Ashes for ashes

9 Triss - Um lar que não é seu.


Notas iniciais
Cortiços Um lugar onde pessoas que não pretendem ficar muito tempo na cidade ou pra gente realmente pobre que não se importa com a vizinhança um tanto desagradável. O dono geralmente só aparece pra cobrar os alugueis e não se importa com a clientela. Triss herdou um quarto graças a um infortúnio do passado.

Noite mal dormida, de repente conseguir uma cama não seria má ideia.

Sinceramente eu tenho que parar de pensar em ficar por aqui, o Roy ta velho e duvido que ele vai ter disposição pra me buscar na masmorra caso eu seja presa de novo, mas ficar aqui me trouxe um desejo de ter um teto só meu.

Antes eu morava em um cortiço perto dos estábulos, herança daquele arrombado, o lugar era horroroso a ponto de ninguém viver mais de 1 ano por ali e um dos únicos que resistiram fui eu que estou por lá desde meus 12 anos depois que fugi de casa.

Tenho que ir lá ver se não levaram minhas poucas coisas e trazer pra cá.

O sol começou a esquentar meu rosto, queria dizer que já passou da hora de fazer alguma coisa pra conseguir comida.

Ao abrir meus olhos não prestei muita atenção, mas notei que estava sozinha. Me sentei e comecei a colocar os pensamentos no lugar, pensei em mostrar o livro para Roy e ver como ele iria reagir, ele estava coberto com meu gibão e não demoraria muito para eu precisar me vestir e o manuscrito ficar exposto.

Olhei para porta que levava em direção da oficina e lá estava o velho homem corpulento que martelava algo para tomar a forma de uma ferradura ou algo assim.

Aquela cabana ficava no fim do mercado próximo da entrada para o porto, atrás da casa de Roy ficava um bosque pequeno que por algum motivo ninguém decidiu construir nada por lá. Havia uma porta naquela casa que apontava direto para o bosque, isso era estranho, mas o vento que vinha daquela direção tinha o aroma de lama molhada e fruta silvestre.

Meio que com receio decido me vestir e deixar o livro ali no chão, cedo ou tarde isso vai vir a tona e só vou dizer a verdade.

Fui para oficina e de cara notei que os feirantes estavam olhando para cá e viraram a cara quando eu percebi. Arrumei um pouco o meu cabelo, apesar de curto ele parece ter vida própria durante a noite.

Roy parecia meio irritado, ele batia no metal como se quisesse que ele diminuísse de tamanho, me sentei um pouco perto e com uma mão ele empurrou para mais longe.

— Triss, precisamos conversar sobre limites.

— O que eu fiz de errado?

Os pensamentos sobre o livro invadiram minha mente e comecei a pensar em várias respostas, nenhuma era verdade, acho que meu medo não queria saber da minha sinceridade.

O velhote largou as coisas que estava fazendo e começou a andar um pouco enquanto falava:

— Já tem muito tempo que existem boatos sobre nós dois sermos amantes, mas desde que a Zhule veio para cá chegou em um nível intolerável.

Um alívio tomou meu peito, essas coisas são o assunto favorito entre os bêbados e empregadas fofoqueiras. Acho que desde quando comecei a fazer umas entregas para Roy esses desocupados falam sobre isso.

Eu soltei uma risada e Roy pelo visto não gostou nada disso.

— O que foi? Já faz quanto tempo que falam sobre isso, 5 anos? Deixa pra lá, esses bêbados queriam mesmo é alguém pra esquentar eles a noite.

— Acho que eles querem tanto isso que perguntaram quanto eu paguei por uma tão jovem.

— Como é?

— Isso mesmo, acham que eu paguei pra ter você duas. O que me enoja é pensarem nessas coisas com uma criança.

Tá informação demais.

Roy sentou olhando em direção ao bosque e de lá dava pra ver Zhule brincando com alguma coisa no chão.

— Esses sujeitos nunca perderam nada desse tipo, Triss. Eu não consigo conceber a ideia de alguém pensar em manchar essa pureza, não a imagem da criança, mas essa inocência de não saber o mal e a depravação que as cerca.

Acho que no fim eu não tinha certeza de como me sentir em relação a isso, eu sempre fui mal falada logo isso nunca me afetou, mas isso incomoda ele.

— Tá, eu entendi, mas o que você quer que eu faça?

— Que tal fazer realmente alguma coisa?

Roy puxou um banco e ficou na minha frente, sentado com a marreta de trabalho na mão.

— Está insinuando que eu não faço nada?

— Só me responde uma coisa: Zhule está aqui a quanto tempo?

— Quase 1 mês.

— E pode me falar o que tem feito para encontrar a família dela?

O rosto dele mostrava uma desaprovação que poucas vezes eu vi.

Eu sei algumas coisas: A mãe dela era uma bruxa que estava fugindo, a irmã dela pode nunca aparecer e a única pista que tenho é uma carta com um selo de canário negro.

O que eu posso falar pra ele sem surtar com a criança?

— Eu sei uma coisa ou outra, mas nada que leve pra algum lugar. Roy eu não sei onde procurar mais pistas.

Resposta simples sem muita informação, algumas pessoas caem fácil nessa parte, mas pelo visto ele não é um desses.

— Ok, dá pra ver que da sua boca não vai sair nenhuma verdade.

— SE EU REALMENTE MENTI ENTÃO FALA A VERDADE!

Meu sangue fervia, eu não posso simplesmente falar o que eu sei e mesmo assim decidi dobrar a aposta.

Eu já estava em pé e ele também, ele me olhava de cima mostrando superioridade e eu não passava de um cão latindo atrás de um portão.

— Triss, eu to cansado de te ver brincando de casinha feliz enquanto tem uma criança chorando quase toda noite no cantinho da minha casa.

— E isso é culpa minha?!

— É sua no momento que decidiu trazer ela no seu colo e me convenceu a mantê-la aqui na promessa que seria temporário.

— Mas é temporário…

— Eu até imagino que planejava largar de vez o seu barraco e trazer as coisas de lá pra cá.

Fiquei calada por um momento, não queria xinga-lo, mas ele tinha uma ponta de razão.

Me sentei sem tirar os olhos dele para ver se falaria mais alguma coisa, mas esse ficou calado e seguiu para sua atividade.

Fiquei ali esperando mais um pouco antes de seguir para dentro pegar o livro e sair para qualquer lugar.

— Triss...

Roy me chamou ele estava com um saco pequeno nas mãos e jogou pra mim.

— Isso vai melhorar seu cheiro.

— Cheiro de que?

— Minha amiguinha sem noção, você ta com a mesma roupa a pelo menos uma semana, seu fedor tá insuportável.

Um gentil troglodita, isso era o Roy de vez em quando.

— Tá, vou arrumar umas roupas novas e vou em algum riacho.

— Tem um baú atrás da porta, da uma olhada e pega um vestido que caiba em você.

Vestido? Esse velho tem roupa de mulher na casa dele?

Bom, cavalo dado não se repara o rabo.

Dentro da cabana estava o baú, o abri e vi vários vestidos bem grandes apesar de simples, um deles chegava a ter quase a minha altura. Aquilo pertencia a uma mulher bem grande e pelo volume de pano na parte do busto pude ver que a antiga dona era capaz de amamentar um orfanato com tranquilidade.

Olhando mais ao fundo achei peças menores que usando um cinto e amarrando umas pontas poderia servir em mim. Junto daquilo também estava roupas de criança que seriam perfeitas na Zhule.

Escolhi minhas vestimentas e fui para fora falar com meu amigo para tirar umas dúvidas.

— Roy, essas roupas eram de quem?

— Minha esposa, ela gostava de costurar, mas não gostava de se livrar das peças mais antigas.

— Ela era bem grande, não é?

Ele olhou para mim e imediatamente entendeu o que eu falei.

— Sim ela era, em nossa antiga vila as mães deixavam os bebés lá em casa para irem lavrar, inclusive minha filha teve bastante companhia nessa época.

A nostalgia em seu olhar era uma coisa preciosa, acho que depois de uma idade as lembranças deixam de ser só imagens na mente pra serem uma felicidade em contar essas histórias.

Fui até Zhule antes que minha presença gerasse melancolia.

Fora da cidade tem a Florestas dos gigantes perdidos, é um lugar isolado e perfeito para questionar a nossa bruxinha sobre o que ela sabe fazer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.