Assassinando um anjo
7 Capítulo 7
Notas iniciais
POV ALICE
As sirenes se tornam cada vez mais distantes, sinto-me como quando jogava GTA tentando despistar a polícia até que desaparecesse completamente. Tenho consciência que a situação é muito mais complicada, mas surpreendentemente consigo manter a calma.
Vejo pelo canto do olho Isabel pegar seu celular de dentro do bolso e jogá-lo pela janela.
– Eu sou uma idiota! – Ela diz batendo com a mão na própria testa.
– O que foi? – Pergunto sem entender.
– O meu celular tem rastreador, agora vamos ter que mudar completamente a rota. Dê a volta! – Ela ordena.
Eu não a obedeço, se voltássemos daríamos de cara com a polícia e todo o plano estaria jogado pelo ralo. Continuo acelerando mesmo com os protestos dela.
– Você está louca Alice, não consegue entender uma simples ordem? – Ela grita.
– Eu não sou um cachorro para ficar só ouvindo você mandar e desmandar em mim. – Protesto calmamente.
– Eu estou tentando manter a gente viva, sua maluca! – ela continua a gritar – Era melhor você ter ficado para trás já que tem tanta vontade de morrer.
– Quer saber Isabel? Cala porra da boca! – explodo – Eu sei o que eu estou fazendo, então por um instante na sua vida aceite você a seguir uma ordem.
Ela me encara furiosa, mas não se manifesta mais. Isabel gosta de ter o controle inteiro da situação em suas mãos, por mais que eu demonstre saber o que faço ela me vê como uma garota frágil que precisa ser salva.
– Para onde vamos então, senhorita? – Ela pergunta irônica.
– Para um apartamento velho que eu tenho em Goiás, lá poderemos ficar por alguns dias enquanto pensamos o que faremos da vida. Afinal, temos que repensar todo o modo de viver já que não temos mais família, ou emprego, ou conhecidos que possam nos ajudar.
– Resumindo estamos ferradas. – Ela diz suspirando.
Rio de toda a situação. Parece que a polícia finalmente desistiu de nos perseguir, olho pelo retrovisor e tudo parece calmo.
– Vamos estacionar, quero dirigir. – Isabel fala de repente.
– Não.
– Você não pode concordar comigo só uma vez na vida, Alice? Pare de ser mimada.
– Mimada eu? Falou a senhora “faça tudo o que eu mando”. – Revido a provocação.
Mesmo assim resolvo fazer o que ela manda, não gosto de dirigir por muito tempo. Prefiro dormir enquanto ela faz o caminho até a nossa próxima parada. Estaciono no acostamento e trocamos de lugar. Ela senta no banco do motorista e parece sentir-se melhor com o controle da direção. Ela é uma maníaca por controle.
Sento-me e abraço meus joelhos olhando a paisagem em volta. Já não vejo mais prédios, somente o verde dos pequenos morros que nos rodeiam. Abrimos os vidros do carro deixando a brisa entrar. Ficamos em silêncio aproveitando o breve momento de paz
Ela sabe o caminho então eu me deixo adormecer durante o trajeto.
Cerca de seis horas depois sinto as mãos de Isabel me acordarem. Abro os olhos e vejo que estamos de frente ao meu apartamento. Jamais saberei como ela soube qual era.
– Lar doce lar! – Eu digo com a voz sonolenta.
– Saia do carro preciso me livrar dele. – Ela ordena.
Pego minhas coisas sem dizer mais nada e vejo dar partida. Inspiro profundamente sem entender as constantes mudanças de humor dela, em um instante ela parece me querer por perto para logo depois me afastar.
Finalmente tomo coragem de entrar e ao abrir a porta levo um susto. Meu pai está encostado no balcão da cozinha.
– Vamos para casa! – Ele usa seu tom ameaçador.
Algum tempo atrás aquela voz me faria estremecer e obedecê-lo na mesma hora, mas hoje eu seria firme em minha decisão.
– Saia! – digo entredentes – Eu lhe avisei que se me procurasse você jamais me veria novamente.
Ele arregala os olhos com meu comportamento completamente diferente.
– Como você chegou aqui, minha princesa?
– Não lhe interessa, pai! Por favor, saia. Eu não consigo olhar nos seus olhos sem sentir nojo de você.
As palavras saem de minha boca sem que eu consiga contê-las e vejo o quanto elas o feriram. Sinto um leve arrependimento.
– Desculpa pai, mas eu só lhe peço um tempo para pensar. Eu tenho vivido tanta coisa nesses poucos dias que eu não sei o que fazer. Tentaram me matar de novo e só Isabel tem me mantido segura. – Eu tento me desculpar.
– Isabel? A assassina Isabel? É com ela que você está fugindo? Você só pode estar LOUCA!– Ele grita.
– Não é como se eu não tivesse vivido minha vida inteira com um traficante que tirou a vida de milhares! – Cuspo as palavras na cara dele.
Ele tenta argumentar, mas ergo a mão para que ele se cale.
– Saia agora ou então eu irei me entregar para morrer e acabar com toda essa situação que você me colocou. – Eu digo abrindo a porta.
Dou de cara com Isabel que estava chegando ela me encara seriamente. Meu pai a vê e diz:
– Se você machucar minha filha eu a matarei.
– E se você vier perturbá-la mais uma vez eu o matarei. – Isabel o ameaça.
Sinto a raiva dela, as palavras dela soam mortais e sinceras. Naquele momento eu só tenho vontade de abraça-la por afastar todos as males de minha vida. Meu pai me lança um último olha e sai. Isabel bate a porta.
Jogo-me no sofá exasperada. Isabel vem até mim ajoelhando-se em minha frente.
– Você está bem? – As palavras dela são doces.
Penso em dizer a verdade, dizer o quanto aquilo me deixa abalada. O fato de em um dia eu ser uma futura veterinária e no outro ser um fugitiva da polícia, de traficantes e do meu próprio pai me deixa completamente vulnerável.
Ao contrário disso eu encubro pela primeira vez na minha vida os meus sentimentos e digo:
– Estou ótima.
Vejo dentro dos olhos dela que ela não acredita, mas que vai respeitar minha decisão de não encarar de frente o que estou sentindo. Olho dentro de seus olhos negros esperando que de alguma maneira eles me confortem e ela me encara duramente sem demonstrar pena de mim, eu a agradeço mentalmente por isso.
– Será que alguém seguiu seu pai? – Ela me pergunta nervosa.
– Provavelmente sim, mas eu preciso de um descanso disso tudo então se quiser ir vá sem mim. – Digo sem ânimo para fugir mais uma vez.
Ela ergue uma sobrancelha com meu comportamento pessimista e diz:
– Não vou deixar você.
– Por que não? Você mesma disse que eu só sou um fardo.
Ela continua ajoelhada de frente para mim, mas seu olhar agora é de raiva.
– Não, agora você é minha parceira. — Ela explica como se fosse óbvio.
Eu sorrio para ela que esboça um leve sorriso em resposta. Suas mãos estão apoiadas em minhas coxas e estranhamente sinto uma onda de carinho por ela, nós realmente só tínhamos uma à outra.
– Somos parceiras do crime. – Ela diz rindo.
– Somos parceiras da vida, Isabel, nesse momento você é a única pessoa que posso contar. – Explico.
Ela analisa meu rosto, seu olhar pousando em minha boca. Lentamente ela se aproxima me olhando como se pedisse permissão, mal sabe ela que isso é o que mais quero. Em um movimento rápido ela se levanta, trazendo-me de encontro ao seu corpo, uma de suas mãos está em minha cintura e a outra segura firmemente meus cabelos deixando-me a mercê dela.
Sinto seu hálito quente se aproximando e fecho os olhos ansiando por seu toque. E então a campainha toca fazendo com que nós duas levemos um susto.
Quem poderá ser?
Isabel se prontifica pegando sua arma no coldre que ela sempre trás em sua perna. Ela se posiciona do lado da porta e me indica a porta com a cabeça. Lentamente eu pego minha faca e a escondo nas costas. Vou até a porta e a abro, meu coração acelera descompassadamente. Na minha frente está a última pessoa que eu esperaria encontrar.
Fale com o autor