Notas iniciais
Eu ia até colocar isso aqui lá na minha fic destinada apenas às minhas one-shots, mas isso é algo completamente diferente. Quem já leu as minhas coisas sabe que é algo completamente fora do meu estilo, mas estou aqui tentando coisas novas. Espero que gostem. --------->

Algum prédio em Nova york, 11h48min PM – Presente

Primeiramente, não havia nada. Absolutamente nada, apenas a frieza. Nenhum outro sentimento. Era apenas eu, e o objeto em minhas mãos, ambos esperando o momento oportuno para agirmos. Por mais que quisesse, não conseguia me sentir inquieto. Não conseguia sentir outra coisa que não fosse a mais pura indiferença.

Eu sabia que isso mudaria mais tarde. Sabia que, depois que aquilo passasse, eu voltaria a sentir tudo outra vez. Como eu queria não poder. Detestava aqueles sentimentos. Detestava-os completamente.

Então, eu fazia tudo novamente. Porque só assim me livrava daquilo que me incomodava, pelo menos temporariamente.

Como cheguei a isso?! Simples. Acho que sempre fez parte de mim. De quem eu sou. Como um dom. Uma benção, uma maldição.

Antes eu podia descansar em paz. Bem antes, antes de tudo isso. Agora, humpf, paz era algo que nunca mais poderia existir em minha vida. Se é que algum dia pôde realmente.

Posicionei o objeto que tinha nas mãos.

Duas semanas antes, 10h12min PM

Eu estava andando solitário pelas ruas da metrópole. Nova York sempre seria Nova York, agitada, barulhenta, cheia de pessoas apressadas e irritadas, andando por todos os lados. E, é claro, os gigantescos arranha-céus absorvendo a vista completamente.

Fazia exatos dez minutos que eu percebera o homem de chapéu me seguindo a uns sete metros de distância. E me perguntava por que tinha que ser sempre assim. As pessoas pareciam estar perdendo muito a criatividade ultimamente.

Estava totalmente acostumado com isso. No meu ramo de trabalho, precisava mesmo. Tinha de estar preparado para lidar com a situação. E não falhar era sempre uma meta.

Continuava caminhando tranquilamente, ainda rumo ao meu destino, uma área mais afastada da grande cidade. Uma área com menos movimento.

Eu apenas esperava o momento certo.

11h51min PM – Presente

Estava demorando mais do que poderia agüentar. Tudo tinha que ser feito logo. Demorar era inadmissível.

Não ouvia som algum. Nada de passos ao longe, nada. É claro, do lado de fora o movimento era intenso, sempre seria, mas ali, onde eu me encontrava, tudo era calmo, frio, e sinistro. Um silêncio lúgubre e medonho.

Talvez a espera estivesse fritando meu cérebro para que pensasse como lúgubre e medonho. Por que teria medo, afinal? Eu estava ali, na melhor das situações, e com certeza já fizera aquilo outras vezes. Muitas, para ser sincero

Uma gota quente e salgada de suor escorregou pela minha testa. Estava realmente quente ali. Portas e janelas fechadas, as preso, abafado. E o silêncio continuava frio como antes, porém essa frieza era completamente diferente. Não tinha nada a ver com a temperatura. Tinha a ver comigo e com o que eu fazia ali. Quem sabe o frio não estivesse irradiando de dentro de mim.

Perto o suficiente da janela, podia enxergar o trânsito lá embaixo, constante, irrequieto. Normal. E aquela maldita espera me consumia vivo.

Então eu finalmente ouvi. Três andares abaixo. Apesar da distância, reconheci perfeitamente o barulho da porta se abrindo, lentamente.

Estava quase na hora.

Duas semanas antes, 10h19min PM

Ainda sem alterar o ritmo de minha caminhada, dobrei uma esquina à direita. O vento soprava sobre meu rosto, gelado, e as casas ao redor cheiravam a mofo e, algumas, a álcool. Não era o bairro da alta sociedade de Nova York.

Ainda com o sujeito em meu encalço, virei novamente em outra rua, desta vez à esquerda, e o edifício na ponta dela era grande o suficiente para obstruir a luz da Lua e envolver o lugar em um completo breu. Um velho armazém abandonado.

A estradinha era estreita e se alongava infinitamente. Eu duvidava que dois carros juntos, um ao lado do outro, conseguissem atravessá-la sem se esbarrarem, ou subirem à calçada, que também era tão pequena que mal cabia uma pessoa.

O homem atrás de mim (aquele bem típico, de sobretudo e chapéu, achando que era o Sherlock Holmes) virou na rua alguns minutos depois.

Quando olhou para o lugar, seu rosto era de pura perplexidade. O motivo? Não havia ninguém ali. E não era a escuridão que o impedia de ver. Ele devia estar confuso por eu ter desaparecido daquele jeito, bem debaixo de seu nariz.

Tão confuso que não me ouviu chegando por trás dele. Agarrei com força o braço do homem, mas quando ele se deu conta do que acontecia, puxei-o bruscamente, fechou a mão em punho e desferiu um golpe em meu rosto. Esquivei-me tão rapidamente que sua mão afundou no ar. Com a minha aberta, acertei-o de lado na cabeça, rente ao ouvido, e ele cambaleou para a esquerda, atordoado. Antes mesmo que pudesse recuperar-se do golpe, ou mesmo se dar conta e tentar impedir, agarrei um braço e o virei, forçando-o contra as contas do homem. Ele gemeu um pouco de dor.

A faca que antes estava em minha bainha agora encontrava-se firme em minha mão, a lâmina a um centímetro de distância da artéria no pescoço daquele homem.

Pelos cantos dos olhos, vi sua mão avançar sorrateiramente à cintura, em busca da arma que, com certeza, havia ali.

– Se seu braço se mover mais um centímetro sequer, não vou hesitar em cortas sua garganta – eu disse, sem um pingo de emoção na voz.

O corpo do Sherlock ficou rígido. Ele abaixou a mão e eu peguei sua arma.

– Agora diga o que quer – exigi.

Silêncio. Já com a paciência se esgotando, pois meu tempo era algo que não podia nunca ser desperdiçado, apertei com mais força minha faca em seu pescoço. O homem ofegou.

– M-meu chefe quer vê-lo. Negócios. Ele tem um trabalho para você.

– Trabalho?

– S-sim – gaguejou novamente.

Suspirei. É claro. Como seu eu já não soubesse.

– Diga ao seu patrão que pode me encontrar em uma semana, na ponte do Central Park. 6h00min. E que não se atrase.

Larguei o homem e continuei meu caminho. Não devolvi sua arma.

11h55min PM – Presente

Ouvi perfeitamente as portas do elevador se abrirem e alguém entrar nele. Em alguns segundo estaria aqui.

Endireitei as contas, estralei o pescoço e ajeitei minhas mãos, segurando mais objeto. Eu parecia um cubo de gelo por dentro. Nada. Apenas agia automaticamente, como um robô humano.

Queria pensar que dessa vez não haveria a culpa no final de tudo. No entanto, eu sabia perfeitamente que isso aconteceria. Ela sempre estava comigo. Menos naquelas horas.

Uma semana antes, 6h01min AM

Se havia uma coisa que eu detestava essa coisa era ficar esperando. Mesmo que por apenas um minuto. Isso porque eu havia pedido que ele não se atrasasse.

Pela vigésima vez, olhei o relógio. 6h03min AM. Talvez ele não estivesse assim tão interessado nos meus serviços.

Virei-me e comecei a caminhar para longe.

– Mas já está indo embora? – disse uma voz à minhas costas.

– Se me lembro bem, eu havia dito seis em ponto. Sem atrasos – respondi secamente.

– E me atrasei quatro minutos! – disse ele, indignado.

– Para mim, horários são importantes. Atrasos de um minuto ainda são atrasos.

O homem atrás de mim não conteve um suspiro de frustração.

– Como me achou? – continuei, frio.

– Conheço pessoas que o conhecem e que já contrataram seus serviços. É sempre necessário nos negócios.

Não me surpreendi nenhum pouco. Não era surpresa para mim que essas pessoas importantes – ou que, pelo menos, se achassem importantes – fossem todas sujas.

– Qual o trabalho? – perguntei de uma vez.

Ele caminhou até que ficasse ao meu lado, ombro contra ombro. Passou para mim um grande envelope cor pastel, sem nenhum escrito.

– Seu nome é Alison Gilbert – disse ele, sisudo, e um pouco raivoso também. – Recentemente descobri que andou xeretando umas coisas no meu escritório e... Bem, descobriu o que não devia. Tenho certeza de que Alison está me espionando.

Continuei olhando para frente, observando o movimento na avenida. Aquilo era tão comum que me causava náuseas. Uma pessoa idiota deixava outra descobrir os podres de sua vida e então decidia que alguma coisa finalmente tinha que ser feita a respeito.

– Aí estão todas as informações de que vai precisar – falou, apontando o grande envelope com o queixo.

Esperei mais algum tempo, pensando.

– Você tem três dias para transferir cento e vinte mil dólares à minha conta. Sem atrasos. Nem mesmo um minuto.

Ele finalmente olhou para mim.

– Como vou saber sua conta bancária? – perguntou ele, sem preâmbulos, sem questionar o meu preço. Como se eu pudesse ficar surpreso com isso.

– Você vai saber – respondi, e me virei, caminhando para longe. – Até o fim da semana, à meia noite, ela não será mais problema.

11h57min PM – Presente

A porta do elevador fez um pim! Alto e finalmente se abriu e ela saiu. Do ponto afastado onde eu estava, a observei caminhar por um pequeno corredor.

Fiquei pensando, por pouquíssimo tempo, se aquela mulher merecia realmente morrer. Por quê? Só por que ela fora mais inteligente do que os outros com que trabalhava? Talvez nem fosse justo que morresse.

Bem, não era eu quem poderia decidir se era justo ou não. Era apenas mais um trabalho. Depois eu teria tempo suficiente para me preocupar com a culpa por ter matado mais uma pessoa. Agora, tudo o que eu precisava era terminar aquilo, e direito.

Mirei o revólver no crânio da mulher, sem misericórdia. Mais um pouco, mais um pouco... Isso. Bem aí.

E atirei. 00h00min. Havia uma mulher morta no corredor de um prédio na Wall Street.

Notas finais
Reviews?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!