Ashtar
2 Parte II
Notas iniciais
Ashtar arrastou o corpo pesado da mulher até a sombra de uma árvore próxima, ajeitando-a para que seus membros não ficassem em ângulos estranhos, tentou colocar a cabeça no lugar mais confortável de toda aquela relva, mas logo sentiu que seria impossível, a grama, quando não era sintética, trazia uma leve coceira à pele. Seus movimentos pareciam mecânicos, centrada em não se deixar levar pelo desespero crescente dentro de si mesma. Kumush, seu mestre, havia ensinado muito a ela, e esse fora um dos mais valiosos ensinamentos: notar as sensações que desencadeariam problemas e ignorá-las por meio do foco. Foram anos de treinamento dentro do Vox, criando problemas para que tentasse resolvê-los com maestria e exatidão, anos em que passara quase que sozinha na casa dos Severin em Bali.
No fundo, a mente de Ashtar era um lugar escuro, com cantos caóticos tentando tomar o centro que deveria ser harmonioso. Ela conseguia adormecer algumas partes de si e dar mais atenção à outras, porém, sabia que não iria aguentar manter aquilo por mais do que alguns poucos minutos. Encontrava-se em uma situação delicada demais para ser como em um experimento no Vox, seus sentimentos e desejos internos eram tão reais que se sentia impotente. Diversas vezes havia estado daquele jeito, mas nunca no mundo dos párias e grounders. A parte racional de seu cérebro travava cálculos ilógicos para se safar do medo.
Ashtar era mortal. Um simples tiro convencional ou uma descarga elétrica descontrolada seriam o suficiente para que morresse de uma vez por todas, diferente de todos os outros kayas, que conseguiam fazer uploads instantâneos de suas mentes. Odiava seu cérebro por isso, duvidada de sua própria existência. Ela sabia que fugir era perigoso demais, sempre era posta em situações desconcertantes. Sequer tinha certeza se aquela mulher desacordada à sua frente era mesmo a Shivaska que tanto buscou por alguns anos, tampouco poderia afirmar se o motivo de ter fugido ainda valia a pena. Pensou por alguns segundos que encontrar a biblioteca de Kirtya era tão patético quanto ela mesma, e isso a fez ter um desconforto ainda maior em seu peito.
Começou a arranhar-se, sentindo que o caos negro de sua mente tomava a luz do centro harmonioso. E então olhou para o rosto da mulher, à procura de alguma análise que a fizesse se sentir menos mal, de algum traço que pudesse deixar claro que aquela era Shivaska. Quando o Amon havia dito aquele nome, sentiu em um canto remoto de sua consciência que ele fazia referência a uma pessoa e não a uma coisa ou a um grupo de coisas. Talvez pudesse acreditar em si mesma, afinal de contas. Talvez aquela fosse mesmo Shivaska. Por vezes, tudo o que sentia era incabível no mundo, como teorias ilógicas e crises conspirativas. De qualquer forma, achar o que procurava, era, em partes, uma missão pessoal cumprida, que levava a mais questões e dúvidas.
Passados alguns minutos, a garota não conseguiu se conter, entregou-se a uma parte de seus desejos como se saltasse de um abismo por pura tentação à morte. Colocou de forma suave a palma de sua mão esquerda na face da mulher, um impulso desconcertante que mostrava os anseios de sua intuição. Logo que sentiu aquela pele bronzeada, uma sensação de calor surgiu, a mão esquerda de Ashtar parecia pegar fogo, e visualizou em sua mente chamas rubras e amarelas, criando escalas de cores alaranjadas por todos os seus devaneios mentais. Não parecia ser um fogo violento, em um monótomo segundo, sentiu-se em uma rudimentar lareira aconchegante, pouco contemplada pela massiva maioria.
Lembrou-se por um instante de quando tocou o rosto de Sawyer, assim que suas mãos haviam despertado aquelas estranhas sensações há cerca de uns cinco anos. Ahstar sentiu, pela primeira vez em muito tempo, uma certa similaridade entre as coisas. O fogo que habitava aquela mulher passava a mesma segurança que as chamas que sentia em seu irmão mais velho, e, ao mesmo tempo, eram bem diferentes do fogo calmo que habitava Kumush, ou do incêndio horroroso que sentira em seu genitor, Sage Severin. Tocara o rosto de seu pai apenas uma vez, e um único toque lhe causou mais arrepios do que pudesse imaginar. Não se podia esperar menos do líder da SinSeverin, uma chama ardente que queimaria qualquer um em seu caminho, essa era a presença de um kaya que detém verdadeiro poder.
A jovem Ashtar possuía sentidos genuinamente estranhos em vários momentos, iam além da visão e do tato, tão etéreos quanto a matrix. Kumush falava de forma tão metafísica em suas aulas que jamais haviam nomeado ao certo os cantos da intuição da garota. Era pura dádiva possuir um mestre. Levaram-se anos para conseguir controlar alguns remotos lugares e sentidos dentro de sua consciência, que mais lhe causavam dúvida e ansiedade do que prazer por estar viva. Não estava nem perto do auto controle ideal.
Ashtar suspirou. Não gostava de quando seus pensamentos se tornavam linhas dispersas e iam parar em lembranças do passado. Odiava pensar em Sage, mesmo que não soubesse bem a intensidade que o ódio poderia tomar seu coração. Por conta disso, a garota voltou a se concentrar no rosto desacordado à sua frente. Shivaska. Era tudo tão misterioso e decente de certa forma, viu-se presa em um emaranhado de contemplações ao sentir a maciez daquela pele. No entanto, logo que alcançou o ápice de seu foco, sentiu sua mão, que roçava as bochechas da mulher, começar a se tornar cada vez mais fria.
Encolheu-se abruptamente diante daquilo, constatando que a possível Shivaska ao seu lado recobrava os sentidos, parecia confusa e talvez um pouco fraca, como se tivesse sofrido uma longa queda, mais do que um simples desmaio. Por fim, sentou-se de frente para Ashtar com uma expressão impassível, a jovem Severin estava assustada e um pouco envergonhada. Em poucos segundo, lançaram olhares profundos entre si outra vez, pareciam estar estabelecendo uma ligação, lendo uma à outra como se fossem gêmeas. Ashtar tinha conhecido poucas pessoas a vida toda, aquele momento era tão anormal quanto seu encontro com o Amon.
A mulher parecia estar prestes a proferir algo importante, os lábios se contraíam em tiques nervosos, e sua íris continha um brilho cheio de lástima, como se tivesse perdido uma guerra e chorasse pelos mortos. Por mais que se resignasse, os olhares que trocavam também eram cansados. Assim que constatou suas impressões, Ashtar sentiu um fio de empatia dentro de si.
—Eu sou Shivaska, da extinta família Ambani. – A voz da mulher tentara soar firme, mesmo que seus lábios ainda se contraíssem.
Em um movimento melancólico, arregaçou a manga de sua túnica de linho surrada e mostrou uma tatuagem com ouro na pele de seu ombro, um tipo de dourado mais reluzente que os escritos em sânscrito vistos antes em seus braços. Aquilo era de uma estética que nem mesmo alguns kayas, com exceção das famílias proeminentes, se dariam ao luxo. Shivaska só podia ser de uma linhagem nobre, não havia outra conclusão lógica para aquilo, roubar um apetrecho de status era impossível, o próprio bracelete de Ashtar era feito por nano partículas que reconheciam DNA. Mesmo assim, o símbolo dourado na pele da mulher era desconhecido para a garota, uma espécie de número três com alguns traços curvilíneos e elegantes, quase lembravam um elefante.
Analisando mais um pouco as palavras da mulher, Ashtar sentiu um déjà vu dentro de si ao focar no nome “Ambani”. Lembrou-se sobre um antigo boato que uma vez escutara da conversa de dois subordinados da SinSeverin, uma chacina misteriosa acontecera há anos com os Ambani, sem sobreviventes até então. Não havia muito o que se soubesse, simplesmente não havia informações sobre eles ou para onde foram as ricas fortunas que detinham, já que não foram deixados herdeiros. Os kayas eram uma classe suspeita a todo o momento, e Ashtar sentiu-se em um buraco profundo de medo e desespero por alguns milésimos ao encaixar os fatos.
Os lamentos emanados do corpo de Shivaska e o choro se formando dentro da mulher a influenciavam de forma massiva. Em sua mente, pareceu formar-se luz, como um farol de séculos passados que vira em um livro digital uma vez. Logo em seguida, sentiu que seria respeitoso se apresentar, mesmo que Shivaska parecesse conhecê-la.
—Sou Ashtar Severin. – Esforçou-se o máximo que deu, tentando ser gentil e conveniente em seu tom de voz. – Sinto muito por sua família.
Shivaska respirou fundo, parecia ter acordado de vez para o mundo ao seu redor. Retirou do bolso o colar prateado de elefante, o mesmo que Ashtar tinha visto nas mãos do pária que esbarrara nela, horas atrás. A garota ainda estava admirada com a perfeição daquele adereço.
—Gosta de prata? – perguntou a mulher, esmiuçando um pequeno sorriso em seus lábios. Shivaska não parecia conter mais a fúria e a autoridade de antes.
Novamente, o nó do pano preto no braço de Ashtar havia desatado, e o largo bracelete prateado com a estrela de sete pontas estava à vista. Por um lado, ela não se importava mais, as apresentações já haviam sido feitas, e após tocar o rosto daquela mulher, sentia que sua intuição a via como alguém confiável, mesmo que não houvesse o menor sentido. Recolheu o pano, colocando-o dentro de um dos bolsinhos internos de sua jaqueta preta.
Quando abriu os lábios para dizer algo, a expressão de Shivaska tornou-se tensa, cravando seus olhos em Ashtar de um jeito perfurador. Algo estava vindo naquela direção de Java. A garota escutou ao longe os ruídos de um transporte aéreo pulsando. De alguma forma, sabia que o tempo estava acabando. Seu peito arfou sem que quisesse, uma parte de sua mente parecia gritar uma determinada vontade mais forte do que todas as outras. Os braços de Ashtar tremeram, como se levassem choques de pequenas descargas elétricas. Uma pane interna se instaurava, seu lado racional estava convencido de que não poderia ganhar, e os neurônios dispersavam-se dentro de sua cabeça.
Ashtar soltou um grito, colocando suas mãos macias no peito. Uma pontada forte no coração, algo queimava intenso dentro dela. Era como se vivesse um paradoxo dentro de quem era, algo tão desconhecido que trazia uma agonia insana, como um constructo hackeado dentro da matrix, um lado podre que corrompia rapidamente o todo. Em algum nano segundo embaçado, conseguiu ver algo reluzir no céu acinzentado de Java, metálico e grande.
Shivaska, tão rápida quanto um impulso, apertou o braço de Ashtar, quebrando um pouco a intensidade das sensações da garota. Um leve alívio em um pesadelo mefistofélico. Não raciocinava e não entendia o que estava acontecendo, sua visão começava a embaçar à medida que suas dores internas pioravam. Ashtar suou frio, arfou com mais força. A mulher, com os olhos azuis estarrecidos, não teve mais escolha depois disso, levantou-a rapidamente e puxou aquele fino braço cheio de dor, conduzindo-a em direção à biblioteca, Kirtya.
Outro grito escapou da garganta da pequena Severin, assim que escutou os ruídos ficando mais fortes lá fora. Algo estupidamente grande e ruim estava chegando, talvez não houvesse uma escapatória. Por mais que estivesse de cara com a pintura do elefante e a tão amada escrita em sânscrito antigo na parede, Ahstar não enxergava e nem mais raciocinava sobre as coisas ao seu redor, entregava-se forçadamente ao temor que sua mente sentia. Aquilo não era como um instrumento de alta tecnologia para torturas. Aquilo era ela mesma. Seu sexto sentido e sua intuição haviam dominado tudo da pior forma possível.
Shivaska, por outro lado, tremia por dentro, mas se movia com maestria pelos corredores de sua casa. Cuidadosamente levou a garota até uma escada estreita, em direção a um lugar que parecia estar abaixo do nível térreo. Tudo se tornou escuro quando os degraus acabaram, sem nenhuma fonte de luz. Ashtar, mesmo com suas lentes implantadas, estava impossibilitada por sua dor interna de tomar consciência daquele lugar. No entanto, a mulher indiana ao seu lado, agarrando seu pulso, guiou-a até uma grande porta de aço chinês maciço, não tão resistente assim, mas o suficiente para comprar tempo. Com sua mão livre, Shivaska liberou um painel de senhas, clicando nos números com tanta rapidez que seria impossível para os olhos normais acompanharem.
Quando a porta se abriu, as duas deram de cara com outro corredor, dessa vez pouco iluminado com esparsas luzes amarelas no teto, onde havia tubulações enferrujadas de algo que parecia ser um sistema de gás. Um odor forte de mijo e narcóticos rompeu a tensão dos sentidos de Ashtar, que recobrou uma boa parte de sua visão, constatando que havia baratas e outros insetos andando por alguns cantos. Parecia que aquele lugar era habitado pelos piores tipos de pessoas, mesmo que não soubesse dizer ao certo o que ele era, sequer sabia raciocinar porquê havia uma entrada para o subterrâneo dentro de Kirtya.
— Onde estamos? – A garota arfou, ainda com uma de suas mãos ao peito e sem conseguir pensar com clareza.
—Você vai ver. – Foi a única resposta que obteve.
As duas respiravam ofegante. Era óbvio que aquilo ocorreria mais cedo ou mais tarde, era simplesmente óbvio. Mesmo que concentrada em fugir, Shivaska parecia estar tão mal quanto Ashtar em vários aspectos, seu corpo apresentava leves espasmos nervosos, e seu lábio chegava a quase sangrar de tanta força que o mordia. Medo. Um sentimento tão viril que mexia com cada célula viva dela, quase a levando para um colapso doloroso, o mesmo medo que fez a humanidade forjar a própria imortalidade e mudar o mundo inteiro ao seu bel prazer.
Antes que pudessem recobrar o fôlego, Shivaska tomou a dianteira. E então correram por aquele mundo subterrâneo, escutando os ruídos das armas supersônicas ao longe e o barulho dos pesados ciborgues, que já estavam vasculhando Kirtya como se caçassem ratos. Ashtar, com uma parte de seu lado racional restaurada, finalmente entendeu a hostil situação em que estava: Sage a havia encontrado. E não parecia nada feliz.
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