“Se Maomé não vai à Montanha, a Montanha vai à Maomé”. Evie ouviu esse ditado certa vez de um árabe em uma rua de Whitechapel, e nunca antes ela sentiu esse curioso ditado aplicado ao que a sua relação com seu irmão Jacob estava se tornando. Após cinco dias sem vê-lo, ela decidiu ir até o local mais “possível” de encontra-lo: o Quartel-General dos Rooks. Se o próprio não estivesse lá em pessoa, provavelmente algum Rook saberia lhe dizer por onde andava o “chefe”, como ele era chamado entre os membros da gangue.

E sem qualquer surpresa lá estava ele, fazendo o que mais gostava: entre os Rooks, sua gangue, armando algum golpe ou planejando um crime diferente. Aquela seria uma cena comum aos olhos de Evie, se não fosse por uma pessoa completamente inesperada estar presente naquela sala.

-Você?! – exclamou Evie, com raiva nos olhos, ao avistar Harry Carter ao lado de seu irmão Jacob.

-Bom dia, Evie.

Harry usou seu melhor sorriso para cumprimentar Evie. Sem qualquer pudor, reparou a Assassina de todos os ângulos que seus olhos poderiam percorrer. Isso só serviu para irritá-la profundamente, algo que ele sabia como poucos.

—Parece que os anos foram generosos com você. – concluiu, em um misto de diversão e malícia. A Assassina franziu o cenho. Muito tempo havia se passado desde a última vez que ela sentira vontade de enfiar sua lâmina no pescoço daquele vagabundo, de modo que a sensação parecia ser nova. Ainda que a hipótese de mata-lo fosse sedutora, ela procurou se concentrar em um campo onde o golpista não tinha vez: os argumentos.

-O mesmo não posso dizer de você, com esse cheiro de gambá molhado que me faz desejar a Morte do que mais um segundo ao seu lado. Mas afinal, o que eu deveria esperar de alguém que passou os últimos anos mofando em uma cela fétida de Dartmoor?

Harry sorriu ironicamente. – Parece que andou se informando ao meu respeito...

Evie iria lançar contra ele mais uma resposta malcriada de seu repertório, mas Jacob, que até o momento limitara-se a assistir com diversão à leve briga entre sua irmã e seu melhor amigo, decidiu intervir.

-Será que vocês dois poderiam parar com essa briguinha de comadres? Temos negócios mais importantes a tratar. – ele disse, com o lábio levemente sorrindo. Evie soltou uma exclamação de asco.

-Nem ouse insinuar qualquer coisa que...

-Está bem, Evie. Está bem. – interrompeu Jacob. – Não irei falar mais nada. Mas vejo que decidiu me ver, após faltar à sua própria festa de aniversário...

-Chama aquela algazarra de “festa”? Você me conhece melhor do que isso, meu irmão, para saber que não gosto daquele tipo de “festividade”. Aquela “festa” era sua, e apenas sua. – respondeu Evie. – E parece ter sido uma festa cansativa, porque você ainda está com um semblante atordoado de ressaca.

Harry riu. – Jacob terminou a festa dormindo dentro de um barril.

-Menos mal. Pelo menos não foi como sua festa de dezoito anos, quando eu o encontrei no estábulo abraçado a um bezerro e chamando-o de “Milady Beatrice”...

Corando levemente e percebendo que os Rooks presentes começaram a rir da piada de Evie, Jacob interviu, sentindo-se envergonhado.

-Aqueles eram outros tempos, outros tempos. Foi o meu primeiro porre de vodca, não estava acostumado. Mas voltando ao que importa. Eu e Harry estávamos aqui a discutir sobre a compra de um armazém às margens do Tâmisa, próximo a Lambeth. Harry andou pesquisando e...

-Espere, Harry agora é um Rook? – questionou Evie, surpresa.

Jacob engoliu em seco, ao receber um olhar mortal de sua irmã.

—Sim.

Para alívio de Jacob, tudo que sua irmã deixou escapar foi um “hunf” resignado. Ele, no entanto, sabia que o sermão seria deixado para outro momento – talvez, quando não houvesse nem Harry e nenhum dos Rooks por perto.

-Harry, conte a Evie tudo que você descobriu.

Harry assentiu, adquirindo uma pose tão pomposa e estranha a alguém de sua estirpe que quase fez Evie rir. Ele contou sobre as flutuações econômicas envolvendo o preço do tabaco e a elevação da demanda por galpões na região portuária, além de uma informação ou outra sobre a economia inglesa que quase fez Jacob cair no sono. Por fim, Evie precisou admitir, a compra daquele armazém seria estrategicamente lucrativa aos Rooks.

-Está vendo, minha irmã? Harry sabe das coisas! – exclamou Jacob, dando um tapa camarada no ombro de Harry.

-Ao que tudo indica, o negócio é lucrativo, tenho que admitir. Mas será que temos reservas financeiras para esse novo empreendimento?

Jacob e Harry se entreolharam, indecisos.

-Ainda não olhamos as Finanças.

Evie arregalou os olhos em abismação. – Jacob! Você não está cuidando da parte financeira dos Rooks?!

-Pra lhe ser franco, tem umas duas semanas que não mexo no livro-caixa.

Evie levou a mão à testa, tentando se aliviar. – Droga. Parece, então, que eu terei de cuidar disso.

E assim, a Assassina passou boa parte daquele dia colocando as Finanças dos Rooks em dia, registrando os recibos e comprovantes de depósitos bancários que estavam desordenadamente lançados à mesa, possivelmente abandonado pelos Rooks e negligenciado por Jacob. Horas de estresse e contas exaustivas quase levaram o melhor da Assassina, que precisou se segurar inúmeras vezes para não afogar seu irmão no Tâmisa, sempre que o percebia cochilar no sofá.

Era quase meia-noite quando Evie Frye deu a fatídica notícia.

-Estamos quebrados.

Pavor tomou conta de Jacob, que de súbito despertou.

-Quebrados?!

—Sim, meu irmão

—Mas assim, “quebrados”, “quebrados”?

-Quebrados, Jacob. Quebrados, falidos, pobres. Sem dinheiro nem para pagar as contas de amanhã, que dirá para comprar um armazém no Tâmisa. Entendeu?

A Assassina bufou, sentindo-se exausta. Passara o dia quase todo registrando as Finanças dass última semanas apenas para chegar a conclusão mais óbvia: os Rooks estavam falidos. Graças aos gastos extravagantes de seu irmão, principalmente. No fundo, a própria Assassina se culpava. Seu irmão era irresponsável demais para cuidar sozinho dos Rooks, e apesar de não ter concordado desde o início com o uso da gangue pelos Assassinos, Evie reconhecia que eles tinham lá sua utilidade e foram cruciais para tomar Londres dos Templários. E agora, tudo estava ameaçado. Graças à conhecida velha irresponsabilidade sem limites de Jacob.

-Não pode ser. Tem certeza de que fez a conta certa?

Evie parecia zangada, diante da descrença altamente desleixada do irmão após tanto esforço de sua parte. Ter seu trabalho questionado apenas a tornava mais furiosa com ele.

-Se está com dúvidas, refaça você mesmo o cálculo!

Jacob decidiu não se aventurar nesse tópico, acatando sua conclusão.

-Mas como fomos parar nesta situação? Eu não fiz nada demais!

-Não fez nada demais?! – questionou Evie, descrente. – Não fez nada demais?! Tem idéia do quanto custou essa sua última “festinha” de aniversário? O que você gastou com barris de cerveja de alta qualidade daria para pagar os ganhos de todos os Rooks durante um mês! O culpado para sua falência, sir Jacob Frye, é o senhor mesmo!

Jacob engoliu em seco, contrariado.

-Eu fiz porque uma festa seria boa para levantar a moral dos Rooks.

-Sim, mas precisava ser uma festa de três dias? – por fim, Evie bufou, levantando-se da cadeira pesadamente. – Quer saber? Chega.

-Pra onde você vai, Evie? – perguntou Harry, que estava ao lado de Jacob o tempo todo e foi o único a permanecer na sala até tão tarde junto com os dois gêmeos.

-O dia em que eu tiver que te dar satisfações, Harry Carter, será o dia em que o inferno congelou. – respondeu secamente, saltando da janela sem qualquer cerimônia.

-Uau! – exclamou Harry, num tom brincalhão. – Adoro quando sua irmã escolhe meios nada ortodoxos de sair, assim como você. Jacob?

Jacob Frye parecia atordoado.

-Acho que você está precisando de um trago forte, não? Que tal irmos afogar nossa tristeza de falidos em algum pub? Poderemos até arrebentar alguns crânios no ringue, só para aliviar a tensão.

O Assassino negativou com a cabeça.

-É melhor eu ir para casa, Harry. Já tive minha dose de emoções por hoje. Amanhã a gente se vê e discute melhor essa situação.

-Tudo bem. – assentiu Harry, afagando o ombro do Assassino. – Mas saiba, Jacob, você sempre pode contar comigo. Sempre.

Os dois se despediram, com um forte tapa nos ombros, e desta vez foi a vez de Jacob fazer sua saída triunfal pela janela, de onde ele quicou pelas telhas, agarrou-se a uma janela até por fim chegar ao chão, em um intervalo de segundos.

-Um dia, eu quero que você me ensine essas coisas! – gracejou Harry, da janela.

-Até amanhã, Harry! – gritou Jacob, enquanto corria pelas ruas.

A corrida de Jacob pelas ruas não demorou muito tempo. Com grande habilidade, logo o Assassino subiu os prédios de Westminster, indo em direção a um ponto de boa visibilidade para que ele pudesse localizar pela cidade onde estava o trem-esconderijo dos Assassinos. Já nas proximidades do Big Ben, Jacob acabou por avistar sua irmã. Decerto, ela tivera a mesma idéia.

-Desistiu de ir ao pub com o seu velho amiguinho? – questionou Evie.

-Costumo acreditar que uma ressaca se cura com outra, mas honestamente? Uma boa noite de sono me cairia melhor hoje. – admitiu Jacob, arrancando um sorriso de sua irmã. Após um longo silêncio, os dois irmãos avistaram o trem nas proximidades da Estação Vitória.

-Pensei que os Rooks não fossem sua preocupação, mas vejo que você ficou um tanto abalada ao descobrir que eles estão quebrados. – tentou puxar assunto Jacob.

-Você se engana quanto a isso. Eu não sou tola a ponto de não reconhecer que os Rooks são úteis à nossa causa. Eu sei que qualquer ameaça a eles poderá pôr em xeque tudo que fizemos no ano passado. Aliás, há algo que preciso te avisar e... – disse Evie, já embarcando no trem. – Droga. Temos companhia.

-Sim. – concordou Jacob, apontando para uma suntuosa carruagem estacionada na frente da Estação Vitória, carruagem esta que os irmãos conheciam muito bem. – Uma visita daquelas, pelo visto.

-A uma hora destas? Que estranho...