Assassin's Creed: Aftermath

48 Você Era O Meu Mestre


Quando a porta se fechou pesadamente, Haytham sentiu alívio. Ele não queria que Tessa presenciasse sua luta contra Shay Cormac. Sem duvida, esta seria a luta mais difícil de sua vida, e sua filha pequena, tão inocente, era a última pessoa que ele gostaria que presenciasse esse combate tão mortal. Embora fosse um espadachim habilidoso, Haytham sabia reconhecer um oponente talentoso. E Shay sabia lutar como poucos. Ele já o vira em ação várias vezes. Tinha um estilo mundano, imprevisível de lutar, e ao mesmo tempo, ríspido e conciso. Haytham sequer era capaz de dar um palpite sobre o resultado dessa luta.

–Eu reconheço este manto... – disse Shay. – O Assassino que lutei naquele beco, no dia do incêndio... Connor, não é?

Ele não me reconheceu, percebeu Haytham. Deve pensar que sou o Connor.

–Sabia que cedo ou tarde você reapareceria. Pude notar que estava muito desejoso em me enfrentar. Provavelmente, deve pensar que é capaz de me derrotar. Mas sinto dizer, Assassino, que terei de por um fim em suas esperanças.

Mesmo com o discurso enjoativo de Shay, Haytham permaneceu calado, de perfil baixo, tal como um Assassino. Ele ainda estava pasmo com o quê a busca pela Caixa Precursora tinha feito com Shay, a julgar por seu discurso. Será que ele tinha se tornado igual a todos os Templários que ele conhecera? Não, totalmente. Sua filha Tessa estava bem. Assustada, mas inteira.

–O que foi? Está sem palavras, Assassino? Me parece, então, que você só conhece uma linguagem....

Haytham conhecia aquele movimento. Seus anos de batalha ao lado de Shay não tinham sido esquecidos. Shay moveu sua mão em direção à sua adaga e espada, desembainhando-a. Ele estava prestes a ataca-lo, e logo Haytham aparou o golpe com sua lâmina oculta, empurrando Shay para trás e assim, recebendo tempo o bastante para sacar sua própria espada. A luta era intensa. Tanto Shay quanto Haytham eram peritos em lutar, sendo profissionais em matar, o que tornava o combate equilibrado e intenso. Metal contra metal se encontrava em movimentos frenéticos e fortes, enquanto Shay se esquivava dos golpes físicos de Haytham, e vice-versa.

–Você é mesmo bom, Assassino. Parece que Achilles te treinou muito bem.

Haytham sentiu vontade de rir. Aquele velho jamais seria capaz de ensiná-lo desta forma. A luta cessou, com os dois adversários ofegantes, encarando um ao outro em cada canto do recinto.

–Achilles também foi o meu Mentor. Fez escolhas terríveis em meu tempo, iludiu a muitos com a idéia de liberdade, pouco se importando com a vida de inocentes. Aposto que ele está usando o mesmo discurso barato para obter sua simpatia.

Haytham segurava seu próprio riso. Aquilo estava divertido, mas ele sabia que precisava ir embora. Tessa estava lá fora – ele duvidava que Minowhaa fosse tão paciente assim para espera-lo – e ele não queria mais deixa-la sozinha. Ele precisava terminar com aquela luta, e já.

E havia uma boa maneira para isto.

–Shay. – disse Haytham, finalmente puxando seu capuz e exibindo seu rosto. O pasmo no rosto de Shay foi impagável. O capitão estava claramente embasbacado.

–Mestre Kenway?! – exclamou Shay, não evitando um antigo costume.

–Eu deveria matar você, Shay, por esta sua brincadeira de mau gosto envolvendo minha filha.

–Filha? A menina é sua filha? Mas... Então você está com eles... Os Assassinos... Depois de tudo que aconteceu, você está com eles...

–Eu não sou um Assassino, Shay. Estou aqui para buscar minha filha, apenas isto.

–E por que usa este Manto, então?! –esbravejou Shay, com asco. – Mestre Davidson tem toda a razão, você é um Traidor! Agora está ao lado dos Assassinos! Aposto que está ajudando aqueles desgraçados, contando todos os segredos da Ordem!

–Claro que não! – protestou Haytham. – Este Manto pertenceu ao meu pai. Eu o usei para passar despercebido, e também porque queria resgatar minha filha sem chamar atenção.

–Então há algo errado, porque este é o mesmo manto do Assassino que enfrentei no beco, no dia do incêndio da fábrica de canhões. Sem dúvida, aquele Assassino era alguém muito próximo de ti, ou mesmo você!

–Shay... – pedia Haytham, em um tom apaziguador. – Eu sempre tive fé em você. Sempre vi potencial em suas habilidades, mesmo em sua inteligência. Você foi um dos melhores homens que já tive o prazer de comandar, e acredite, não foram poucos. Eu quero que você abra os olhos. Howard é um homem perigoso, ele...

–Pois ora veja, ele diz o mesmo de você! – exclamou Shay, em descrença. – Enquanto eu buscava a Caixa Precursora, por toda a Europa, eu soube de seus crimes. De todas as suspeitas que recaem a você, por você ter matado seu próprio mentor...

Então ele já sabe sobre Birch. Isso não é nada bom...

–Não é tão simples quanto parece...

–E eu sei que você matou um dos homens de Howard, na floresta. Um pouco antes de você abandonar os Templários. Você ainda teve coragem de enterrá-lo em uma cova rasa!

Haytham arregalou os olhos.

Como diabos ele sabe disto?

–Eu achei o corpo. – disse Shay, como se adivinhasse sua pergunta – E acredite em mim, foi por causa de minha consideração que eu não contei a Howard sobre a localização do corpo. Quando ele souber... Você será um homem morto!

Haytham ficou amedrontado. Antes que pudesse esboçar uma reação, entretanto, um guarda desavisado apareceu, e gritou de pavor ao ve-lo. Suas vestes de Assassino deveriam mesmo causar medo a mais frágil das pessoas. Aproveitando-se dessa distração, Haytham começou a correr em direção à janela, a tempo de desviar de uma bala certamente disparada por Shay. Mas apesar disto, Haytham conseguiu saltar pela janela e cair, procurando se esgueirar pelas sombras. Ele percebeu que Shay saltara da janela um pouco depois de si, mas não teve qualquer pista do que mais fizera o Templário. Por fim, ansioso em escapar, Haytham correu até o buraco do muro, deslizando bruscamente. Parte de sua roupa – melhor dizendo, do Manto de seu pai – se rasgou, permanecendo agarrada ao muro, o que causou pena a si, por ver uma relíquia de seu pai ser destruída. Connor ficaria furioso em ver que seu Manto estava praticamente arruinado. No entanto, aquela não era hora para lamentações.

–Minowhaa? – exclamou Haytham, ao notar a presença do Assassino perto dos cavalos. Ele percebeu que Tessa não estava com ele. Antes que o questionasse sobre isso, o nativo foi mais rápido.

–Mandei Amália levar Tessa para casa. Achei que era melhor eu te esperar.

–Ótimo. Vamos embora! – pediu Haytham.

Quando Haytham estava prestes a montar no cavalo, ele olhou para o chão e percebeu uma sombra. Como por instinto, Haytham se esquivou e notou algo cair diretamente para o chão. Em seguida, Haytham sentiu seu braço picar em dor, e um fina camada de sangue surgir no tecido branco de seu Manto.

Haytham não teve tempo de raciocinar, mas tinha acabado de escapar de um assassinato aéreo. Porém, ao ver Shay levantar-se com habilidade do chão, ele notou que Minowhaa não tivera a mesma sorte.

–Não! – gritou Haytham, ao ver Minowhaa imóvel, com o rosto virado ao chão, tendo seu manto já carmesim de sangue na região próxima ao seu pescoço.

–Nós não terminamos a nossa conversa, Grão-Mestre...

Enfurecido, Haytham estava prestes a se preparar para mais uma batalha a ser travada contra Shay, mas suas expectativas foram interrompidas por um súbito disparo de arma de fogo. A queda repentina de Shay no chão o fizera entender o que tinha acontecido.

–Ninguém... Me mata... E sai caminhando... – balbuciou Minowhaa, tendo apenas seu braço estendido com a arma em punho, ainda expelindo fumaça do recente disparo, até deixa-la cair no chão e sucumbir por completo à Morte. Haytham correu para perto de si, mas viu que era tarde. Minowhaa ainda se mexera por mais alguns segundos, até paralisar-se, já morto.

Naquele momento, Haytham tocou na lateral de seu próprio pescoço. Morrer por uma lâmina oculta. Ele parecia conhecer a sensação, sabe-se lá como. E sabia que não era uma morte fácil de se sentir.

–Descanse em paz. – disse Haytham, fechando os olhos vidrados do nativo. Olhando ao redor, Haytham sabia que aquele não era lugar para deixar o corpo de ambos. Sim, ambos eram dois bastardos irrecuperáveis, mas de alguma forma, tinham sido importantes para Haytham, em algum momento de sua vida. E ninguém merecia ter seu corpo devorado por um lobo ou lince, no meio da umidade da floresta.

Haytham amarrou os dois corpos à cela do cavalo de Minowhaa e seguiu por uma viagem rápida, e um tanto reflexiva de volta para casa. Agora, ele tinha uma notícia dura para dar pela frente, especialmente à Irmandade.

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O sol já estava terminando de nascer quando Haytham se viu próximo de sua propriedade. Ele teria chegado em casa rapidamente, se não fosse pelo andar lento do cavalo que lhe acompanhara, a carregar os corpos de Shay e Minowhaa. Ao pôr os dois animais atrelados no estábulo – ele ainda estava pensando em como contar sobre a morte de Minowhaa –, Haytham caminhou até a porta. Sua chegada logo foi recepcionada por Connor, Ziio e Amália.

Com o semblante aliviado em vê-lo vivo, Ziio estava prestes a lhe abraçar, mas Connor foi mais rápido, desferindo de imediato um soco no rosto de seu próprio pai.

–Ratonhnhaké:ton! – exclamou Ziio, em horror perante a fúria de seu filho.

–Por que você fez isto, hein? Me deixou inconsciente, roubou o meu Manto... Sabia que usar um Manto não te torna um Assassino?

Haytham ainda massageava seu queixo. O golpe foi tão forte que o fez cambalear e cair no chão. Sem dúvida, Connor tinha um esquerdo insuperável.

–Bom, se Ezio Auditore da Firenze o fez, por quê eu não poderia?

Connor bufou como um touro, irritado pela zombaria de seu pai, que para completar, conhecia bem a História dos Assassinos – talvez até mais do que si, que jamais soubera deste fato a respeito do lendário Ezio Auditore que tanto Achilles contava em suas histórias. Ziio lançou sobre Connor um olhar repreensivo por sua atitude agressiva, mas preferiu não prosseguir com qualquer discussão. A nativa preferiu ajudar Haytham a se levantar do chão.

–Como está Tessa? – perguntou o ex-Templário.

–Dormindo bastante, na verdade. Nossa filha é forte. Logo superará isto.

–Eu sei. – disse Haytham, dando um beijo na bochecha de Ziio. Ao olhar para Amália, ainda vestida em seu Manto de Assassino, entretanto, Haytham se lembrou imediatamente de Minowhaa.

–Er, filho...

–Pensa que me chamar de filho irá melhorar as coisas? Seu...

–É sobre Minowhaa, Connor. – interrompeu Haytham, sem paciência para os resmungos de Connor. – Ele... Ele está morto.

–O quê?! – exclamou todos os presentes.

–Ele acabou morrendo em combate. Eu também me feri. – disse Haytham, mostrando o corte profundo em seu braço, provocado pela lâmina de Shay. – Eu trouxe o corpo dele. Não poderia deixa-lo na mata, afinal. Imagino, Ziio, que seu povo tenha algum ritual de passagem, ou algo assim.

–Sim, temos. – disse Ziio, aparentando tristeza. – O melhor a se fazer é levar o corpo para Aldeia. Minowhaa merece um funeral adequado, seguindo todo o rito Mohawk.

–Vamos fazê-lo o mais rápido possível. Onde está o corpo? – perguntou Connor.

–Está no estábulo. – ao dizê-lo, Haytham imediatamente se lembrou do corpo de Shay, que também estava lá, ao lado de Minowhaa. – Er... Também há outro corpo lá.

–Outro corpo? – estranhou Connor. – Mas quem mais morreu?

–Um amigo meu. Um antigo amigo meu... – Haytham parecia hesitante. – Shay Cormac.

Ao perceber os protestos de Connor, Haytham retrucou.

–Entenda, Connor, eu não poderia deixar o corpo dele para ser devorado por animais na floresta.

–Realmente, pai? O que será agora? Irá querer enterrar esse Templário maldito ao lado de Jim? Ou então, podemos mandar rezar uma Missa para ele. Seria ótimo, não? – zombou Connor.

–Deixe de zombaria e escute por favor, meu filho. Nós não faremos nada pomposo, está bem? Basta o enterrarmos no cemitério dos colonos. Simples assim.

–Aposto que este Shay estava ajudando no sequestro de minha irmã.

–Na verdade, sim, mas ele não era o Mentor do sequestro. Tal ato não faz parte de seu repertório. O Mentor desse sequestro era Charles Lee, sem dúvida. O problema é que eu sequer pude encontra-lo para dar uma lição por isso. Shay apareceu primeiro, e como eu estava pensando o tempo todo em tirar sua irmã daquele lugar, eu declinei de qualquer tentativa de vingança.

–Se eu estivesse lá, eu teria dado um fim em Shay Cormac, e também em Charles Lee! – resmungou Connor.

–Oh,mas eu não tenho dúvidas, e aliás, sempre que penso nisto, tenho mais certeza de que fiz o correto, porque o seu ímpeto não traria sua irmã viva para casa. Mas como deve ter percebido, Shay não maltratou Tessa. E não olhe para mim com este semblante enfurecido. Nós dois sabemos que cedo ou tarde ela seria uma armadilha para te atrair, porque eu sei que você caminhava com sua irmã pela cidade usando este Manto.

Ao notar que Connor estava prestes a dar mais uma resposta mal-criada, Amália decidiu interferir.

–Acalme-se, Connor. – pediu a moça. – Vamos ao estábulo, dar um destino decente a estes corpos.

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Ambos os corpos ainda estavam próximos um ao outro.

Amália e Ziio deixaram escapar lágrimas, ao verem o estado do corpo de Minowhaa. Ele já estava pálido e claramente tinha perdido muito sangue. Seu pescoço estava coberto de sangue, que já secara, formando uma crosta carmesim.

O corpo de Shay, vestido em uma armadura templária, estava caído do outro lado. De costas, era possível ver que o tiro de Minowhaa não fora completamente certeiro em acertar pontos vitais, mas fora bom o bastante para abater o Templário.

Foi o próprio Connor quem desvirou o corpo de Shay, para olhá-lo face a face. Seus olhos estavam fechados e sua boca levemente torcida pela dor. Sem dúvida, ele tivera uma morte dolorosa, e isso dava ao Assassino alívio, por saber que seu rastro de morte e destruição aos Assassinos não mais voltaria a acontecer naquele tempo.

Sua história de sangue não mais se repetirá, Shay, disse Connor em Mohawk, num som quase inaudível.

–Espero que não tenha lançado nenhuma maldição à alma dele, Connor. – resmungou Haytham, irritado porque sempre se sentia excluído quando sua esposa e filhos resolvem falar em Mohawk. Um dia, ainda aprendo essa maldita língua.

–Um homem como este já carrega maldição o bastante. – retrucou Connor, recebendo um olhar repreensivo de Ziio.

–Deixem de discussão, filho. Seu pai está certo. Esse homem pode ser nosso inimigo, mas merece algum respeito na hora da morte. Faremos como seu pai disse.

–Está bem. Só não me peçam para carregar o corpo dele também. – disse Connor, carregando o corpo de Minowhaa.

–Eu farei isso.

Quando Haytham começou a puxar o corpo de Shay do monte de feno, acabou por escutar um grunhido, que o fez deixar cair o corpo instantaneamente. A queda ao chão fez Shay soltar um suspiro de dor.

–Maldição... – murmurou Haytham, ao perceber que ele ainda tinha pulso, apesar de ter uma bala alojada em suas costas. – Ele ainda está vivo!

–Não por muito tempo...

Ao perceber que Connor já ejetara sua lâmina com o intuito de mata-lo, Haytham o deteve, lançando sobre seu próprio filho um olhar ameaçador.

–Se tem uma coisa que eu te ensinei em seu treinamento, meu filho, foi a ser mais misericordioso. – disse Haytham, detendo Connor. – Ou no mínimo, mais inteligente.

Notas finais
Então Shay estava vivo, morreu, e reviveu. É, parece que é preciso mais que isso para matá-lo. E Connor que não sossegue. Haytham já deixou bem claro que quer seu ex-braço direito vivo. E pelo que parece, ele tem planos... O fim está próximo... Obrigado por acompanharem a fanfic, desde os leitores antigos até os mais recentes. Estamos indo para quase um ano de postagem - pelas minhas contas, chegaremos a um ano de postagem - e estou com planos de criar algo especial. Só não sei direito o que é, mas em breve vocês saberão. Obrigada, e até o próximo cap!