Ashes for ashes
8 Zhira - Aprendiz de feiticeira
Notas iniciais
1 MÊS ANTES DO ENCONTRO NO PORTO.
EM ALGUM LUGAR NO LESTE
2 meses, todo esse tempo sem notícias de Zhelia.
Não quis me envolver nessa loucura de revolta, nossa vida é boa e não existe motivos para expandir o território agora. Isso tudo foi tão precipitado que os outros clãs não só rejeitaram participar como também estavam entregando todas que prestaram apoio às revoltantes.
Bruxas já são conhecidas como selvagens sem coração, mas nunca como traidoras.
Apesar de serem “famílias" diferentes, o apoio era mútuo.
Era isso que o pai pregava: Que nossa alma semelhante jamais deve trair a outra.
Meus pensamentos voavam entre odiar Zhima por endossar essa ideia suicida e preparar o chá que dona Cida pediu. A água tomava a cor das folhas mergulhadas e o cheiro suave tomou meu nariz fazendo o pensamento diluir.
Preparei a bandeja com a chaleira e dois copos levando até a sala de estudo, Dona Cida estava lá com uma mulher que procurou ajuda.
O lugar tinha uma estante de livros que a maioria consiste em estudos de ervas aplicadas na bruxaria clássica, no centro havia uma mesa que geralmente tinha algumas poções e materiais para preparar outras e finalmente uma cama onde os exames em pessoas era feito.
Essa casa foi feita dentro de uma caverna fazendo a iluminação ser fornecida por lampiões, o lugar tinha penumbra para todo lado e ver olhinhos correndo por ai era rotina.
Na sala de estudo estava uma mulher grávida deitada na cama respirando forte como se estivesse dando a luz, Dona Cida por outro lado estava com toda calma do mundo moendo algumas raízes e plantas aparentemente fazendo um óleo. Seus aparentes mais de 100 anos faziam aquela tarefa parecer demorada, mas eu sabia que ela só estava dando a consistência correta ao óleo.
Deixei a bandeja na mesa onde não iria atrapalhar e me pus a disposição.
— Quer que eu adiante alguma coisas?
— Sim sim, minina. Pega o urucum e faz um selo naquela escandalosa.
Delicada como sempre.
Olhei para moça na cama, ela estava nua e sua barriga se mexia demais para uma gravidez normal. A criança provavelmente acordou no ventre da mãe e quer sair de qualquer forma e aquilo não termina bem pra nenhum dos dois se nada for feito.
Peguei o urucum que já estava em forma de pigmento e ia começar a desenhar mas a mãe desesperada agarrou meu braço antes.
— POR FAVOR, TIRA ELE DE MIM. EU NÃO QUERO QUE ELE MORRA!
— CALA BOCA E DEIXA A MININA TRABALHA, ESSE MOLEQUE AINDA TA VERDE!
Dona Cida gritou lá de sua mesa ainda fazendo o óleo sem olhar para nós.
Comecei o selo começando do peito da moça e seguia até a barriga, uma linha que ligava essas extremidades com runas ao redor fazendo aquele ser um selo de ligação emocional. Tinha outros melhores, mas acho que esse especial para essa situação.
A moça começa a tremer com se tivesse medo e isso seguiu com um choro alto como uma criança. Isso quer dizer que deu certo.
— Por favor, você precisa se acalmar para o remédio fazer efeito.
— O que ta acontecendo comigo?!
— Você ta sentido o mesmo que seu filho, ele ta com medo e você pode acalmar ele. Pense em coisas boas para ele sentir também.
A minha professora finalmente terminou com a preparação e vinha até nós com toda tranquilidade do mundo e começaria a aplicação do óleo, mas eu a impedi.
— O que foi, Zhira?
— Deixa a mãe trabalhar com o coração por enquanto.
Bem devagar a feição de desespero foi mudando para uma mais serena, a barriga dela parava aos poucos de se mexer voltando ao normal. A jovem mãe começou a cair no sono, provavelmente imitando a criança.
Peguei um pano e apaguei um pedaço da linha principal do selo desfazendo a ligação, essa é uma solução rápida para bebês acordando antes da hora, mas manter por muito tempo acaba deteriorando o coração da mãe especialmente as de primeira viagem.
Dona Cida começou a espalhar o óleo na barriga da moça dando fim ao meu selo, proferiu algumas palavras de bruxaria antiga que não reconheci de início, mas era um ritual para concentração do espírito e precisava de um sacrifício pequeno que felizmente estava em todos os cantos.
Com uma facilidade imensa a velha bruxa esticou a mão e de um canto escuro puxou um rato. Com o cântico mais intenso do que antes ele segura o animal com as duas mãos levando-o à cima da barriga da mulher desacordada.
Em um movimento rápido ela simplesmente parte o rato ao meio deixando o seu sangue espalhar, o cadáver do animal se torna um catalisador e um feitiço começa a ser conjurado.
Na língua antiga o feitiço se torna audível, o sangue se torna uma fumaça purpura que entra pelo nariz da moça como o ar faria. A respiração acelerada se normaliza e tudo aparentemente fica tranquilo.
— Acha que isso funcionou?
— Me fala, Zhira, por que não funcionaria? Fui eu quem fez.
Humildade também não era um forte dela.
— O que faremos agora?
— Toma o chá e espera. Agora a escandalosa precisa arrumar força para levantar e ir embora.
Na mesa antes ocupada com utensílios para preparar alquimia agora era ocupada por uma chaleira e duas xícaras, nós duas estávamos aproveitando o cheiro doce e o sabor do chá em silêncio.
Pensei novamente em minha família e comecei um assunto com a velha bruxa.
— Dona Cida, você sabe como localizar pessoas?
— Eu sei e só não quero fazer isso.
— Por que?
Ela estica o braço para mais perto do lampião dando para ver grande parte do seu braço, magro e enrugado, pouco mais para cima do cotovelo existia sua pele morena como seu rosto e no resto do braço a pele era um branco nada saudável.
— Todo feitiço tem que ter um catalisador para ser consumido no lugar da bruxa, feitiços de busca que podem procurar por quilômetros exigia que a própria bruxa fosse o catalisador e um rio para facilitar. Eu não quero virar uma vela enrugada e nem ter que matar outro rio inteiro.
— Pelo menos pode me ensinar?
— Não.
— Pode ao menos falar o por que?
— Minina, eu sei que você não ta querendo abraçar tua mãe. Sua irmã vai ficar bem enquanto os Alonne não se envolverem, então fica calma e te quieta ai. Inclusive, não vou te ensinar a matar rio nenhum.
E com essa resposta a conversa acaba.
A jovem mãe desperta e vai embora deixando o pagamento, minha professora vai para seu quarto descansar e eu fico sentada esperando Zhelia cumprir sua promessa de enviar uma carta me falando de Zhule.
Essa desgraçada vai matar minha Zhule e isso eu não permitirei.
Fale com o autor