Assim Estava Escrito

4 Inauguração do Galpão Cultural


Notas iniciais
Pessoal, Queria agradecer muito pelos comentários aos capítulos e pelas mensagens que recebi, aqui e no twitter!! Sou grata também a todos que favoritaram a história, muito muito obrigada!! E um agradecimento a todos que vêm acompanhando "Assim estava escrito"!! Conforme adiantado no final do capítulo anterior, hoje voltamos à noite de inauguração do Galpão Cultural. Neste momento da fic, como estamos preenchendo lacunas entre as cenas da novela, os capítulos têm dado um salto no tempo, com a devida indicação do local onde se encaixariam. Mais à frente, tanto no início do relacionamento delas, quanto na história pós fim da novela, a história será mais sequenciada, ok?! E fiquem à vontade para dar sugestões de lacunas que gostariam de ver preenchidas, vamos construindo isso junto aqui!! Então vamos lá!! Boa leitura a tod@s!! Cena anterior - Cadu provoca Marina e faz Clara mostrar a nova aliança (28/04/2014): http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/cadu-provoca-marina-e-faz-clara-mostrar-a-nova-alianca/3311359/

Logo após vangloriar-se da nova aliança que havia dado a Clara, Cadu disse que precisava voltar aos atendimentos no bistrô e se retirou, deixando a esposa novamente na mesa com Ivan, Marina e Vanessa.

Clara voltou a se sentar ao lado do filho, sem tirar os olhos de Marina. Queria receber pelo olhar da fotógrafa a confirmação de que estava bem, apesar de tudo que presenciara minutos antes. Mas essa confirmação não veio, porque Marina não olhou mais nos olhos da morena. A assistente queria entender o que se passava na cabeça da fotógrafa, ver o que ela estava sentindo após tudo que tinha ouvido de seu marido. No entanto, Marina não conseguiu mais olhar para Clara, pois sabia que iria se expor em um simples olhar. Tudo que Cadu havia falado estava lhe corroendo por dentro, mas ela precisava ser forte para não desabar ali, na frente de todos.

Após alguns momentos de silêncio, que pareceram horas, Marina voltou-se para Vanessa:

– Van, vamos dar uma volta para tirar mais algumas fotos?! Acho que tem alguns espaços que a gente pode explorar mais, aproveitar o maior número de pessoas que está aqui hoje.

Vanessa concordou e se levantou. Antes de segui-la, Marina despediu-se carinhosamente do filho da amada:

– Ivan, depois eu volto pra te mostrar mais algumas coisas da câmera, tá?!

O menino abriu um sorriso e assentiu. Ainda sem ter o olhar da fotógrafa, Clara, que por sua vez não conseguia tirar os olhos dela, não pode deixar de lhe chamar.

– Marina! — Disse a morena, quase suplicando por um momento de atenção da chefe.

Ao ouvir seu nome, a fotógrafa voltou-se para Clara e olhou-a nos olhos pela primeira vez depois do exibicionismo da aliança por parte de Cadu.

Mas a troca de olhares não durou muito. Marina definitivamente não conseguia encarar Clara, pois sentia que as lágrimas poderiam chegar a qualquer momento. A fotógrafa então olhou para frente e voltou a olhar para Clara muito rapidamente, apenas para dizer:

– Clara, eu preciso tirar mais algumas fotos, depois a gente se fala, tá?! — Disse-lhe Marina, juntando todas as forças para não demonstrar para a morena o que estava sentindo, embora no fundo já soubesse que sua tentativa de ignorar a assistente já evidenciava todo o seu sentimento naquele momento.

Marina então seguiu ao encontro de Vanessa. Começaram a percorrer o Galpão tirando mais algumas fotos, buscando ângulos e espaços ainda não trabalhados. Clara permaneceu no Bistrô ajudando o marido no atendimento às mesas, que estavam cheias. Mas apesar do grande movimento, não só do restaurante quanto de todo o Galpão, os olhos de Clara acompanhavam Marina ao longe a cada passo que a fotógrafa dava.

Em uma determinada altura da noite, depois das falas oficiais que selaram a inauguração daquele espaço cultural, Marina voltou-se para Vanessa:

– Van, eu vou procurar um lugar mais tranquilo pra eu rever as fotos e me certificar de que não ficou faltando nada, e se estiver tudo ok, a gente vai embora, tá?!

Vanessa concordou e viu a fotógrafa se perder entre o público ali presente. Sabia que Marina tinha ficado abalada pelo ocorrido no Bistrô, mas preferiu não tocar no assunto naquele momento.

No mesmo instante, Clara se distraiu com o pedido de um cliente e quando voltou a olhar pelo salão não viu mais sinais de Marina. Havia perdido-a de vista.

Ao procurar um local mais tranquilo, Marina viu que havia uma sala no galpão com a porta entreaberta. Aproximou-se e percebeu que a sala estava vazia. Entrou naquele cômodo e fechou a porta em seguida.

Apoiou as costas na porta e cerrou os olhos, quando sentiu que não conseguiria mais segurar. Permitiu finalmente que o choro viesse, forte, dolorido. As lágrimas escorriam com facilidade.

Entre a série de sentimentos que a invadiam, como dor, solidão, carência, havia uma nova sensação que a tomava: ciúmes. Sim, estava com ciúmes de Clara. Nunca havia tido aquele sentimento por ninguém. Considerava sentir ciúmes algo muito egoísta, e o tipo de liberdade que ela havia procurado nos relacionamentos até então em nada combinava com aquele sentimento que ela considerava tão pouco nobre.

Mas naquele momento, era este sentimento que a tomava. Junto a ele, inquietava-lhe desejar que Clara não estivesse bem com o marido. Não queria se sentir assim, mas não conseguia controlar isso naquele instante.

Marina não queria ver a assistente infeliz. Desejava a sua felicidade sempre, ainda que nunca viessem a ficar juntas. Mas não conseguia evitar aquele sentimento amargo que o ciúme lhe trazia. E doía imaginar que toda a aproximação que imaginava ter com Clara, tudo que ela achou que elas estavam vivendo não era mais do que uma bela amizade. Chorou, chorou muito, sem cessar, por um bom período.

Não saberia dizer quanto tempo ficara ali, atrás da porta, sentada no chão, chorando. Quando o choro cessou, levou as mãos até o rosto e o enxugou como pode. Se tivesse um espelho, notaria o tanto que seus olhos ainda estavam vermelhos e marcados pelas lágrimas recentes.

Levantou-se e foi até uma mesa que havia na sala, na qual se encostou enquanto ligava a câmera para fazer o que havia dito a Vanessa que faria. Começou a passar as fotos tiradas naquela noite, tentando se concentrar e verificar se ainda faltavam imagens para incluir no site do Galpão.

Ao repassar as fotos, chegou a uma que fez com que suas lágrimas teimosamente retornassem. Mais cedo, havia tirado uma foto de Clara, sem que a assistente percebesse. Passou a mão no visor da câmera, como se fizesse um carinho na imagem da morena.

Do lado de fora, Clara havia se desvencilhado de sua função no Bistrô e se aproximou de Vanessa assim que a viu.

– Ei Vanessa, cadê a Marina?! — Disse-lhe sem esconder a urgência que tinha em saber por onde a outra andava.

– Não sei Clara. — Vanessa respondeu. — Ela se afastou dizendo que ia pra um lugar mais calmo verificar as fotos que tirou, mas daí ela sumiu. Também estou procurando ela pra gente ir embora.

– Tá... — Clara estava pensativa. — Se você vê-la você fala que eu preciso falar com ela, por favor?!

– Pode deixar que eu falo sim Clarinha. — Disse Vanessa no seu habitual tom irônico.

Clara saiu percorrendo o Galpão, olhando em cada canto, em cada corredor, mas sem obter sucesso. Olhou no banheiro, na sala da administração e nada. Já estava achando que a fotógrafa poderia ter saído e deixado inclusive Vanessa para trás, quando teve a ideia de verificar se as salas de aula estavam abertas. Tentou uma e a porta estava trancada, tentou a segunda, e foi a mesma coisa. Na terceira sala de aula, ao girar a maçaneta, sentiu que a porta estava destrancada.

Empurrou a entrada devagar, com cuidado. Seus olhos encontraram o que procurava. Lá estava ela, de costas para a porta, encostada na mesa que fica na parte da frente da sala, olhando o visor de sua câmera.

Clara entrou pela porta devagar e em silêncio, da mesma forma que a fechou atrás de si. Estavam finalmente a sós. A fotógrafa ainda não tinha notado sua presença ali, parecia imersa em algum pensamento.

Clara se aproximou até o meio da sala.

– Marina! — Disse a morena.

Quando percebeu a presença da assistente, a fotógrafa tentou se recompor. Mas não conseguiu olhar para Clara. Continuava com os olhos no visor da câmera.

– Oi Clara, eu tava aqui selecionando algumas fotos, vendo se já temos material suficiente. Lá fora tá muito cheio, muito barulhento, eu precisava de um lugar onde pudesse me concentrar.

A morena se aproximou um pouco mais.

– Marina. — Repetiu Clara, no mesmo instante em que levou uma mão ao queixo da fotógrafa, virando o rosto da outra de frente para o seu.

Neste momento Marina a olhou nos olhos, não tinha mais como esconder. Estava encurralada. Ao ver os olhos vermelhos da chefe, sinalizando um choro longo e recente, Clara percebeu o quanto o episódio do Bistrô tinha mexido com a fotógrafa. Uma tristeza profunda tomou a assistente ao ver Marina fragilizada assim. Sentiu que tinha que fazer algo, não suportava ver a chefe daquele jeito.

– Me desculpa. — Disse Clara.

Foi só o que conseguiu falar.

Marina viu que não tinha mais como evitar, não tinha mais como fugir daquela conversa.

– Você não tem que me pedir desculpas por nada Clara. É a sua vida, quando eu te conheci já era assim. Quem está sobrando nessa história sou eu...

– Não fala assim Marina, isso não é verdade. — A morena levou a mão ao rosto da fotógrafa carinhosamente.

– Clara, vamos ser realistas. A sua condição é essa. — Marina se levantou, afastando-se do toque da assistente. — E eu sempre tentei trabalhar isso na minha cabeça, com essa ideia de que você tem outra pessoa, e se um dia você se permitir algo comigo, é nesse contexto que eu vou me encaixar. E na verdade, eu mesma sempre te disse que pra mim relacionamento não combina com exclusividade e tal. Nunca me importei de saber que você tem ele em sua vida.

Marina havia caminhando para longe de Clara, e agora começava a se aproximar.

– Mas hoje eu percebi que tentar ser racional é uma coisa. Controlar os sentimentos é outra — Continuou a fotógrafa. — Eu sei que você tem marido, que está com ele sempre, que dorme e acorda com ele todos os dias. Mas ver você com ele é diferente. Me deu uma sensação estranha aqui. Parece mais fácil aceitar quando eu não tenho que vê-los juntos. Mas ver vocês dois ali, renovando seu amor... me deu uma coisa aqui dentro sabe, uma angústia... — Marina falou levando a mão até seu peito.

Clara ouvia tudo atentamente.

– E eu me sinto mal, porque eu quero te ver bem, quero te ver feliz Clara. Seja como for. Não quero sentir isso que eu tô sentindo agora... não quero ter ciúmes de você... nunca tive isso por ninguém, não sei porque isso agora.

Nesse momento, Clara sentiu que precisava falar também.

– Eu sei o que você tá sentindo Marina, porque eu sinto isso também. — Disse-lhe a morena, recebendo da fotógrafa um olhar de interrogação, de quem não entendia bem o que estava acontecendo. — Eu também sinto ciúmes de você.

Agora no olhar de Marina misturavam-se surpresa e uma ponta de esperança de que Clara tivesse por ela algum sentimento a mais do que amizade. Clara aproximou-se dela novamente, estavam agora em pé no meio da sala de aula, que permanecia com a porta fechada.

– Eu sinto ciúmes quando vejo a Vanessa tocando em você. — Disse-lhe Clara, levando sua mão direita ao rosto de Marina. — Porque quando ela te toca, eu queria que fosse o meu toque na sua pele. — Agora a morena tinha levado também a mão esquerda até o rosto da fotógrafa. — E naquele dia, no seu quarto, quando eu cheguei e vocês estavam dormindo juntas...

– Não aconteceu nada Clara. — Marina a interrompeu, querendo se justificar.

– Eu sei. — Disse-lhe a morena. — Mas quando eu a vi deitada com você, sentindo o seu cheiro, a sua respiração, tão de perto, logo cedo, eu desejei estar no lugar dela. — Ainda segurando o rosto de Marina, Clara se aproximou mais e encostou o nariz na lateral do rosto da fotógrafa, sentindo seu perfume. — Porque eu também queria acordar sentindo o seu perfume de perto.

Marina olhou-a com surpresa e sorriu. Seus corpos agora haviam se encontrado. O nariz de Clara percorria todo o rosto de Marina sentindo seu perfume. Passou pela bochecha, pelo nariz da outra, perto dos olhos, do ouvido.

Marina levou os braços ao redor da cintura de Clara e a abraçou. Enquanto a assistente reconhecia seu cheiro, Marina passeava suas mãos pelas costas de Clara, pressionando-a contra si. Sentiam agora o calor do corpo uma da outra, e suas respirações já se misturavam.

Clara também passou os braços ao redor do corpo de Marina, e com as mãos percorria as costas da fotógrafa, que por sua vez, agora também fazia o reconhecimento do perfume do rosto da assistente.

Reconheciam-se pelo tato e pelo olfato. O calor que sentiam imersas naquele abraço provocava arrepios em seus corpos. Esqueceram-se do mundo, do que acontecia lá fora. Não havia mais nada naquele instante.

Ora o nariz de uma encontrava-se com o da outra, ora seus lábios também tocavam seus rostos, chegando a passar um pelo outro, rapidamente. Viviam aquele momento com intensidade, e seus corpos mostravam-se carregados pelo desejo que sentiam uma pela outra.

Marina percorreu novamente o rosto de Clara com seu nariz, e ao aproximar-se de seu ouvido, disse-lhe sussurrando:

– Eu também queria acordar sentindo seu perfume de perto, todos os dias.

Nesse momento seus rostos se afastaram um pouco, apenas a ponto de poderem cruzar o seu olhar. Ambas sorriram. Sentiam de volta toda a cumplicidade que havia sido questionada desde o que ocorrera no Bistrô. Sabiam que havia algo mais entre elas. Não conseguiam explicar como era esse relacionamento, mas podiam sentir, com muita intensidade, que ele ia para além da amizade. E era naquele abraço intenso que queriam estar naquele momento. Era tudo muito natural. Apenas seguiam seus instintos, seus desejos. Suas testas se encontraram novamente e fecharam os olhos.

– Marina! — Afastaram-se de repente ao ouvir a voz de Vanessa chamando a fotógrafa.

– Nossa Van, que susto que você me deu! — Disse-lhe Marina, olhando-a um pouco sem graça. — Há quanto tempo você tá aí?!

– Há mais tempo do que eu gostaria. — Respondeu Vanessa, secamente, ao voltar-se para Clara com um olhar questionador. Olhou para Marina novamente. — Você já conferiu as fotos?

– Conferi sim Van. Tá tudo certo, acho que o que temos é suficiente.

– Então podemos ir?

– Podemos sim.

Marina olhou para Clara. A morena estava incomodada com o flagra de Vanessa, mas feliz pelo reencontro com a fotógrafa.

– Tchau Clara. Logo a gente se vê! — Disse Marina.

A assistente assentiu com a cabeça, quando viu a fotógrafa se afastar e deixar a sala de aula. Vanessa esperou Marina passar e tomou o caminho da saída, mas parou na porta e virou-se na direção de Clara, que ainda estava imóvel no centro da sala:

– O maridão tá te procurando, viu Clarinha?! — Disse Vanessa com ironia.

Clara sentiu a provocação da ruiva, mas preferiu não retrucar, naquele momento. Apenas a olhou.

Vanessa saiu da sala. Clara permaneceu ali por mais alguns minutos antes de voltar para o Bistrô.

A caminho de casa, Marina ficou repassando tudo que tinham vivido momentos antes. Sentiu um alívio em saber que a afinidade das duas era recíproca, que o sentimento de Clara era real. Mesmo que não pudessem concretizá-lo ainda, confortava-a saber que era correspondida. Naquela noite, dormiu feliz. E como sempre, sonhou com Clara.

Notas finais
Cena posterior - Diogo, pai de Marina, chega ao estúdio da filha (28/04/2014): http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/t/cenas/v/diogo-pai-de-marina-chega-ao-estudio-da-filha/3311370/ Até breve! :D Capítulo 4 postado em 10 de outubro de 2014.