Notas iniciais
Eu sinceramente não estava criativa para títulos hoje, mas cá está o capítulo da semana. Um capítulo um pouco mais curto que o anterior. Espero que gostem e apreciem a leitura.

Ao longo dos anos criou-se uma mística a respeito de pessoas com cabelos vermelhos, pois mesmo na natureza, vermelho significava perigo, bastou que alguns bons contadores de histórias começassem. Aqueles com cabelos vermelhos nasceram beijados pelo fogo, eram violentos, agressivos e agitados como chamas em brasa. Mas Bonny ou reprimia toda sua fúria ou de certa nascera com os cabelos errados, pois mesmo em seus sermões mantinha o tom retilíneo da voz.

— Pelo que ouvi hoje mais cedo, José gasta o restante da noite com as garotas mais belas que ele pode ter e ao que entendi, parece ser uma espécie de honra servir ao príncipe. – Ela polia sua lâmina oculta enquanto falava. — Mas, graças aos dois, não tive tempo de descobrir mais.

— Posso descobrir mais. – Jenny se prontificou quase de imediato, sem tirar os olhos do brilho da arma mortal nas mãos da Assassina.

O trio estava sentado, espalhados pela cabine do capitão. Bonny logo atrás da mesa que sustentava o mapa da cidade, Jenny e Sexta-feira do outro lado, em cadeiras separadas a fitarem a ruiva.

— Precisaremos de toda informação possível. – A ruiva guardou a lâmina novamente e ergueu os olhos para o casal a sua frente. — Iremos até o cais e encontraremos o príncipe.

Já convencida de esse era o melhor a fazer no momento, a mais velha e a dupla logo se prostraram de pé para dar início à busca, contudo antes de qualquer um alcançar as portas, Ane voltou a falar.

— Você fica Sexta-feira.

— Eu? – O rapaz que já ia de costas para ela, virou-se e a encarou estupefato. – Mas por quê?

— A história do casal fugitivo da Cavé ainda está fresca na memória desses homens e não quero correr riscos desnecessários de algum de vocês serem capturados.

— Então Jenny não deve ir também. – A jovem o olhou de maneira inquisitória no mesmo instante.

— Eles procuram por uma jovem inglesa e um escravo. – Ela contornou a mesa e apoiou o quadril da mesma, fazendo-a quase como um assento. — Com as roupas de Al, Jenny pode se passar por um marujo qualquer, mas você não pode trocar a pele. Sinto muito. – Sua voz era pesarosa, não queria ser injusta com o rapaz, mas ser líder exigia decisões difíceis.

Sexta-feira não ousou questionar ou ainda tentar convencê-la, pois sabia que ela tinha razão e ainda que idéia não tenha lhe agradado, teve de se conformar. Antes de sair, ele se aproximou da Kenway e segurou-lhe em seu braço por um instante, encarando seus olhos.

— Tenha cuidado.

Ela assentiu e o rapaz as deixou sozinhas. Ambas trocaram as roupas e Jenny novamente escondia as madeixas, apertava os seios contra o tórax e vestia roupas largas para esconder as curvas, mesmo que poucas. Bonny por outro lado optou por um vestido a qual deixava boa parte da perna direita a mostra sob meias de seda com rendas nas bordas. Na cintura o espartilho lhe afinava ainda mais o corpo e avolumava os seios. No cabelo uma flor rosa prendia parte dos fios para trás. E sem maiores explicações, a mais nova entendeu como a ruiva pretendia encontrar informações.

Ambas deixaram o Gralha e iniciaram a caminhada para os pubs e tabernas mais próximos, seguidas de olhares que primeiro recaíam na ruiva e logo em seguida em Jenny que para todos os outros não passava de um bastardo sortudo por estar acompanhado de mulher tão excitante. E em meio alguns assobios e uma dúzia de palavras obscenas dirigidas principalmente à Ane, houve um grito diferente, um que a loira reconheceu.

— James!

Ela olhou a redor, entre os atracadouros, barcos e cargas. Não muito distante avistou John a lhe acenar.

— É o John. – Seus olhos dirigiram-se para Bonny ao notar que o homem se aproximava e a ruiva o encarava a distância.

— Muito bonito. – A menina revirou os olhos com o comentário pouco apropriado para a situação.

— O que iremos fazer?

— Descubra sobre as lutas, eu estarei por perto.

Sem mais, Bonny deu um beijo na face da Kenway e com uma olhadela rápida para o homem que já estava diante dela, despediu-se de ambos. John deu um assobio de aprovação e seguiu o rebolado da ruiva até esta desaparecer na primeira esquina.

— Você me surpreende cada vez mais James. Onde encontrou uma ruiva aqui em Portugal? — O galês logo se virou para encarar a loira com um sorriso abobalhado no rosto.

— Longa história... Mas e seu olho, como está?

Jenny se aproximou para averiguar a sobrancelha ainda remendada e inchada, mas ao menos a ferida estava seca e parecia cicatrizar bem.

— No lugar e graças a você. – Ela deu de ombros e enfiou as mãos nos bolsos da calça. – Para onde estava indo?

Estava ali a brecha que ela precisava e ela começou a tecer o caminho sinuoso por entre as palavras, que para John formavam apenas uma conversa informal, mas para ela era uma fonte preciosa de informações.

— Na verdade estava procurando pela luta do Príncipe. – John fez uma careta e estalou língua, parecia ter lambido um limão azedo.

— Ainda interessada nessas lutas? Já te disse que são todas compradas, não valem à pena.

Ambos caminhavam a passos lentos sobre a madeira que compunha o solário das docas em toda a sua extensão. Homens trabalhavam mesmo àquela hora e navios não paravam de desembarcar ou partir. O vento balançava as bandeiras coloridas e desbotadas dos mastros e Jenny sabia que isso indicava mudança de tempo. Uma tempestade estava chegando.

— Gostaria de ver a luta completa.

— E por quê? – Ele a olhou ao seu lado e ela continuou, mantendo os olhos no trabalho de alguns homens que descarregavam caixotes mais a frente.

— Há um homem na minha tripulação que ficou náufrago em uma ilha deserta na costa africana por três anos e teve de lutar e caçar para sobreviver. Nunca vi ninguém lutar como ele. Acho que ele tem chances.

— Esquece. — Ele negava com a cabeça a insana idéia dela. — Ainda que seu amigo seja durão, ele não sairá vivo daqui se vencer o príncipe. Venha, vou te amostrar.

Com passos mais ligeiros e atravessando o porto sem mais palavras, os dois chegaram ao mesmo pub da noite anterior, com a diferença que a luta ainda não havia começado. O espaço do meio do local, onde aconteceria o combate, era marcado de tinta na forma de círculo, que possivelmente fora pintado por um bêbado. Nas mesas ao redor homens bebiam enquanto mulheres sentadas em seus colos riam e mostravam divertimento. Algumas estavam com os seios de fora, outras com as saias levantadas e havia ainda aquelas que se movimentavam de forma ritmada em cima dos homens que lhe pagavam a noite.

Jenny sentiu pena delas, mas devido sua educação londrina, que ainda dava um último suspiro em sua consciência, não conseguiu manter a curiosidade e desviou o olhar para o homem atrás do balcão de bebidas. Este recebia dinheiro de um amontoado de homens que falavam ao mesmo tempo. Seus dedos hábeis contavam as moedas e anotava em um papel enquanto respondia os apostadores.

— Aquele é o homem que te ameaçou? – Ela indicou com um aceno o homem mais ao canto e John se virou para observar a quem se referia.

— Ele mesmo.

— Não parece ser grandes coisas.

— Não é ele que suja as mãos, ele tem homens para isso...

Antes de poder terminar sua explicação, John fora interrompido pelos berros de saudações dos homens que os rodeavam e viraram-se no mesmo instante para ver o motivo de tamanha algazarra. Príncipe José transpassava pela porta frontal do edifício, acompanhado de dois homens que pela postura eram facilmente reconhecidos como soldados.

— Seu príncipe chegou... – Comentou John com desdém para Jenny que manteve os olhos o tempo todo sobre José.

José erguia os braços e ostentava um sorriso largo moldurado pela barba grossa. Era sem dúvida um homem de grande porte e com bons músculos, mas seu ego já estava inflado aos limites e isso certamente poderia ser usado a favor de um adversário esperto e rápido. Homens e mulheres de diferentes idades gritavam e assobiavam, como se por eles passassem o grande herói da cidade. Algumas mulheres lhe rendiam piscadelas que eram, em sua maioria esmagadora, ignoradas pelo homem.

Antes mesmo de José chegar à sua arena particular, de maneira orgânica sua platéia havia aberto espaço no local designado para o espetáculo da noite e mesmo Jenny não podia negar que estava ansiosa para ver a luta.

— Homens e mulheres! Escutem! – O homem das apostas caminhou por entre a pequena multidão ali reunida até chegar ao círculo. — Temos aqui hoje um novo desafiante para o nosso Príncipe. Será hoje a noite de derrota de José?! Será hoje que sua estrela da fortuna irá se apagar?! Será seu concorrente de hoje aquele que acabará com a invencibilidade de José punhos de martelo?!

— Não! – Respondeu um coro misto de vozes.

— De um lado temos o nosso amado Príncipe José – O homem das apostas estendeu a mão esquerda na direção do monarca. – Do outro lado temos o nascido nas terras de riqueza, Benjamin! — A outra mão ergueu-se na direção do outro lutador.

Todos urravam como animais enlouquecidos enquanto o desafiante dava um passo à frente, para dentro da arena. Era outro homem de tronco e braços largos, cabelos negros e lisos amarrados na altura da nuca. A pele morena denunciava sua descendência da América.

— As apostas já foram encerradas! Que comece a luta!

José também se aproximou e seu sorriso desapareceu, dando a seu rosto um ar compenetrado de quem avalia um bom adversário. Com cotovelos dobrados e punhos em riste, ambos pareciam dançar um com o outro, ninguém queria ceder ao primeiro golpe, ninguém queria correr o risco de abrir uma brecha.

— Ele não devia perder tanto tempo. – Jenny mantinha sua atenção à frente, com John ao seu lado.

— Estão se estudando, James. Arriscar-se logo de primeira muitas vezes leva a uma derrota prematura.

— Essas pessoas não querem um herói e sim um espetáculo. Quem primeiro atacar conquista a platéia. – John ergueu a sobrancelha boa e talvez por intuição, Jenny percebera e tratou de se explicar. – Já vi muitas lutas nos últimos anos.

O americano avançou, visando atingir as costelas do Príncipe, mas por outro lado, este lhe impediu o soco ao lhe acertar o braço com o cotovelo, feito uma lança pontiaguda. Benjamin reprimiu a dor a levantou novamente a guarda, procurando um novo ponto para atacar.

— E você já se meteu em uma luta antes? – John questionara a menina.

— Nada muito sério...

Cansado de esperar, José avançou com os nós dos dedos em direção a têmpora de seu adversário. Mas o golpe fora premeditado e prontamente defendido, uma pena o outro homem não ter percebido o blefe a tempo para proteger o abdômen que ficara sem total proteção para o punho livre do Príncipe.

— Veja ali. – John tirou a atenção de Jenny sobre a luta a apontou discretamente para um homem alto e negro do outro lado da platéia.

— Um escravo? – Ela olhava para sua expressão séria, tão contrastante com as outras a sua volta.

— Alforriado. – Nesse tempo, o americano conseguira um bom gancho e acertou o maxilar do Príncipe que quase perdeu o equilíbrio.

— O que é isso?

— Escravos que compraram a liberdade ou a ganharam de alguém. – José, já ia se recompondo e avançando contra Benjamin. – Eles possuem suas cartas da alforria. Veja, ali tem outro.

Jenny encontrou outro home, de porte similar ao primeiro e com a mesma expressão de poucos amigos mais a oeste deles. – Esses são os homens que tratam de manter os resultados sempre iguais? — John apenas confirmou com a cabeça.

A Kenway conseguira localizar mais dois homens nos mesmos padrões, espalhados pelo pub de forma estratégica. Os quatros conseguiam cobrir toda a área com seus olhos, evitando assim trapaças ou desistências.

— Imagino que ganhem partes das apostas. – Ela cochichou para o amigo que se atentava à luta.

— Não estariam aqui sem um bom pagamento.

A platéia exclamou ao ver o chute dado por José no meio do estômago de seu adversário, este que cuspiu sangue ao chão. O Príncipe não estava ileso, um feio hematoma lhe enfeitava o canto do olho esquerdo. Quando Benjamin se reergueu, fora atingido por um soco que o levou ao solo.

— Está acabado, ele aceitou o suborno. – John já se virava, decepcionado com o resultado. – O americano se vendeu. Vamos James.

Jenny o seguia e a multidão se dissipava aos poucos. O homem das apostas rodeava o local, coletando seu lucro, ajudado pelos quatros alforriados que ela localizou anteriormente. Uma jovem loira enroscava-se ao braço de José que já tinha em uma das mãos uma bebida para comemorar. Benjamin não estava mais a vista, o mais certo é que tivesse ido coletar seu dinheiro sujo as escondidas.

A música voltou a tocar quando ela e John puseram os pés na rua, que a essa hora estava quase deserta, não fosse pelas prostitutas sempre atentas a possíveis fregueses. Agora Jenny já sabia onde encontraria José e tinha em mente alguém perfeito para derrubar o Príncipe do alto de seu pedestal, mas seus planos foram varridos para longe quando John tornou a falar.

— Ouviu dizer da confusão que houve hoje na cidade?

— Que confusão? – Ela questionara já sabendo a resposta, mas preferiu descobrir até onde iam os boatos.

— Um escravo bateu em um homem dentro de um restaurante de ricos, não sei o nome. Roubou os doces e seqüestrou a própria sinhá. Ninguém conseguiu encontrá-los até agora.

Certamente a noticia se alterou ao viajar de boca em boca, umas aumentam, outras diminuem, mas cedo ou tarde o fato se desconfigura ao bel prazer de quem passa a história adiante. Para os ricos a culpa recai inteiramente sobre Sexta-feira, que nada mais fez do que defender Jenny, mas era dito como ladrão violento e sequestrador. Para os escravos, seria Jenny a fugir com Sexta-feira para uma vida sem luxo e longe de correntes de chibatas.

A Kenway riu ao imaginar que tipo de história ela e Sexta-feira haviam se tornado com o pequeno ato de rebeldia daquela tarde e John não deixou de perceber enquanto caminhavam sem rumo, aparente, pelas ruas de Lisboa.

— Do que está rindo?

— Não é nada. – Ela lhe disse, mas sem parecer ter convencido muito o homem e por isso resolveu mudar o assunto. – E para onde estamos indo?

John esquecera de súbito a desconfiança e abriu um largo sorriso com a pergunta de Jenny e desta vez, fora ela que ficou preocupada com aquela reação. Ele lançou o braço por sobre seu ombro e juntos caminhavam rua acima, deixando para trás os bordéis e pubs fétidos para alcançarem locais com melhor higiene e aparência.

— Esta, meu caro James, é a melhor pergunta que poderia fazer. – Como dois camaradas bêbados, eles seguiam colados pelas laterais dos corpos. – Vamos ao Moinho Vermelho. O melhor bordel da cidade.

— O quê? – Jenny soltou-se do abraço amistoso e dera uns dois passos para trás impulsionada ainda pelo impacto daquela revelação.

— Não te preocupes. Considere como meu presente de agradecimento por consertar a minha cara.

Notas finais
Como Jenny vai sair dessa agora? Aliás, ela já está fazendo planos pro Sexta-feira sem nem consultar o pobre rapaz. E pobre John nem desconfia que leva uma menina para um bordel. Aliás, sim, esse bordel tem inspiração francesa, também. É referência ao Moulin Rouge. No próximo capítulo teremos a chegada de Jenny e John ao Moinho Vermelho e principalmente a ração dela. Ai ai, o que Edward diria em saber esse tipo lugar que a filha ta frequentando hein? Bom, até semana que vem õ/