Ascensão - Alicança
3 Capítulo 3 - Northcliff
Notas iniciais
Não me importei em ficar em minha cabine durante o resto do dia. Eu sabia que Nina estava transportando outros passageiros além de mim, mas apesar disso ser uma boa distração caso algo desse errado, eu não me sentia muito a vontade para socializar ou simplesmente ver rostos. Saí de minha cabine apenas para comer alguma coisa e ainda assim não demorei muito tempo fora dela.
Depois de verificar que não havia nenhuma ameaça a bordo, Kole concordou em ficar em sua cabine, ao lado da minha.
A roupa que eu usaria no baile estava cuidadosamente dobrada em cima da mesa, juntamente com as instruções de Diego sobre tudo o que eu deveria fazer e o convite forjado pelos Águias para o baile.
O convite era em nome da senhorita Eleanora Montgomery, filha única do senhor Barnaby Montgomery e a senhora Cecília Montgomery. Uma família de Nobres. Meu avô Nathaniel Remington havia servido a Ordem Prateada. Eu estive noiva uma vez, mas o casamento foi cancelado devido à morte inesperada de meu noivo.
Me perguntava se aquelas pessoas realmente existiam ou se eram apenas histórias forjadas em papéis reais, coisa em que os Águias eram muito bons em fazer.
“E meus pais, por que não estarão presentes no baile?” perguntei à Kole enquanto jantávamos.
“Eles estão em uma viagem comercial em Deren, mas mandam suas saudações ao Rei. Não se preocupe, nós colocamos alguns espiões entre os convidados, eles se aproximarão de você como se te conhecessem, dará tudo certo senhorita Aida.”
Passei a maior parte do tempo da viagem em minha cabine. Segundo Nina, o vento estava a nosso favor, então deveríamos chegar dentro de cinco dias. E foi o que aconteceu. Na noite do quarto dia, Nina veio até minha cabine e conversamos bastante sobre tudo. Sendo uma capitã, eu raramente a via, mas nossa amizade era sincera e divertida, afinal, histórias engraçadas e inusitadas é o que se pode esperar de uma pessoa que viaja tanto. Por algumas horas foi realmente muito bom poder me distrair, mas assim que ela saiu e eu ouvi as gaivotas do porto, o peso de mil almas caiu sobre meus ombros.
O sol ainda não havia nascido quando aportamos e a lua nova não tinha poder nos céus. A cidade geralmente era movimentada e caótica, cheia de comerciantes que viravam a noite no porto buscando pela melhor entrega, abarrotada de viajantes e pessoas buscando todo o tipo de mercadoria, agora estava aterrorizantemente silenciosa. Nem mesmo os mendigos estavam à vista, dormindo nas ruas do porto, como de costume. No início aquilo me alegrou, mas então me veio a mente que em um governo como o de Kael, não poderia ter acontecido nada de bom a eles.
Respirei fundo o cheiro ruim do porto. – Ótimo... De volta a esse buraco.
— Bem, temos várias horas antes que o baile comesse. – Kole se juntou a mim na balaustrada do navio. – Sugiro que descanse um pouco e mais tarde, caso ainda precise de alguma coisa, poderemos buscar pelo comércio, Srta. Eleanora.
“Senhoria Eleanora.” Era estranho ser chamada de senhorita e por outro nome era ainda mais. Me peguei pensando em como seria chamada caso tudo desse certo e eu subisse ao trono no lugar de Kael. “Majestade”, “Soberana”, “Alteza”, “Imperatriz”, “Rainha”... Era engraçado pensar em coisas como essa, pois jamais imaginei algo do tipo acontecendo na minha vida.
— Senhorita!? – Finalmente ouvi a voz de Kole. Ele devia ter me chamado inúmeras vezes enquanto eu devaneava.
— Sim, sou eu. – Respondi ainda um tanto vago.
— Irei aguardar na cabine até que esteja pronta.
— Sim, claro...
Kole se afastou e logo desapareceu entre os tripulantes e passageiros que desembarcavam. Nina ficaria no porto até a tarde quando partiria para outra viagem e ela havia oferecido o navio para que pudéssemos descansar até o momento do baile. Mas aquilo era inútil. Eu não tinha dormido a noite inteira e não conseguiria agora. Meu coração estava disparado e eu não conseguia me mover. Meus pensamentos me levavam até Kael, passando por Victor... Meu amigo, meu companheiro de tantas caminhadas noturnas pela praia, meu ferreiro preferido... Não conseguia me demorar muito tempo pensando no que estava acontecendo com ele. Estava há tantas semanas nas mãos de Kael, que de repente me peguei desejando que já estivesse morto, ao invés de estar sendo torturado.
Queria matar o rei. Queria descer daquele navio e correr para o castelo, decepar sua cabeça e entregar para a Ordem Prateada.
Não conseguia me segurar. Passei tanto tempo parada na balaustrada do navio, que quando notei o sol já havia nascido e o movimento começou nas lojas. Precisava sair dali, respirar o ar puro em algum lugar que não cheirasse a peixe. Não pensei duas vezes em desembarcar do navio sem Kole e começar a caminhar pelas ruas. A cidade havia mudado bastante e, talvez por causa do baile, o público de hoje parecia bastante esnobe. Mas assim era ótimo, era mais fácil me misturar. Havia amarrado os cabelos da melhor forma possível – nada comparado ao que Zander podia fazer com eles – e coloquei um lenço de seda colorido por cima. Era um bom disfarce, afinal o lugar estava cheio de mulheres que pareciam adorar essa nova moda. Porém não via nenhum Nobre, o que me deixava aliviada e preocupara ao mesmo tempo. Não ter que encontrar nenhum deles era ótimo, mas chamar a atenção para mim seria muito mais fácil.
Os bares começavam a cheirar comida, as mercearias estavam cheias e as lojas de roupas atendiam muitos clientes. Me incomodava saber que o comércio parecia bem, afinal não era algo que Kael se empenhava para fazer funcionar, muito pelo contrário. Enquanto me distraía pelas ruas, experimentando sementes de uma saca e observando a atual moda valondiana, acabei só percebendo os dois guardas quando estavam muito próximos e pareciam vir diretamente em minha direção.
Esse é um daqueles momentos que você se pega pensando porque diabos teve uma ideia estúpida dessas. Porque não fiquei quieta onde deveria? É também seguido por aquele momento em que você se obriga a parar de se arrepender pelo que não dá pra consertar e tenta se virar com o que em mãos. Dei uma de turista interessada em tudo o que via e logo apertei o passo para longe da dupla, entrando na primeira loja do outro lado da rua. Era um ferreiro, o que me fez pensar que talvez não tenha sido uma boa ideia, afinal damas não frequentam ferreiros, nem por turismo.
Por sorte, Eanna parece estar ao meu lado e eu e minhas paranoias não éramos o alvo dos guardas, que pareciam apenas patrulhar as ruas. Respirei aliviada e então finalmente parei para olhar ao redor. A única pessoa presente na loja naquele momento era um homem de meia-idade, com cabelos meio louros meio grisalhos e barba espessa, de corpo forte e mãos brutas. Ele carregava um grande pedaço de ferro para a forja recém-acesa e parou para me olhar assim que me viu.
— Olá senhorita. Seja bem-vinda. Lamento desapontá-la, mas não posso aceitar nenhum tipo de encomenda por enquanto, afinal estou sem ajuda aqui. – Apesar da voz e do jeito de urso, ele parecia gentil. E eu o conhecia. Sorri aliviada por um momento, mas não esperava que ele se lembrasse de mim.
— Não se preocupe, não vim atrás de uma encomenda. – Olhei para a parede atrás dele, onde uma vez estiveram penduradas as adagas que eu usava até hoje.
O homem demorou o olhar em mim por alguns segundos e em seguida sorriu. – Elas ainda lhe servem bem? – Devo ter feito uma cara muito engraçada, pois o homem em forma de urso riu e logo soltou o pedaço de ferro na forja, voltando a me olhar enquanto limpava as mãos em um pedaço de pano surrado que carregava no ombro. – Não se preocupe, está segura aqui, não é como se fosse chamar a Ordem prateada para levar uma antiga cliente.
Sorri. – Agradeço muito por isso. Sim, as adagas ainda são perfeitas, embora tenham sido reformadas depois um pequeno incidente. – Eu ri com sua cara de espanto. – Ah, não se preocupe, foram mãos muito habilidosas que as refizeram. – Mas não pude ir adiante com a história, afinal as “mãos muito habilidosas” estavam presas nas masmorras de Kael.
— Bem, fico feliz que tenham sido úteis. Afinal, uma parede não é um lugar adequado para uma arma tão refinada.
— Concordo. – Respondi sorrindo. – Como está Anissa? – Me lembrei da filha do ferreiro, a quem eu havia convencido de fazer as pazes com ele alguns anos atrás.
— Oh, ela está ótima. Seus meninos cresceram tanto e ela é uma costureira muito requisitada até mesmo fora de Valond. Seus vestidos fazem muito sucesso e agora mesmo ela deve estar voltando para casa após uma viagem para fazer os vestidos da noiva do rei e de sua mãe. – Ele cruzou os braços e olhou para mim. – Diga-me menina. Encontrou o que procurava por aqui da última vez?
Não pude conter um riso. – Ah sim... Encontrei tudo e mais um pouco. Poderia sentar aqui por horas até lhe contar tudo o que aconteceu desde o dia em que nos conhecemos.
Ele sorriu e inclinou a cabeça para o lado. – Pelo tom de sua voz, creio que não será possível parar para contar histórias.
Abaixei a cabeça e respirei fundo, relembrando o que vinha pela frente. – Infelizmente não. Estou procurando alguém... E tenho um baile para ir, então... – Me impedi de ir adiante, não podia falar demais. – Creio que esteja muito atarefado também.
— Oh sim, desde que meu aprendiz desapareceu, tenho tido trabalho redobrado. – Ele suspirou e algo começou a fazer sentido para mim... – Um rapaz realmente muito talentoso, não se encontra muito ferreiros natos como Victor. – Meu coração pareceu parar por um momento, embora eu não entendesse o motivo. Talvez lá fundo do meu inconsciente, eu esperava que Diego estivesse mentindo sobre a captura dele. Demorei, mas consegui responder sem demonstrar tudo o que sentia naquele momento.
— Desapareceu? – Me fiz de desentendida do caso. – Como isso aconteceu?
— Ele saiu para fazer uma entrega não muito longe daqui e desde então eu nunca mais o vi. – Ele pareceu hesitar por um momento, mas logo disse: — Tenho certeza que isso é coisa da Ordem prateada. Não gosto nada dessas pessoas, sem ofensas Nobre, mas nada tem sido normal desde o Rei lhes deu autoridade para levar pessoas das ruas.
— Posso imaginar... – Foi o que consegui responder sem deixar transparecer todo o ódio que sentia naquele instante. A conversa era boa, mas eu já havia perambulado bastante pelas ruas e ainda precisava voltar ao navio para vestir minhas roupas formais e me preparar para o baile que começaria em poucas horas. – Não se preocupe, não direi isso a ninguém, sua revolta está segura comigo. – Sorri para ele e ele de volta para mim.
— Vá em paz, garota. E tente não se meter em confusões das quais não pode sair.
Deixei o ferreiro e voltei direto ao navio, seguida por Kole.
— Onde esteve? – Perguntei ao vê-lo embarcar.
— Ora, é realmente o que deveria perguntar senhorita Eleanora? – Acho que nunca havia visto ele sério daquele jeito.
— Estava me seguindo?
— Sim. Afinal minha única obrigação aqui é protegê-la, e eu não posso falhar em uma tarefa tão simples.
Acabei não discutindo com Kole. Afinal ele estava certo, embora tenha ficado irritada por saber que ele havia me seguido. Era bom saber que ele realmente era bom naquilo, passando despercebido por mim.
Segui para a cabine e enquanto me vestia, só conseguia pensar em quão aterradoras seriam as próximas horas e quão decisivas também. Precisava descobrir e libertar Victor de onde estava, sem parecer suspeita e me aproveitando da guarda reforçada nos salões da festa, longe das masmorras.
Nem havia chegado ao salão cheio de Nobres, mas já podia sentir sua presença aterrorizante a quilômetros de distância do castelo. Eram dezenas deles, eu tinha certeza. Sem falar no próprio Kael e – segundo o ferreiro – suas noiva e sogra. Ao contrário do que senti no início da manhã ao pensar em Vic, dessa vez queria correr para longe dali, para longe de Kael e sua lâmina assassina. Para longe daquela guerra que ele havia declarado contra mim.
Terminei de me arrumar dentro daquela roupa estranha e desconfortável. Embora o tecido realmente fosse maleável, como Diego havia prometido, me sentia péssima dentro delas. Uma camisa branca e de mangas largas cuidava da parte de cima do traje, enquanto um corset emendava em uma saia longa que cobria apenas a parte detrás do corpo. Na frente, uma calça cheia de aberturas e arabescos muito bem bordados cobria o restante. Usei do cabelo curto para improvisar uma franja, cobrindo parte dos olhos, o que imaginei que ajudaria a não chamar muito a atenção para eles.
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