Notas iniciais
Boa leitura!

Masyaf, 1303.

“Altaïr”

Teria de admitir que, com doze anos, não fazia ideia do que aquela palavra significava. Era fácil explicar. Safia, sempre que estava em apuros, escutava esse nome sussurrar-lhe na mente. Ela tinha medo, e sentia-se torturada por isso. E havia um porém: na maioria das vezes, ela dava um jeito e conseguia sair do problema... Sempre depois de escutar o sussurrar.

Ela era uma criança ainda... Então foi procurar respostas. Respostas sobre quem era Altaïr, e porque ele a perturbava. Fez tal ato escondida dos pais. Lembra-se de quando eles estavam trabalhando no comércio, então, Safia caminhou cautelosamente para o quarto deles. Entrou naquela porta e pregou os olhos em um baú vermelho, com alguns detalhes dourados por volta dele.

Curiosa, ela caminhou até lá.

Foi nesse dia que descobrira quem era o tal homem que sussurrava em seu ouvido.

[...]

Jerusalém, 1311.

Desde a descoberta, Safia ouviu constantes vezes sua mãe dizer a seu pai que não queria a filha fazendo parte do Credo. Dizia que era perigoso, e ela poderia acabar morrendo, como seu irmão morreu. Sentia medo, mas Safia, como era cabeça-dura, começou a treinar as escondidas junto com o pai. E, com dezesseis anos, resolveu abrir o jogo com a mãe. Contou-lhe que estava ingressada no credo e dando o melhor de si para ganhar o manto branco.

Com vinte anos de idade, já estava tudo resolvido: ela permaneceria até o fim de sua vida no Credo.

E, agora, a ponto de ganhar o banco branco, foi destinada a uma missão. Teria de se infiltrar em uma festa e matar o dono dela, antes que o mesmo envenenasse todos com vinho. Aquilo era comum na época, então não fazia sentido Safia temer... Só fazia sentido ela temer em não ganhar o seu maior desejo.

— Tudo bem, Safia... — disse o seu mentor. — Não vai precisar fazer todo o processo de investigação como antigamente, tanto que eu cuidei disso. Mandei meus homens investigarem enquanto você vinha para a cidade.

Ela continuou calada, escutando o que Adail, um homem que passava da casa dos trinta anos dizia. Adail abriu um grande rolo de folha desgastado, deslizava os dedos queimados pelo sol no pergaminho. Pegou um compasso e passou pela folha envelhecida.

— Quando o sol se puser... — ele murmurou, passando o indicador pelo bigode: — É, Safia. Esteja na festa quando a perigosa noite estiver se aproximando, bem de mansinho. Não chame a atenção de ninguém, como lhe ensinei. E lembre-se: você tem um único alvo. Apenas um.

— Eu entendi, mentor. Você tem a minha palavra.

— Assim espero — ele fechou o pergaminho, colocando novamente na estante empoeirada. — Agora vá até o ferreiro, um conhecido arrumou sua lâmina oculta.

Safia assentiu positivamente. Puxou o capuz do manto cinza para cima e soltou um longo suspiro pela boca. Ergueu a palma da mão para cima e saiu cabisbaixa do bureau. Antes de subir a escada que dava para o telhado, conseguiu escutar seu mentor dizendo: “Segurança e paz, Safia.” Ela sorriu.

Mais tarde, já estava tudo pronto. Safia camuflava-se entre os trabalhadores e os nobres. Entrava em uma multidão que conversava em algum canto da cidade e ficava aí até alguns guardas passarem. Era como se a área estivesse restrita. Havia muitos guardas, e ela estava há apenas vinte passos do palácio.

Saiu da roda de pessoas e se sentou em um banco de madeira, no meio de outras duas pessoas. Colocou os dois braços em cima dos joelhos e abaixou a cabeça, deixando que o capuz cobrisse seu rosto. Escutou a goteira vinda da sacada em cima do banco onde estava sentada... Concentrou-se e calculou sua trajetória até o palacete.

Ergueu um pouco a cabeça e observou um grupo de nobres caminharem em direção à residência de Faruk Alq-Yameen. Não tardou em se levantar dali e andar vagarosamente até eles. Fitou o chão e ficou logo atrás deles. Quando chegaram a frente aos guardas, Safia entrou no meio da multidão. Os homens, vendo que todos eram nobres, deram passagem para que eles passassem.

Safia saiu de perto deles, antes que estranhassem e comunicassem aos guardas.

Ela entrou pela porta da frente. Olhou para cima e viu um homem vestindo roupas chamativas e demasiado coloridas. Ele estava lá, com as mãos apoiadas a madeira, observando os convidados do distrito rico. Todos deliciando-se com as mais variadas comidas que havia... E ao centro de tudo: uma fonte que jorrava vinho. Ali se concentrava o perigo.

— Bem vindos, bem vindos! — ele disse, alegre: — Experimentem da minha comida e bebam da minha fonte. Estão livres para degustarem! Aproveitem, meus amigos!

Um tumulto foi iniciado. Os convidados já se aproximavam da fonte, mas era difícil colocar a taça para beber. Então, alguns desistiram, outros pegaram, mas não beberam na hora. Mas um único homem, que não aparentava ser de boa família, pegou a sua taça e colocou-a dentro da fonte, arrecadando uma boa porção do vinho. Fitando a bebida sorrindo, ele a levou até a boa, sem cerimônias.

Não demorou muito para que o homem se engasgasse. Não demorou que se ajoelhasse ao chão. Não demorou que pedisse a Deus paz em sua ida. Não demorou em morrer. Estava com os olhos arregalados, as mãos em volta do pescoço e o rosto totalmente ruborizado. Permaneceu assim, parado feito pedra.

Horrorizados, os outros começaram a gritar, correr para todos os lados em busca da saída.

Nesse mesmo minuto, Safia avançou. Olhou para cima e observou Faruk, cujo nome significava uma pessoa perversa, lhe observar, cheio de fúria:

— Assassina! — gritou, apontando para Safia: — Peguem-na!

Droga!, pensou ela, correndo para a parede.

Subiu em cima de uma mesinha de madeira e ganhou impulso, até agarrar as mãos no parapeito de uma janela. Subiu lá e, com isso, caminhou para dentro da sacada onde estava Faruk.

Avançou cautelosamente para perto dele, escondendo-se sempre nos pilares brancos presentes lá. Por azar, foi pega por um arqueiro. Lembrou-se das palavras do mentor, que o único morto deveria ser Faruk... Talvez ela não pudesse cumprir isso. Sacou a espada e lançou a ponta dela para o estômago do arqueiro. Tirou-a rapidamente e correu para perto do templário.

Safia limpou as costas da mão na boca, involuntariamente, deixando um pouco de sangue nos lábios. Caminhou para perto dele e viu que o homem escondia muito bem a preocupação por não ter mais guardas por perto. Estava tranquilo, demonstrando um singelo sorriso zombeteiro nos lábios. Ele estalou o pescoço e bateu os dedos no apoio da escada.

— Ora, se não é a aprendiz... Filha do demônio! — gritou.

Safia não respondeu. Ergueu o cotovelo e abriu a mão, ouvindo um discreto estalo da mola de sua lâmina, liberando a mesma. Sem se mover, ela o encarou por um tempo... Fazendo um silencioso pedido para que tudo desse certo.

Preparada para atacar o homem, escutou um barulho. Era a porta do palácio sendo arrombada. Mais de cinco guardas entraram por lá. Dos mais variados tipos que protegiam Jerusalém e as cidades próximas.

— Renda-se! — disse um dos guardas, escalando.

Safia sentiu a respiração acelerar. Engoliu em seco e sentiu seu estômago se revirar em mil e uma maneiras diferentes. Não era possível que eles estivessem ali. Agora.

Num piscar de olhos, Safia percebeu que Faruk havia fugido. Pensou em correr atrás dele, mas ele era muito rápido. Safia entrou em um desespero silencioso, olhou para o lado e avistou uma grande janela. Correu para lá, mas antes de tentar pular, deu uma verificada nos guardas. Estavam quase a alcançando.

Ela respirou fundo, mas não achou nada que pudesse amortecer sua queda. Mordeu os lábios e fechou os olhos. Pronta para pular e quebrar todos os ossos do corpo. Foi impedida, novamente. Sentia-se agarrada por quatro mãos. Tropeçou no batente da janela e caiu para trás.

— Pegamos! — gritou um. — Joguem-na no calabouço de Faruk, para que possa ser torturada até morrer.

Antes de tentar se levantar, Safia levou um chute na têmpora de um dos guardas. Sentiu uma dor imensa. Para que pudesse apagar, um guarda sentou em cima de sua barriga e pegou-lhe pelo pescoço. Pressionou sua traqueia, impedindo que ela pudesse respirar por qualquer lado possível.

Antes de fechar os olhos e sentir sua queda, Safia viu Faruk.

Ele riu.

Ela desmaiou.

Notas finais
Alguém aqui jogou AC1? Algum ser vivo deve ter percebido que eu me baseei em um dos nove templários que Altaïr tem que matar. Foi uma das minhas missões favoritas... Como eu não lembrava o nome do cara, coloquei outro. Devem ter percebido que em vez de colocar em Damasco (como no jogo) eu coloquei em Jerusalém. Achei mais legalzinho. Enfim, era isso o que eu queria explicar. Espero que tenham gostado dela, eu lembro que comecei a escrever essa one no começo do ano e só terminei agora. :pAté breve... eu acho. :-D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!