Assassin's Creed: Elementary
30 Epílogo
Notas iniciais
Londres, 17 de Julho de 1870.
Devil’s Acre.
BOA VIAGEM, EVIE & HENRY!
Estas foram as primeiras palavras deparadas por Evie, tão logo a carruagem dos Rookies a deixou no quartel-general da gangue, no bairro pobre de Devil’s Acre. Abismou-se ao ver quantos Rooks estavam ali, além de velhos amigos, como Agnes, Clara O’Dea, Nigel, Robert Topping e Ned Wynert. Todos animados por vê-la surpreendida, o que já era um feito e tanto.
-Eu mato Jacob! Neste mundo e no próximo! – exclamou a Assassina, indignada. Sabia que aquela festa surpresa só poderia ser obra dele. Desde muito cedo, Evie diava festas, de todo o coração. Entretanto, por ter sempre que dividir seu aniversário com Jacob, a Assassina jamais conseguiu escapar das festividades que envolviam seu aniversário. Por sorte veio a vida adulta e tornou comemorações como essa escassas – mas não impossíveis. Mesmo que as intenções de todos ali fossem as melhores possíveis, Evie lamentava todo o rito que envolvia aquilo: cumprimentar pessoas, embarcar em conversas aleatórias e, principalmente a pior delas, soar simpática e agradecida por todos os presentes terem parado umas poucas horas de sua vida para tortura-la com risinhos e bebida. Nunca fez questão de esconder isso de Jacob, o que certamente tornava tudo ainda mais divertido para seu plano de despedida em grande estilo. Obviamente, não para ela.
Ao descer da carruagem, foi recepcionada por Henry Green, seu esposo, e logo a vontade de matar seu irmão por ser um linguarudo se dissipou.
-Pelo visto, conseguimos surpreender você, Evie!
-Aposto que isso foi ideia de meu irmão. Toda essa... Festa de despedida desnecessária!
-Desnecessária?
—Sim, desnecessária. A viagem é longa e devemos estar descansados, Jacob sabe disso. Fiz questão de contar a ele cada pormenor de nossa partida a Índia, e o que ele faz por mim? Me apronta uma dessas!
Henry riu da irritação de sua esposa.
—Releve ao menos por essa noite, Evie. Já parou para pensar que essa pode ser a última festa em que vocês dois estarão reunidos?
—Isso... Isso realmente não me ocorreu à mente... – admitiu Evie, pensativa. Recordou-se de súbito do irmão, enfiando sua cara no bolo de seu aniversário de sete anos de idade. Talvez isso explicasse seu trauma por festas, quem sabe. Mas apesar de todos os problemas, uma coisa era certa: Evie amava seu irmão. Só o tempo seria capaz de dizer o quanto ela sentiria sua falta.
—Jacob disse que não poderia deixar sua partida para a Índia passar em branco. Ele disse que sentiria muito a sua falta, mas honestamente? Acho que ele estava contente demais com nossa partida. Deve ser porque ele se tornará o único dono do trem-esconderijo. – brincou Henry.
-E você permitiu que ele fizesse toda essa algazarra. Em nossa homenagem.
-É um momento especial, não acha? Amanhã partiremos para a Índia. Eu e você. Uma vida nova nos aguardará naquelas terras. Creio que fará bem a nós dois nos despedimos de Londres, de nossos amigos.
-Sim, mas... Tudo bem, você está certo. – precisou dar o braço a torcer Evie. – Acho que ter uma festa de vez em quando não fará qualquer mal. Quero dizer... Em se tratando de Jacob Frye como o organizador, tudo pode acontecer...
Henry Green sorriu em resposta a Evie. Sentiu dois tapas fortes no ombro. Era Jacob, o Assassino indiano já sabia. Vestia seu traje de Mestre Assassino, com fortes cores vermelhas a contrastar com o preto encardido pela poeira das ruas. Trazia no rosto o mesmo sorriso traquina, que lhe era tão característico.
-Eu não te disse, Greenie? Minha irmã gosta de parecer linha dura, mas no fim das contas ela gosta de uma boa festança! Pode beber à vontade, Evie!
-Eu não vou e nem posso beber à vontade, Jacob. Preciso acordar amanhã muito bem-disposta para a jornada que me espera. Como você bem sabe, eu e Henry teremos uma longa viagem a percorrer até chegarmos a Índia.
-Aposto que a primeira coisa que farão tão logo essa festa acabar é transar! Assim irão se despedir do solo britânico em grande estilo! – brincou Jacob, fazendo o casal corar.
-Jacob, por favor suma da minha frente! – ordenou Evie, finalmente sendo acatada por Jacob. Enquanto observava seu irmão pegar uma caneca e se juntar a uma conversa animada com Robert Topping e Ned Wynert, certamente a respeito de corridas e contrabando, Evie se perguntava se seu irmão realmente ficaria bem sem ela.
-Ainda bem que ele esqueceu Violet. – disse a Assassina, enquanto bebericava de uma caneca de cerveja, que provavelmente seria sua última da noite.
-Nem parece o mesmo Jacob que ficou quase um mês bêbado, ao saber que ela era uma ex-Assassina que havia se aproximado dele para nos arruinar.
-Tremo só de pensar nisso, Henry. Ele andava tão deprimido... Mas ainda bem que isso são águas passadas. Violet, ou melhor dizendo, Irene Adler, sumiu de nossas vidas e Jacob pôde se dedicar melhor à Irmandade. Veja só os novos recrutas. Todos selecionados por ele.
-Uma coisa é certa, todo aquele estranho episódio da prisão dele serviu para amadurecê-lo. Ele agora pensa bem antes de agir e está cada vez mais comprometido com os Assassinos. Tenho certeza de que ele dará conta de Londres sozinho.
-Eu tenho tanto medo de que ele não consiga... – admitiu Evie, sentindo os dedos de Henry segurarem os seus próprios.
-Ele vai conseguir, Evie. Foi ele mesmo quem disse isso. Dá para perceber enquanto conversamos com ele o quão responsável ele está, apesar de ser ainda o velho e brincalhão Jacob Frye. E não se esqueça de que foi ele mesmo quem disse que estava pronto para isso.
-Espero que esteja certo, Henry.
Um grupo de Rooks, munidos de violinos logo juntou-se em uma pequena roda e começaram a tocar animadas músicas irlandesas. Os convidados da festa logo passaram a dançar. Já alegre por algumas canecas de cerveja, Jacob Frye juntou-se aos seus amigos. Henry e Evie sequer se mexeram. Apesar de serem os homenageados da festa, nenhum deles era dado a dançar, e todos os convidados sabiam disso e os respeitavam. Indo pegar uma bebida, o Assassino deixou sua esposa sozinha, que logo se deparou com um convidado inesperado.
-Artie! – exclamou Evie ao ver o menino.
-Miss Frye, que bom revê-la depois de tanto tempo! Quero dizer, Mrs. Green...
-Deixe de formalidades, Artie. Pode me chamar de Evie, e por favor dispense o Mrs. Green. Casei-me com Henry em uma cerimônia tipicamente indiana que não é reconhecida pelo governo, portanto não sou uma legalmente uma “senhora”. E eu também fico feliz em ver você por aqui, apesar de saber que isso não é hora de criança estar fora da cama! – brincou Evie, fazendo o menino de cabelos loiros rir. Sabia que apesar da Assassina ter alguma razão, seu intuito jamais seria expulsá-lo dali.
-Mas eu já tenho onze anos! Sou quase um homem!
-Menos para a bebida. – disse, retirando das mãos do menino um copo. Envergonhado e sem palavras, Artie nada fez para impedi-la. Corou, permanecendo em silêncio. Coube a Evie cortar aquele ar constrangedor.
-Então, continua a procurar por crimes em Londres?
-A cidade nunca para, Miss Frye! É impressionante! A cada dia me deparo com um caso diferente, mas... Eu não sei bem como explicar, é que... Às vezes, tenho a sensação de que está faltando alguém...
-Alguém? – questionou Evie, com o semblante sério. Sabia que esse alguém a quem Artie se referia não era outro senão Sherlock Holmes. Não imaginava que o detetive e Artie fossem tão próximos assim, a ponto de o menino sentir tamanha falta de Holmes. Era como se a Maçã não tivesse sido poderosa o suficiente para anular completamente esses laços.
-Estou pensando em criar uma história. Uma história sobre crimes. Mas não imagino a polícia a investiga-los, mas um homem. Pode parecer estranho, mas... Às vezes, eu sonho com ele. Sonho com ele ouvindo testemunhas, recebendo pessoas em sua casa. E tudo isso sempre ao lado de outra pessoa. Um amigo. Espero não estar importunando a senhorita com as minhas histórias...
-Nem um pouco, Artie. Nem um pouco. Na verdade, eu adoraria lê-las, e creio que outras pessoas sentiriam o mesmo. Você tem uma imaginação incrível, e tenho certeza de que um dia você e esse seu detetive serão conhecidos pelo mundo todo.
O menino se irradiou com o elogio de Evie.
-Muito obrigada, Miss Frye! – disse, se afastando dela com seu caderninho em mãos. Certamente para anotar mais alguma ideia brilhante que tivera. Talvez uma ideia original sua, ou uma aventura vivida por Sherlock Holmes, fruto de alguma lembrança escapada do artifício da Maçã.
Era curioso ver o efeito que o Artefato provocava nas pessoas a respeito de Holmes. Meses depois daquela despedida na estação, a Assassina não conseguia deixar de pensar em como ele estava, precisando reconstruir uma vida do zero longe de seus entes queridos e da profissão que amava exercer. Evie jamais se imaginou levando outra vida que não fosse servir à Irmandade dos Assassinos, de modo que se padecia de Holmes. Como ela estaria se estivesse na mesma situação que ele?
-Você está bem, Evie?
A Assassina surpreendeu-se com Henry ao seu lado. Sequer o havia notado de volta, de tão distante em pensamentos.
-Estou sim.
-Perguntei pois parecia um tanto... Introspectiva. Triste, até. Espero que não esteja assim por partir de Londres.
-Não, Henry. Minha felicidade em morar na Índia com você é maior do que minha tristeza em abandonar a Inglaterra. Estava pensando em outra coisa, na verdade. Mas deixemos isso de lado. Por que não aproveitamos essa despedida para trocarmos uma última palavra com os novos recrutas da Irmandade?
Antes que pudessem sem aproximar dos recém-chegados Assassinos, uma pequena comoção na entrada tomou sua atenção. Era Billy, um dos grandalhões dos Rooks. Parecia abobado com alguma coisa, enquanto carregava uma cesta.
-Aconteceu alguma coisa, Billy?
-Eu estava na porta quando uma mulher deixou isso comigo, Miss Frye. Disse que era um presente... Para o chefe.
Evie voltou seus olhos para Jacob. Estava dançando com os outros Rooks e não se apercebia do que estava acontecendo. Evie estremeceu, ao sentir o familiar perfume novamente. Um perfume que ela esperava nunca mais ver.
-Jogue isso fora.
-Mas...
-Sem mais delongas, Billy. Jogue isso fora. De quem imagino que seja, pode ser até mesmo uma bomba para nos matar. Eu estou mandando, entendeu?
A voz exasperada de Evie despertou o conteúdo da cesta. E logo um choro de criança pôde ser escutado por todos da sala. Um nem um pouco familiar, choro de um recém-nascido. Sobressaltada, Evie deu dois passos para trás, para longe de um apatetado Billy.
-Eu juro para a senhorita que eu não sabia que era um bebê. Eu juro!
O choro do bebê fez a música que tomava o salão parar. Como um toque de mágica, todos pararam de dançar, ainda estupefatos pelo acontecimento inusitado que estava acontecendo ali, bem diante de seus olhos. Inclusive Jacob, que soubera por um dos Rookies a respeito de um presente que acabara de chegar.
-Ora essa, mas um presente pra mim? Resolveram antecipar o Natal, é isso? Puta merda, um bebê!
Jacob mortificou-se, tão logo retirou o pano sobre a cesta e revelou diante de todos os presentes ninguém menos que um bebê. Ainda estava levemente sujo de sangue e tinha os olhos fechados. Nada vestia e assustara-se com pano a descobri-lo, fazendo-o chorar desesperadamente.
-É um menino. Mas de quem será? – perguntou Jacob, a tentar observá-lo. Perto dele, o Assassino notou que havia um pequeno bilhete. Retirou-o. Afastou-se de Evie e da criança. Deu alguns passos no salão, a ler o bilhete, para em seguida tombar desfalecido.
-Por Deus, Jacob! – assombrou-se Evie. Seu irmão estava pálido, desmaiado. Enquanto o estapeava, Evie pediu a um dos presentes uma dose forte de brandy para animar seus ânimos e despertá-lo. Enquanto Henry dava um gole da forte bebida a Jacob, Evie tomou o bilhete, agora caído no chão. Queria entender o que havia em seu conteúdo a ponto de fazer seu irmão desmaiar.
Jacob,
Muita coisa aconteceu desde o nosso último encontro. Melhor dizendo, nosso último e inesquecível encontro. Pois embora você não soubesse à época, deixei que aquela fosse a nossa despedida. Eu sabia que, mesmo que você me perdoasse de todos os inúmeros erros que cometi, estávamos condenados à separação, pois eu fui expulsa da Ordem dos Assassinos, a qual você deposita sua lealdade. Ordem essa que tenho minhas próprias desavenças e mágoas a lidar. Apesar de saber desde o primeiro instante em que te conheci que meu objetivo era arruinar sua gangue e fazê-lo pagar por seus crimes, cometi o erro primário de me afeiçoar a você. Talvez amá-lo, embora não soubesse o que era esse sentimento até o dia 23 de novembro de 1869.
Neste dia, fui a uma amiga tirar minhas dúvidas quanto a alguns enjoos impertinentes que me acometiam para ter a constatação de que eu estava grávida. E ao fazer as contas, foi fácil constatar que você é o pai. Mas diferente das outras ocasiões, não tive coragem de interromper a gravidez. Apesar de uma criança não ter espaço em minha vida, senti que ela talvez tivesse um significado maior a você, e que diferente dos outros homens com quem me envolvi, esse bebê poderia fazer a diferença em sua vida. Por isso, decidi manter a gravidez e permitir que o destino seguisse o seu curso, sem a minha interferência. Aproveitei os meses que precisava me manter escondida de Holmes e dos capangas remanescentes de Moriarty para ter essa gravidez em paz. Apesar de todo o desconforto que um bebê no ventre de uma mulher pode gerar, não é exagero dizer que esses foram os meses mais tranquilos de minha vida. Pouco a pouco, ele crescia dentro de mim. E pouco a pouco, eu precisava me convencer de que me separar dele era o melhor para todos nós.
Escrevo essa carta após vê-lo pela primeira vez. É um menino. Sinto que ele é a sua cara, o que tornará tudo mais fácil para você. Espero que herde também seu caráter. Ou talvez, de sua tia, Evie Frye, a quem eu lamento tanto quanto você conhecer nessas circunstâncias. O quanto menos ele carregar de mim, melhor para ele. Com sorte, será um completo Frye.
Não escolhi um nome para ele, pois não me sinto no direito disso. A partir de agora, serão só você e ele. Não há lugar para mais ninguém em meu estilo de vida, portanto farei aqui a promessa de nunca me aproximar dele ou de você.
Com amor,
Irene Adler.
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