Ascensão Arcana

2 Capítulo 02 - O Refúgio de Soldest


Senti uma leve e refrescante brisa sob minha pele, estava tão agradável que meu corpo se recusava a acordar naquele momento, pela primeira vez sentia conforto e paz, mas é justamente essa sensação que me obrigou a abrir os olhos.

Assim que o faço me deparo com um quarto luxuoso, os móveis eram todos em madeira real e a cama em que estava deitado parecia possuir uma runa calmante, o lugar era muito bem decorado, com suas janelas em cada canto que dava vista para um jardim enorme, onde diversas crianças passavam a todo momento. Eu deveria estar no quarto andar pela altura, além daqui parecer uma escola, o único lugar que conheço que seja assim é a Escola de Von Soldest, um lugar onde cavaleiros e magos do império estudam, apenas os nobres conseguem pagar a mensalidade desse lugar, além do valor eles também precisam passar por um teste rigoroso para saber se possuem o talento necessário.

O que exatamente estava fazendo nesse lugar? Lembro claramente de estar no meio da destruição da cidade, então como vim parar aqui? Será que foi aquele homem? Mas por qual motivo me trouxe? E se me levar de volta para a minha família, ele deve ter descoberto quem eu sou e por isso me trouxe aqui, preciso fugir.

– Vejo que acordou – Virei o rosto assustado ao ouvir a voz conhecida do homem que encontrei aquele dia, agora eu conseguia distinguir melhor sua feição, ele parecia ser alguém em torno de 40 anos, cabelos ruivos, olhos verdes, pele morena, um rosto belo e um corpo de um paladino. Com certeza era um nobre – Não precisa temer, não irei lhe machucar, me chamo Carven e, creio que já tenha descoberto, mas está atualmente em Soldest – Seu sorriso e olhar gentil eram os que mais me assustavam, já vi muitos assim e no final todos me traiam – Podemos conversar um pouco?

Eu precisava sair daquele lugar logo, mesmo que vivesse na floresta com os monstros, ainda seria melhor do que acabar nas mãos de outro humano, não podia baixar minha guarda e nem revelar as informações sobre a minha vida, o risco era algo que não estou disposto a correr.

– Por qual motivo me trouxe aqui? — Minha voz estava meio falha, fazia alguns anos que não conversava de verdade com alguém. Nesse momento preciso definir quais eram suas intenções. Ele parecia estar ponderando o que iria dizer.

– Você chamou minha atenção quando fez aquele show todo na cidade Hortença, sabia que as autoridades estão loucas para saber como um lugar inteiro sumiu do mapa com todos os cidadãos? — Hortença era a cidade que estava me escondendo de minha família, um lugar que os nobres tinham construído para ser seu lugar fechado, onde plebeus não entravam por seus muros. E aqui está ele, dizendo que aquilo era minha culpa? Eu sequer fui constatado de ter mana em meu corpo quando era criança, quem dirá conjurar feitiços em uma escala tão grande quanto aquela.

– Está querendo colocar a culpa daquele incidente sobre mim? Só por que sou um pedinte? Sequer tenho mana fluindo pelo meu corpo, como conseguiria conjurar feitiços tão avançados? — Ele me avaliava com os olhos, até soltar um suspiro impaciente.

– Posso estar sendo muito rude nesse momento, mas você possui mana fluindo pelo seu corpo, não é qualquer uma, a sua é uma das mais puras e concentradas que já vi na vida, também não sei como conseguiu conjurar tais feitiços que nem eu conseguiria sem me preparar por algumas horas, mas essa é a realidade meu jovem.

Eu tenho mana fluindo em meu corpo? Mas os inquisidores disseram que eu era odiado pela mana, pois ela tinha me abandonado, mas esse homem está dizendo que não apenas possuo, mas como ela é extremamente pura e que foi eu quem dizimou uma cidade inteira sem sequer saber os feitiços.

– Enfim, como disse, eu trabalho aqui nessa escola e te trouxe por ter chamado minha atenção naquele momento, apesar de ser um criminoso pela morte de milhares de pessoas, seu talento é algo que valeria a pena eu ao menos saber dos motivos e assim ponderar se te entrego para os inquisidores ou não — Essa era a última coisa que eu queria, se me entregassem descobririam que estou vivo e me entregariam a minha família, assim não conseguiria mais fugir deles, precisava evitar isso a todo custo.

– Eu tinha meus motivos, mas ainda assim não fiz por intenção de matar ninguém, nem mesmo sabia que era eu quem estava conjurando esses feitiços, achei que era um presente dos céus pelo meu aniversário, poder ver aqueles que abusaram de todas as formas de mim por anos sofrerem – Estava incrivelmente calmo enquanto falava aquilo, mas em meus olhos com certeza dava para ver o ódio que aquele assunto me trazia.

– Entendo, não vou lhe julgar por isso, mas preciso saber um pouco sobre você, para que eu possa julgar se vale a pena ou não te proteger e esconder das autoridades imperiais.

– Não entendo, por qual motivo faria isso? Sequer me conhece ou sabe sobre minha vida e ainda quer arriscar a sua? O que exatamente quer comigo?

– Eu olhei algumas memórias de um dos guardas que morreram naquela cidade e vi o que ele e os outros faziam com você, por esse motivo decidi te trazer aqui e não lhe entregar naquele momento. Sei que não confia em mim e nem peço por isso, confiança é algo que deve ser mútuo e eu também não confio em você garoto, mas não posso ignorar as atrocidades que fizeram e nem seu talento. O que me diz, aceita minha oferta de se tornar um aluno de Soldest?

– Como pode ver eu sou um pedinte, não tenho condições de pagar por essa escola.

– Não quero seu dinheiro, você vai entrar com uma admissão especial.

– Não sou nobre, como poderia me colocar aqui com admissão especial?

– Mentira, não sei quem é sua família, se foram destruídos, se você foi expulso ou apenas fugiu, mas suas roupas mesmo que maltrapilhas são de materiais da nobreza do império, nenhum pedinte conseguiria algo naquele padrão e costura, pena que o brasão no peito estava rasgado – Ele parecia estar perdendo a paciência, além de parecer pensar em algo, provavelmente para tentar arrancar alguma informação útil de mim – Vamos fazer o seguinte, eu vou deixar que você veja minhas memórias e emoções sobre você, sem restrições, assim vai saber quais as minha intenções, o que acha?

Feitiços de memória é algo perigoso e ao mesmo tempo revelador, eles são capazes de mostrar a verdadeira intenção dos outros com você, além de abrir as lembranças do outro para quem estiver olhando, os deixando vulneráveis e mostrando suas fraquezas. Era isso que ele queria dizer? Que me deixaria saber disso tudo sobre ele para que pudesse confiar? Tinha alguma coisa a mais ali, tenho certeza disso, mas talvez fosse útil ver suas memórias, se encontrar alguma fraqueza posso usar contra ele para conseguir fugir daqui.

– Tudo bem, eu aceito, mas não vou fazer o mesmo por você.

– Eu já sei disso moleque – Disse ele bufando e indo em minha direção — Me dê sua mão.

Estendi minha mão sob a dele e senti algo quente percorrer meu corpo, essa era uma sensação parecia quando desmaiei na cidade, isso que era a mana fluindo pelo corpo. Fechei meus olhos e me concentrei aquela sensação e pude sentir os seus desejos, medos e sentimentos fluírem para mim, ele tinha incertezas sobre o que estava fazendo, se era correto me mostrar esse tanto apenas para ganhar alguém com talento. Tinha medo de que as autoridades descobrissem que ele me escondeu e tirassem sua vida por traição, tinha curiosidade para saber quem eu era de verdade, seus sentimentos eram todos receosos, mas nenhum malicioso ou com tendencias a me machucar, ele parecia apenas ter genuinamente um desejo de me ajudar, mas não conseguiria fazer sem saber onde estava se metendo.

Suas memórias eram algo ainda mais incrível, ele me mostrou quando me encontrou na destruição da cidade, eu nunca tinha visto meu rosto antes disso, então não sabia como eram as minhas feições, meus olhos eram de uma cor dourada, que combinavam perfeitamente com meus cabelos acinzentados, que estavam enormes e sem cuidado algum, minha pele branca reluzia com a claridade das chamas, um corpo magro, quase esquelético. Era a minha primeira vez sabendo como era a minha aparência, nunca tinham me deixado me ver no espelho, sempre diziam que eu ficaria horrorizado com o que veria, mas meu rosto era delicado e apesar da falta de cuidado, minha pele era perfeita.

Quando estava gostando da sensação que sentia, fui tirado dessas emoções e memórias força, me fazendo sentir uma tontura pelo excesso de informação e ao mesmo tempo a falta dela.

– Agora você deve saber, não é? — Ele parecia ofegante, aquele feitiço deve ter sido doloroso — Não quero seu mal, mas preciso saber mais sobre você para conseguir te ajudar de alguma forma – Ele não estava mentindo, seu desejo de me ajudar era genuíno, mas isso me deixava ainda mais ansioso, pois não queria que ele acabasse em perigo por minha causa, se eu contar sei que ele vai me esconder e me ajudar, mas se minha família ou os inquisidores descobrir isso, eles vão destruir esse lugar e ele junto – Vejo que parece estar com medo de me contar, acha que vou ficar em perigo se o fizer?

– Sim — Não adiantava mentir, mesmo não querendo algumas de minhas emoções passaram para ele no feitiço de memórias, era o suficiente para ele saber ler minha feição.

– Não precisa se preocupar comigo, só deixe eu te ajudar, acho que posso dizer isso, mas confie em mim pelo menos um pouco – Sua feição de impaciência tinha ido para preocupação, meus sentimentos deveriam ter passado mais do que pretendia – Para te deixar mais tranquilo, eu juro pela minha mana que não vou te entregar para as autoridades mesmo que saiba quem é, que vou te ajudar e te proteger.

Juramento de mana, era algo extremamente perigoso e impossível de se quebrar, todo aquele que fazia estava fadado e carregar aquela promessa para toda a vida, caso contrário perderia todos os seus direitos de usar magia ou ser um guerreiro, esse é o quão longe ele está disposto a ir por mim? Um sentimento quente parecia entrar em meu peito e sentia algo quente escorrer pelo meu rosto, ao passar as mãos percebi que estava chorando, mas por qual motivo? Eu não sabia definir o que estava sentindo, mas parecia preencher algo que me fazia falta.

Ele então se aproximou e me abraçou, me confortando com sua mana, que me passava a sensação de conforto e segurança, percebendo isso e podendo sentir pela primeira vez na vida o que é ser querido ou protegido, eu não consegui mais segurar. Meu choro parecia vir com toda a dor que passei na minha vida, todos os sentimentos de solidão e falta de amor de quem precisava pareciam estar impregnados em cada lagrima, como se finalmente pudesse me livrar daquilo, me dizendo que não precisava mais me sentir sozinho.

– Me desculpe, sei que pediu para não faze-lo, mas seus sentimentos, desejos e memórias entraram em minha mente com tudo – Ele parecia estar chorando também, creio que era algo muito pesado para se assimilar – Prometo não deixar que isso volte a acontecer com você, então por favor, confie em mim.

– Meu nome é Richard Von Avalom, sou o segundo príncipe do império de Avalom dado como morto a três anos atrás.