Assassinos Não Choram

1 Isso é Apenas Uma Ilusão


Notas iniciais
Usei essa música tema para ambientização da ultima narrativa do capitulo: Nancy Sinatra - Bang Bang (My Baby Shot Down. Quem quiser acessar, está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=qgDrpWWxuto

26 de Outubro de 1950

Eram os primeiros dias de verão na cidade de Marion e o céu estava uma cor salmão ao pôr do sol. Parentes e convidados se encontravam naquele fim de tarde na casa de Carolina. De fato aquele evento era a oportunidade para muitas pessoas ali presentes poderem falar um pouco de si, de suas conquistas, o quanto eram importantes, sobres suas viagens para o exterior, da sua marca favorita de carro ou de bolsa, muitos se saudando com abraços falsos com um certo asco. A cada familiar da noiva que chegava o ódio e a inveja se espalhavam por aquela sala, que estava toda decorada com enormes lustres de cristal, que brilhavam tanto quanto os olhos de Carolina Morando.

Ela esta em seu quarto; se prepara para o que considerava o momento mais importante de sua vida, depois do nascimento de seu filho, Breno. Carolina usava um vestido bicolor: na parte do colo, uma peça lisa de corte “V”, tanto na frente como atrás; embaixo dela, uma saia branca acoplada com forro e tule, que ajudam a dar um efeito mais rodado ao vestido; ainda usava echarpe e luvas brancas que combinavam perfeitamente com seus cabelos loiros.

Ela tinha um ótimo senso de moda e uma enorme coleção de vestidos, muitos dos quais havia usado em alguns filmes que protagonizou. O motivo de muitos ali estarem vem do fato de Carolina, durante uma etapa de sua vida, ter trabalhado como atriz. Ela havia feito poucos filmes, tivera uma breve passagem pelo mundo do cinema, mas que deixou sua marca, e por isso tinha muitos admiradores, tanto por sua beleza, como por seu talento. No entanto, tivera se apaixonado por um dos seus colegas de filmagem, e logo então, teria abandonado sua profissão para ter um filho com ele, mas que não teria um final feliz, já que durante a sua gravidez, seu então marido, havia sido diagnosticado com uma doença rara. Não demorou muito e ele veio a falecer. Eis que Carolina dedica sua vida a cuidar de seu filho, que amava muito.

Ela estava deslumbrada com aquele momento, era como se a vida estivesse dando-a uma segunda oportunidade de ser feliz; nada naquele momento poderia lhe causar algum incomodo, ela acreditava que todos estavam ali presentes pois a amavam e admiravam. Tudo ao seu ver, era perfeito.

Em um dos cômodos da casa encontra-se Francine Lorenzo, uma mulher muito bonita, morena de cabelos curtos ondulados, seus olhos eram verdes e ficavam muito bem destacados com a maquiagem de cor escura; carregava com ela um batom rosa que a todo instante passava em seus lábios. O que parecia ser mais uma convidada, trabalhava para Carolina a alguns anos já; tem uma personalidade muito manipulável, entregava-se para o primeiro homem que lhe dissesse aquilo que ela gostaria de ouvir. Ela conversa com Gustavo Sá, o anfitrião, mais diretamente o noivo. Diferente de Carolina, ele não estava tão empolgado com a festa, seu comportamento era de tranquilidade, segurava um cigarro, seus olhos falavam por si. Gustavo havia conhecido Carolina não fazia muito tempo, ela teria se encantado com o charme de galã dele, talvez via nele alguma característica do seu ex-marido. Assim como ela, também era viúvo e tinha uma filha. Deveria ter 1,84 de altura, sua pele era bronzeada, seus olhos escuros, tinha seus 30 e poucos anos. Gustavo e Francine mantinham um romance secreto. Eles estavam sozinhos, trocavam beijos, sem medo de serem pegos; após alguns minutos de beijos, eis que vem a pergunta num tom angustiante:

— Você realmente quer ficar comigo? — Inquiriu Francine, com os olhos já cobertos de lágrimas, temendo serem rejeitados.

— É o que eu mais desejo... Assim que eu tiver toda a herança de Carolina, iremos embora juntos. — Uma mentira que estava visível em seus olhos. Ele abre um sorriso sarcástico — Você não quer saber o que eu posso fazer.

— Sim, eu quero então. — Eles trocam sorrisos.

Na sala principal, Carolina, uma loira platinada de aparência ingênua chique, que se caracterizava pela naturalidade e jovialidade, dona de exuberante elegância e aparentemente feliz, recebe todos os seus convidados com uma recepção bem aconchegante, o que não sensibiliza as suas irmãs, Marceli e Eliane. O que elas não suportam é a ideia do seu pai ter deixado tudo para Carolina, assim criando uma rivalidade, pelo menos a segunda tem esse pensamento.

"Chique" é a palavra que define Eliane Morando. Usava um vestido feito exclusivamente para mulheres elegantíssimas. Seus olhos negros marcantes combinavam com seu cabelo volumoso, poderia ser dita como a mulher mais linda da cidade se não existisse sua irmã Carolina. Em sua companhia estava Marceli M. Durand, uma mulher encantadora dona de olhos cor violeta que se destacam em seu rosto; era mais discreta em sua vestimenta, mas não deixava de ser mais uma bela filha de Mauro Morando, que em vida se gabava por ter as filhas mais lindas e desejadas daquela cidade.

Carolina caminha em direção de suas irmãs:

— Fico feliz pela presença de vocês aqui, esse momento é muito importante para mim. — Diz ela.

— Não seríamos uma família se não estivéssemos aqui. — Disse Eliane, que em seu pensamento queria falar sobre a injustiça de seu pai e às consequências que isso poderá levar.

— Eu queria de certa forma pedir desculpas, imagino que deve estar chateada com a decisão inesperada do papai, mas quero te assegurar que após o casamento irei passar a parte por direito a cada um de vocês. — Completa Carolina, em respiração ofegante.

— Papai deveria ter pensando assim também. — Completa Eliane em tom alterado.

— Acho que não temos parte por direito. — Questiona Marceli — Porém eu já sabia que não estaria incluída em seu testamento, surpresa foi ter ficado tudo para você. — Afirma ela. O que deixa Carolina aparentemente nervosa, irritando ainda mais Eliane, que não esconde seu descontentamento.

— Isso deve ter sido um engano, podemos reparar isso. — Finaliza Carolina.

E nesse fim de conversa, entra Marcos Morando, o filho mais novo de Mauro. Um rapaz bem jovial, sorriso encantador, fisicamente magro, cabelo penteado, usando um terno cinza. Sua cabeça tinha um formato engraçado e por isso havia tido muitos apelidos na infância. Logo avista sua querida irmã Carolina, que não esconde a emoção, ela pede licença a suas irmãs e vai abraçar Marcos.

— Carolina, como você está linda! Estou muito feliz por você. — Abrindo um largo sorriso.

— Lindo está você, nossa, está um homem... — Eles trocam sorrisos. — Fico muito feliz pela sua presença, não tinha certeza se você viria, estava sentindo a sua falta nesse momento tão importante em minha vida.

Sorrindo, diz: — Tenho certeza que dentre todos aqui, sou o mais orgulhoso e feliz por você. Torço por sua felicidade sardenta! — Apelido carinhoso dado quando criança á Carolina. — E Breno? — Pergunta Marcos.

— Deve estar por aí brincando com Caroline, a filha de Gustavo.

— Gustavo é seu noivo, certo? — Pergunta ele, olhando para os lados, tentando avistá-lo.

— Sim, ele é pai viúvo, tem uma linda filha, muito esperta. Encontro de dois viúvos, resultou num casamento.... Está namorando? — Pergunta ela rindo.

Marcos se rende e ri junto.

— Não, no momento grande parte do meu tempo é dedicado ao estudo de medicina, que exige muito de mim, mas quem sabe eu encontre alguém aqui hoje. Papai sempre acreditou em mim. — Termina ele, colocando as mãos em seus bolsos e rindo.

— Papai realmente se orgulhava muito de você. — Conclui ela, que olha para o seu lado e vê um fotografo. Então tem a ideia de tirar uma foto com seus irmãos, para deixar registrado o momento.

Caroline olha para todas as direções, procurando por seus irmãos, ela então pede para chamá-los, insistindo.

Sentadas no sofá Eliane e Marceli conversam:

— Dividir a herança, ela realmente acha que eu acredito nessas palavras doces dela, está pouco se importando conosco ou com nossos direitos.... Logo que casar, vai ir embora com toda a herança pra ela. "Deve ter algo que eu possa fazer". — Diz Eliane, não escondendo seu rancor e capacidade de vingança.

— Não há nada que possamos fazer, a não ser acreditar ou aceitar qual seja a sua decisão. — Em seguida diz — Vamos lá, ela está nos chamando. — Insiste Marceli.

— Eu consegui tudo o que eu quis até agora, isso não será problema, com certeza farei algo para mudar isso. — Finaliza Eliane.

Na sala de jogos, estavam sentados e bebendo uísque Nilton Morando, o mais velho, que evidenciava pelos fios brancos que havia em seus cabelos, tinha aparência rude, soltava uma baforada de fumaça, retirada de seu charuto; Diego Prestes um homem elegante e formal, era típica pessoa que ouvia e depois falava, não era de se exaltar fácil, fisicamente magro e com sorriso sempre presente em seu rosto, Eliane teve a sorte de casar-se com um homem tão encantador; Flavio Durand, um adorável francês, que havia se mudado a pouco tempo para a cidade, ainda aprendendo melhor o português, nessa encontrando Marceli, que não teve aprovação de seu pai, resultado numa fuga com ele, sendo o mais charmoso daquela cidade, talvez por ser um francês, trazendo um charme gringo, ele ainda cultiva muitos dos aspectos da sua terra natal. Ali, os três conversam sobre diversos assuntos, entre esses dominava os negócios da família que tomaram rumos errados. O que os irrita muito, é o fato de tudo aquilo ficar no poder de uma mulher.

— Ela certamente não saberá administrar os negócios do falecido Mauro. — Diz Diego sentado, enquanto pegava seu copo de uísque.

— Nessas horas eu fico indignado. O que se passa na cabeça do meu pai, em deixar tudo para Carolina, que não tem experiência alguma? Ele quer que afunde tudo e ninguém possa se beneficiar, eu sabia que ele faria qualquer coisa para que eu não tocasse em seu dinheiro , mas chegar nesse ponto foi surpreendente! — Esbraveja Nilton, quando é interrompido por Marcos, que os chama para tirar uma foto.

— Mulheres sempre inventando ou fantasiando tudo, agora têm que tirar foto sorrindo ao lado do babaca preferido do papai. — Se referindo a Marcos.

— Você terá que aprender a superar essa rivalidade que você criou com seu irmão, ele não pensa assim de você. — Comenta o francês Junior.

Eles então se dirigem para sala e tiram-lhes as fotos, uns segurando a falsidade ao extremo.

Após algum tempo chega Natália M. Bill, visivelmente triste, cansada e bêbada. Ela é uma linda mulher de cabelos castanhos e olhos profundos. Estava assim acabada por todo o sofrimento que passa. Marceli bem que tenta a segurar, mas Natália reage então Marceli a acompanha até Nilton; quando ele a vê naquele estado, sua reação é ficar enfurecido e constrangido:

— Por que está nesse estado Natália? — Fala ele indignado.

— Cansei de ser o que você quer, resolvi por um limite em tudo isso, não irei mais seguir as suas ordens! — Clama Natália, que senta ligeiramente no sofá, por não suportar ficar em pé.

— Você está completamente bêbada! — Nilton a pega pelo braço.

Marceli temendo que ele maltratasse ela, diz:

— Não a machuque, ela não está consciente do que diz.

— Sou o marido dela e sei o que devo fazer, irei levar ela para tomar um banho para que fique melhor.

Natália tenta não ir, mas é convencida por ele. Chegando ao quarto ele bate nela. Isso já era rotina entre eles.

— Toma um banho e só saia daqui quando eu deixar, você não irá atrapalhar nada que eu tenho pra fazer hoje. — Finaliza fechando a porta.

Natália jogada sobre a cama dispara:— Você irá pagar por hoje e por toda vez que encostou em mim, seu maldito!

Na sala, Aline, uma mulher negra encantadora e muito elegante, é quem cuidava de Caroline:

— Carol, está na hora de irem se arrumar, você e Breno.

— Line, está muito cedo ainda, eu quero brincar e comer mais doces com o Breno, depois a gente põe as nossas roupas que precisam. Eu ainda nem vi a Carolina subir para se vestir. — Implora Carol, uma garotinha de cabelos escuros, muito amável, esperta, com um sorriso banguelo.

— Eu ainda nem estou com sono! — exclama Breno, um menino loiro de cabelo topete e um lábio fino e largo.

— Carolzinha e Breninho, por favor, seus pais irão brigar comigo, amanhã vocês acordam cedo e continuam a brincadeira. — Implora Aline.

— Tudo bem, iremos nos preparar agora. — Então diz Carol, descontente.

— Nós seremos irmãos e poderemos brincar juntos para sempre. — Fala Breno confiante, sorrindo para Carol. Aline dá um sorriso de boca fechada, pois sabe dos planos de Gustavo, ela os leva para dormir.

Na sala Carolina avista Tais, que está sozinha, vai até ela e pergunta:

— Cadê a sua irmã?

Tais era a definição de ingenuidade, seus olhos transmitiam bondade, suas sobrancelhas eram bem desenhadas, o que marcava o seu rosto angelical, ela mantinha um corte de cabelo curto, sempre enfeitado, era a marca da feminilidade da época.

— Está em casa se arrumando, Laisa disse que só virá depois que estiver confiante de estar mais bonita que a própria noiva. — Responde ela sorrindo.

— Ela é muito vaidosa, já você tem uma beleza natural que se destaca muito bem com sua personalidade forte. — Afirma Carolina, tocando em seu rosto.

— Obrigada tia, aliás você está muito linda e aparentemente muito feliz. — Diz ela bem animada.

— Minha felicidade deve estar bem evidente mesmo, pois para mim essa é uma realização. – Diz Carolina, mas logo muda de assunto para segurar a emoção. — E seu namorado Rui, ele vem?

— Acho que sim, estou esperando-o, ele tem esse costume de chegar atrasado, é sua marca.

***

Enquanto isso a algumas quadras dali na casa de Marceli, necessariamente no quarto de Laisa, ela está beijando Rui, namorado de sua irmã. Eles mantêm uma relação secreta. Enquanto se beijam, eles conversam:

— Você é diferente de sua irmã. — Fala Rui, olhando para Josiane, que representava uma mistura de dois estilos, a devastadora combinação de ingenuidade e sensualidade. Usava um cabelo loiro volumoso e a franja dividida ao meio, marca registrada do visual; tinha uma boca carnuda, olhos penetrantes e um corpo esteticamente perfeito. Ela já seria lindíssima se fosse apenas isso, mas Laisa nunca foi uma garota oca. Tudo isso era muito preenchido de graça, de paixão, de encanto, um espírito cativante de mulher inquieta, transgressora, jovem, ardendo por viver.

— Isso é óbvio, tenho bastante descendência do meu pai, que é francês, por isso sou mais bonita, elegante e charmosa que ela, também mais inteligente, você aqui é a prova disso. — Fala ela em tom debochado.

— Por isso seu pai gosta tanto de você.

— Sim, também pelo fato de papai não gostar muito dessa personalidade feminista de Tais, os pensamentos dela irritam muito ele. — Diz ela enquanto olha para o relógio.

***

Voltando a mansão de Caroline, no seu jardim que é decorado por rosas brancas, está Marcelo, um jovem moreno claro, rosto coberto por sardas, olhos azuis, bem magro e muito bem vestido, de 13 anos, solitário, aparentemente triste. Ele está sentado num balanço, enquanto tenta ver naquelas rosas brancas, alguma felicidade que não possuía. Nisso chega Diego e não resiste em perguntar:

— Está esperando alguma namorada?

Marcelo dá uma risada de canto e responde:

— Não gosto de ver mamãe bebendo e papai brigando com ela, queria que isso parasse entre eles, isso é muito triste, sempre tenho que presenciar isso, me sinto tão infeliz por isto.

— Isso é mesmo triste, mas você não tem que se sentir assim, você é um rapaz muito bonito e atraente. — fala Diego em tom diferenciado, já se aproximando.

— Muito obrigado. É que eu gosto de moda, sabe? As roupas me ajudam esconder essa personalidade infeliz minha.

— Também gosto. Aliás, estou usando algo lançado recente. — diz Diego sarcástico.

— Você está usando um paletó e calça social, nada de lançamento!

— Bem, não é isso! — Dispara Diego, em seguida abaixa as calças e mostra sua cueca. — Posso te mostrar melhor.

Marcelo não responde, Diego pega em sua mão e o leva até um quarto de jardineiro. Lá ele comete um crime, pois eles se deitam.

— Isso é desagradável no começo, logo você se acostuma. — disse Diego, enquanto tira a roupa de Marcelo.

O telefone no quarto de Carolina toca, ela sobe para atender, então uma voz misteriosa diz para ir até a casa de barco. Ela surpresa e notando a ausência de Diego, vai até o local, achando que ele precisaria de algo. Chegando no local externo, ela apenas vê alguém dentro de seu barco, pois há muita névoa. Ao se aproximar, percebe que é Gustavo. O noivo sinaliza com a mão, a convidando para dar um passeio com ele. Ela acha tudo aquilo um pouco estranho, mas também enxerga de uma forma romântica, então aceita, sorrindo levemente para Gustavo.

Ele ajuda Carolina a subir no barco, gerando confiança na mulher. Remando, o barco vai desaparecendo no meio daquela nevoa.