Ascensão - Nobreza

3 Medidas drásticas


Notas iniciais
Opa, capítulo bônus pra compensar meu abandono

– Olá Zander... – falei com a voz baixa quando ele me soltou. Parecia realmente acreditar que era um sonho.

Ele não respondeu, apenas me olhou. Pude ver a raiva que ele controlava, respirou fundo e olhou para Faelern, voltando sua atenção para mim em seguida.

– “Olá Zander”. É o que tem a dizer?

– Sabe que sou péssima com cumprimentos.

– Mas em compensação com mentiras...

– Zander...

– Vamos entrar. – ele falou de modo tão autoritário que eu não pude negar.

– Estarei esperando aqui. – Faelern voltou a fazer a cara de morto.

– Não assuste as crianças... – tentei melhorar seu humor, mas aquilo apenas fez Zander o encarar com mais raiva.

Tivemos uma conversa muito longa, realmente muito longa. Ele não precisava me perguntar nada, eu simplesmente me sentia culpada o suficiente para dizer tudo o que fiz, o que pensava o que sentia...

– Então, se eu entendi direito, você resolveu não contar para todos que estava viva para nos proteger. – ele estava realmente irritado. – E se não tivesse conhecido, por acaso, um velho maluco, teria vivido o resto da sua vida naquela ilha, deixando todos nós acreditarmos que você morreu naquele castelo!

– Eu...

– Você diz que fez isso para nos proteger, mas estava apenas pensando em você mesma. Estava com medo de perder alguém que ama... Preferiu nos fazer sofrer.

Me impressionava que ele conseguisse dizer algo assim. Talvez ele apenas estivesse com muita raiva de mim e no momento nem sequer pensava no que dizia, mas me afetava e a culpa que eu sentia pela dor que causei me consumia. Me sentia ridícula e fraca, mas não conseguia evitar que as lágrimas escorressem.

– Preferia que eu o deixasse morrer? Porque era isso que ia acontecer se Diego descobrisse que eu estava viva!

– Afinal somos fracos e incapazes de dos defender!

– Eu não disse isso! Você sabe que além de serem fortes eles têm informações que nós nãos temos! – respirei fundo tentando parar de chorar, mas sem sucesso – Não pode me culpar por dar o melhor de mim para te manter vivo.

– Existem coisas na vida piores do que a morte, Aida. – seu tom de voz refletiu a dor que ele sentia, me mostrando que a aparente raiva era apenas uma forma de proteção.

Fiquei sem palavras diante daquela visão de um Zander frágil, eram raríssimas as vezes que eu vi assim, mas depois de tanto tempo longe, aquilo me desconcertou.

– Certo. Precisamos encontrar os outros. – ele recolocou a máscara por cima dos sentimentos, voltando a falar com frieza na voz – Uma vez que aportou em Ildis todos estão em perigo.

– Zander...

– Sky está bem. – ele se virou de costas para mim, mexendo em alguns papiros em cima da mesa – Nos separamos depois do que aconteceu, mas mantive os olhos nela.

– Obrigada... – suspirei.

– Precisamos falar com o chefe, mas no momento as coisas estão um pouco complicadas.

– Sim, ouvi que alguém está com problemas. – obviamente ele não queria dar detalhes ou se abrir. Tinha todo direito. Engoli as lágrimas e a súbita vontade de bater nele por não compreender meus motivos.

– Seena, filha de Seeru. É uma boa garota, mas foi exilada hoje.

– O que ela fez?

– Bateu em outra garota.

Ocorreu um momento de silêncio e ficou claro que aquilo nos surpreendia.

– É sério? Eles exilam pessoa por baterem umas nas outras?

– Os Lith podem ser muito bondosos, mas não muito rígidos quanto à suas regras. Qualquer atitude negativa pode acabar nisso. É uma pena o que aconteceu com Seena, ela era uma das mais brilhantes de minha turma.

– Sua turma?

– Estou ensinando as crianças a linguagem básica, ler e escrever e poucas coisas sobre magia arcana. Os Liths são ótimos com magia e é culpa dos elfos da lua que eles tenham que viver afastados, então é o mínimo que eu posso fazer.

– Zander, senhor. – um rapaz com chifres de carneiro entrou na tenda. – O chefe está procurando por você, eles dizem que Seena tem que ir agora.

– O quê? Ela é uma criança, eles têm que a dar ao menos um dia! – Zander saiu da tenda pisando firme. Essa é a hora em que ele costuma se descontrolar e fazer alguma besteira, do tipo incinerar tudo, então eu o segui.

– Ela é apenas uma criança, não pode se cuidar sozinha, eu preciso de ao menos um dia para conseguir alguém que cuide dela! – Seeru conversava com outro homem que apenas negava todos seus pedidos.

– Eu vou! – ouvi uma voz baixa e fina que pertencia à uma garota igualmente delicada. Tinha os cabelos loiros e os olhos azuis, as orelhas eram perfeitamente redondas e um rabo fino chamava a atenção por ser quase do tamanho dela própria. – Eu sou má, então eu vou.

Não posso dizer que muitas coisas me partem o coração, mas uma garotinha chorando daquele jeito e por aquela razão era uma delas.

– Seena, volte para dento e termine de arrumar suas coisas! – Seeru ordenou – Ohna por favor...

– Seeru, sabe que são as regras e é o certo a fazer, ela tem que ir.

– Vocês com toda essa coisa de “boas pessoas”. Estão jogando na rua uma criança que não tem a menor condição de sobreviver lá fora! Devo dizer meu “amigo”, seu espírito é podre. – me irritei.

Ouvir Zander pigarrear como se me mandasse calar a boca.

– Seeru. Tenho um amigo em Ildis que pode cuidar de Seena. – ele falou com a voz calma, muito diferente do que achei que aconteceria. – Mas em troca preciso que converse com Aida e a ajude a descobrir tudo o que precisa sobre o Reino Antigo.

– Em Ildis? Ela...

– Ela não será uma escrava. Ele é uma ótima pessoa, posso lhe prometer isto.

– Então sou mais do que grato Zander. Melhor do que responder as perguntas de sua amiga, podem levar meus diários com vocês, tudo o que sei sobre o Reino Antigo está escrito naquelas páginas. Tudo o que peço é a segurança de Seena. – ele se virou para o homem com quem conversava antes – Já teve sua resposta Ohna, pode nos deixar agora, me despirei de minha filha.

Notei Faelern sentado em um canto apenas observando tudo. Seeru entrou em sua cabana e ficou lá por algum tempo, até que voltou com os olhos vermelhos e alguns cadernos nas mãos, entregando-os a Zander.

– Muito obrigado Zander...

– Não tem o que agradecer Seeru, se não fosse sua bondade em me deixar ficar no acampamento, não sei onde teria acabado.

– Você será sempre bem-vindo aqui meu amigo. Que os espíritos o acompanhem!

Zander assentiu e foi ajudar Seena a carregar tudo o que devia.

– Seena, sempre escute Zander e não brigue com as crianças de Ildis! – Seeru a aconselhou. Então acompanhados por guardas, saímos do acampamento na direção do porto.

– Onde vamos? – perguntou a pequena Seena que caminhava ao lado de Zander.

– Para o porto, vamos pegar o primeiro navio para Ildis.

Faelern e eu permanecíamos totalmente calados.

– Ildis? – ela pareceu se assustar.

– Sim minha pequena... Ildis.

Não demorou muito até que o navio aportasse. Aquela era uma rota muito utilizada por mercadores e era comum que eles oferecessem passagem para os interessados. A noite estava quase sobre nós. Ficaríamos em uma só cabine, afinal a travessia não era demorada. Assim que Seena e Faelern dormiram, saí da cabine atrás de Zander e o encontrei no convés agora quase vazio. Ele continuava me olhando com certa raiva.

– Pare de me olhar assim.

– Não te olhando de modo algum.

– Está sim. Está me dando aquele olhar “eu te odeio e espero que morra”. Ou então está com muita fome ou pode ter visto Jace em algum lugar...

– Aida... – ele respirou fundo e se virou para mim – Eu procurei por você durante meses naqueles escombros. Nós todos procuramos. Tillie, Sky, eu, até mesmo Jace. Você simplesmente desapareceu, não havia corpo, nada. Imaginamos que chaves desaparecem depois que cumprem seu objetivo. Toda informação que encontramos eram apenas histórias ou rumores. Há alguns meses nós decidimos parar de procurar, achamos que você realmente tinha morrido. – ele respirou fundo. A máscara havia caído novamente. – Aquela dor Aida... – Zander mal conseguia falar, isso me deixava desesperada. O que eu tinha feito... – A dor... Esqueça. Não vai entender. É que... Depois de tudo, te ver aqui viva. Estou feliz, não tem ideia de como estou feliz, mas também estou furioso. Com raiva de não ter me dito nada, com raiva de mim por não ter sido capaz de proteger você, com raiva por achar que você precisa de mim... E por ter desistido de procurar. Apenas esqueça.

Sorri, suspirando em seguida. – Senti sua falta... Não tem ideia do quanto. Espero que deixe de me odiar logo...

Para minha surpresa, ele riu. – Talvez eu goste de te odiar... – fez uma breve pausa, qual ele usou para me analisar de cima abaixo – Você fica linda quando está frustrada.

Novamente, ele conseguiu me deixar sem palavras. Zander tinha esse dom, falava demais e sempre me deixava sem resposta. Eu o amava e odiava por isso.

Notas finais
Hmm, esses dois. Não dá pra deixar o casalzinho brigado né HAHAHAHAHA Até mais gente