Assim Estava Escrito
26 Família Pinguim
Notas iniciais
Depois do jantar de noivado...
– Vamos dormir lá em casa hoje? — Clara perguntou para Marina.
– É é?! Você quer?! — A noiva falou toda dengosa.
– Quero sim, daí a gente aproveita e continua a comemoração desse noivado, hein?! — A morena confirmou dando uma piscadinha para a amada.
– Hum, gostei dessa ideia! — Marina falou com um sorriso aberto. — Bom, então vamos só ajeitar essas coisas aqui e vou pegar minha bolsa. — A fotógrafa completou começando a retirar a mesa do jantar.
Nesse momento, Clara segurou a mão de sua noiva e a olhou nos olhos:
– Amor, esse passo que a gente está dando é muito sério e significativo pra mim! Queria que você soubesse disso. Eu gostaria muito de contar para o Ivan, compartilhar com ele esse acontecimento tão importante pra todos nós, porém acho que ainda não é hora. Mas é algo que preciso dividir com a minha família. Podemos passar lá na minha mãe e contar pra ela?! Queria que fizéssemos isso juntas. — A assistente pediu.
Marina a olhou com ternura, acariciou seu rosto, beijou as mãos da morena e respondeu:
– É claro que vamos juntas contar pra sua mãe. Quero que ela saiba do meu compromisso e minha seriedade em relação ao que nós temos. Vamos fazer isso juntas, e daqui pra frente, tudo mais que for. Estamos construindo uma família e de agora em diante é assim que vai ser.
Os olhos de Clara marejaram com as palavras da amada. Beijaram-se carinhosamente. Quando seus lábios se separaram, fitaram-se e sorriram.
Terminaram de retirar a mesa e organizar a louça do jantar e então partiram para o Leblon.
Chegando no prédio da família Fernandes, a morena olhou para Marina e perguntou:
– Pronta?!
Ao que a fotógrafa respondeu:
– Sempre!
A assistente sorriu. Pegaram o elevador e foram direto para o andar da matriarca. Chegando lá, deram-se as mãos e Clara tocou a campainha.
Após alguns segundos a dona da casa abriu a porta.
– Ei meninas, que surpresa boa! — Falou cumprimentando a filha e a fotógrafa com um beijo no rosto. — Vamos entrando, acabei de tirar um bolo do forno aqui, vamos aproveitar e tomar um cafezinho juntas.
As três seguiram pela sala do apartamento. Clara e Marina se sentaram e Chica já foi se encaminhando para passar o café.
– Meninas, fiquem à vontade aí, só vou coar um café rapidinho e já volto. — Falou.
– Mãe, vem cá, senta aqui com a gente! — A assistente pediu, chamando Dona Chica para sentar-se na poltrona próxima ao sofá em que elas estavam. A anfitriã então deu a volta na sala e ocupou o lugar sugerido pela filha.
– O que foi meninas? Aconteceu alguma coisa? Tá tudo bem com o Ivan?! — Chica começava a se preocupar com a relativa urgência que a filha tinha em falar com ela.
– Mãe, fica calma. Não aconteceu nada. Aliás, não aconteceu nada de ruim. Aconteceu uma coisa muito boa, e é essa notícia que a gente veio te dar. — A morena a tranquilizou.
Chica olhou para a cara de uma e de outra e então percebeu o sorriso bobo das duas, e assim soube que estava tudo bem.
– O que foi então meninas? Vocês estão com uma cara de que estão aprontando alguma coisa.
Clara e Marina riram com a suspeita da dona da casa. Se olharam mais uma vez e fizeram um sinal de positivo com a cabeça. A morena então voltou-se para a matriarca:
– Sabe o que é mãe?! A gente vai se casar! — A assistente falou de uma vez e deu um beijo na mão da noiva que estava entrelaçada à sua.
Chica que estava um pouco boquiaberta sorriu ao ver o carinho entre as duas.
– Gente, confesso que vocês me pegaram de surpresa com essa notícia. — Comentou. — Mas como não ficar feliz vendo o carinho entre vocês?! É contagiante! Parabéns minhas queridas! — A anfitriã abraçou as duas de uma vez. Quando se separaram, todas estavam com os olhos marejados, visivelmente emocionadas.
Chica voltou para sua poltrona e começou a especular.
– Mas como vai ser isso?! Vocês vão passar a morar juntas, como eu e o Ricardo fizemos?! — A mãe perguntou.
– Vamos sim Chica! — Respondeu a futura nora. — Mas depois do casamento. — Completou.
– Então vai ter casamento mesmo?! — A dona da casa continuou com as perguntas.
– Vai sim mãe! Casamento mesmo! Pensamos em uma coisa mais simples, só para as pessoas próximas. Mas com tudo que a gente tem direito! — Clara respondeu com um sorriso. Estava muito feliz com esse recomeço em sua vida.
– Mas como acontece isso?! É do mesmo jeito que os outros casamentos?! Vocês me desculpem meninas, isso é novo pra mim, eu só quero tentar entender.
– Não tem problema Chica. — Marina falou tranquilizando-a. — Sinta-se à vontade pra perguntar o que for, sempre. Confesso que pra mim essa história de casamento também é nova. Mas andei me informando por aí — olhou pra Clara e piscou — e o nosso casamento vai ser como qualquer outro. Vamos dar entrada nos papéis e chamar algum juiz ou juíza pra celebrar o casamento pra gente em um lugar onde vamos reunir nossos familiares e amigos. Coisa simples, pequena, mas igual a qualquer outro casamento. É isso! — A fotógrafa explicou.
– Mas pode? Não achei que era permitido esse tipo de casamento. — Chica ainda procurava entender.
– Pode sim mãe. — A morena sorriu. — Desde 2013 pessoas do mesmo sexo podem se casar no Brasil. Os desafios ainda são muitos, mas pelo menos esse passo a gente já deu por aqui.
Chica então abriu um sorriso largo. Estava feliz em perceber a seriedade do relacionamento das duas, e como elas estavam unidas e preparadas pra enfrentar os inúmeros desafios que teriam pela frente. Abraçou Clara e Marina mais uma vez, desejando a elas muita felicidade, carinho e amor em mais essa etapa de suas vidas.
– Bom, então eu vou deixar o café pra outro dia e pegar uma champanhe na geladeira. Prevenida como sou, vocês sabem que eu sempre deixo uma garrafa gelando pra ocasiões repentinas e especiais assim! — Falou animada e já se levantando pra pegar a bebida.
Quando voltou, serviu as três taças e elas então brindaram! Marina e Clara estavam radiantes pelo momento vivido e pelo apoio que sentiram ao compartilhar a novidade com Dona Chica. Já a matriarca estava com o coração vibrante pela felicidade da filha. Tudo que uma mãe quer, como ela sempre fazia questão de lembrar.
–---------
Cena anterior: Marina e Clara se divertem com Ivan (07/07/2014) — http://globotv.globo.com/rede-globo/em-familia/v/marina-e-clara-se-divertem-com-ivan/3482481/
Clara tentava convencer o filho de que eles precisavam ir embora:
– Eu sei que está divertido meu amor. Mas outro dia a gente volta, não é Marina?! -
– Claro! — A fotógrafa concordou. Era um prazer pra ela ter Ivan por perto. — Você sabe que eu adoro quando você vem, não sabe?! — Perguntou a Ivan, enquanto passava a mão em seus cabelos.
– Sei sim Marina! — Concordou o pequeno enquanto guardava o material espalhado sobre a mesa. — Eu gosto daqui pois sinto como se tivesse em casa. — Completou.
Os olhos da fotógrafa se encheram de lágrimas quando ouviu o garoto, e ela teve que segurá-las para que Ivan não a visse chorar. Enquanto ajudava o filho a guardar suas coisas, a morena percebeu a emoção da amada.
– E é pra você sentir como se aqui fosse sua casa mesmo. — A anfitriã afirmou com a voz ainda embargada.
Quando terminaram de guardar tudo, se levantaram e o menino agradeceu pela noite com um caloroso abraço em Marina, enquanto a fotógrafa retribuía o carinho beijando-lhe no topo de sua cabeça.
Clara percebeu o esforço da fotógrafa em se manter firme, mas sabia o tanto que as palavras de Vanessa tinham mexido com ela. No entanto, não queria abordar aquele assunto na frente do filho.
Deu um abraço apertado na noiva e beijou seu ombro.
– Amanhã a gente se fala tá?! — A morena disse enquanto passava a mão direita no rosto da amada.
– Tá bom! — A fotógrafa concordou.
Clara e Ivan saíram na direção do estacionamento mas Marina preferiu ficar por ali mesmo.
Ela foi direto a um canto do estúdio onde havia uma caixa. Trouxe-a para a mesinha e sentou-se novamente em uma almofada no chão. Abriu a caixa e começou a mexer em algumas fotografias antigas que havia ali.
A morena abriu o carro e assim que o garoto acomodou-se no banco, pediu a ele que colocasse o cinto. Ela se sentou no banco do motorista, mas antes mesmo de ligar o veículo sentiu uma vontade enorme de falar com a fotógrafa. Não podia sair dali e deixar Marina naquele estado.
– Filho, a mamãe esqueceu um negócio lá no estúdio. Fica aqui quietinho que eu vou lá e volto em 5 minutinhos. — Pediu a assistente.
– Tá bom mãe. — O menino concordou, já distraído com um joguinho eletrônico portátil que tinha em mãos.
Quando a morena voltou ao estúdio, Marina não a viu de pronto, visto que estava de costas para a entrada. Clara se aproximou devagar. Só então a fotógrafa olhou de lado e a percebeu, mas logo voltou o rosto para uma foto que segurava em sua mão. A assistente a viu enxugando as lágrimas. Chegou mais perto e se ajoelhou junto às costas de Marina, abraçando-a por trás. Beijou sua nuca e logo depois colocou o queixo sobre o ombro da outra, e então pode ver o que tinha feito a noiva chorar: nas mãos de Marina, uma antiga fotografia de uma mulher com uma menina no colo.
– É sua mãe?! — Clara perguntou.
A fotógrafa confirmou com um aceno de cabeça.
A morena então se sentou ao lado da amada, que se virou pra ela.
– Eu sinto que aproveitei tão pouco dela. — Marina disse chorando. Clara a olhou nos olhos. Tinha o coração partido de vê-la assim. — Depois que minha mãe se foi então, meu pai ficou ainda mais ausente. — Fez um breve silêncio. — Sabe o que dói mais?! A Vanessa tem razão. É triste isso, mas eu nunca tive uma experiência plena de família, com meus pais dedicando um tempo pra ficar comigo, brincando ou me ajudando nas tarefas da escola. A Vanessa tem razão.
– Não fala assim Marina. — Clara enxugou as lágrimas da fotógrafa. — Nem sempre os pais conseguem passar o tempo que gostariam com seus filhos, mas não significa que eles amem menos. — Continuava a fitar os olhos da amada. — E ainda que o que a Vanessa disse tivesse algum fundamento, ela não tem direito de falar assim com você, te magoando gratuitamente. Tô p da vida com ela.
– Deixa pra lá Clara, não vale a pena. — Agora era a fotógrafa que tentava acalmá-la.
– Não quero te ver influenciada por essas bobagens que a Vanessa fala. — Afirmou a assistente. Olharam-se por alguns segundos. Depois a morena se voltou para a foto que Marina segurava e começou a falar sobre ela. — Você se lembra dessa foto? — Perguntou.
– Lembro um pouco sim. — A fotógrafa respondeu. — A gente estava na praia, foi meu pai quem tirou essa foto. Nossa, depois que tiramos a foto minha mãe foi passar protetor solar em mim. Ela sempre me besuntava com camadas e camadas de protetor, com medo da minha pele ficar muito vermelha. Daí nesse dia, antes dela terminar de espalhar o protetor, eu deitei na areia e comecei a rolar. Virei um empanado... — Marina riu com a lembrança. — Olha o resultado. — A fotógrafa pegou uma outra foto dentro da caixa e mostrou pra Clara como ela tinha ficado com o corpo cheio de areia.
A assistente olhou a imagem e sorriu.
– Que linda você! — A morena falou acariciando o rosto da noiva. — Amor, você viu quantas memórias da sua família você resgatou olhando apenas algumas fotos?! É claro que vocês tiveram muitos momentos em família, e tenho certeza que essa caixa possui registros de vários deles.
Marina olhou para as fotografias na caixa e depois se voltou para Clara.
– Você tem razão amor. — Concordou com a morena. — Muitas memórias estão aqui, basta eu querer resgatá-las.
– Então! — A assistente exclamou. — E olha só, pode arrumar uma caixa ainda maior, porque de agora pra frente vamos ter muitos momentos em família pra registrar. Te prometo isso amor! A gente vai ter uma família muito alegre, muito unida e cheia de registros assim!
– Obrigada amor! — Marina agradeceu. — Muito obrigada!
Abraçaram-se forte. Depois que desfizeram o abraço, Clara disse que precisava ir:
– Desculpa amor, o Ivan está me esperando. Você tá melhor?!
– Estou Clara! Estou sim! Obrigada por ter voltado, significou muito pra mim. Vou ficar aqui olhando essas fotos mais um pouquinho e depois vou dormir. Pode ir tranquila.
– Tá bom minha linda. — Concordou a morena. — Mas promete que me mostra mais fotos outro dia?! Quero muito ouvir essas histórias de família.
– Prometo sim! — Disse-lhe a fotógrafa. — Outro dia a gente faz uma sessão nostalgia aqui! — Sorriu.
– Te amo! — Declarou a assistente.
– Também te amo minha linda! Muito! — Respondeu Marina.
Beijaram-se e então Clara se levantou, dando ainda um beijo carinhoso nos cabelos da fotógrafa antes de sair.
No caminho para o carro encontrou Vanessa voltando em direção ao estúdio.
– Já vai Clara?! A sessão família acabou?! — A ruiva falou provocando.
– Pelo contrário Vanessa. A sessão família está apenas começando. Olha só, eu vou te falar uma coisa, mas vou te falar uma vez só, e espero que você entenda. Há muito tempo eu venho suportando suas piadinhas de mau gosto, suas provocações, mas tudo tem um limite de tolerância, e o meu limite é quando começa a afetar a minha família. — Clara falava com tanta firmeza que Vanessa não abriu a boca para pronunciar um A sequer. — E a Marina agora é da minha família, minha noiva e logo será minha mulher. Eu e meu filho vamos nos mudar pra cá, e você vai conviver muito mais com a gente. Eu não vou tolerar você debochando de nada, absolutamente nada no que diz respeito à minha família. E se você insistir, vou ser obrigada a te mostrar meu lado um pouco menos polida. — A ruiva mal conseguia piscar. — Então dá um tempo e fica na sua. Guarda pra você as suas piadinhas sem graça e seus aplausos imbecis.
Vanessa esboçou dizer algo, mas a assistente continuou a falar e não lhe deu chance:
– E isso que eu estou te falando começa hoje, agora. — Completou a morena. — A Marina está lá no estúdio relembrando momentos da família dela, que, ao contrário do que você disse, existem sim. Você vai deixá-la em paz lá. Amanhã eu venho pra cá, e se eu souber que você voltou pro estúdio essa noite, você vai se ver comigo. — O olhar da assistente intimidava a ruiva. — Passar bem! — Concluiu.
Assim que terminou de falar, Clara seguiu na direção de seu carro, sendo acompanhada pelo olhar assustado de Vanessa. A assistente conseguiu ser firme, e tinha esperança que dali em diante a ruiva passasse a aborrecê-las menos.
No caminho pra casa, em sua mente se misturavam a expectativa pelo casamento e a alegria por devolver à fotógrafa o sentimento de estar em família.
Fale com o autor