Ascensão do Tempo
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Capítulo 2
A névoa roçava meu rosto, e o cheiro de pinho era o suficiente para que eu ficasse parada observando o alvorecer suave pintado no céu. E no alto da colina meus pensamentos me rodeavam e o sentimento de remorso crescia em meu coração. Tobias tinha sido meu melhor amigo por tanto tempo, e agora ele nem olhava em meus olhos. Quando eu tinha permitido que isso acontecesse?
Dessa vez eu não podia jogar a culpa em Dax. Eu estava sozinha nessa.
Queria me livrar daquele arrependimento, jogar a beira do abismo e voltar a ser aquela pessoa que só tinha o objetivo de se tornar a número um no treinamento da audácia.
Me sentia perdida. Onde estava a verdadeira eu?
Escutei o barulho das folhas secas se partindo, e não me dei ao trabalho de virar; eu estava sendo seguida desde que saí do complexo da audácia, mas percorri o caminho mais longo, a fim de ter alguns preciosos minutos sozinha.
— O que faz aqui, Eric?
— Apreciar a vista — ele apareceu na minha frente sorrindo com malícia.
Com poucos passos, Eric roubou todo o espaço que havia entre nós. Ele estava tão perto que eu conseguia ver o aro escuro no seu olhar, e aquilo era uma tortura.
— Eu não posso te amar — dar alguns passos para trás foi como se uma barreira surgisse entre mim e ele — e eu te odeio por isso Eric.
— Porque você não pode me amar?
— Eu preciso contar ao Dax sobre isso — apontei para mim e depois para ele — eu fiz uma promessa.
— Quem garante que ele ainda está vivo Maylin?
Foi preciso todo meu autocontrole para não socar Eric naquele momento.
— Como você é insensível — soltei uma risada baixa e desagradável — ele é seu melhor amigo, e você não tem o direito de falar como se ele estivesse morto.
— Ele não pode estar brincando de esconde-esconde, então ele faz o quê?
— Chega Eric — gritei sem me importar de estar perdendo o controle — Ele não pode estar morto... eu só... — dessa vez deixei com que as lágrimas molhassem meu rosto — Eu o amo.
Quando Eric me abraçou, aquilo feriu o meu orgulho. Era humilhante demais demonstrar fraqueza diante dos outros.
— Ele me prometeu!
— Eu sei, meu bem, eu sei — Eric sussurrava em meu ouvido enquanto acariciava meu cabelo.
Meu irmão me dizia que não saberíamos o que era dor até o dia em que provamos aquela que dói todo o coração e da mesma forma precisa lidar com a ausência da forma mais difícil. Já tinha provado daquele sentimento uma vez, e com Dax eu não estava disposta a sentir aquilo novamente.
Era impossível pensar em um mundo sem Dax, por isso naquele momento em diante eu iria procurar por ele.
******
Meu treinamento tinha se resumido a escalar o prédio da audácia, e dessa vez tinha me sentido em desvantagem, não pelo meu tamanho, mas pelas minhas unhas que eu sabia que quebraria assim que eu encaixasse minhas mãos na rachadura do prédio.
Talvez o objetivo de Lauren ao explicar nosso desafio, era de revelar as pessoas que tinham medo de altura, pois quando eu cheguei no topo do prédio ainda tinha boa parte do grupo no início. Primeiro eu e depois Marlene, e Uriah em terceiro lugar.
Eu não queria esquecer tão cedo dessa derrota de Uriah.
Só fomos liberados quando a última pessoa tinha chegado, e quando isso aconteceu eu sai correndo para tomar um banho, que acabou sendo rápido demais antes que a água quente acabasse.
Nunca tinha me importado em gastar meus créditos comprando roupas, pois eu sempre estava convencendo Eric e Tobias de me emprestar uma, mesmo sabendo que podia usar as de Dax, mas isso era uma tortura constante. E dessa vez não tinha sido diferente, peguei uma camiseta preta do Eric, porque não queria que Tobias me pedisse de volta suas roupas, e uma calça também preta. Em outras épocas eu nunca andaria sem meu tênis, mas o chão era tão limpo que vesti minha meia e corri para minha cama.
Debaixo do meu travesseiro eu escondia meus segredos; tateei até encontrar aquele caderno pequeno e fino. Nunca tinha arranjado coragem para abri-lo, porém eu precisava.
Aquele caderno era tão organizado que nem parecia de Dax; antes de virar a página observei os números e as letras escritas com precisão, eram anotações tiradas provavelmente de um livro que eu nunca tive acesso. A páginas seguintes continuavam esperando que alguém continuasse a escrever, e do meio do caderno uma carta que foi dobrada várias vezes caiu no chão.
"Querido Dex,
Hoje passei pelos campos floridos que tem duas quadras do prédio da erudição, mas já era noite então não deu para aproveitar muito. Daqui a três dias pretendo voltar lá.
Analy"
Tentei lembrar de alguma Analy mas eu não conseguia, pois naquela época eu estava destinada a ser o sinônimo da perfeição. Procurei por mais algumas páginas, mas continuava em branco.
— Droga — murmurei jogando o pequeno caderno contra a parede.
Me sentia frustrada por ter sido um livro aberto para ele e eu nem ao menos o conhecia.
— Hey Maylin — Marlene apareceu com um pedaço de bolo de chocolate — Quer jogar desafio?
Desafio era o jogo perfeito para aquele momento, eu só precisava de adrenalina para esquecer de Dax, por isso aceitei.
— O trem já vai passar — ela conferiu o relógio, e com isso saímos correndo.
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