Notas iniciais
Resolvi postar mais um capítulo, se puderem deixem alguma opnião, abçs.
CAPÍTULO III

O Misterioso Charles Kent

Charles caminhava distraidamente pelas ruas enquanto pensava sobre os últimos acontecimentos ocorridos em sua vida. Ele havia tomado a séria decisão de deixar Shrewsbury, pois além de monótona, acreditava que ali não iria conseguir resolver seus problemas e pelo visto tinham-se agravado ainda mais. Qualquer dia desses — pensou ele — voltaria para buscar o resto das coisas. Lembrou também do encontro que tivera com uma bela mulher noite passada. Ele ainda não entendia porque ela o convidou para jantar, mas de qualquer forma não deixava de ter gostado.

Estava agora voltando para uma pousada que encontrou por um baixo preço, entrou e subiu rapidamente para o seu quarto. Odiava aquele lugar, mas era o único que podia pagar no momento. Sentou-se na cama e tornou a refletir sobre o crime ocorrido no museu. Um frio percorreu sua espinha; porém, logo tentou afastar aqueles pensamentos, esperando que no final das contas, tudo fosse melhorar

***

Piotr se retirou do escritório e andou procurando um lugar para comer. Mesmo com a decisão que haviam combinado, não se conformava em ficar parado aguardando que acontecesse algo, como por exemplo, outro crime. Só de imaginar o assassino fugindo da Inglaterra, sorrindo e achando que seu crime foi perfeito, fervia-lhe os nervos, isso Piotr não podia admitir.

Ele já tinha algumas ideias e precisava continuar ‘seguindo o círculo’ frase que costumava dizer a si mesmo e aos amigos do trabalho. O criminoso sempre deixa rastros e através destes é possível encontrá-lo, já que não existe um crime perfeito. O assassino acaba preso na teia de erros que acabou criando. Era preciso partir de uma pista, um ponto do círculo, e seguir toda a circunferência levando no fim ao próprio bandido.

Piotr se levantou da lanchonete, pagou o atendente e pegou um táxi para ir ao hotel em que estava hospedado. Chegando ao seu quarto, após muito ponderar, aceitou aguardar um pouco, e caso os resultados das análises não tivessem saído, amanhã mesmo ele já faria alguma coisa.

Eram quase 11:00 do outro dia e Piotr não havia saído do hotel, estava sentado em uma das cadeiras da varanda do seu quarto quando o telefone tocou.

— Sr. Gavronski?

— Sou eu.

— Aqui é da recepção do hotel e temos uma ligação para você, de um senhor chamado Jeremy, gostaria de atendê-la?

— Sim pode passar para mim. – respondeu sorrindo, estava esperando boas notícias.

— Alô, Piotr? Acho que vai gostar dessa nova informação, achamos a arma do crime!

Piotr estava surpreso e logo perguntou:

— Onde encontraram?

— Lembra da professora Sarah?

— Sim.

— Ela nos ligou hoje pela manhã desesperada, dizendo que encontrou uma faca cheia de sangue em sua bolsa. Fomos averiguar e já mandamos para análise do DNA.

— E vocês só me avisam agora!? Porque não me chamaram cedo?

— Isso não tem muita importância agora.

— Mas eu gostaria de vê-la! – disse Piotr indignado.

— Mas temos as fotos – respondeu Jeremy tentando se desculpar.

— Você está no escritório?

— Sim.

— Estou indo aí...

Rapidamente o detetive Piotr desligou o telefone e se arrumou para chegar ao escritório. Alguns minutos depois chegou e encontrou Jeremy que já o aguardava na sala. Começaram a conversar sobre o caso e então Piotr aproveitou para olhar as fotos da faca e concluiu que aquela devia ser mesmo a arma do crime. A lâmina era prata, encurvada e bastante afiada, o seu cabo era de bronze e de aspecto envelhecido. Conversaram também sobre os suspeitos e Piotr perguntou como havia sido a reação da senhora Fleiter.

— Ela estava apavorada – falou Jeremy. – sempre falando que não matou ninguém. Preferi deixá-la se acalmar e depois voltar outro dia.

Piotr olhou para os lados e notou a ausência de Thomas.

— Onde está Thomas? – perguntou.

— Acho que ainda está dormindo! – disse Jeremy sorrindo.

Piotr também sorriu lembrando que seu amigo não gostava de acordar cedo.

Os dois saíram da sala e foram caminhando juntos até o final do corredor e antes de terminar a conversa, o detetive Gavronski solicitou o endereço da esposa de Jerry Ryder e comentou que iria buscar Thomas antes disso. Piotr preferia em algumas de suas investigações, tomar decisões independentes sem precisar aguardar os investigadores locais, ele gostava de se movimentar numa tentativa de buscar informações com antecedência e, naquele dia, estava decido a tomar alguma iniciativa. O inspetor Jeremy voltou para o escritório, enquanto Piotr seguiu para o hotel.

— Thomas? Thomas acorde!

— Hãn, que? – Thomas abriu os olhos e assustou-se ao ver Piotr olhando para ele em sua cama. — Como você entrou aqui? — perguntou ainda assustado quando sentou-se na cama.

— Como? Você acha que as trancas dessas pousadas da cidade são um cofre de um banco? – Piotr sorriu – acho que é mais difícil abrir um pote de ervilhas!

Thomas não achava graça, olhou sério para Piotr e ainda bocejando falou:

— Muito engraçado você! – bocejou de novo. – E além de tudo vem me acorda uma hora dessas!

Piotr riu novamente

— Já é quase meio-dia meu amigo! Se levante coma alguma coisa e vamos logo porque o tempo voa, e temos muitas coisas para fazer hoje.

Ainda indisposto, Thomas se levantou e caminhou até o banheiro.

— O que vamos fazer hoje? – perguntou ele com a boca cheia de água.

Piotr se levantou e andou até a porta da saída.

— Te espero lá embaixo.

Já estava saindo e antes de fechar a porta quando falou:

— Ah e lembre-se de fechar a porta com essas trancas de dentro são muito mais seguras!

— Piotr você poderia ser um comediante... mas me responda antes de ir – ele saiu do banheiro e olhou ao redor do quarto. – Que ótimo me deixou aqui falando sozinho!

Na pousada havia uma pequena sala destinada aos hóspedes com algumas mesas onde podiam fazer suas refeições, Piotr entrou e constatou que estava vazia, olhou novamente e pode ver ao fundo uma moça sentada próxima a uma janela. Ele não conseguiu identificar quem era, pois ela estava de costas, mas teve a ligeira impressão que a conhecia.

Caminhou até outra mesa pegou um jornal e enquanto esperava a comida que havia pedido olhava as notícias da cidade. A manchete principal era intitulada “O Assassinato no Museu em Shrewsbury” e após um breve resumo logo abaixo havia várias especulações sobre quem seria o criminoso. Uma das hipóteses era que o ladrão tinha roubado um artefato valioso e, ao fugir, acabou matando uma das pessoas acidentalmente.

“Ah é claro” pensou Piotr “Sem querer ele acabou esfaqueando uma pessoa! Como esses jornalistas inventam essas coisas? E pior, como as pessoas acreditam nelas?”.

Seus pensamentos foram interrompidos ao ouvir alguém chamar seu nome

— Olá, Sr. Gavronski. – disse uma voz feminina

Piotr olhou por cima do jornal e se surpreendeu ao ver que era a moça sentada próxima à janela e que ela era Mirelle Sulivan.

— Olá senhorita Sulivan – respondeu Piotr com uma grande mesura. – Não sabia que estava hospedada neste hotel. – Ele dobrou o jornal colocando do seu lado na mesa. – Sente-se, por favor.

— Que coincidência não é mesmo? – disse ela sentando-se. – Estou junto com uma amiga minha.

Mirelle como sempre estava bem vestida e usava um lindo casaco combinando com o seu chapéu florido. Piotr olhou para ela e como da outra vez se sentiu encantado pela sua beleza e ao mesmo tempo intimidado por não conseguir avaliá-la de maneira a obter informações da sua vida ou seus costumes. Certamente era uma mulher que escondia vários segredos, este foi o único pensamento que lhe ocorreu. Contudo ela ainda lhe causava fascínio.

Mirelle continuou a falar.

— Mas estamos apenas de passagem ou pelo menos estávamos – ela sorriu seguido por um suspiro. — infelizmente acabei sendo envolvida nas investigações deste crime e considerada uma das suspeitas.

— Sinto muito por isso – disse Piotr tentando consolá-la – realmente foi muito azar ter acontecido isto com a senhorita, mas o que podemos fazer, não é?

Ela concordou.

— Mas não tem problema, esperarei o fim das investigações, na verdade eu já estava entediada com esse lugar, mas agora parece que as coisas mudaram e está sendo até interessante.

— Interessante?

— Maneira de falar – ela sorriu novamente. – Claro que não foi legal uma pessoa ter sido morta com uma apunhalada, mas não deixa de ser interessante às investigações mesmo eu estando envolvida.

— E como a senhorita sabe...

— Como eu sei que foi uma apunhalada? O Dr. Bryan me contou. Conversamos bastante naquele dia no museu enquanto esperávamos que os policiais chegassem.

— Na verdade não era isso que eu ia perguntar.

— Ohh Piotr me desculpe então. O que você ia perguntar?

Neste momento uma senhora de meia idade chegou com uma bandeja. Nela estava o pedido de Piotr, ela colocou na mesa junto com alguns utensílios e talheres.

— Gostaria de alguma coisa Mirelle?

— Não — ela agradeceu. – Estou bem, acabei de tomar um suco nesse instante.

— Piotr — Disse Thomas que estava entrando na sala.

Mirelle ao ouvir levantou-se da cadeira já se despedindo:

— Gostei muito de conversar com o senhor, espero lhe encontrar mais vezes.

Piotr pensou da mesma forma, mas antes que pudesse responder a Mirelle, ela passou pelo detetive Raymond e caminhou em direção a saída da pousada.

— Meu Deus você não tem educação? – falou Piotr irritado.

— Olha quem fala em educação! – dessa vez era Thomas que sorria. – Porque está tão bravo estava interessado na moça? – ele riu mais alto. – Deixe o romance de lado e vamos às investigações, mas antes vou comer algo.

— Você não a reconheceu?

— Era pra ter reconhecido?

Piotr colocou uma das mãos na testa.

— Como você se tornou meu parceiro? Sendo uma pessoa tão desatenta? – ele deu uma garfada em seu prato que já estava começando a esfriar. – Era Mirella uma de nossas suspeitas lá do museu.

— Não ligarei para suas ofensas porque minha fome também está muito grande, podemos conversar depois quando eu terminar de comer.

Thomas se juntou a Piotr e aproveitou que a senhora que trouxe o pedido ainda estava por ali e também pediu o seu.

— E agora quais são os próximos passos? – começou Thomas.

— Acho que precisamos pegar o último depoimento não é mesmo?

— Mas não encontraram Charles em sua casa.

— Então esse é mais um motivo para conseguir seu depoimento o quanto antes. E precisamos falar com Sarah novamente. – Piotr estava quase finalizando sua refeição, quando a comida de Thomas chegou. – Além de aguarda o resultado da análise da faca que foi encontrada com ela.

— Será que foi ela? – questionou Thomas que olhava com bastante interesse para sua comida.

— Não sei caro amigo, ela é uma senhora quase de meia idade, mas se a faca estiver afiada o suficiente, sim. Não concorda comigo?

Thomas balançou a cabeça em afirmação.

— Mas porque ela faria isso? Durante a entrevista não percebi motivos o suficiente. Será que ela está acobertando um de seus alunos?

— O Fred? – respondeu Raymond imediatamente lembrando de como o menino parecia amedrontar a professora. – Não foi ele que encontrou o corpo do morto?

— Sim, você está acompanhando bem meu raciocínio, quem diria.

— Parece que Piotr tirou o dia para me importunar. – pensou ele, enquanto terminava o seu prato, ignorando o comentário do detetive completamente.

Alguns minutos depois os dois se levantaram, Thomas já tinha se acostumado com o jeito de Piotr e, no fundo, sabia que ele também o achava um bom detetive, caso contrário não seriam parceiros. Thomas colocou a mão no bolso, retirando seu caderno de anotações, ele gostava de fazer lembretes dos principais acontecimentos que ocorriam durante as investigações. Piotr olhou para seu companheiro interessado no que ele estava anotando, porém não fez nenhuma pergunta. Os dois continuaram em silêncio enquanto caminhavam para a saída do hotel. Chamaram um táxi. Durante o caminho Piotr pediu que o motorista fosse um pouco mais rápido.

A cidade de Shrewsbury era bastante pequena e rapidamente eles chegaram à rua do Museu que ainda estava fechado devido as investigações. Era possível ver alguns curiosos na entrada do prédio, querendo descobrir mais informações sobre o assassinato já que nesse momento toda a cidade sabia do ocorrido. Os detetives saíram do carro e entraram no museu rapidamente evitando que fizessem perguntas a eles.

Ainda não era o momento de fornecer mais informações, já que as investigações estavam em sua etapa inicial. Porém, com o provável sumiço de Charles, talvez fosse necessário algum tipo de ajuda e divulgação local afim de evitar uma possível fuga ou mesmo apenas para localizá-lo caso ele não saiba que está sendo intimado para prestar depoimento. O inspetor Jeremy também havia deixado um documento de intimação em sua residência esperando que ele entrasse em contato assim que possível.

Jeremy estava aguardando no museu.

— Olá rapazes – ele acenou ao avistar os dois detetives.

— Espero boas notícias – indagou Piotr. – Parece que ainda não saímos do lugar.

— Como não? — argumentou o inspetor. – Acabamos de encontrar a faca e eu já recebi o resultado da jaqueta que encontramos no lixo com sinais de sangue.

— De quem você acha que era a jaqueta? – perguntou Thomas. – Pelo que pude perceber ela certamente era uma jaqueta masculina, então pode ser que o criminoso apenas escondeu no lixo rapidamente tentando esconder os seus vestígios, se limpou e voltou para alguma das salas do museu.

Piotr estava pensativo, ele ajeitou seu pince-nez e caminhou até uma das alegorias da galeria da sala, e parou ao lado de um boneco que representava a civilização egípcia. O boneco tinha uma das mãos erguidas e usava uma vestimenta típica da época. A mão que estava erguida parecia segurar alguma coisa, porém não havia nada dentro dela.

Jeremy falou:

— O assassino utilizou a faca que este boneco estava segurando.

— Eu imaginei. – começou Piotr. – Estava olhando exatamente para a mão deste boneco. – apontou. – E, quando encontraram a faca, puderam imaginar sua origem. Pelas fotos e pelo cabo da faca, ela não parecia uma faca comum. Então, acho que vocês concluíram que ela pertencia à coleção do museu.

— Exato. – todos os investigadores estavam seguindo a mesma linha de raciocínio de Piotr. – Mesmo faltando o resultado do levantamento de objetos, podemos acreditar que ela pertencia a coleção do museu.

— Quando a lista estiver pronta poderemos confirmar. – Piotr pareceu animado e retomou o assunto da jaqueta. – A jaqueta que encontramos no banheiro deve pertencer ao assassino, já que faz sentido com a ordem cronológica dos acontecimentos. Mas não podemos descartar a possibilidade de pertencer a outra pessoa.

— E de quem seria se não do assassino? – Thomas perguntou novamente.

— Isso Jeremy também vai nos dizer agora, acredito.

Jeremy entregou o papel que estava segurando para o detetive Gavronski.

— E você disse que não estávamos saindo do lugar. – ironizou o inspetor.

— Elementar caro Jeremy. — Piotr segurou o papel da mão do inspetor e leu em voz alta. – A amostra de sangue pertence a vítima Jerry Ryder. Não foram encontrados vestígios, impressões digitais ou traços de outro DNA além da vítima. – Seu rosto agora parecia desanimado. – Temos mais um mistério. – bufou. – Agora, com essa nova informação, tudo leva a crer que o crime não tenha sido premeditado. – refletiu. — Vamos a uma possível ordem dos acontecimentos. – Piotr começou a enumerar. — O assassino e a vítima estão dentro do museu. O assassino ver a vítima e escolhe rapidamente a faca devido às circunstâncias. Apunhala a vítima. Tenta disfarçar o cadáver pendurando-o junto com os outros bonecos de cera. Então, desfaz-se da faca ou caso tenho sido a própria professora Sarah, ela esconde em sua bolsa. Corre para o banheiro, limpa-se e volta como se nada tivesse acontecido. Estão de acordo?

— Sim. – ambos responderam.

— Mas e se o assassinou premeditou o crime? – perguntou Thomas novamente.

— Talvez ele tivesse receio de ser descoberto pelos funcionários do museu caso entrasse com uma arma escondida. – propôs Jeremy.

— Ótima observação. – concluiu Piotr. — Aqui estamos nós novamente, só conjecturando, enquanto o assassino ri da nossa cara. – lamentou. — E na faca havia alguma impressão digital?

— Não, apenas da professora Sarah. – disse Jeremy circunspecto.

— Bom, creio que já não há mais nada para fazermos aqui, além de pedi que o diretor Klaus agilize o levantamento dos objetos. Concordam?

— Ele comentou que amanhã deve ficar pronto. – acrescentou o inspetor Jeremy.

Piotr se despediu de ambos os detetives e saiu do museu bastante reflexivo. Na saída ainda havia alguma curiosos, mas em quantidade menor do que antes. Era por volta das 4:00 horas da tarde. Piotr olhou o seu relógio e ajustou o pince-nez em seu nariz enquanto descia as escadas do museu.

O caso parecia mais intrigante novamente. Como uma senhora poderia apunhalar um homem mais jovem e mais forte do que ela? Ou teria sido um de seus alunos? A faca estava afiada o suficiente, como puderam constatar, portanto não seria necessário fazer muita força para realizar a perfuração, até mesmo para uma criança. Também precisamos encontrar Charles pensou Piotr. Nisso ele já havia andado alguns quarteirões, as vezes gostava de caminhar e achava que de alguma forma isso pudesse ajudar com a organização das suas ideias. Siga o círculo, pensou ele novamente. Mas qual seria o ponto de partida? O horário da morte, ele concluiu.

Olhou para frente e observou que já estava perto do seu destino.