Assassinando um anjo
3 Capítulo 3
Notas iniciais
POV ALICE
Sentada em um restaurante de frente para mim encontra-se a mulher mais estranha que já conheci na vida. Ela tem uma mania irritante de olhar ao redor a cada trinta segundos como se estivesse com medo de que alguém quisesse matá-la a qualquer instante, o que é bem irônico pelo fato dela própria ser uma assassina.
– Vai me falar ou não o motivo de querer me matar? – Pergunto ironicamente.
Ela finalmente me encara e sua expressão parece aborrecida, como se eu fosse uma criança chata pedindo mais doces. Ela suspira analisando a situação. Reparo em seus cabelos negros que gritam em contraste com sua pele branca.
–Alice, sim eu sei seu nome, eu sou uma assassina de aluguel...
Sem conseguir me controlar deixo escapar uma risada que a interrompe. Ela franze o cenho me advertido. Dou de ombros e ela prossegue:
– Em resumo eu fui contratada para te matar para que sirva de aviso para seu pai. Mas, infelizmente eu não consigo matar inocentes e então estamos aqui sentadas agora, sendo prováveis alvos de um traficante.
Meu pai? Do que esta mulher está falando?
–Espera aí, que tipo de aviso um professor de inglês precisaria? – Eu questiono confusa.
Ela me encara espantada e percebo que ela sabe de coisas sobre minha família que eu sequer imagino.
– Eu não sou a melhor pessoa para lhe contar sobre os problemas de sua família. Mas eu preciso te alertar que eu não fiz o serviço pelo qual fui contratada e terei que pagar por isso, mas quanto a você outra pessoa virá matá-la, então eu sugiro que fuja. – Ela diz levantando-se e me deixando sozinha.
Não consigo emitir nenhum som e nem me movimentar. Tudo em que sempre acreditei acaba de ser desmentido, minha família não é o que sempre pensei e, além disso, sou alvo de sabe se lá quem. Tomando consciência do tamanho do meu problema saio do restaurante às pressas atrás da mulher que deveria ter tirado minha vida e, ironicamente, é a única em quem posso confiar.
– Ei – eu a grito- espera!
Ela vira-se de frente para mim com um olhar questionador.
– Eu não tenho para onde fugir. – Digo em um sussurro.
POV ISABEL
Eu encaro aquele olhar de cachorro sem dono quase cedendo ao pedido silencioso que ela me faz.
– Sinceramente o problema não é meu. – Falo secamente.
Ela encara o chão e quando volta a erguer os olhos vejo que eles estão marejados, ela deve estar tão assustada e confusa.
– Qual o seu nome? Pelo menos isso eu posso saber? – ela pede.
– Isabel. – Respondo mais mansamente – Vamos ao meu apartamento pra você tentar esclarecer as ideias, mas você deve perguntar diretamente ao seu pai o motivo de tudo isso, então você não vai ficar muito tempo. Além disso, eu tenho que começar me esconder.
Ela consegue esboçar um pequeno sorriso de agradecimento e assente sem dizer mais nada, olho ao redor verificando se não há ninguém nos espionando. Andamos a pé até o local onde havia deixado minha moto, eu subo e ofereço a ele o meu próprio capacete.
Ela se ajeita na garupa da moto e passa suas mãos ao redor de minha cintura e apoia a cabeça em minhas costas.
– Com medo? – Eu pergunto.
– Nem um pouco. – Ela responde firmemente me surpreendendo.
Essa garota é tão destemida. Fui enganada por um par de olhos angelicais, ela é muito mais perigosa do que eu imaginei. Acelero a moto aproveitando a sensação do vento contra o meu rosto.
Chegamos ao meu apartamento mais rápido do que havia imaginado, descemos da moto com rapidez e antes de subir checo o local em busca de prováveis emboscadas.
Assim que entramos ela elogia meu lar e se joga no sofá. Reparo que ela não se sente nem um pouco desconfortável com o lugar ou comigo.
Começo a fazer as malas colocando somente o mais necessário dentro da minha bagagem, meu coração está acelerado, pois já vi diversas vezes o que o Sr. Mendes faz com traidores e não quero que aconteça o mesmo comigo.
–Pra onde você vai? – Ela pergunta encostada na porta do meu quarto.
Essa garota é tão intrometida que chega a me irritar.
– Eu não acho que isso seja assunto seu. – Respondo grosseiramente.
– Não adianta ser grossa comigo Isabel, a culpa não é minha que você não conseguiu fazer o seu trabalho e me matar. – Ela diz revirando os olhos.
Meu sangue ferve e eu vou até ela em fúria ficando a centímetros do seu rosto.
– Olha aqui sua garotinha de merda, seu papai traficante te colocou nessa merda toda então eu só espero que você fique feliz com a morte que você vai ter. – Cuspo as palavras no rosto dela.
Arrependo-me do que disse ao ver a expressão chocada que toma conta do rosto dela, essa garota tem conseguido mexer com sentimentos que estavam inertes dentro de mim há muito tempo, sentimentos como culpa e compaixão.
– Você disse traficante? – Ela questiona sem demonstrar medo.
Eu começo a explicar para ela tudo que recebi em suas fichas, desde o motivo pelo qual eu deveria mata-la até sobre os horários dela.
– Eu quero ver essa ficha. –É tudo que ela diz quando termino minha explicação.
Vou até o meu quarto e pego a pasta que contém as informações dela e a entrego, ela analisa tudo com muito cuidado atentando-se para todos os detalhes, quase posso ver as engrenagens do cérebro dela se movimentarem.
Ao terminar ela passa as mãos pelos cabelos tentando organizar os pensamentos, não sei o quanto aquele assunto mexeu com ela, imagino que deva ter revirado toda a sua vida.
– Acho que preferia que tivesse me esfaqueado. – Ela diz aquilo rindo, mas a ideia me causa uma grande angústia.
– Não diga isso, ainda não corrompi minha alma por inteiro.
– Então você só mata os caras grandões e maus? – Ela provoca.
Não consigo conter o sorriso, mesmo em uma situação tão perigosa a garota ainda consegue fazer piada e amenizar o clima. Ela tem a capacidade de me irritar para logo depois me acalmar.
– Eu queria me desculpar pelo que te disse antes Alice, eu não deveria ter falado daquele modo com você, sua vida já está suficientemente difícil para eu descontar meus problemas em você.
Ela dá de ombros e sorri, mas sua alegria não dura muito tempo, logo é substituída por uma determinação que me leva a crer que seja o que for que ela tenha decidido não mudará de ideia.
– Eu preciso de carona até meu apartamento para pegar umas coisas. Você pode me levar lá e me esperar? – Ela pede.
– Claro, mas por quê?
– Não sei para onde você irá fugir não me importa, mas de uma coisa eu sei. Eu vou junto.
Abro a boca para discutir, mas ela já está na porta me esperando com uma expressão impaciente. Se já seria difícil me esconder de todos os capangas do Sr. Mendes, imagina se eu fugisse com a filha do segundo maior traficante da região. Com certeza eu sou uma mulher morta e não tenho pra onde correr.
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