1789, Paris. Apesar da beleza arquitetônica e os diversos pássaros sobrevoando o céu, a cidade não estava calma. Ao longe, gritos podiam ser ouvidos, e não eram gritos de felicidade. Eram gritos de revolução.

Diversos camponeses e desfavorecidos se reuniam em frente ao Palácio de Luxemburgo. Seus gritos de rancor tinham o poder de usurpar a coroa absolutista. Estavam cansados das diferenças, e cansados do Antigo Regime, portanto a movimentação era justificável, não importando quantas mortes houvesse.

O Assassino observava a cena apoiado no parapeito de um prédio. A despeito de seus olhos estarem ocultos pelas sombras de seu capuz, seu sorriso ainda era visível. Parecia estar satisfeito com a ordem (ou desordem) que os acontecimentos ocorriam. Saltou de um prédio a outro e aterrissou em um suporte de madeira. Seus passos eram determinados e calmos.

De onde estava, pode ver o interior de um pequeno apartamento à sua frente. Em seu interior, uma mulher chorava, tendo seus prantos acobertados pelos gritos raivosos da multidão. Entretanto, o Assassino ainda podia perceber que o motivo de seus gritos era por causa de dois soldados armados que praguejavam e espancavam seu marido. Em um movimento explosivo, saltou para o interior do apartamento e com duas lâminas escondidas na manga, perfurou as gargantas dos usurpadores. Provavelmente morreram sem nem entender o que os atingira. Os gritos da mulher se transformaram em prantos silenciosos.

Sem nem sequer dar tempo para outras reações, saltou pela janela. Cada movimento exalava certa frieza, mas ainda assim estava dominado pelo calor da revolução. Estava cada vez mais perto da revolta. Caindo na rua, andou em passos largos entre a multidão. Ao seu redor, vários móveis de madeira se encontravam empilhados. Provavelmente serviriam para uma posterior fogueira. Subiu no monte de entulhos para ter uma visão melhor do local. Cadeiras eram jogadas como sinal de revolta, assim como incontáveis mãos eram erguidas pelo mesmo motivo e algumas bandeiras vermelhas eram balançadas.

Um dos guardas que tentavam conter a rebelião percebeu a figura incomum, mas logo se tornou um corpo sem vida. Fora morto por outro encapuzado. Agora eram dois. Alguns dos soldados que protegiam a entrada do palácio perceberam a movimentação, mas estavam ocupados demais segurando os possíveis invasores. Enquanto ambos abriam espaço entre a multidão, vozes imponentes podiam ser distinguidas dentre os gritos:

­– Nós temos o poder, cidadãos!

– Nossa hora é agora!

Logo, o Assassino e seu aliado encararam dois dos soldados de frente. Sem tempo para reação, ambos caíram. Outros quatro estavam logo atrás, com as armas apontadas para a população. Tiros foram disparados, porém não eram inimigos. Outros dois encapuzados fizeram questão de penetrar a cabeça de cada um dos militares com chumbo. Agora eram quatro encapuzados.

Os tiros foram o estopim para a libertação. Com tridentes, facas e até mesmo espadas, os injustiçados invadiram o palácio de Luxemburgo. Usando o tumulto a seu favor, o Assassino também entrou no pátio principal. Ao invés de se dirigir à entrada, correu discretamente para a esquerda, em direção a uma parede. Lá, encontrou um dos encapuzados.

– Ouviu o que disseram irmão, – disse o encapuzado com certa empolgação. – A hora é agora.

O Assassino apenas concordou e escalou o paredão. Usando pedestais e outras janelas como apoio, subiu até uma janela aberta e entrou no palácio, seguido de seu irmão. Dois dos vigilantes inimigos os avistaram, mas movimentos rápidos logo os neutralizaram, assim como um ataque surpresa de outro encapuzado. O tapete vermelho do palácio agora estava ainda mais tingido.

O Assassino deslizou entre estátuas de mármore e quadros finos e, agachado, escutou uma voz conhecida.

– ... lá fora, no jardim. Cuide bem disso ou usarei sua cabeça em um pedestal.

Era seu alvo: Marquis De Bullion. Um nobre de rosto pintado de branco e de bochechas rosadas. Sua peruca branca deveria ser tingida de vermelho em nome da Justiça. Porém ainda não era a hora de atacar. Mais de dez guardas o cercavam. O que parecia ser o líder deles enviou uma ordem:

– Você, homem, proteja o portão principal!

Como militares treinados, assentiram e marcharam rapidamente para seus afazeres. Mal sabiam que o perigo já se encontrava no interior do palácio. Pouco antes de partirem, o capitão complementou:

– O primeiro que me trazer uma cabeça ganhará 50 escudos!

A moeda criada no século XIII, durante o reinado Luis XI, era escassa para a maioria da população. De fato era um ótimo estímulo para os soldados lutarem. Os ricos compravam o que desejavam com moedas, o Assassino, com sua lâmina.

Assim que um dos encapuzados conseguiu destrancar uma porta alternativa com instrumentos especiais dignos de um ladrão, os quatro seguiram em uma fila, sem emitir ruído algum. Atravessaram uma sala altamente decorada. Enquanto a percorria, o Assassino imaginava quantas bocas todas aquelas pinturas e tapeçarias poderiam alimentar. Futilidade desperdiçada.

Ao contrário dos outros três, o Assassino seguiu a rota da direita na bifurcação à sua frente. Outra estátua de mármore jazia no corredor logo após a sala. Ouvindo passos por trás do “tic-tac” do relógio, o Assassino se encolheu na parede ao lado da porta. Outro vigia se aproximava. Entretanto, ao invés de entrar diretamente na sala em que o Assassino se encontrava, seu instinto masculino o fez olhar para trás. Uma dama que passava pelo corredor salvara o encapuzado de entrar em um confronto direto. Assim que o soldado virou para analisar as protuberâncias da mulher, o Assassino golpeou suas costas, fazendo-o gemer de dor e liberou mais uma vez a lâmina ceifadora.

Escondendo o corpo, seguiu seus outros companheiros. Encostado na aresta da parede, um encapuzado assoviou. Um dos guardas que balbuciavam entre si andou em direção ao som. A lâmina oculta do encapuzado perfurou seu estômago e alertou o outro inimigo. Em um movimento rápido, o Assassino disparou uma lâmina de seu pulso, atingindo soldado mais distante.

Ele então deslizou pela janela e, equilibrado na haste de uma bandeira, observou o caos que começava a se alastrar no jardim do palácio. Alguns homens lutavam com espadas logo na entrada de trás da edificação. Novamente, um sorriso discreto tomou conta do rosto do Assassino. Sem mais perder tempo, escalou pelas saliências da arquitetura antiga e invadiu outra janela. Outros dois de seus irmãos já se encontravam lá.

Uma deliciosa música clássica tocava calmamente. Ela parecia excluir todo e qualquer conflito exterior, como se nada mais existisse. Era uma música de bom gosto, mas inapropriada para o que estava por vir. Logo se aproximaram de um salão. Em seu teto em forma de cúpula, uma pintura linda presenciava a reunião de nobres. Era de Delacroix e futuramente guardaria uma biblioteca, mas no momento, apenas sangue.

Uma voz feminina podia ser ouvida:

– Obrigada a todos por terem vindo. A despeito da grande confusão lá fora, nosso ilustre anfitrião, Marquis, quer assegurar a todos vocês que a confusão exterior não pode nos machucar... – mas seu discurso foi interrompido bruscamente por janelas estilhaçando.

Gritos assustados se espalharam pelo salão e música cessou. O Assassino saltou e caiu em cima de um dos soldados que observava a confusão sem saber como reagir. Não precisava mais pensar em nada. O número de guardas era superior ao de encapuzados, mas cada um conseguiu enfrentar dois (ou até mesmo três) sem grandes dificuldades. Eram de fato muito bem capacitados para a tarefa.

Apenas três inimigos estavam vivos. Dois soldados e o próprio Marquis De Bullio. Entretanto, os dois armados perceberam a superioridade dos adversários e correram sem pestanejar.

– Covardes! Voltem aqui!

Agora o homem maquiado estava cercado por quatro encapuzados, com habilidades comparáveis as de demônios, e não havia mais nada a ser feito.

– Nós podemos trabalhar juntos... – Marquis ainda tinha alguma esperança. – Me poupem, por favor!

Porém não trocaram palavras. O Assassino e outro de seus irmãos seguraram o injusto, cada qual em um braço, e o jogaram da janela. Voou exigindo o máximo de sua garganta. Apesar da distância considerável até o chão, ainda estava vivo. Além de não ter aterrissado em uma carroça macia de feno, estava cercado de uma população furiosa. Alguns ainda desferiram golpes em seu rosto. O golpe final fora dado. Uma espada cortou sua cabeça e a fez rolar. O homem ainda conseguia processar o que via, e viu seu corpo gotejar sangue sem escrúpulos nenhum. O mesmo que o decapitou pegou sua cabeça, fincou-a em uma espada e a ergueu. A última coisa vista pelo nobre eram rostos que expressavam uma mistura de fúria e conquista. Fora morto por quem considerava o lixo da humanidade.

O Assassino observava a cena do alto do palácio. E mais uma vez, esboçava um sorriso. Não por sadismo, mas por saber que os ventos da mudança estavam a seu favor.

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