Notas iniciais
Boa leitura meus amores

Capítulo 1

Eu apontava a arma para a cabeça do garoto transferido. O tédio era uma coisa que me dominava, definitivamente queria sentir novamente a adrenalina de puxar o gatilho e ver a bala girando no ar até acertar o alvo. Eric e Tobias olhavam para mim, não severamente, mas eu conseguia enxergar a diversão dançando no olhar dos dois; eles me conheciam o suficiente para saber que nunca atiraria. Soltei o garoto que correu para perto do pilar, ele estava tão pálido quanto as roupas brancas que a franqueza usava, girei a arma na palma da minha mão antes de devolvê-la para Eric, ele segurou meu pulso delicadamente, me fazendo parar. Em um dos livros que meu irmão costumava ler contava sobre o contato humano, e as reações do nosso corpo diante a eles, e naquele momento eu estava em estado de pânico, e meus vasos sanguíneos estavam se dilatando, me fazendo ficar vermelha diante de uma turma inteira.

— Dispensados — anunciou Tobias, ele cruzou os braços assim que viu o último aluno saindo — Você ia atirar.

Eric já tinha me soltado e ido para o fundo da sala com alguns papéis nas mãos, dessa vez eu senti falta de sua mão entrelaçada a minha e falando sobre curiosidades aleatórias, e isso me lembrava de Dax. Perdida em meio aos meus pensamentos, encarei Quatro e ele me repreendia com o olhar.

— Não — a resposta saiu involuntariamente da minha boca, mas então dei um sorriso — vocês estão ferrados com essa turma.

— Maylin — Eric olhou para mim, e um sorriso discreto apareceu no seu rosto — você foi muito bem hoje.

Sai encarando o chão, pois tinha certeza que eu estava vermelha de novo, respirei fundo, e tentei me perder na nostalgia que aqueles corredores traziam, mas as minhas memórias traiçoeiras não eram verdadeiras, elas tinham sido transformadas nos meus maiores medos. Medos que eu achei que seria incapaz de ter. Aquele sentimento que me perturbava estupidamente e que eu nunca conseguia vencê-lo.

Chutei uma pedra que estava no chão, mas acabou acertando uma pessoa que estava sentada no chão. Eu não tinha o costume de pedir desculpa, então continuei a andar, mas olhei novamente para ele. Certamente reconheci ele no mesmo instante, não pelas tatuagens que cobria o seu braço, ou o seu cabelo típico da Erudição, mas sim pela expressão que ele fez assim que me viu, o garoto não estava mais pálido e em vez dos lábios caídos, agora se curvava em um sorriso arrogante. Ele realmente ficava mais bonito sem uma arma apontada para seu rosto.

— Como é seu nome, garoto?

— Kalon.

— Kalon — repeti em voz baixa, não sabia ao certo o rumo daquela conversa, mas ele nem ao menos estava interessado — você não quer saber meu nome?

— Não preciso — ele levantou sem dificuldade alguma, e agora em pé ele era consideravelmente maior do que eu — você é a garota que precisou de uma arma para me vencer em uma luta.

O jogo dele era ridículo. E eu estava caindo nele, esperava ao menos que Kalon não percebesse a forma que eu apertava a minha unha contra a palma da minha mão. Eu deveria estar tranquila, uma vez que tinha ganhado a luta apenas vendo os lados que ele não fazia questão de proteger, a arma tinha sido apenas para diversão. Com certeza o que me incomodava era o jeito superior que ele tinha falado comigo, então mantive a calma e relembrei onde meus princípios me levariam.

— Você não passa de mais um idiota da erudição, que se acha capaz de estar aqui. Ninguém aqui divide pódio... — fiquei frustrada assim que senti uma mão sobre meu ombro, mas dessa vez eu sabia que o gesto não tinha passado despercebido do Kalon.

— Algum problema? — Tobias perguntou.

"Nós não acreditamos que o silêncio é útil" era o que estava escrito nos livros empoeirados na mesa dos líderes, os manifestos eram inúteis, por isso dessa vez o silêncio tinha sido útil para mim. Direita, direita e esquerda, eram os corredores que eu percorria. Tobias e Eric eram os treinadores dos transferidos, por isso de certa forma eles tinham mais poder do que qualquer outra pessoa naquela sala. Agora eu seria vista como a garota que apontou uma arma para o garoto e seriamente protegida por Tobias. E eu não precisava de nada disso nesse momento.

— May

— Por que vocês agem assim? — perguntei frustrada andando do lado para o outro, evitando olhar para Quatro — Eu preciso mostrar que sou capaz de chegar no primeiro lugar sem ajuda de vocês!

Tobias acima de tudo era meu melhor amigo, mas há tempos não trocamos segredos como a sua vida passada e os meus medos constantes, mas dessa vez o motivo era de fato indiscutível, mesmo sabendo que ele provavelmente me diria, "O que Dax acharia disso?".

Notas finais
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