Notas iniciais
E é isso, pessoal. Último capítulo. Uma ótima leitura a todos!

Ao abrir os ferrolhos da pesada porta da solitária, os guardas da delegacia de Westminster acabaram por despertar os dois sonolentos prisioneiros, que faziam o favor de roncar alto, fosse de cansaço ou puro e simples tédio. Como conseguiam dormir naquela imundície úmida, nenhum deles compreendia – e nem queriam compreender. Ainda assim, cumpriam seu dever de carcereiros para avisar aos dois presos quanto aos seus derradeiros destinos.

-Jacob Frye? – chamou o inspetor Abberline, do limiar da cela. Mal era capaz de vê-lo na escuridão daquela cela, mas sabia que ele estava ali. Acabou por localiza-lo ao tropeçar no próprio, que grunhiu alto em resposta.

-Freddy, é você? – surpreendeu-se o alquebrado Frye. Sua aparência abatida e massacrada assombrou o inspetor. Incrédulo com o estado de Jacob, Abberline voltou seu lampião a Lestrade, único a permanecer do lado de fora da cela. Não sujaria, afinal, seus belos sapatos com aquela imundície.

-Ele não ficou nem 24 horas aqui e já está assim, como se tivesse sido atropelado por um trem em plena Estação Vitória. É esse o tratamento deplorável que você dispensa a seus encarcerados, Lestrade? – reclamou Abberline, enfurecido. O inspetor de Westminster parecia contrariado. Deu de ombros, apenas.

-Eu não fiz nada. Os marginais, sim.

-A partir do momento em que você não faz nada para impedir isso, você se torna tão culpado quanto os animais que agrediram Jacob Frye. Mas enfim, eu não vou discutir a forma como você conduz sua delegacia, Lestrade. Vim apenas seguir a determinação da Justiça e libertar Jacob Frye.

Os olhos castanhos de Jacob arregalaram-se. Como pôde, é claro.

-Espere, eu... Eu ouvi bem? Eu estou mesmo livre?

-Tão livre quanto um pássaro, Mr. Frye. Aliás, em nome da Scotland Yard, peço desculpas pela sua prisão arbitrária.

-Não é possível, Freddie... O que aconteceu? Pois eu tinha certeza de que estava tudo perdido para mim.

O inspetor com um sorriso disfarçado por seus bigodes voltou seus olhos a seu colega de profissão, Lestrade. – Quer explicar a ele?

-Eu não tenho nada a explicar a ele.

-Tudo bem, então. – assentiu Abberline. – Foram encontradas diversas inconsistências no depoimento e nas provas levantadas contra você. Boa parte delas simplesmente desapareceram. Encontramos muitas folhas em branco. Pode parecer uma grande estupidez, mas é como se... Como se o denunciante sequer tivesse existido.

-Isso só pode ser armação sua, Abberline! Foi você quem recebeu a denúncia contra Jacob Frye, e agora diz que não se recorda de quem foi?

-Estou dizendo a você, Lestrade. Eu realmente não lembro. E não há nada nos arquivos da delegacia sobre essa... Essa pessoa. Sabe, é como se minha cabeça fosse preenchida por um enorme vazio quando me recordo do dia de ontem... E eu não sou o único, pois ninguém na delegacia se recorda do depoimento que denunciou Jacob. Mesmo as páginas do depoimento estão em branco! O senhor lembra quem foi, Mr. Frye?

-Não... Eu não lembro. Realmente não lembro. – admitiu Jacob, após uns longos minutos a pensar. Realmente não se recordava do que tinha acontecido. Lembrava-se apenas de uma conversa com Evie, de sentir falta de Violet e... Mais nada. Como se um enorme vácuo de tempo tivesse preenchido sua mente. Parecia que alguma coisa estava faltando, mas ele não sabia dizer o que era. E a princípio, ninguém naquela sala também.

-Isso só pode ser armação de vocês dois! Mexeram nos arquivos da polícia, e agora estão mentindo! Pois para mim esse rapaz não é mais inocente do que qualquer bandido que ocupa minha cadeia!

-Chega, Lestrade. Apenas chega. Qualquer que seja sua opinião a respeito de Mr. Frye, melhor guardá-la para si. Não há mais nada que mantenha Mr. Frye em cárcere, portanto ele precisa ser libertado. Vamos, Mr. Frye.

-Com o maior prazer, Freddy. – animou-se Jacob.

-Para você, é Inspetor Abberline. Minha mente pode estar uma bagunça, mas ainda me recordo do que você me contou na prisão. – disse, fazendo Jacob amedrontar-se. Ainda assim, não era hora de falar desse assunto, ainda mais na frente de Lestrade, que quase espumava de tanta raiva ao ver o Frye sair da cadeia.

-E quanto a mim? – perguntou Harry, inconformado por ter sido ignorado.

-Você continua preso, mocinha. Vai para Dartmor, que é lugar de gente da sua laia. – zombou Lestrade, causando indignação em Jacob.

-O quê? Não! – demandou Jacob, sendo detido por Abberline.

-Ele foi preso com anarquistas, Mr. Frye. Não há nada que possa fazer por ele.

-Eu não posso permitir...

-Está vendo o que ele está dizendo, Abberline? Aposto que irá tentar libertar o companheiro de cela. Será que podemos acalmá-lo com uma prisão preventiva?

-Jacob, não o provoque... – pediu Abberline, sabendo que um rompante do Assassino era o que mais Lestrade queria para enfiá-lo outra vez na prisão. Mas nem mesmo a iminência de ser preso parecia ser o suficiente para que Jacob não protestasse em favor de Harry. Coube ao próprio Harry acalmar seu amigo.

-Eu causei isso a mim mesmo, Jacob. Mereço a prisão. Por favor, não se prejudique mais ainda pelo que fiz. Apenas deixe que eu pague pelo meu erro.

-Harry...

-Por favor, Jacob. Vá embora e vá viver sua vida sem mim.

E estas foram as últimas palavras que Jacob escutou de seu amigo, antes que a porta da solitária se fechasse pesadamente, mais uma vez. Seguiu os dois inspetores para fora da delegacia, sentindo-se mal por não ajudar mais a Harry. Mesmo que o ajudasse a fugir, a polícia não o deixaria em paz. Ainda que isso lhe doesse, Harry precisava pagar por seus erros, ainda que não fosse terrorista. O próprio tinha essa consciência.

Ainda assim, tudo parecia tão estranho. Tinha a certeza de que os Rooks estavam arruinados e que apodreceria em uma prisão, mas de repente... Era como se tudo que havia vivido não passasse de uma mentira.

-Urgh!

-Está tudo bem, Jacob? – preocupou-se Abberline, ao ver o Frye massagear a cabeça. Parecia estar com muita dor de cabeça.

-Eu acho que está sim, Freddy.

-Você está muito ferido, Jacob. Deveria procurar um médico.

-Não é meu corpo que me preocupa, Freddy. Mas sim, minha mente. Por que quando eu tento me lembrar de quem me colocou na prisão, eu sinto tanta dor de cabeça?

-Eu... Eu preciso admitir que sinto a mesma coisa, Jacob. Mas desisti de tentar entender. Melhor imaginar que foi tudo um grande engano, e simplesmente voltar para casa. – admitiu o inspetor, despedindo-se de Jacob e embarcando em um cabriolé.

Enquanto andava na rua com dificuldade, sentindo pela primeira vez a dor abraçar seu corpo alquebrado pelas poucas horas de cadeia, Jacob percebeu um pequeno tumulto. Pessoas estavam cercando um menino, jornaleiro. Preocupado que algo viesse a acontecer com o pobre garoto, Jacob aproximou-se.

-O que diabos está acontecendo aqui? – questionou Jacob aos agitadores, que se intimidaram com sua aproximação. Ainda que ferido, o Assassino continua a ser amedrontador aos londrinos. O menino jornaleiro, escondido em sua banca, tremia de medo.

-As pessoas estão me pedindo o dinheiro de volta!

-Ora, mas depois de ler o maldito jornal querem o dinheiro de volta? Que tolice é essa? – resmungou Jacob. Uma mulher, mais corajosa que os demais homens, aproximou-se do Frye com o jornal em punho.

-Fomos enganados! Olhe só para esse jornal!

Jacob assombrou-se. Todos os jornais, absolutamente todos, estavam com as páginas em branco. Na verdade, apenas a primeira página em branco.

Como se uma importante manchete simplesmente tivesse deixado de existir.

—Minha senhora, eu já disse que não tenho como devolver o seu dinheiro e...

—Tomem esse dinheiro. – disse o Frye, despejando sobre a banca todo o dinheiro que tinha nos bolsos. Os compradores, afoitos, pegaram cada qual sua moeda, enquanto jogavam de volta ao jornaleiro os jornais estranhamente com problema.

—Muito obrigado, senhor. Não sei o que seria de mim...

—De nada, moleque. E cuide-se. Nada de vender jornal ruim. – disse o Frye, piscando enquanto se distanciava da banca. Que dia mais estranho, esse... Tudo que mais queria era tomar um banho, cair em sua cama e dormir por uns três dias. Para tirar o cheiro fétido da prisão entranhado em suas roupas, e também curar as feridas do corpo. E do coração também. Ainda que não soubesse o que exatamente havia acontecido com Violet, tinha a nítida sensação de que não eram mais um casal. Seu estranho sonho de formar uma família com ela havia se dissipado, tal como sua acusação na Scotland Yard. Agora, tudo que precisava fazer era seguir em frente.

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Era aquela uma madrugada nebulosa. Caía uma chuva fina sobre Londres, ensopando as ruas sujas de estrume e poeira. Nada que pudesse preocupar Evie Frye, que usava os telhados para transitar pela cidade. E naquela noite não seria diferente. Andar por Londres à noite era sem dúvida a melhor hora para andar pela cidade sem chamar a atenção. E essa não era uma opinião diferente do remetente que lhe enviou um bilhete mais cedo.

“Esteja às 1h47 na Estação Vitória. Se não puder, esteja assim mesmo”. Não precisava de um nome no bilhete para que ela soubesse quem era. Já havia se passado uma semana desde o confronto com Moriarty na Fonte do Esquecimento e seu acidente naquelas águas. Desde então, Evie sequer tivera notícias dele. E não adiantava procura-lo, pois a Fonte fez bem seu magnífico trabalho de apaga-lo da História. Ninguém, nem mesmo seu irmão Jacob, se recordava de Sherlock Holmes. E sempre que confrontados, vinham dores de cabeça inexplicáveis. Desistiu de compreender o fenômeno quando insistiu no tema com Jacob e ele acabou por sucumbir a uma convulsão. Sem dúvida, efeito da Maçã que jazia sobre o fundo daquelas águas, as quais Holmes infelizmente ingeriu. Ainda assim, causava estranheza que ela permanecesse a se recordar dele. Aparentemente, era a única a fazê-lo.

Desceu as escadas da estação. Havia um trem parado. Faltava menos de três minutos para partir. Poucas pessoas optavam por viajar de madrugada, o que fez Holmes ficar distinguível por sua altura. Estava parado, com uma pequena mala, a aguardar ainda na plataforma de embarque. Sem dúvida, a espera-la.

-Mr. Holmes.

-Miss Frye.

Cumprimentaram-se, apesar das animosidades dos últimos acontecimentos. Evie ainda estremecia um pouco de raiva pelo que Holmes fizera a Jacob, apesar de seu irmão ter sido libertado. Graças às ações da Maçã, que varreu Holmes do mapa e também apagou qualquer feito do detetive. Ainda assim, não conseguia esquecer tudo que ele fizera.

-Vejo que está de saída de Londres. – disse, voltando seus olhos para as malas ao lado do detetive.

-Da Inglaterra, na verdade. Morar aqui perdeu qualquer sentido para mim, depois de tudo que aconteceu. Não é nada agradável viver em um lugar onde pessoas conhecidas chegam a sangrar o nariz apenas em olhar para você.

-Eu sinto muito pelo que aconteceu, apesar de tudo. – admitiu Evie.

-“Apesar de tudo”. Eu sei que você tem todos os motivos do mundo para querer me ver morto, mas ainda fico feliz em ver que você ainda se recorda de mim, do que eu fiz. Ainda que meus feitos não tenham sido bons aos seus olhos.

-Não há como perdoá-lo por colocar meu irmão na cadeia.

-Eu não pedi seu perdão em momento algum, Miss Frye, e nem é por isso que a chamei aqui. Apenas... Apenas quero me despedir da única pessoa neste mundo que sabe quem eu sou. Melancólico que seja alguém com motivos concretos para me matar? Sim, mas é o que as circunstâncias me deixaram.

-E para onde você vai?

-Sabe, depois de todo esse “incidente” comigo, eu decidi estudar mais esses Artefatos da Primeira Civilização. Comprei alguns documentos falsos no submundo londrino e vou passar a viver com uma nova identidade. Comprei até um diploma falso! Pretendo ir à França ou Suíça, tentar a vida como um pesquisador, e quem sabe, entender mais sobre as civilizações que provocarem esse meu trágico destino.

-E com que intuito? – estranhou Evie.

-Não precisa se preocupar, Miss Frye. Minhas intenções com os Artefatos são meramente pacíficas. Pretendo usar os anos que me restam a impedir que qualquer um possa colocar as mãos neles. Sendo Assassino ou Templário. Se esses artefatos estão por algum motivo perdidos, garantirei que pelo bem da humanidade, assim permaneçam. Espero que a senhorita não fique chateada com meus propósitos...

-Não é uma má ideia. – admitiu Evie, ainda que contrariada. No fundo, sentia uma leve inveja de Holmes. Deveria ser uma vida e tanto, procurar por artefatos da Primeira Civilização por vários países.

-Sabia que compreenderia. – sorriu Holmes. Ouviu o apitar do trem e um dos funcionários da estação se aproximar, para recolher suas malas.

-Hora de partir. Foi bom conhecer a senhorita, Miss Frye.

-Igualmente, Mr. Holmes.

Holmes estendeu uma mão. Ficou parada por um breve segundo, mas logo acolhida pelos dedos finos de Evie. Antes que a Assassina pudesse dizer qualquer coisa, foi surpreendida por um abraço. Estava abismada por essa leve demonstração de afeto, vindo estranhamente de alguém como Holmes, mas deixou a mágoa de lado e lhe retribuiu.

-Venha comigo, Evie.

A Assassina, ainda abraçada a Holmes, arregalou seus olhos verdes.

-Holmes, eu...

-Senhores, o trem já vai partir. – avisou um dos funcionários, apressado. Foi o que lhes interrompeu. Levemente ruborizado, o detetive tomou sua bengala e observou Evie brevemente. Silêncio. Essa era a resposta dela a seu convite. E assim, seguiu para dentro do trem, sem olhar para trás. Assim teria que ser, pensava. Deixando sua velha vida para trás. Algo novo lhe aguardava. Uma nova vida, ainda que não começasse exatamente do jeito que esperava.

Notas finais
Bom... O que dizer... Desde já, agradeço a todos que tiveram paciência em aturar meu block de meses que quase me fez cometer a loucura de simplesmente excluir tudo e fingir que essa fanfic sequer existiu - sim, isso chegou a se passar pela minha cabeça. 2020 só não foi um ano completamente horrível, devo dizer, porque tive ainda algumas poucas conquistas. Boas, até. E uma delas foi poder terminar essa fanfic, ainda que aos trancos e barrancos. Mesmo com o cansaço do trabalho e algumas mortes pelo coronavírus de pessoas importantes pra mim que enfrentei em minha caminhada, foi gratificante postar e ler cada comentário deixado, ou mesmo ver que um ou outro leitor fantasminha agraciou sua presença nas estatísticas de leitura. Tenho alguns projetos, boa parte deles envolvendo Assassin's Creed, aqui na minha cabeça. Um deles deve sair ainda esse ano, assim espero. Depois de um bom tempo sem postar, fiquei muito feliz com o feedback recebido e pretendo continuar a escrever histórias nesse site, ainda que não com a frequência e pique de anos atrás. É sempre muito bom rever velhos leitores e conhecer outros novos. Ah! E ainda tem um epílogo para deixar o coração de vocês aquecidinho! Não consigo escrever nada sem um bom epílogo rs Até logo!