mesma pesso que causou esses pontos na minha cabeça?
— Quer que eu à chame? — Perguntou o doutor.
— Sim, por favor. — eu disse a ele.
Logo o grisalho se retirou da sala.
Avaliei a situação. A razão dessa "amiga" ter mentido era bem óbivia, na verdade, ninguém acreditaria na história. O fato era que eu tive um inusitado encontro na noite passada.
Novamente a porta se abriu, tirando-me dos pensamentos.
— Olá! Garoto skatista! — ela gargalhou.
Por alguma razão não fiquei surpreso em vê-la.
— Olá garota bipolar — retruquei.
— Eu não sou bipolar coisa nenhuma! — ela sorriu. — eu tenho nome, está bem?
Suspirei, está "amiga" só poderia ser Annie Colins.
— Você me deve respostas. — digo.
Ela fechou a porta e repousou todo o peso do corpo na parede à esquerda do batente.
Notei mais uma vez que sua personalidade havia mudado, e também era perceptível que ela não dormira na noite anterior.
Tinha bolsas roxas debaixo de seus olhos, a pele branca estava tão suada quando seu rosto, o cabelo olioso e visão cansada me fazia pensar: "o que aconteceu?"
— Bem, — ela falou enquanto desabotoava a jaqueta de couro. — o que quer saber?
— Como vim parar aqui?
Annie levou uma das mãos até o queixo fazendo-a parecer pensativa.
— Eu te trouxe a esse hospital após te encontrar em um hospital abandonado. Quanta ironia! — ela deu um sorriso cansado.
— Isso eu sei mas. . . — exasperei diante de sua resposta. — você encontrou apenas a mim?
— Sim, deveria ter encontrado mais alguém? — Annie perguntou minusiosamente como se tivesse escolhido cada palavra antes de dize-las.
— N-não. — gaguejei.
Paguejei mentalmente, minha voz não saiu tão firme quanto eu queria.
— Como me encontrou?
— Isso não é do seu interesse. — ela respondeu prontamente o que me deixou surpreso.
— Já deu para perceber que não vai me contar, não é?
Annie sacudiu a cabeça afirmando.
— Pode perguntar. O que mais quer saber?
— Minha tia Kate. . . ela ficou preocupada?
A garota vasculhou pelos bolsos d jaqueta e retirou um telefone celular.
— Pega! — ela exclamou atirando o aparelho em minha direção, não fui ágil o suficiente e o mesmo caiu no chão.
— Parece uma tartaruga — Annie debochou. — Tem que ser mais rápido!
Ignorei sua brincadeira e apanhei o celular do chão.
— Espera, esse é meu celular!
— Jura? — ela ironizou.
Havia uma mensagem no correio de voz. Pressionei o botão para ouvir. A mensagem dizia o seguinte:
— Robert! Você deveria deixar seu celular ligado! Há horas estou te ligando! Enfim, eu ainda não cheguei em casa porque fiquei presa na delegacia e tive que fazer uma pequena viagem a Westminster. Provavelmente irei chegar daqui a dois dias. Até. — E a mensagem parou.
— Quando chegou? — perguntei me refirindo ao celular.
— Chegou de madrugada, significa que ela voltar amanhã.
— Talvez ficar sozinho por um tempo seja bom. — sussurrei.
Logo, um silêncio incômodo se instalou no consultório.
— Então deixe-me fazer uma pergunta também. — Annie quebrou o vazio na sala.
— Diga.
— O que você fazia naquele hospital?
A pergunta me pegou desprevinido. Não sabia se falava a verdade ou mentira. Apesar da sua bipolaridade constante ela aparentava ser confíavel.
— Eu fui apenas encontrar meu irmão. — Por fim falei.
— Em um lugar como aquele?
— É pode parecer estranho, mas ele preferiu assim. — Eu sorri forçadamente.
O olhar dela se intensificou, era como se ela não estivesse acreditando no que eu disse. De fato, eu estava ocultando uma parte da verdade.
— Que seja! — mencionou Annie. — Talvez eu tenha feito o correto, realmente. Deveria me agradecer.
Fiquei momentaneamente confuso o que ela estava querendo dizer? Agora, minha mente era um turbilhão de confusão.
— Como assim? Me salvou do que? — perguntei.
— Talvez eu tenha salvado sua vida e impedido sua morte. — sua voz ficou áspera. — Te dei uma chance.
O tom vocal dela me pareceu tão duro e tão sincero. Como se realmente ela me protegesse de algo.
Sorri levemente. Talvez o sorriso mais verdadeiro em anos.
Um repentino barulho ecoou pela sala, olhei para frente, era o celular de Annie.
— Alô? — ela falou ao telefone.
Sua expressão facial mudou completamente, mesmo cansada parecia uma pessoa que acaba de receber uma notícia trágica e surpreendente tudo ao mesmo tempo.
Agora ela me fitava.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— Não, não aconteceu nada.
Ela me encarou por mais alguns minutos e por fim disse:
— Não pense e sair dessa sala, eu irei voltar em breve, preciso fazer uma coisa. Mas, só por precaução. . . — Annie sacou uma chave prateada de dentro do bolso. — Vou tranca-lo aqui.
— Mas se isso é um hospital, como você tem a chave do quarto! — Gritei.
Tarde demais, a garota já havia trancado a porta deixando me ali a sós.
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