Assassin's Creed: Aftermath

42 Uma Pendência A Ser Acertada


Desde o momento em que o Templário lançara aquela bomba de fumaça, eu sabia quem ele era.

Shay Cormac. A mão executora de toda a desgraça da vida que abandonei. O homem que matara, um a um, todos os Assassinos que ajudei a formar. O homem que reduzira, mais uma vez, a Irmandade dos Assassinos a pó. E mais uma vez, ele estava diante de mim, em carne, osso e petulância, desejando me afrontar.

Eu desejava muito reencontrá-lo, ter finalmente a chance de superá-lo, de dar um fim ao seu ímpeto em destruir os Assassinos. Esse reencontro seria perfeito, se não fosse a presença de Amália ali. Assim que o notei, eu pensei nela. Por mais bárbaro e terrível que Shay Cormac fosse, ele era o pai dela, afinal! Pai e filha estavam diante de si, em lados opostos da Guerra. Situação não muito diferente da que vivi, na realidade que abandonei, e eu não queria que Amália experimentasse algo do tipo.

E para completar, ela desejava mata-lo.

E ele queria a mesma coisa, também.

De forma alguma poderia permitir que ela cometesse o mesmo erro que eu. Por isso, com muita dor em meu coração, e também percebendo que não havia alternativa, eu a golpeei. Sabia que ela se lembraria disso, assim que acordasse. Sabia que teria muito a lhe dizer, a me explicar. No entanto, mesmo que isso servisse para sepultar algo que mal tinha terminado de nascer, eu o fiz. Ao menos, as mãos dela não estariam sujas do sangue do próprio pai, como estavam as minhas.

Notei que Shay estava horrorizado com o meu gesto, afinal eu golpeei um aliado. Não perdi a oportunidade de menosprezá-lo.

–Surpreso, Templário?

–Por atacar seu próprio aliado pelas costas? Não totalmente. Parece que a falta de lealdade dos Assassinos de meu tempo se perpetuou. Confesso que esperava algo melhor vindo de vocês, que o passar dos anos trouxesse sabedoria. Mas vejo que me enganara.

Havia dor em seus olhos, eu senti. Segundo meu pai, ele era uma boa pessoa que tinha tomado decisões difíceis, mas disso eu duvidava. Ele matava sem pensar duas vezes, sem perguntar ou questionar. Era um verdadeiro cãozinho às causas Templárias. Tenho certeza de que meu pai sabia disso, mas jamais diria tal coisa dele. Por isso, seu olhar ferido era incapaz de reparar minha opinião a seu respeito.

–Não estava desejando uma luta, Templário? Por que não começa logo?

O olhar ferido deu lugar ao olhar que eu esperava. Não mais dor saltava de seus olhos, mas apenas a sede de sangue e aniquilação que eu já conhecia. E então, com a agilidade de quem tinha a morte como ofício, o Caçador de Assassinos sacou sua espada e adaga, ficando em posição parecida com a da época em que lutamos pela primeira vez.

Foi então que nosso combate começou.

Minha Tomahawk batia em sua espada de forma frenética. Metal contra metal, tentávamos deter o avanço um do outro, e ao mesmo tempo aparar golpes surpresas. Ele estava tão implacável e forte quanto à primeira vez que lutei contra ele, eu notei. Mas eu conhecia bem sua forma de lutar, pois aquela não era a primeira vez que o enfrentava. Tenho certeza de que meu conhecimento prévio tornou a luta mais equilibrada.

Sem dúvida, o vencedor partiria do cansaço e aquela batalha teria um longo desdobramento. Ele tinha um bom preparo físico, apesar da idade. Aquela luta só serviu para mostrar que sem dúvida, aquele Templário foi o homem mais forte que enfrentei em toda a minha vida, e temo que jamais haverá outro Templário que possa superá-lo. Enquanto lutávamos, eu tinha a impressão de que poderíamos lutar por horas a fio, pois nenhum de nós dois estava disposto a ceder.

Mas o próprio subterfúgio que criei serviu para decretar o fim daquele combate. Casacas-Vermelhas apareceram repentinamente naquele beco, e como era de se esperar, estranharam dois homens completamente encapuzados lutando.

–Parado aí! – gritou um deles.

Antes que os demais pudessem reagir, o Templário atirou uma bomba de fumaça, causando confusão. Decidi correr dali, ao notar que Shay Cormac fizera o mesmo. Pensei que ele estava, na verdade, com as mesmas intenções que eu, de procurar outro local para continuarmos nosso combate particular, mas aquele Templário tinha o notório poder de me surpreender.

–Sua luta serviu para me divertir, Assassino. Mas infelizmente, terei de adiá-la para outro momento. – ele disse, correndo pelos telhados, para longe de mim e daquela confusão.

–Covarde! – exclamei, inconformado por ver que ainda não tinha sido capaz de derrota-lo. Quanto mais tempo teria de esperar para conseguir retribuição por todo o mal que ele me causara?

Quando preparava para dar meia-volta e sair daquele telhado, acabei sendo surpreendido pela presença de Amália, de braços cruzados, bastante amedrontadora, a me encarar. Seu olhar trazia ódio e também decepção.

Antes que eu pudesse dizer uma palavra sequer do meu discurso previamente preparado, ela desferiu um soco em mim. Tão forte que cheguei a sentir sangue em minha boca. Atordoado, passei minha língua ao redor dos meus dentes. Por sorte, estavam todos em seus devidos lugares.

–Bater-me pelas costas. Jamais esperava isso de você, Connor Kenway. Espero que possua uma explicação muito convincente para me dar. Além de um elixir para minha dor de cabeça, é claro.

–Eu posso explicar, Amália. Mas não aqui. Vamos voltar para o seu pub.

Fizemos o caminho dali até o pub saltando pelos telhados e escalando muros e árvores, sem dizer qualquer palavra um para o outro. Eu sabia que ela estava chateada comigo – e com razão. Uma vez, Norris me disse que não deveríamos tentar nos justificar quando as mulheres estavam irritadas conosco. Só agora eu posso entender o que ele quis dizer com isso, por isso, preferi o silêncio. Qualquer coisa que eu dissesse só iria piorar minha situação.

Quando chegamos, o pub já estava fechado. Provavelmente, a confusão do dia afastou os clientes, mesmo os mais assíduos. Caminhamos até os aposentos de Amália, nos fundos do pub. Após batermos, tivemos a porta aberta por meu pai, algo que me causou extremo alívio.

–Como está Duncan? – perguntou Amália, dando uma cotovelada grosseira em mim para abrir caminho e adentrar àquele cômodo.

–Se recuperando, Miss Lawler. – respondeu meu pai, Haytham. – Seja lá o que fizeram, deu certo. Não havia qualquer pessoa na rua. Conseguimos traze-lo em total segurança até aqui.

–Ótimo. – respondi, com sinceridade. – Amália, podemos conversar às sós?

Ela se limitou a assentir. Sabia que estava furiosa comigo, e com razão.

–Sim. – ela disse, após rolar os olhos. – Vamos para o meu quarto.

Um pouco antes de sair, percebi que meu pai trazia um olhar extremamente malicioso. Decerto, as palavras de Amália não passaram despercebidas por ele. Senti-me corar, mesmo sabendo que o convite dela estava longe de ser para os propósitos que a mente maldosa de meu pai estava pensando.

Assim que Amália acendeu uma vela e o ambiente tomou-se de luz, pude perceber que o quarto dela era bastante simples, mas caprichado. Havia uma pequena mesa com papéis e livros, provavelmente que davam conta da contabilidade do pub, além do fato de Amália estar aprendendo a ler e escrever. Um pequeno vaso de flores era o único adorno daquele singelo quarto. Claro, havia ali um pequeno toque feminino, que me lembrava vagamente do quarto de minha irmã Tessa.

Amália sentou-se à beira de sua cama de solteiro e me ofereceu uma cadeira para eu me sentar, algo que fiz prontamente. Um tanto sem jeito, procurei pelas palavras corretas para serem ditas naquele momento – por mais que eu sentisse que as chances de justificar minha agressão eram nulas.

–Obrigado... Por não mencionar ao meu pai o que aconteceu conosco naquele beco.

Seria esta uma boa forma de começar?

–Não pense que foi para te safar. Só quis poupar seu pai do desgosto de saber que tem um filho tão covarde.

Bom, parece que não.

–Amália...

–Connor, porque você fez isto? – ela me questionou, levantando-se da cama e começando a andar de um lado a outro. – Juro que estou tentando entender.

–Eu não quis que você entrasse em confronto com ele, só isso.

Não era uma mentira, por completo. Mas verdade seja dita, minha explicação estava deveras incompleta. Por hora, deveria servir.

–Só isso? Connor, eu sei que sou uma “noviça”, como vocês tanto dizem, mas apesar de eu estar em um nível baixíssimo da Ordem, eu sei cuidar de mim mesma. Eu já enfrentei outros homens, e sozinha.

–Não um homem como aquele. Shay é...

–Shay? – ela pareceu surpresa. – Como sabe o nome dele?

Fiquei atordoado. Como pude deixar escapar algo assim?

–Ele acabou mencionando, um pouco depois de você desmaiar. O nome dele é Shay Cormac. Meu pai já me falou a respeito dele. Acredite, ele é um dos Templários mais perigosos da América.

–Só pode estar exagerando...

–Não estou, Amália. Eu poderia estar morto, a uma hora destas. Aquele homem é muito forte e habilidoso. Você viu como ele atua.

Ela virou as costas a mim, momentaneamente, quando tornei a ver seu rosto, notei um olhar pensativo.

–Por um momento, eu... Esquece. – ela disse, voltando atrás em suas palavras. Fiquei alarmado. Será que ela o achou familiar? Ou era o instinto de filha falando mais alto?

–Esquecer o quê? – questionei, tentando sondá-la. Por fim, ela cedeu.

–Bom, pode parecer bobagem, mas ele tinha um jeito de lutar muito parecido ao de Minowhaa, ou mesmo ao seu. Poderia se dizer que vocês foram treinados pela mesma pessoa.

–Ele já foi um Assassino.

Amália arregalou os olhos.

–Um traidor, então? Bom, não me surpreende que ele seja tão temido assim.

Quando a escutei suspirando, provavelmente por dor na cabeça, decidi que era hora de me aproximar.

–Entende porque eu fiz isto?

Tocando a região da cabeça, ela assentiu.

–Só não gostei da sua forma de dizer “fique fora disto”. Creio que há formas melhores de ser persuasivo.

Senti uma súbita vontade de rir, mas me contive. Isso só a irritaria mais e mais.

–Perdoe minha falta de... Persuasão, então.

Notei um sorriso se desenhar em seus lábios.

–Está mais para excesso que falta, Connor. E por favor, não recorra mais a tais artifícios. Agora, preciso descansar. Amanhã tenho um dia cheio pela frente, e para piorar, tenho certeza de que acordarei com uma dor de cabeça pior que de uma ressaca causada por vinho barato.

Senti-me aliviado por ve-la com o humor um pouco melhor. Assenti, dando-lhe boa-noite. A hipótese de beijá-la na testa ou na bochecha chegou a passar por minha mente, mas acabei hesitando e me limite a afagar seu ombro. Antes de fechar a porta, ainda pude ouvi-la soltar um palavrão por causa da dor de cabeça, mas decidi deixar isto para lá.

Quando desci as escadas de seus aposentos, notei meu pai na sala, sozinho. Sabia que comentários a respeito da suposta “proposta” de Amália viriam, mas nada acabaria com meu humor naquela noite.

Quão tolo fui eu por pensar tal coisa.

–Espero que tudo tenha dado certo. Afinal, mulheres não costumam gostar de tamanha rapidez.

–Rapidez? Mas do que está falando?

–Ora meu filho, não se faça de desentendido. É natural que na primeira vez, haja certa ansiedade e...

Ele sequer tinha terminado a frase, mas suas palavras foram o bastante para me deixar corado.

–Pai, por favor... Nós apenas conversamos. Não aconteceu nada.

Ele ficou desapontado.

–Nada, Connor? Só conversa? Bom, espero que não a tenha irritado, pelo menos. Ela já parecia o bastante, quando a vi chegar.

–Pai, eu enfrentei Shay Cormac.

Minhas palavras o fizeram congelar, parando imediatamente de caminhar. Ele voltou-se para mim, com o semblante preocupado. A julgar por seu olhar, percebi que ele estava procurando por ferimentos. Isso me indignou um pouco. Será que eu não era forte o bastante aos seus olhos para detê-lo e sair desta batalha sem graves ferimentos? Ou esse Shay Cormac era mesmo tão mortífero assim, como ele dizia?

–E... Shay está vivo? – perguntou, no que notei ser um tom preocupado. Tenho certeza de que o tom de minha voz, em sua resposta, não ocultou minha indignação por sua preocupação com o Templário.

–Não se preocupe tanto, pai. O calhorda está vivo, sim. Um grupo de Casacas-Vermelhas apareceu, e nossa luta foi interrompida por isso.

–Que bom. Para vocês dois, quero dizer. – ele disse, tentando parecer menos preocupado com seu “pupilo”.

Mas Shay Cormac não era exatamente o assunto que eu desejava tocar.

–Pai... Amália estava comigo, no momento em que Shay apareceu.

O semblante de meu pai se agravou. Continuei.

–Está cada vez mais difícil esconder a verdade dela. Não sei o que fazer. Tenho medo de perde-la, se ela descobrir que eu menti por tanto tempo.

–Filho... – ele começou. – Se Amália souber sobre Shay, ela irá procura-lo. Eu não temo por ele, pois sei que ele irá acolhe-la de braços abertos. O problema são os demais Templários. Eles não irão gostar de ter uma Assassina em seu meio. Se você realmente sente qualquer afeto por ela, mantenha essa verdade consigo. Não há como ela saber, ao menos que eu ou você conte toda a verdade. Agora, vamos para casa.

Assenti, repetindo mentalmente as palavras de meu pai, numa maneira desesperada de me convencer, e quem sabe, trazer mais alívio ao meu ser.

Não há como ela saber. Não há como ela saber...

Notas finais
SERÁ??? SERÁ??? #falonada Então? Furiosos porque ninguém morreu por hora?? KKKKK Espero que não. Quando eu começar a matar o pessoal, vocês vão ficar furiosos. Pessoal, vão aproveitando que ninguém está morrendo. Estamos indo para reta final... Sério... Coisas irão acontecer, rs. E taí o soco da Amália!!! Quase arrancou os dentes do Connor, coitado. Ainda bem que ele tem a arcada dentária bem forte. E de boa, ele tava merecendo uns tabefes mesmo. Bater na menina, e pelas costas... Connor, vc caiu no meu conceito, cara... É Haytham, não foi desta vez. Fica pra uma próxima. E pare com essas insinuações. Isso deixa o Connor ainda mais inibido. Pessoal, espero que tenham gostado do cap. Até que ele acabou calminho, rs. O próximo será beeem tretoso, também. Mas não vou adiantar detalhes, para não estragar a leitura de vocês. Um grande abraço, obrigada por acompanharem, e até breve!!!