Assassin's Creed: Elementary

6 Problemas no Horizonte


A roupa elegante de Jacob havia sido reduzida a um pano encharcado de suor e lama. Como a mulher dissera, de fato o cabriolé estava seguindo para Hampstead, uma região do interior bastante afastada de Londres. Jacob seguiu até a residência de Milverton, e quando notou que não havia ninguém por perto, o Assassino pôde ver, com seus olhos, o quão imensa e suntuosa era a Mansão, morada do chantagista. Tudo provavelmente obtido às custas de muitas lágrimas, mortes e perdas, pensou o Assassino.

Escondido, Jacob começou a vigiar o lugar, e notou que ele era muito bem guardado, repleto de seguranças particulares e cães de guarda a vigiar. E não só bem-guardado, mas enorme. Um verdadeiro palacete, de cerca de quatro andares, com dezenas de quartos, provavelmente. As cartas de Sigh poderiam estar em qualquer lugar daquela mansão. Um passo errado e o chantagista Milverton mudaria as cartas de lugar num estalar de dedos.

Não, pensou Jacob. Aquilo requeria algo mais planejado. Ele detestava admitir, mas não dava para apenas invadir e arrebentar a cara de qualquer um que ficasse em seu caminho. Era necessário discrição e tato, e tal método combinava mais com Evie, pensou com resiliência o Assassino. Havia muito em jogo a ser exposto para estragar tudo por causa de briga de irmãos.

Por isso, o Assassino encarou pelo resto da noite uma caminhada pela empoeirada estrada de volta à Londres, sem avistar um cabriolé ou carroça pelo caminho que pudesse ajuda-lo a voltar para casa. Sentiu-se aliviado ao ver a gigantesca e cinzenta Londres novamente. Sem dúvida, o ar puro dos campos, tão remetente a Crawley, não combinava consigo. Nunca combinou.

O dia estava raiando quando o Assassino finalmente avistou o trem-esconderijo dos Assassinos, nas proximidades da Estação Vitória. Dando um salto pela janela, Jacob acabou por surpreender um dos Rooks, que estava em um canto da composição fumando um cigarro sossegadamente. O Assassino riu, ao perceber que suas “aparições nada ortodoxas” sempre pegavam os Rooks de surpresa, apesar da longa convivência.

-Olá. Alguém por perto? – disse o Assassino, para o vento. Quatro da manhã, ele observou em um relógio perto da lareira. Provavelmente, todos ainda estavam dormindo.

Hora de me vingar. Dessa vez, eu vou acordar Evie e ela vai...

-Nossa, mas você está imundo. – apareceu Evie, repentinamente, frustrando todas as tentativas do Assassino em dar o troco na irmã quatro minutos mais velha.

-Bom dia para você também, minha querida irmã. – respondeu o Assassino, caindo com total desleixo no sofá, retirando os sapatos e o terno.

-Espero que tenha boas novas sobre CAM.

-E tenho, sim. – ele disse, jogando sua cartola para longe, fazendo derrubar uma pilha de livros estendida sobre a mesa, para raiva de Evie, que preferiu guardar a bronca para depois. – CAM é um homem chamado Milverton, que mora em Hampstead. Appledore Towers, numa casa de grã-finos. Pude ver com os meus próprios olhos.

-Um avanço e tanto, eu admito. – disse Evie, colocando os livros de volta à ordem correta. – E quanto à carta? Pôde obtê-la?

Silêncio.

-Não.

-Espere. Você sabe quem ele é, esteve onde ele mora, mas não fez nada?

-Eu... Bem, eu até pensei em agir, mas... Enfim, eu estava um tanto desabastecido, tinha esquecido minhas facas, faltava um pouco de veneno na minha manopla... – desculpou-se Jacob.

Evie rolou os olhos. Previsível em se tratando de Jacob, ela pensou.

-Precisa ser mais cuidadoso com tais coisas, Jacob, ou cedo ou tarde, você vai...

-Poupe-me de seus sermões, Evie. – retrucou o rapaz, começando a se irritar. – Consegui as informações, não consegui? Deveria estar satisfeita.

-Satisfeita? As cartas de Sua Alteza permanecem em poder do chantagista.

-Espere, é impressão minha ou você está chateada porque eu não completei o serviço? Mas afinal, cadê aquela minha irmã resmungona, que reclamava de minhas ações, dizendo que eu sempre provocava desastres ou algo assim? “Oh, você destrói tudo ao seu redor”, “oh, você é um inconsequente, Jacob”... – resmungava o Assassino, imitando sua irmã com uma voz esganiçada.

Evie bufou.

-Tem razão. É bom que tenha reconhecido seu talento em provocar catástrofes e tenha me deixado com a parte mais delicada. – disse por fim a Assassina. Jacob riu.

-Gostei de ver, minha irmã. – disse o Assassino, se retirando para o seu quarto, deixando Evie sozinha. Pegando um dos livros da pilha que havia acabado de ser arrumada, a Assassina caminhou até sua poltrona, onde começou sua leitura. Antes que terminasse a primeira página, a Assassina percebeu uma sombra projetada a atrapalhar sua leitura.

-Desculpe.

Era Henry Green, seu noivo, desculpando-se com ela. Evie apenas sorriu, enquanto o indiano se recostava ao lado dela.

-Analisei mais uma vez os papéis de Edward Kenway que encontramos na Mansão, Evie. Achei uma gaveta com alguns papéis. Todos os relatórios de reuniões da Irmandade da época de Kenway.

-Mesmo? – irradiou-se de alegria o semblante de Evie. – O que descobriu?

-Veja só. – disse o Assassino, entregando com cuidado algumas folhas amareladas às mãos de Evie, que teve o mesmo zelo que Henry em seu manuseio, levando-as até uma mesa próxima. Decifrando a caligrafia elegante do século XVIII, Evie lia em voz alta o conteúdo dos papéis.

21 de Janeiro de 1734

A reunião inicia-se às vinte e três horas e vinte e cinco minutos, contando quórum do Conselho. Registram-se as presenças de Miko, Edward Kenway, Charles Phillips, Robert Durant, Eugéne Chevalier, Jill Castellani e Frederick Thomas. A reunião começa com o anúncio de Frederick Thomas quanto à descoberta da localização exata da Fonte do Esquecimento e a proposta de uma comissão para apurar os Artefatos do Éden supostamente escondidos por lá. Edward Kenway, Miko e Robert Durant aceitam fazer parte da comissão.

—Inacreditável! – irradiou-se Evie. – A Irmandade de Kenway encontrou mais Artefatos! Fico a pensar que artefato poderia ser essa Fonte do Esquecimento... A magnitude de seu poder...

—E também a cobiça que pode despertar nos templários. Londres se transformou muito desde os tempos de Kenway. Uma túnel, uma escavação, pode colocar tudo que ele fez, todo o trabalho de esconder esses artefatos, a perder.

Evie parecia concordar.

—Precisamos saber onde essa fonte está para garantir que esteja bem lacrada.

-É também o que penso.

—Mas um fato nessa história causa-me grande estranheza... Quem é Frederick Thomas? Todos os demais nomes eu conheço, mas não este...

Coube a Henry explicar.

-Eu também não sabia de sua existência, por isso pesquisei na biblioteca sobre ele. Esse Frederick Thomas foi um dos precursores no campo da Arqueologia. Muitas coisas apuradas por ele quanto à Presença do Império Romano na Inglaterra tem relevância até hoje. Pesquisei sobre ele e soube que ele faleceu e não deixou herdeiros. Seus bens e achados foram entregues a Instituições de Caridade e também ao Museu de Londres.

Naquele momento, Evie franziu o cenho.

—Por que ele entregou seus achados ao Museu, e não aos Assassinos?

—Também achei estranho, mas não achei explicação. Na verdade, percebo um certo silêncio desconfortável com a menção do nome dele na Irmandade. Mandei uma carta a alguns membros do Conselho para perguntar sobre Thomas e recebi uma resposta deveras evasiva.

—Que curioso. Qual o problema de discutir sobre um Assassino? Será que ele era um traidor? Enfim, já sabemos que, mais uma vez, estaremos por nossa conta e não teremos a ajuda do Conselho. Nenhuma novidade até agora.

-Veja, mais uma ata. E creio que essa pode responder às nossas perguntas.

17 de Novembro de 1735

A reunião inicia-se às vinte e uma horas e quarenta e sete minutos, contando quórum do Conselho. Registram-se as presenças de “Miko”, Edward Kenway, Charles Phillips, Robert Durant, Eugéne Chevalier e Jill Castellani.

Miko avisa ao Conselho sobre o estado de saúde de Frederick Thomas, bem como sua confusão mental que o faz se esquecer da Irmandade, bem como repelir de sua presença qualquer Assassino que tente se aproximar. Chevalier propõe, então, a expulsão de Frederick Thomas da Irmandade Britânica, por incapacidade mental. Por unanimidade, Frederick Thomas é expulso da Ordem dos Assassinos.

Edward Kenway propõe lacrar a Fonte do Esquecimento. Robert Durant discorda, alegando que o ocorrido com Thomas foi um infeliz acidente e a Fonte ainda pode se mostrar útil de alguma forma. Durant retruca que Edward Kenway possui uma Armadura da Primeira Civilização e jamais se desfez dela. Miko interfere na discussão dos dois cavalheiros, propondo que a Fonte do Esquecimento seja lacrada juntamente com a Armadura da Primeira Civilização de Edward Kenway, que inicialmente apresentou relutância, mas acabou por aceitar.

Evie ficou boquiaberta.

-A Armadura de Kenway está escondida com a Fonte!

-Isso só torna o cenário ainda mais preocupante. Se os templários encontrarem a fonte, também colocarão suas mãos em uma armadura lendária. Qual era a habilidade dela? Não me recordo bem...

-Dizia-se que Edward Kenway tinha uma armadura de origem maia, que era tão resistente que defletia disparos de arma de fogo. Mas não há muitos relatos quanto à sua aparência. Ele não a usava em público desde os tempos de pirata.

-Imagine só, um templário de posse de algo dessa natureza...

-Nem ouso imaginar... – pensava Evie com perplexidade.

-Há mais um papel que pode ser de seu interesse. – disse Henry, chamando a atenção de Evie outra vez.

-Hum... Nossa, mas que garrancho... “10 de Outubro de 1735”... Oh... Isso é datado de... De meses antes da morte de Kenway! – observou Evie, levando Henry a concordar.

-Isso só dá mais relevância ao que achamos. E tem mais um detalhe. A caligrafia é bem menos elegante que os demais papéis da Irmandade que encontrei daquele período. – observou Henry.

—Sinal de que este papel foi escrito por próprio punho por Kenway. Sim, Henry. Há algo de muito especial nessa anotação. Edward Kenway não costumava fazer anotações oficiais, por mais que fosse importante na Irmandade. Essa parte mais burocrática ficava à cargo do Assassino Miko. Mas vejamos o que de tão importante há aqui que fez levar um ex-pirata a tomar a pena e escrever um documento de próprio punho.

10 de Novembro de 1735.

Chevalier,

Recebi notícias quanto ao estado de saúde de Frederick Thomas. Clinicamente ele está saudável e gozando perfeitamente de suas faculdades mentais, mas ele permanece a não se lembrar da Irmandade. Anos se passaram desde o acidente na Fonte do Esquecimento e Thomas ainda passa mal diante de mim e de Miko. Não sabemos o quanto da Fonte do Esquecimento ele acabou por ingerir quando escorregou e caiu sobre ela, mas creio ter sido o bastante para esquecer-se, ao menos, de parte de sua vida – ou de sua totalidade, pois a Irmandade era sua vida. De grande Mestre Assassino e exímio estudioso da Primeira Civilização, Thomas tornou-se um homem que sente dores de cabeça e sofre sangramentos do nariz quando põe os olhos em mim ou em qualquer Assassino que porventura ele conhecia.

Sei que vocês ainda têm interesse em visitar a Fonte e tentar compreendê-la, mas acredito que o risco implicado nisso é alto demais para nós. Não queremos perder mais pessoas para um pouco de água da Primeira Civilização. Acredito que é hora de traçarmos outras prioridades no horizonte. Os templários ainda se constituem de uma forte ameaça na Inglaterra e no restante do mundo.

É de meu desejo, portanto, lacrar essa Fonte do Esquecimento e virarmos de uma vez por todas essa infame página na história de nossa Irmandade. Irei organizar uma reunião para tratar disso, e inclusive da destruição de qualquer material referente a esta Fonte. É nosso dever de Assassino impedir que tal Artefato acabe por cair gravemente nas mãos erradas.

De seu amigo,

Edward James Kenway

Notas finais
Bateu até saudades de Aftermath com essa menção rápida ao Edward... Mas vamos seguir em frente que o protagonismo agora é com os irmãos Frye! Até o próximo cap!!